O Ciclo da Vida
3 Cartas de Amor e Morte
Nós entramos.
Olhei de canto à canto: a escola era realmente grande. O chão era de cerâmica branca e grande, as paredes eram amarelo mostarda, cobertas por armários vermelhos e azuis. Pareciam velhos, mas estavam limpos por sinal.Mensagens de "Bem-Vindos" cobriam as paredes.–Vocês tem que ir à diretoria para pegar o número do armário e o horário das aulas — disse um menino com o cabelo penteado para trás, alto, com alguns músculos, e com a cara de tédio. Bom, eu não discordava dele. Devia estar mandando esse recado pra vários alunos que chegavam na entrada."Próximo ano eu não faço isso nem que me ameacem", pensei.Eu e Louis andamos em linha reta por um tempo, e pedimos informação. Disseram que a diretoria era no segundo andar, e deram informações mais precisas.Ao subir uma série de degraus, nos deparamos com uma multidão de alunos amontoados frente à sala da direção. Ela dizia a série, e o nome dos alunos em ordem alfabética, que pegavam seus cartões em seguida.Meu armário era o 116 e o de Louis 118.Armários próximos? Digamos que nossas mães são boas em negociar.Nós descemos as escadas de dois em dois degraus, apertando o passo.–2 pra direita, 5 pra esquerda e 7 pra direita — sussurrei enquanto destravava meu armário azul.Olhei: por dentro, o armário era cinza, tinha cerca de sessenta centímetros, divido com uma placa do mesmo metal do armário. A poeira veio aos poucos dalí, e começou a vir no meu nariz, o que não foi nada receptivo. Senti vontade de espirrar e fechei o armário o mais depressa possível, não pensei na direção em que espirrar, me virei, e foi. Quando abri os olhos tinha uma linda menina baixa, cerca de dez centímetros menor que eu, com um piercing no nariz, e cabelo vinho. Ela usava um short e jaqueta jeans, com uma blusa escrita: Colorful Hair s2.Ela me olhava com olhos assassinos. Demorei dois segundos para perceber o que havia acontecido.–Você... ESPIRROU NO MEU REFRIGERANTE E NA MINHA CARA!!- gritou ela.Fiquei envergonhado com a cena, então consigui falar alguma coisa.–Eh... Não foi minha intenção.–Ah claro! — falou com a voz cheia de ironia — nunca se tem intenção! Ela jogou o copo de refrigerante no lixo e saiu resmungando algo sobre um garoto estúpido.Geralmente sou conhecido por ser idiota, mas estúpido pode ser outro bom começo.Eu e Louis nos entre olhamos e combinamos de falar ao mesmo tempo.1...2...3.–Cara você viu como ela falou comigo?–Cara você viu a bunda dela?Nós se calamos e rimos.–A aula agora é inglês.–Pra mim também.Nós rimos pela última vez e fomos para a sala de aula.Quando chegamos havia escrito no quadro: Bem-Vindos NovatosEu Sou Srta. JaneEla estava sentada. Tinha uma aparência não tão jovem, mas bem cuidada. Devia ter uns 40. Quando todos entraram na sala,ela foi à frente da mesa e se apoiou. Observou a expressão dos alunos, e veio à anunciar.–Bom, primeiramente bem-vindos. Meu nome é Janette, mas como está escrito, prefiro que me chamem de Srta.Jane. Espero que possamos nos enturmar, e compartilhar idéias. Não achem que inglês será uma aula que vai dar muito sono, pelo contrário, irei fazer o possível para que a aula se torne mais interessante.Ela pegou uma pasta azul bebê.–Esse não era meu plano, mas a direção escolar me pediu para que passasse esse trabalho de início, então, não pude largar. Irei formar duplas aleatórias, e vocês irão se levantar e ficarem juntos em algum lugar da sala.Ela disse o nome das duplas. Eu fiquei com uma tal de Angel Condor e Louis ficou com um Jorge Johnson.Quando Angel se levantou, tive um mini ataque cardíaco: era a mesma menina em que o estúpido aqui tinha espirrado.–O trabalho vai ser o seguinte: semana que vem iremos à escola do jardim de infância. Vocês irão criar histórias e personagens, e contar essas histórias às crianças, depois, elas farão uma votação para escolher a história mais criativa. Esse trabalho vale um ponto. Quem tirar o quinto lugar vai ganhar 0,5 ponto a mais, o quarto lugar 0,8 ponto a mais, o terceiro lugar 1,00 ponto a mais, o segundo 1,25, e o primeiro 1,75. Agora peguem seus livros, eles estão aqui na minha mesa, abram-o na página 14, façam da questão 1 à 15, é um resumo básico do ano passado. Eu me levantei.–Desculpe — eu disse enquanto me sentava e formava a dupla.–Não tem problema, era só um copo de Coca-Cola. Ah claro, e minha cara. Ah, milhares de germes. Nada demaisEu corei.–Eu também peço desculpas — ela anunciou — por ser tão grosseira. E sinta-se grato. Eu não costumo pedir desculpas.Eu rí levemente de lado. Ela virou a cara.Ficamos calados enquanto fazíamos a primeira questão.–Você tem alguma idéia para o trabalho? Ela tirou o olhar do caderno e ficou acariciando uma mecha do cabelo, pensando.–Bom, eu acho que sim, não sei se você vai gostar. Eu te falo quando você for na minha casa. Eu abri a boca para falar, mas antes da voz sair, ela respondeu minha pergunta, como se lesse minha mente.–Minha casa é aquela — ela apontou pela janela para uma casa branca, com um lindo gramado, uma árvore com um pneu de balanço, e com o telhado azul.
