BILLY:

– Estou com uma trupe de soldados aqui. Um gesto que não me pareça bom e todos os seus amiguinhos morrem. — dizia aquela sádica voz.

Eu, Alastor e Clove lutávamos para os soldados atrás de nós soltarem as cordas que os mesmos deixaram em nossos pulsos, prendendo ambos os braços de cada um. Um homem com os cabelos espinhentos e loiros, que vestia uma jaqueta de couro preta sobre uma camisa regata segurava uma .40, ao mesmo tempo em que a apontava para a cabeça de Ethan.

– Quem são vocês? — ele perguntou.

– Queremos saber esta resposta também... de você. — digo. Logo me arrependo, pois o guarda atrás de mim "gruda" a sua arma em meu tórax ao mesmo tempo que me faz virar defronte a ele.

– Um, nem que seja um único movimento brusco, e seu grupo morrerá. — dizia ele. Persistia com o meu medo, pois, a qualquer momento, o loirinho poderia pegar sua arma, tirá-la da cabeça de Ethan e atirar em minhas costas. E se Alastor ou Clove (já que Ethan não poderia fazer nada) fizessen alguma coisa para me ajudar, eles também morreriam.

– Bom — dizia o loirinho -, você não precisa saber o meu nome. Afinal, você já estará morto quando tentar me chamar pelo mesmo, não? — ele dava umas risadinhas malignas, que me deixava cada vez mais furioso — Me chame de Imperador.

– Nunca. — digo. Ele tira a sua arma da cabeça de Ethan e aponta para o meu tórax. "Mas, Billy, como você sabia disso, já que estava virado para o soldado?". Bem, o próprio me virou para eu conseguir enxergar o Imperador ameaçando-me.

– Olhe — dizia ele -, não é porque você é um senhor de idade que eu não possa lhe matar. — ele provavelmente me classificara como senhor de idade devido aos meus cabelos cuja tonalidade era cinza. Minhas verrugas na maçã do rosto também poderiam ser um motivo para ele ter dito isso.

Ethan parecia estar morto. Não falava, nem mesmo bufava — afinal, pelos meus conhecimentos, ele deveria estar morrendo de raiva. Quando me virei para ele, enquanto ignorava o que o Imperador dizia para Alastor e Clove, provavelmente, vi apenas um corpo cansado. Parecia, por um momento, que ele queria suicidar-se. Seus braços vibravam eventualmente, e ele começara a resmungar silenciosamente, de forma com que o loirinho ou os seus aliados percebesse. Segundo minha leitura lábial, ele deveria estar dizendo coisas como "Filhos da puta" ou "Me tire daqui, seu monte de merda".

Porém, minha atenção é desviada por um tiro que passara de raspão em meu ombro.

– PRESTE ATENÇÃO EM MIM, SEU MERDA! — o Imperador exclamava. Se ele estivesse falando com Alastor ou Clove, por que atiraria em mim? Será que eu estava ignorando algo que ele estava falando para mim?

Começo a me odiar. Eu já estava pensando como se eu tivesse desobedecido alguém que carregasse, consigo mesmo, um grandioso título de autoridade máxima. Ele era apenas um pivete que pensava que era alguém.

Então, ele se aproxima mais ainda de mim, e diz:

– Quando eu estiver falando, preste atenção! Na próxima vez, cortarei a sua perna! Além do mais, NÃO ME RESPONDA NOVAMENTE!
Segundo suas ordens, era para eu não respondê-lo novamente, mas era meio que impossível. Eu pensava em algo maior que sua conduta. Maior que suas ordens. Ao mesmo tempo em que eu pensava que dizer aquilo seria suicídio e estupidez, ainda pensava que eu poderia dar juízo naquela cabeça.

Logo, solto a frase:
– Estamos em meio a um apocalipse zumbi. — ele saca um estilete, antes mesmo do término de minha frase. Porém, ele apenas o saca, sem cortar a minha perna, felizmente — Quer mesmo eliminar todos aqueles que podem te ajudar?

