O Ciclo da Vida

4 Meus Pensamentos Me Enchem


Quando acordei o relógio marcava 2:43 pm, então levantei, escovei os dentes e fui até a casa de Louis.

Apesar de não estar tão quente, o sol batia com força em minha cara, via apenas clarões e imagens turvas, andei mesmo assim.

Bati na porta e ele apareceu com o cabelo mais bagunçado que meu quarto quando fico só em casa, um short fino acima dos joelhos, sem camisa e com cara de sono.

–O que foi? — perguntou ele com os olhos quase fechados, por causa da claridade.

–Quero que me leve na casa de Angel.

–Onde ela mora?

–Perto do colégio.

Ele pediu para esperar.

"Nem convida pra entrar? Ótimo", pensei.

Quando voltou, abriu a garagem com o controle e me entregou as chaves do UNO.

–Pode ir — ele acenou como se estivesse me expulsando.

Talvez estivesse.

–Mas eu só tenho 15 anos — minha feição era séria e um pouco surpresa.

–Um ano a menos não faz diferença. Pode ir.

Então ele fechou a porta na minha cara e voltou pro quarto.

Eu fiquei parado frente à porta achando que ele voltaria vestido e pronto para me levar: mas isso não aconteceu.

Então eu entrei no UNO, o liguei, manobrei para entrar na rua, coloquei o cinto, liguei o ar condicionado e dirigi para a casa de Angel Condor.

Enquanto dirigia, eu pensava nos ciclos.

No momento que esbarrei com Angel, um ciclo foi formado, e esse ciclo me levou a fazer o trabalho, e esse ciclo fez ela desabafar comigo (mesmo que eu estivesse se intrometendo demais), e esse ciclo vai fazer com que possamos nos conhecer melhor. Isso com certeza não foi coincidência, se eu não tivesse esbarrado com ela, não criaria tantos ciclos, e eu nem saberia que ela existe. Nada que acontece é coincidência, tudo foi feito pra se interligar à algo, todos os momentos, todos os pensamentos, todos eles têm um destino, basta nós mesmos moldá-los.

Também pensei em como uma pessoa pode mudar o rumo das coisas tão bruscalmente. Jay amava seus pais, seus amigos, amava Angel, e por causa da sua ex acabou com sua vida. Ele poderia ser feliz ao lado de muitos, e ter encontrado alguém melhor depois, mas ele decidiu pôr fim, decidiu tirar todas as suas futuras alegrias da vida por uma garota, uma garota substituível.

"Pessoas que realmente são importantes não são facilmente substituíveis", disse uma voz em minha cabeça.

Talvez a solução, fosse não se apegar tanto. Não achar que qualquer pessoa que entre em sua vida seja a pessoa certa. Temos que aprender a viver o presente, sem se preocupar muito com o futuro, afinal, nem todos os planos dão certo

Também pensei, com base nessa informação, como minha mãe se sentiu e ainda se sentia por causa do cara da cozinha.

Ela ainda gostava do cara, e como olhar pra ela todo dia sabendo que isso ainda a perturba? Era como estar preso numa sala e ver um animal feroz acorrentado, e ver a correnter se rompendo. Era perturbador, era apavorante. Eu sentia raiva dele e dela. Dele por ter armado isso tudo, e dela, por não se esforçar em passar por cima.

Se você não tentar superar, só vai se afundar cada vez mais, e mesmo que pareça não ter saída, pareça não ter fim, mesmo que pareça que esse parte da vida precisa ser vivida: tente sair. Tente eliminar qualquer pensamento ruim, jogue tudo pra cima e tente mostrar suas verdadeiras emoções, mesmo que pelo menos um segundo. Não importa o quão fundo você esteja, dispersar as emoções é a melhor sensação, seja o tempo que for, determinado ou indeterminado, só tente aproveitar esse momento como se não fosse haver outro. Fale o que tenha pra falar, mas se for falar pra alguém, tente não pegar muito pesado, censure os fatos, não jogue tanto em cima dela mesmo que esta seja sua vontade: sentir o peso é ruim, passar o peso pra outro pode ser melhor temporariamente, porque aí você se dá conta de quanto as palavras ferem, e quando tenta consertar o erro, vê que é tarde.

