O Ciclo da Vida
5 O Frio da Noite
Agora, eu e Angel estávamos no Projeto Ultra Mega Super Secreto do Mundo HappySun, eu sugeri um nome menor, mas Angel não aceitou.
–O que você sugere para o ampliamento do mundo HappySun? — Angel pediu minha opinião.
–Sugiro um vilão, histórias sem vilões são totalmente sem graça.
–Eu... Hum... Acho que não pensei num vilão quando era criança. Eu tinha cinco anos, sabe... Era doce e pura, não tinha uma mente maligna igual a sua!
Eu ri.
–Minha mente era pura como a sua, a diferença, é que eu não criava sóis idiotas.
–Ah é?
Então olhou mais uma vez com o olhar assassino. Estávamos sentados no chão, e quando percebi, ela avançou sobre mim me jogando para o lado. Ela subiu em cima de mim e apertou meus braços contra o chão com suas pernas, e numa velocidade ninja desenhou a droga de um sol amarelo na minha bochecha direita com uma canetinha. Ela também, ainda no chão, deu um beijo na minha bochecha. Não sabia se aquele beijo tinha sido diretamente pra mim ou para o sol, mas foi o melhor beijo da bochecha de todos os tempos.
–Ah-h..
–O beijo foi no sol, não em você.
–Não precisa jogar na cara né? — disse decepcionado.
Ela deu uma risadinha difícil de escutar.
–Quer registrar o momento?
–Como?
Ela revirou os olhos, como se aquilo fosse óbvio.
Ela procurou o celular pra tirar uma foto, mas antes dela tocar no celular, eu a prendi assim como ela fez comigo, e numa velocidade não tão ninja, eu desenhei um coração na bochecha dela.
–Desgraçado — ela disse, mas estava feliz.
Ela pegou o celular e colocou na câmera frontal. Então ela colocou a mão no cabelo e jogou pra esquerda, fez um biquinho e piscou um olho. Já eu coloquei a língua pra fora e fiz um sinal de paz e amor com a mão. Então ela apertou o obturador.
–Legal — falei, vendo o resultado final da fotografia.
–É, legal.
Então ela postou no twitter:
"Com um garoto que eu nem sei quem é, me salvem! :0"
–Ainda tenho alguns caracteres, quer que eu fale como você é canalha?
–Eu não sou canalha.
–Negar é o primeiro passo pra admitir.
–Parece que você me encurralou.
–É, eu faço isso com as pessoas.
Ela se levantou com um pulo, ficou próxima à janela, quase encostando a testa e me olhou de soslaio.
–O vilão precisa de uma cor nojenta...Tipo...VERDE! — Angel disse.
–Não acho verde nojento.
–Cada um tem uma opinião.
–Sim. Essa é minha opinião.
Ela revirou os olhos.
Então nós pensamos em personagens e vilões.
Quantos adolescentes passam a tarde desenhando sóis? Nós dois. Fizemos isso praticamente pela tarde inteira; teve as pausas pro lanche, banheiro... Mas Angel era rigorosa em relação ao trabalho.
Depois de terminar o início do projeto eu disse:
–Que tal darmos uma volta?
–De carro ou à pé?
–Metade dos dois.
Ela pareceu não compreender muito bem, mas assentiu ainda indecisa.
Então, nós descemos as escadas, eu, de um em um degrau, e ela, correndo escada abaixo, como se fosse treinada pra isso. Os pais de Angel estão dormindo de cochicha no sofá, que aliás, era um sofá-cama. Ela deixou um bilhete contando nossa saída, e finalmente saímos.
Quando atravessei o gramado, várias cenas vieram na minha cabeça: Angel e Jay se balançando no balanço, que agora não bastava de um pneu largado; ela deitada com ele na grama brincando de "Aquela Nuvem Se Parece Com...".
Por mais que ela achasse que não, eu podia sentir parte da sua dor. Ou talvez estava iludindo meu coração, pra tentar confortá-la de um jeito que eu não sabia como. Então eu tive uma idéia.
–Espere só um minuto — disse já me afastando — vou fazer uma ligação.
–Ok.
Então eu fiquei longe o bastante para que Angel não ouvisse minha conversa, e disquei o número de Louis.
–Alô? — ele respondeu, não parecia estar com sono.
–Louis, aqui é o Marcus. Eu tô com o seu carro, vou passear com Angel...
–Diz o garoto que precisava de companhia há algumas horas pra atravessar a rua.
–E nesse intervalo de tempo — continuei sem prestar muita atenção naquele comentário — quero que você faça uma coisa. É o seguinte...
Após contar meu plano, Louis perguntou.
–Cara... Você tá afim dela?