–Bonita casa — elogiei.–Obrigada. Eu costumava me balançar ali, quando meu irmão estava vivo.–Estava...? A-ah, eu... Eu sinto muito. –Todos "sentem muito" — ela virou o rosto — você não pode sentir muito. Você nem sequer conhecia ele, só porque está a 7 minutos falando comigo, não quer dizer que você sente a minha dor. Você não pode ver o vazio que ele deixou, o vazio que nunca será preenchido. –É um modo de ser gentil.–Eu não preciso de sua gentileza, não vai melhorar em nada o ânimo que você acabou de derrubar.Fiquei calado. Se as palavras dela fossem tapas, eu já estaria, provavelmente, em coma.–Qual era o nome dele?–Jacob, mas as pessoas chamavam de Jay.–Como ele morreu? Quero dizer... Sem ser invasivo demais.–Vou te responder porque você está realmente curioso. Ele terminou com a namorada, sabe, ele gostava de verdade dela — falou em êxtase — Ele ficou devastado, então foi para um penhasco, escreveu um bilhete e se matou.Agora, as palavras dela eram um martelo, e aquilo me atingiu com força, me deixou tonto por um segundo.–Eu... Sinto muito — abaixei o tom da voz.Ela fez um sim com a cabeça.–O que tinha escrito no bilhete? Ela me olhou com um olhar que eu sabia exatamente o que era: você está indo longe demais cara.–Quero dizer... Só se você quiser.–Eu vou falar, mas da próxima vez, seja mais educado. Pergunte se pode, e não chegue me dando ordens.Ela respirou profundamente.–"Eu sei que é cedo demais, mas eu não consigo viver num mundo em que ela não esteja presente. Ao ler esse bilhete diga à ela que eu a amo. Mamãe e papai eu amo vocês também. Angel, eu também te amo, você é a melhor irmã do mundo, vou sentir saudades de brincar e brigar com você. Espero que um dia você me perdoe e me entenda. Amo todos vocês, abraçem esse bilhete como se estivessem me abraçando. Me perdoem por tudo. Adeus".Eu fiquei calado e a vi encher os olhos de lágrimas. Terminamos a atividade em um silêncio mórbido. Fomos liberados. Eu passei o intervalo com Louis: ele via a bunda das garotas enquanto escutava Green Day, e eu observava Angel. Eu imaginava a dor que ela sentia, mesmo não podendo sentir na verdade. Quando o intervalo tomou fim, fui para a aula de biologia, e depois tive uma aula de espanhol. Eu passei a aula de Biologia com Louis: Angel não fazia aquela aula comigo. E na aula de espanhol, tive que ficar sozinho. Eu odeio espanhol. E não ter ninguém pra conversar enquanto a professora e outros alunos falavam aquela língua chata, é totalmente intediante. Na saída, marquei de ir na casa de Angel às 3:00 pm. Louis me deixou de UNO em minha casa. Eu tomei banho, um banho morno.Tomo banhos quentes mesmo com o dia quente. Eu me deitei, e fiquei pensando em Jacob: o jeito que ele mudou do ciclo da vida ao da morte por vontade própria. Acho isso meio estranho. Mas não estava sentindo o que ele sentia, não podia julgá-lo. Então fui tirar um cochilo.
Fale com o autor