Então meu despertador alarmou.
Hoje era meu primeiro dia de aula do ano, e eu não estava nada animado. Seria mais um ano chato, com gente chata, professores chatos, os mesmos amigos de sempre, a mesma rotina, milhares de pessoas e milhares de ciclos diferentes, milhares de combinações... Quanto mais o tempo passa, tudo se torna mais tedioso. Abrir os olhos e perceber que tudo será exatamente como foi, viver na roda que gira sem parar, girar e voltar ao mesmo lugar em que estava, ir do começo ao fim, do fim ao começo, repetindo esse movimento inúmeras vezes, até que se perca a paciência.
A minha já estava acabando.
Eu levantei, fui ao banheiro, mijei, escovei os dentes, fui até a cozinha e dei bom dia para a minha mãe.
–Como está filho?
–Ótimo — menti.
–Sua roupa está num cabide branco na terceira porta do seu guarda roupa.
–Obrigado.
Caminhei novamente até meu quarto, e procurei o tal cabide branco. Lá estava ele, e lá estava minha roupa.
Acha esquisito minha mãe selecionar minhas roupas? Na verdade, nem tanto. Ela sempre faz isso, e eu sempre gosto da escolha.
Minha blusa era branca, estampada com o Empire States. Por cima, vestia uma leve camisa xadrez aberta e listrada com branco e dois tons de azul, uma calça de jeans preto, e meu All-Star Vans branco.
Depois de se vestir, comi ovos mexidos com bacon e bebi um copo de suco de laranja, que claro, era especialidade da minha mãe. Escovei os dentes mais uma vez e pentiei meu cabelo trás, bagunçando um pouco para o lado. Passei desodorante e perfume. Peguei minha mochila, coloquei meu caderno com a capa da Ponte de San Francisco (caderno com capa da própria cidade? Não fui eu que comprei, tenha certeza) minhas canetas esferográficas, lápis e borracha.
Já estava pronto pra sair.
Dei um beijo na testa da minha mãe enquanto ela lavava meu prato sujo e fui para a casa de Louis.
Louis é atualmente meu melhor amigo. Nos conhecemos desde meus 12 anos de idade, ele sendo um ano mais velho. Quando ele se mudou para San Francisco, não me interessei em fazer amizade, até que vi ele lendo gibis que gostava bastante na época.

–Louis...? — eu disse me aproximando dele para ver em que página do gibi ele estava exatamente.
–Sim? — ele me respondeu com uma pergunta.
–Você lê A Ilha Futuro desde quando?
–Desde que me entendo por gente.
Não lembro direito, mas acho que deixei escapar um sorriso.
–Eu também leio. Estou esperando sair a próxima edição.
–Você já leu todos? — ele pareceu surpreso.
–Já — disse completamente orgulhoso de mim mesmo.
–Olha, acho que isso pode ser o início de uma boa amizade, mas você tem que me prometer uma coisa.
–O quê?
–Em momento algum, em nenhum, nenhumzinho, você irá me dar um spoiler, ok? Spoilers acabam amizades.
–Tudo bem — eu ri.
Ele pareceu investigar meu interior.
–Você tem a edição de ouro?
–Mas é claro!
–É verdade que ela é uma edição em que se conta o final da série de A ilha Futuro antes mesmo de acabar?
–Sim.
–Então você tem que me prometer mais uma coisa.
–O quê?
–Você só vai me dizer o final, quando eu estiver no leito de morte, tendo convulsões, ou respirando ruim, ou até mesmo que esteja baleado ou com pedaços espalhados no chão. Quando estiver prestes a morrer, você tem que jurar que vai me contar o final.
Eu assenti.
–Jura de mindinho? — ele ergueu o dedo mindinho.
–Juro.
Eu ergui o meu, e nós os entrelaçamos. Alí começava mais um destino.
Alí começava mais um ciclo.

Eu o chamei e ele veio correndo. Louis devia ter uns três centímetros a mais que eu. Ele tirou seu UNO da garagem e falou comigo:
–Iae?
–Tudo bom e você?
Ele não respondeu.
Estava com o fone de ouvido, e o pensamento distante, como se eu fizesse parte de uma realidade paralela, estava estava vivendo no segundo mundo dele: o mundo de Louis e a Música.
Então, começou a cantar American Idiot, fazendo também a batida da bateria, numa bateria imaginária.
–Cara faz a guitarra — ele disse.
Eu fiquei parado e semicerrei os olhos, como se ele estivesse falando uma idiotice. Na verdade, ele estava.
–FAZ A GUITARRA CARA.
Aquilo me assustou um pouco. Me deu um impulso, e eu segui as ordens dele, por mais tolas que fossem.
Quando me dei conta, estava na frente da casa dele, num gramado verde, em frente a várias outras casas que formavam a rua, fazendo um solo de guitarra numa guitarra imaginária. Estávamos na frente de uma rua inteira, sujeitos a olhares intrometidos, tocando instrumentos imaginários, num show imaginário. Mas pensando assim, não parecia tão patético.
Por mais estranho que fosse, estar e se divertir com Louis fazia tudo parecer mais vivo, nada importava, tudo o que eu queria era segundos de diversão mesmo que sendo visto como maluco.
Como disse o Chapeleiro em Alice No País das Maravilhas: "As pessoas malucas são as melhores".
Ele passou a infligir as leis da imaginação e tornar isso realidade, estava fazendo as batidas da bateria com a voz, mãos e pés.
–A BATERIA TÁ FORA DO RITMO — gritei como se estivéssemos num show de verdade.
–SEU SOLO TÁ UMA MERDA — retrucou ele.
–EU SEI. QUE TAL ENTRARMOS NA MERDA DO SEU CARRO.
–E IR PRA MERDA DO COLÉGIO — ele continuou.
–E FAZER A MERDA DAS ATIVIDADES?
Pondo fim ao espetacular show, entramos no carro e partimos em rumo à escola.
–Quais são seus planos? — eu disse quebrando o silêncio, enquanto ele dirigia pelos primeiros metros.
–Tirar notas boas e pegar várias garotas.
–Especifique com sotaque — essa era uma brincadeira nossa, onde misturávamos sotaque inglês, russo, francês, e todos os que viessem em mente.
–Éu gosto dé tódas as garrotas, e serria um prrazerr pegá-las.
Eu ri.
–Espero que fiquemos em aulas parecidas.
–Eu também — ele fez uma pausa — sérria um prrazérr éstodarr com vócé.
Nós rodamos algumas ruas e chegamos no nosso novo colégio: High School York Future.
–É incrível! — falei surpreso — sempre via esse colégio de longe, mas pisar nesse gramado e ter a sensação de que você faz parte do lugar é totalmente diferente. As árvores fazem sombra, o lugar é bem cuidado, tem internet gratuita, se quiser podemos sentar e ler um livro, assistir um filme on-line, ou até mesmo fazer uma rodinha social, e tudo isso só do lado de fora!
–Até porque a parte de fora, é a melhor parte da escola.
–Vamos procurar nossos armários!