– Você não faria diferença entre os mais de 300 que estão aqui. — ele diz — Apenas não cortarei sua perna pois deverei jogar toda a minha raiva em cima desse aqui — ele aponta para Ethan -, certo?

– NÃO! — exclamou Clove. Ethan parecia aceitar, pois não dizia nada.

– Foi uma pergunta retórica, minha querida. — disse o Imperador — Dai-me um taco de beisebol, Howard. Além disso, leve esse velhote para o centro médico.

– E quem disse que preciso de tratamento médico? — pergunto — Consigo aguentar um tiro de raspão.

– Quer que eu realmente faça com que você necessite de tratamento médico?
O soldado que aparentava ser Howard me segura de forma grossa e me carrega para o estacionamento. "Como não pensamos nisso antes?" penso. "Toda essa confusão poderia ser deixada de lado.". Quando estamos chegando perto do mesmo, ouço alguns gritos de Ethan. Parece que o Imperador estava o torturando. Não queria que ele continuase daquela forma. Sabe, queria tirar aquela corda que prendia os meus braços e socorrê-lo, mas, infelizmente, não era possível... não naquelas condições.
Howard me leva até um elevador. Dentro dele, sai dois outros soldados, que carregam um cadáver de um errante. Quando entramos, ele aperta um botão com o número "5" escrito.

Confesso: eu tenho medo de altura. Nunca iria para a janela nem mesmo do quinto andar para conferir uma altura relativamente alta.

–-

Quando chegamos lá, Howard me joga para dentro da enfermaria. Uma senhora idosa abre uma porta com uma placa escrita "Tratamento para dores físicas".

– Venha cá, meu filho. — ela diz para mim. Howard me joga para lá dentro, e, pelo mais anormal que pareça, atira em uma área que quase atinge o meu tornoselo.

– Não faça nada de estúpido — ele disse.

A enfermeira me atende muito bem. Primeiramente, ela me pergunta onde estou tendo dores. Quando respondo, ela faz de tudo para tentar atender-me bem. Este é um exemplo de pessoas que faltam no mundo: pessoas que, não importa a idade ou sua situação, sempre lhe ajudará, não importando quem você é. Porém, dizer isso em meio ao fim do mundo é engraçado.

A velhinha sai por uns quatro segundos para beber água. Não sei como a trupe do Imperador conseguiu, já que a usina hidrelétrica de Dallas é localizada a várias milhas daqui, assim como o rio mais prócimo — que tem 17km de distância entre o Hotel San Villar para lá. Quando eu viro minha cabeça, vejo uma garotinha de cabelos negros, segurando um urso de pelúcia com seus pelos marrons. A jovem não parecia passar dos 1,65m de altura, mas poderia ser considerada demasiada alta em relação a outras pessoas de sua idade.

– Olá, garotinha. — digo para ela, tentando chamar sua atenção — Tudo bem?

– Não. — ela responde.

– O que ac-aconteceu? — pergunto, tentando aguentar as dores do tiro do Imperador. Sim, eu havia mentido para ele sobre a bala, que eu conseguiria aguentar e etc. Agora, provavelmente, ele deve estar, enquanto bate em Ethan, pensando em me matar de vez.

– M-meu pai. — diz ela — Ele morreu...

– Como sabe disso?

– Minha i-irmã combinou que iria soltar um s-sinalizador quando ele est-estivesse em perigo. E eu o vi nos céus. Uma coisa vermelha...

– Qual era o nome dele?

–Lawrence.

– Lawrence...? — falo, tentando descobrir o seu sobrenome.

– Lawrence Miller.

– Lawrence Miller? — ela balança a cabeça positivamente — Ele era, por acaso, um soldado vietnamita?

– Sim.

– Bem, ele era nosso tenente. Sinto muito. Ele era muito simpático. Era uma alma boa. Não merecia morrer.