–Não. Claro que não, é só uma gentileza.
"Eu não preciso de sua gentileza", falou a voz de Angel em minha cabeça.
–Hum... Então tá. Eu vou pegar a bicicleta do meu pai, e vou levar as coisas.
–Falô.
Desliguei e a chamei para entrar no carro.
–Que horas são? — Angel perguntou.
–5:51 pm.
–Temos que ser rápidos, daqui a pouco escurece.
Eu assenti.
Liguei o carro e botei pra funcionar. Comecei a atravessar os caminhos acolhedores de San Francisco, naquele final de tarde, que caía exibindo do céu, um tom alaranjado. A Ponte Golden Gate exibia-se de qualquer ponto daquele local.
O céu mudara de laranja para rosa, e começava a escurecer no horizonte, o azul escuro engoliria toda aquela imensidão.
Eu diriji por algumas ruas e lembrei:
–Nós ainda estamos com esses troços na bochecha.
–Deixa — ela falou sem nenhuma repreensão — Você fica fofo.
Dei um sorriso de lado. Aquele tinha sido um dos primeiros comentários gentis dela. Me peguei pensando na loucura de Louis:
"Cara... Você tá afim dela?"
Não: disse à mim mesmo.
Eu estava apenas uma tarde com ela. Isso, não aconteceria tão rápido... Aconteceria?
Pelo horário, até que não tinha tanta gente. Já estava escuro. O último pedaço do céu azul claro estava sumindo, a lua já havia ficado mais visível.
Eu estacionei, e quando saímos do carro percebemos:
–Mas que frio é esse? — Angel disse.
Eu não respondi: meu rosto surpreso esclarecia a resposta dela mais que qualquer frase de poderia dizer.
Então nós caminhamos sem casaco, até porque não tínhamos um, e isso foi uma péssima idéia.
Angel estava tremendo e espirrando.
–Quer um abraço? — eu perguntei com os dentes rangendo.
Ela me olhou de cima à baixo, com desaprovação, e respondeu:
–Não.
Eu fiquei constrangido.
Então ela, com a respiração pesada, me pediu para sentar no banco.
O banco era de madeira branca, um pouco gasta pelo fato de estar alí a algum tempo. Ele era inclinado, o que o deixava um pouco mais confortável.
O ar gelado corria pelo meu corpox e eu enfiava as mãos entre as pernas para me manter aquecido.
Ela olhou fixamente para o céu e disse sem tirar os olhos de lá:
–As estrelas são lindas. Pena que não dá pra ver quase nenhuma daqui.
Eu olhei para o céu junto à ela, e prossegui calado.
–Às vezes... — ela continuou — não que eu seja um grande problema, mas eu acho que se eu não tivesse nascido, a minha família iria sofrer menos — ela apertou as pernas e entrelaçou os dedos de uma mão na outra — meu irmão não teria que se preocupar e ter perdido tanto tempo comigo, meus pai iriam ter mais sossego, meus amigos não teriam que me aguentar, o céu teria mais estrelas...
–Seus pais te amam — eu olhei para o rosto dela — seu irmão era mais louco por você ainda. Tenho certeza, que apesar de qualquer coisa que você tenha feito, eles nunca se arrependeram de você. Se seus amigos te aguentam, é porque esse é o dever deles como amigos — eu me voltei para o céu novamente — o céu poderia ter mais estrelas... Mas com certeza, eu trocaria todas as estrelas visíveis por nós, por esse momento com você.
"Isso seria um crime para a astronomia!", pensei.
–Obrigada — ela não demonstrou uma nova emoção — mas eu sei que tudo isso é da boca pra fora. Eu sei que se eu morresse, todos iriam se lastimar, sofrer. Mas depois eu seria esquecida. Eu não moraria mais no coração das pessoas. Eu não iria passar de memórias, cinzas jogadas ao vento.
–Todo mundo, um dia, vai ser apenas memórias, até ser esquecido... Totalmente esquecido.
–Talvez... Mas já se passaram 2 anos, e Jay ainda está vivo em mim. A chama dele ainda arde, arde como se ele estivesse do meu lado. Ainda posso sentir o toque dele, ainda posso ouvir sua respiração, ainda posso visualizar as lembranças com clareza.
–Eu... Eu nunca perdi alguém importante — baixei a cabeça.
–Você tem sorte... Nunca queira perder alguém especial. Isso dói, e consome sua alma, te consome até não restar nada.
Eu fixei o olhar nela.
–É isso que a vida faz: ela te despedaça, pra te ver erguer das cinzas.
Ela esfregou os olhos com as costas das mãos em movimentos contínuos.
O frio se despertara ainda mais.
