O Ciclo da Vida

1 O Diagrama de Oliver


Bom, pra quem não me conhece, prazer!
Eu me chamo Marcus Oliver, mas pode me chamar de Mark.
Estou no primeiro ano médio da escola, tenho 15 anos, gosto de pizza, gosto de jogar videogame, odeio esporte, gosto de passear com meus amigos quando possível, gosto de estar perto de quem eu gosto, tenho uma grande reflexão sobre a vida, odeio ficar sozinho, odeio ser desprezado e etc...
A minha vida é igual a de qualquer um: eu estudo, como, passeio, tomo banho, tenho um raciocínio razoavelmente bom... Uma pessoa normal. Talvez tão normal, que chego a ser sem graça. Também não sou geralmente engraçado: sou do tipo que escuta, e ri em meio aos outros. Sou tímido no começo, mas quando conheço alguém melhor, me solto, se é que posso dizer assim.
Tenho várias formas de carinho: às vezes prefiro ficar calado, e caso tenha oponentes, eu não corro atrás do que eu quero, sempre deixo tudo escapar entre os dedos. E não quero mudar, não nasci corajoso, então vou continuar assim. Talvez pareça estranho, mas é assim que eu vejo a vida: um ciclo infinito, de erros e acertos.
Quando se nasce no ciclo infinito, não tem jeito de mudar o rumo da coisa. Se alguém nasce no ciclo do medo (A), não tem como pertencer totalmente ao ciclo da coragem (B), você vai estar no conjunto C entre o A e B.
Você será um ponto neutro no centro de dois ciclos importantes. E ser neutro, na maioria das vezes, não faz a menor diferença, e não te faz ser importante ou melhor que os outros, não te faz ser no mínino um pequeno destaque.
No meu caso, não tenho muito interesse de mudar o rumo do ciclo, não quero ser um "C entre A e B", não quero ser um neutro que não faz diferença pra ambos os lados.
Estar dividido é complicado.
Por isso, eu procuro pensar antes de fazer uma escolha, para depois não se arrepender, e ir procurar um novo rumo: pra não mudar de ciclo.
Assim como eu odeio mudar de ciclo, odeio pessoas que mudam, ou as que destroem seu ciclo. Estou cansado de ver pessoas que fazem outras felizes, e depois as machucam para ficarem com outras. Elas mudam e destroem, estão fazendo estrago em dobro.
Não entendo como pessoas assim conseguem dormir sem se sentir culpadas.

Minha mãe é separada.
Minha mente se remexe, vira e volta, mas não consigo entender o porquê de seu antigo namorado à trair. Ele poderia tê-la despachado antes, pra não magoá-la tanto, para não deixar marcas mais profundas, pra mudar para o ciclo B sem destruir o A, pra não mudar de namorada sem magoar tanto a outra.
Esse dia foi terrível...
Minha mãe tinha marcado de ir jantar no restaurante que o cara cozinhava. Ele pediu para o dono deixá-lo depois do horário, assim, ele e minha mãe iriam jantar.
Eles já estavam juntos por umas duas semanas, o que me desanimou e me alegrou ao mesmo tempo. Não vou dizer que é a pior coisa da galáxia ter um possível padrasto. Podem haver várias coisas legais e incríveis que ele consiga fazer, assim como as coisas idiotas e irritantes, e isso me deixava desanimado. Com um pouco de raiva às vezes. Mas não existia melhor sensação do que ver minha mãe sorrindo em frente ao espelho, sem notar falhas, sem se culpar. Ela olhava e gostava do que via, ela esbanjava uma aura de felicidade que não se podia descrever nem com a maior equação possível. E isso era lindo. Não importasse quantas idiotices eu tivesse que suportar, se isso tudo valesse pelo menos um sorriso verdadeiro dela por dia. Tudo valeria à pena. Pelo menos até então.
Minha mãe marcou de jantar às 8:30 pm. Já que era domingo, e naquele dia o restaurante fecharía às 7:00 pm, os funcionários ficariam cerca de 50 minutos para a limpeza. Então, minha mãe resolveu chegar às 8:10 pm, e quando ela chegou, viu o cara se pegando com a recepcionista, que aliás, é bem gatinha.
Ela gritou.
Gritou como uma vítima de um possível assassinato descobrindo o assassino. Após o grito, ela mandou pra ele o dedo do meio através da vitrine, pegou um táxi, e veio com a cara encostada na janela.
Enquanto as pequenas gotas de chuvas formavam um véu fino em San Francisco, pingavam no vidro, e ela via o frio daquela cidade, via o caos do mundo, consiguia enxergar a impureza da humanidade. Viu que tudo que era bonito, escondia algo por trás, que a beleza é apenas um disfarce, quem a usa corretamente consegue alcançar horizontes. Mas quem a usa em pról de iludir, consegue transmitir muito mais do que apenas uma ilusão: consegue transmitir um turbilhão de sentimentos, e esses, o antigem com tudo. A única saída é encostar a cabeça na janela, e pensar, tentar esvair as dores, mesmo que não totalmente. Tentar já é um começo.
Quando ela chegou aqui em casa, estava com a maquiagem borrada, coberta por lágrimas. Nessa noite, eu fiz brigadeiro, tentei fazer o máximo para confortá-la.
Nós assistimos um filme, e eu fui o psicólogo dela, também fui o responsável por pegar todos os lenços de papel.
Enfim, se eu estivesse no ciclo B da coragem, eu daria um soco no olho dele, e um chute nas bolas, pra deixar de lembrança.