ETHAN:

Parece ser meio doentio dizer que a explosão da cabeça de um errante é semelhante a uma bomba nuclear, mas é a mais pura verdade... ou pelo menos, com pessoas que estão perto de tal evento.

Aquele tiro realmente me surpreendera. Eu não esperava que qualquer indício de vida de algum sobrevivente além de nós poderia ocorrer... pelo menos, não naquela floresta.
Porém, não parecia ser a cabeça do errante explodindo em pedaços... e realmente não era. Na verdade, era a explosão causada pelos explosivos em que eu e Alastor havíamos deixado na delegacia.

A partir daquela informação, eu até esqueci a origem do tal tiro. Mas Clove não parecia ter tirado o assunto de sua cabeça:

– QUEM É? — gritou Clove, procurando o tal sujeito que, possivelmente, poderia ter atirado na cabeça daquele errante — NÃO SOMOS UM DELES! — insistia.

De repente, algo começa a se mexer no meio de uma moita mais adiante de Alastor. Não seria loucura afirmar de que a origem daquilo ser possíveis ações do possível sobrevivente, principalmente quando a mira de um rifle sai dos arbustos.

– Quem são vocês? — uma voz com tom chato e forte surge naquela área. Logo, vejo um idoso com roupas militares e gastas sair do mato. Era ele a origem do tal barulho.

– Sobreviventes. — afirma Alastor — Foi... foi você que, bem, salvou a minha vida?

– Se salvar sua vida significa acertar a cabeça de um errante a uma distância de cerca de 15 metros, bem, sou este indivíduo que você está tentando se referir.

Alastor se levanta, com certa dificuldade em apoiar-se em um tronco de árvore jogado ali perto. Logo, se dirige ao velho, que joga o seu rifle no chão por motivo algum. Surpreendentemente, Alastor abraça o idoso.

– Obrigado. — ele agradece — Obrigado mesmo!

– Não há de quer. — o velho responde.

Penso na possibilidade daquele senhor que aparentava ser simpático juntar-se a mim, a Clove e a Alastor. No final das contas, não seria tão ruim quanto Clove e Alastor deveriam estar pensando. Além de demonstrar ter um caráter fortíssimo, o idoso também carregava, consigo, uma mala composta por armas, cantis trazendo água e restos de alimentos. Isso tudo poderia ser observado por dentro de sua jaqueta militar.
Não aguento em ainda não tê-lo perguntado sobre juntar-se a nós:

– Quer aliar-se ao nosso grupo? — pergunto.

Em questão de segundos em relação ao tempo em que eu havia soltado a questão, Alastor e Clove parecem reprovar a ideia. Eles começam a sussurrar para um ao outro. Porém, por mais que pareçam estar desaprovando a minha cogitação, por fim, Alastor diz:

– Eu aprovo a ideia.

O velho passa a nos examinar. O seu olhar, por diversas vezes, passa da minha face para a de Clove, ou da de Clove para a de Alastor, entre outras combinações. Mas, no final, ele parece ser bem aproveitador, aceitando qualquer proposta que possa trazer vantagens para si mesmo:
– O.k.
– Siga-nos. — Alastor diz — Estamos, por ora, caçando alguns animais para nos alimentarmos e indo para o Hotel San Villar.

– Hotel San Villar? — o velho pergunta.

– Exato. Por que?

– Eu também estava indo pra lá. Quando eu cheguei em Dallas, há uns dois meses atrás, quando isto não estava acontecendo, disseram que o Hotel San Villar era um ótimo lugar para refugiar-se.

– Então vamos — digo, impaciente de ficar parado no mesmo lugar escutando a história que eles contavam, por mais que elas fossem importantes para o nosso grupo.

Finalmente, seguimos caminho. Durante o mesmo, encontramos alguns animais, tais como canarinhos, pequenos esquilos e até mesmo tigres. Ficamos um bom tempo sem falar nada, até que eu solto uma pergunta para o velho:

– Qual o seu nome?

– Billy — ele responde — Billy...

– Seja bem-vindo, Billy! — afirma Alastor.

– Você deve ser um ex-militar, suponho. — digo

– Na verdade, sim. Sou um veterano de guerra do Vietnã.

– Então você é um vietnamita? — Clove pergunta.

– Não necessariamente. Meus pais eram, mas tiveram que viajar devido a algumas guerras e protestos que estavam acontecendo no Vietnã. Eles foram para a Holanda, onde minha mãe me deu a luz. Portanto, considere-me holândes ou neerlândes.

– Como tornou-se um veterano de guerras do Vietnã, então? — Alastor pergunta.

– Quando eu tinha cerca de seis ou sete anos, meu pai foi preso inocentemente por vândalos vietnamitas que buscavam vingança após eles serem libertados da cadeia. Sabe, meu pai era policial, e parece que os criminosos não o esqueceram da cabeça.

– Não seria mais fácil matar?- digo.

– Espere, ainda não terminei de explicar. — esclarece Billy — Alguns dias depois, eles invadiram e destruíram toda a segurança da prisão em que meu pai foi preso e, bem, o aniquilaram. No dia seguinte, os vândalos voltaram para o Vietnã. Quando atingi os 25 anos, fui para uma guerra entre militaristas e vândalos que pediam a libertação de drogas no Vietnã. O grupo que matou meu pai estava lá. Os matei e os vinguei. Porém, acabei sendo um membro importantíssimo para o exército vietnamita, e acabei permanecendo por lá até os 47 anos.

– 47 anos? — diz Clove, franzindo a testa — Você tem aparência de 47 anos.