–Acho que é isso que aconteceu — ela respirou mais forte — a dor me consumiu, me despedaçou, e eu ainda não consegui me erguer.
Então eu a vi chorar.
–Pra falar a verdade — ela continuou — a dor ainda está me consumindo.
Eu não pude deixar aquela cena passar em branco. Estaria me chamando de idiota mais uma vez se não a abraçasse: foi isso que eu fiz.
Eu a abracei e enxuguei suas lágrimas. Ela não recusou o abraço.
–Você é um fofo — ela disse enquanto terminava de enxugar o rosto molhado.
Eu sorri pra ela.
–Eu tô com frio — ela prosseguiu — seu abraço não foi o suficiente, mas ajudou bastante. Obrigada.
–Vamos pra casa.
–Vamos.
Nós entramos no carro e fizemos o trajeto em silêncio.
A noite já estava mais escura.
O movimento havia diminuído, e o frio aumentara, Angel encostou a lateral na cabeça no vidro do banco da frente.
Quando estávamos à alguns metros da sua casa eu disse:
–Feche o olhos.
–Pra quê?
–Só feche.
Ela obedeceu.
Eu a conduzi até o gramado. A área era iluminada por uma lâmpada externa. Alguns vagalumes vagavam pelo jardim vizinho, e passavam entre a gente. Parei ela em frente à árvore e disse:
–Abra.
Ela abriu os olhos, colocou a mão na boca, e encheu os olhos de lágrimas.
Emoção, alegria e saudade: ela sentia tudo isso.
O pneu estava novamente preso à árvore com uma corda. Ele estava pintado de roxo e escrito em branco: "Em Memória À Jacob Condor".
Ela pulou em cima de mim e me deu um abraço esmagador, alagou minha camisa de lágrimas. Me deu um beijo na bochecha e disse:
–Esse beijo foi pra você.
Eu sorri. Não lembrava o dia em que uma pessoa me fez sorrir tantas vezes.
–Me concede essa oportunidade? — apontei para o balanço.
–Claro — ela ergueu a mão.
Eu segurei na mão dela, e eu a conduzi até lá. Ela sentou e eu declarei:
–Em memória ao Jay.
–Em memória ao Jay — ela repetiu.
Eu a empurrei no balanço bem alto e ela sorriu.
Era como se aqueles três segundos revivessem dez anos.
–É como Jay fazia! Mark, você é o melhor amigo de todos — ela saiu do balanço e me abraçou novamente.
–Você também é.
–Eu sei — ela riu — a experiência foi ótima, mas continuamos mais tarde. Vem eu quero te mostrar uma coisa.
Ela me guiou casa adentro, e foi ao quarto, me pedindo para esperar na sala.
Se dependesse de mim, eu não me mexeria, alí estava quentinho. E se sentir quente no frio é uma das melhores sensações, assim como: se desligar do mundo enquanto ouve música, acordar e perceber que ainda pode dormir, ganhar um abraço verdadeiro, ganhar um beijo no rosto, na boca, no pescoço, ouvir qualquer coisa que se refira bem à você, mesmo que tom de ironia... Poderia listar aqui, mil e uma sensações incríveis, mas vamos deixar para senti-las.
Ela voltou e me chamou para os fundos da casa. Lá, tinha um lago artificial, ela me convidou pra sentar.
O lago era um buraco nos fundos do terreno, com cascalhos cobrindo sua base e areia fina.
–Metade das minhas aventuras foram vividas aqui. Metade delas com Jay — ela comentou.
–Que tal começar uma nova aventura?
Eu puxei o celular do bolso dela, segurei sua mão e a joguei no lago.
Ela mergulhou de um jeito desajeitado, e emergiu com uma cara meio irritada.
–Desgraçado — ela falou enquanto tirava o cabelo do rosto.
Então eu mergulhei também.
–A água tá quentinha.
Eu pulei em cima dela, brigamos um poucos, joguei água na cara dela, então, eu a abracei.
Estávamos abraçados, num lago, quentes em meio ao frio, nossos corpos se completando, com a lua nos iluminando, e deixando seu brilho prata na face de Angel.
–Você me faz sentir especial — ela disse
E naquele momento eu percebi que eu estava afim dela. Podia beijá-la ou dizer as três palavrinhas, mas fui interrompido:
–Você é como um irmão pra mim Mark. Eu te amo.
"Ehh! Ela me amava! Mas como o irmão que ela perdeu".
–Eu te amo também — falei de verdade, mas não do jeito que era pra ser.
Nós nadamos um pouco.
Eu saí e ela me entregou um anel prateado escrito: 4ever.
–O símbolo da nossa amizade.
Ela me deu um beijo no rosto, nos despedimos. Eu entrei no carro e voltei para casa.
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