A garotinha começa a chorar. Começava a me sentir culpado por suas lágrimas, que caíam diretamente no chão. Ela, contudo, deveria estar recuperando-se de seu problema, seja lá qual fosse. Afinal, ela não estaria na enfermaria fazendo papel de boba... ou, pelo menos, sua aparência não dá a entender que ela seria uma pessoa que faria aquilo.

Quando a enfermeira chega, ela observa a garotinha chorando e logo vai ajudá-la.

– Por que está chorando, Katherine? — ela pergunta. Então era Katherine o seu nome. Por diversos momentos, eu ouvia Lawrence falar que sua filha havia aprontado alguma na escola, e ele sempre citava o nome Katherine. Porém, eu havia esquecido. Se minha memória estivesse mais ampla, certamente me lembraria dela.

– P-papai. — Katherine responde.

– Acalme-se. Supere isto. Caso contrário, você não aguentará nem cinco segundos lá fora. — então, a enfermeira aponta para mim — Se está sentindo-se bem, pode ir para o seu quarto.

Levanto-me. Dou um sinal de despedida para Katherine. Ela retruca com um pequeno beijo de longe, e vou para fora da enfermaria.
Howard me esparava lá fora. Ele me pega pelo braço, e eu me lembro que havia muitas perguntas para fazer para ele.

– O que aconteceu com Ethan? — pergunto.

– Ele está à deriva do calabouço. — Howard responde.

– C-calabouço?

– O Imperador irá matá-lo. Ele não fará falta, certo? Afinal, para ele, você deveria ser apenas um velho gagá.

– Claro que n-não.

– O.k., então continue se iludindo.

–-

Howard me joga no quarto "119", de forma com que eu caia de cara no chão. Bem, eu tinha medo de altura sim, e o quarto ficava no décimo primeiro andar, ou seja: aquilo era o pesadelo para mim.

Quando eu viro minha cabeça para frente, observo Alastor e outro homem dormindo na cama ao nosso lado.

– O que aconteceu com Ethan? — pergunto para Alastor.

– Ele será morto amanhã de noite. — ele responde.

– Mas a culpa é toda minha! Eu deveria morrer.

– O Imperador é louco.

– Notável. Bem, o que faremos?

– Estava planejando um plano para conseguirmos, ao mínimo, livrar Ethan da morte. Clove está no nono andar, onde estão localizadas todas as câmeras do hotel. Ela poderia neutralizar os guardas que estão por lá e ver onde o Imperador anda para, enfim, tirarmos ele da cena.

– Impossível. — digo — Ele anda cercado de soldados.

– Nada é impossível. Podemos, antes dos guardas tomarem suas posições para protegê-los, matá-los e jogá-los para fora do edifício. Então, iremos ao calabouço e resgatamos enquanto o Imperador se distrae esperando os guardas.

– Onde fica o calabouço? — pergunto.

– Décimo segundo andar. Está empesteado de errantes.

– Err... ah é, verdade. — digo, confundindo com descerebrados (termo que eu utilizava antes para classificar os mortos-vivos).

– Bom, então, o que faremos? — Alastor pergunta.

– Esperamos até amanhã. Você tem algum tipo de contato com Clove?

– Não, mas já contei o meu plano para ela, sem que os guardas percebessem.

– O.k. Então ela vai para a sala das câmeras, e nós tentamos eliminar o maior número de soldados possíveis?

– Érr, sim.

– E Ethan?

– Ethan está lá, na entrada. Alguém deverá salvá-lo.

Penso em Katherine, não sei por qual motivo. Ela poderia ser uma boa integrante neste plano.

– Eu sei de alguém que pode salvá-lo. — digo. Então, o outro homem acorda. Ele pega uma metralhadora de combate ao seu lado e a aponta para nós.

– QUEM SÃO VOCÊS?! — ele exclama. A qualquer momento, poderíamos até mesmo falecer ali mesmo.