Se um dia eu sentiria o peso verdadeiro das palavras? Acabei de pensar nisso. Será que eu sofrerei de amor um dia? Assim como Jay e minha mãe sofreram? Isso eu não sabia. Quando me apaixonasse, tentaria fazer a escolha certa, para que o amor não ferisse ambos. O amor tem que ser bonito, claro que existe suas desavenças, mas ele tem que ser tratado como uma criança aprendendo a andar, não como uma ferida que se torna profunda.

Então eu finalmente cheguei à casa de Angel. Buzinei e ela olhou pela janela acenando.

Eu tirei o cinto, e estacionei o carro frente à garagem.

"Tente relaxar, se preocupar com tantas coisas agora não vale à pena, tente viver o presente", disse à mim mesmo.

Ela já estava abrindo a porta. Eu saí do carro, travei, e caminhei em direção à ela.

Ela me deu um olhar intenso, quase malicioso.

–Enchanté! — ela disse.

–Vuis compainé muis?

Ela não entendeu.

–Você me acompanha?

Então ela deu uma risada estrondosa.

–Eu tenho certeza — ela riu mais uma vez e engasgou — que isso não significa "Você me acompanha?".

–Pelo menos eu entendi quando você disse Enchanté.

–Isso é o mínimo que uma pessoa com raciocínio razoávelmente bom deve saber sobre francês.

–Você me acompanha? — tornei a repetir ignorando o fato de ela estar questionando meu conhecimento.

Ela colocou a língua pra fora e fez: "Eeehg".

–Entre, Dr.Oliver.

A casa de Angel tinha piso de madeira e parede branca, até então, uma TV 40 polegadas, uma escadaria que levava ao segundo andar, e várias outras coisas. Seus pais estavam no sofá assistindo The Big Bang Theory. Então eu os cumprimentei e fui até o quarto de Angel passando pelas escadas.

O quarto dela tinha o teto forrado, as paredes eram lilás, e o piso de cerâmica branca. Havia ar-condicionado, e no quarto, o que não era roxo, era branco. Ela pegou um quadro e pendurou-o na parede. Nele havia dezenas de sóis coloridos e sorrindo.

–O que é isso?

–Welcome to the HappySun World!!!

–Mas que porr...?

–É, eu sei que é estranho — ela disse ansiosa e hiperativa — mas é o trabalho ideal. Bom, quando eu era pequena...

–Quando você era pequena? — ironizei.

–...Quando eu era mais nova, minha professora pediu para todos da sala pintar o que é básico em um desenho infantil. Daí eu desenhei um sol, só que eu não tinha lápis de cor amarelo, então eu pintei o sol de azul. Quando eu cheguei em casa eu pintava sóis coloridos todos os dias.

Eu passei a dar nomes à eles, e definir a personalidade deles pela cor, eu os chamei então de HappySuns.

–Hum.

–Eu pensei então, em ampliar o mundo HappySun, criando novos personagem, uma história, uma vida, e fazer as crianças pirarem.

Eu refleti por um momento.

–Quando você era pequena sua mãe nunca te contou alguma história, na qual você tenha batido a cabeça?

–Aff, eu sabia que você não ia gostar — ela jogou o quadro no chão, suspirou e continuou — eu não tenho nada melhor. Não agora. Se quiser pensar em outra coisa a gente pode tentar.

–Eu não pensaria em algo melhor, é perfeito — ela abriu um sorriso — quando você bateu a cabeça, voltou mais esperta, mesmo que com uns parafusos a menos. Mas isso é o que te faz ser incrível. Vamos começar a trabalhar no HappySun World!