– Na verdade — explica Billy -, eu tenho 54. Completo 55 amanhã.

– Que coincidência. — digo — Eu faço aniversário amanhã também!

– Sério? Que bacana. — afirma Billy, com o seu tom meio desanimador e sério.

– Enfim — diz Alastor -, como veio parar aqui em Dallas?

– Quando eu decidi sair do exército, precisava de um tempo para descansar minha mente, me tranquilizar, e tudo que uma pessoa um pouco velha precisa. Disseram que Shreveport era o lugar perfeito para isso, e viajei para lá. Porém, dois meses atrás, quando a infecção se espalhou pelo mundo, eu vim para Dallas.

– Que história... interessante. — digo, mentindo. Não me julgue por ter feito isso, embora Billy fosse o ser mais simpático possível. Ele parecia estar desanimado, por isso menti: para tentar agradá-lo.

Então decidimos seguir a trilha.

–-

– Olhem ali! — aponta Alastor com o seu dedo indicador.

– O que? — Clove pergunta — Não vejo nada. — naquilo, eu concordava. Não enxergávamos absolutamente nada. Como Billy não comentou nada, creio que ele já havia visto o que Alastor apontou, mas eu e a Clove ainda não.

– Cheguem mais perto. — Alastor diz.

Logo, entendi o que ele estava indicando. Havia um enorme abismo ali. A cada vez que chegamos mais perto do mesmo, acabamos concluindo mais ainda sobre o lugar. Rochoso, extremamente fundo, distância entre uma parte e outra pequena e... cheio de errante em sua superfície.

– Está cheio de descerebrados. — Billy diz. Nunca ouvi alguém chamar eles de descerebrados.

– Você os chama assim? — pergunto — De descerebrados?

– Sim. Como vocês os chamam?

– Errantes. — responde Alastor, antes mesmo de eu poder falar algo.

– Então está cheio de errantes. — diz Billy.

– O que fazem... — diz Clove, não terminando a frase — Fiquem quietos. Há meia-dúzia de errantes por ali — ela indica o lugar nossa esquerda. Nos escondemos em uma rocha cuja distância para o abismo era de apenas dois metros.

– Vamos fazer o que? — pergunto.

– Mata-los. — Alastor responde. Porém, o som de sua voz já ultrapassara a marca suficiente para atrair os errantes. Em cerca de quatro segundos, sem percebemos, eles já haviam chegado ao nosso lado.

– ATIRA, BILLY! — tento ordenar. Billy saca uma arma de sua mochila, que identifico como uma Magnum, e atira no errante. Ele cai para o abismo. Os outros cinco sãodecapitados por um pau de madeira que Clove tirara do chão.

– Bela, Clove! — Alastor parabeniza. Enquanto ele bate palmas para a atitude de Clove, acidentalmente o mapa de Dallas que eu recuperara do geólogo cai no abismo.

– Érr, Alastor — o cutuco -, o mapa de Dallas caiu.

– Não acredito. — ele diz. — Ah, não! — nós observamos o mapa lá em baixo, pendurado em um pequeno galho de árvore. — Eu... eu desço.

– É arriscado demais. — diz Clove — Você pode cair e, bem, ser devorado pelos errantes/descerebrados.

– É verdade. — concorda Billy. Por um momento, Alastor olha pra mim, tentando saber qual era a minha opinião... ou pelo menos, eu achava isso. Na dúvida, eu balancei a minha cabeça positivamente, murmurando: "Não é uma boa ideia".

– Por unanimidade — Alastor diz -, eu não vou. Mas se voltarmos aqui, prometo que iremos recuperar o mapa.

– Você nem precisa. — Billy diz — Eu decorei os caminhos de Dallas há alguns dias. Afinal, isto é uma necessidade em momentos de sobrevivência como esse.

– O.k. — digo -, então, como chegamos no Hotel San Villar?

– Por aqui. — Billy aponta para o oeste. Ele carregava, em sua palma da mão, uma bússola. A seta vermelha indicava para o norte, que era a direção que apontava a área que havíamos encontrado Billy.

–-

Após algum tempo, finalmente havíamos chegado ao Hotel San Villar. Ele, em vez de ter uma aparência velha e desgastada pelos errantes, na verdade, estava em condições incrivelmente boas. Além de parecer modernas, o hotel também havia cerca de doze andares, oque significava que poderíamos guardar os nossos pertences em todos os cômodos existentes.

– Vamos indo. — Billy diz.

Seguimos o nosso caminho até chegarmos na entrada do hotel. Obviamente, não haveria nenhum grupo ou nenhuma pessoa que dominaria o local, então a porta da frente estaria aberta...

...mas, na verdade, ela se encontrava trancada.

Giro a maçaneta por cinco ou seis vezes, mas nem por isso a porta abre.
– Está trancado? — Alastor pergunta.

Quando viro para trás para responder a pergunta, observo alguns vultos aparecendo ligeiramente atrás de nós. Um destes agarra meus braços e o prende com uma algema em uma prateleira que se encontrava do lado esquerdo da porta. Alastor, Billy e Clove tentam fazer algo (de acordo com minha visão quando olho para trás para ver o que está acontecendo), mas um grupo de soldados os cercam.

Então, o tal vulto que me prendera coloca uma outra algema no meu braço esquerdo — que era o braço solto — e o prende num chaveiro ali perto. Então, ele saca uma .40 e a aponta em minha cabeça.

– Não faça nada de estúpido, ou o seu grupo morre. — ele diz, com um tom nada animador.