O Ciclo da Vida
6 Encenação
Antes de chegar em casa, eu deixei o UNO de Louis na garagem, e agradeci o que ele fez essa noite.
–Amigos são pra essas coisas — ele disse.
Fui o caminho inteiro pensando nela.
Naquela noite fria, a mesma noite fria em que minha mãe vira a parte feia do mundo. Mas eu não, eu estava vendo a beleza das coisas.
Percebi como os meninos são idiotas, se apaixonam por qualquer abraço e beijos no rosto. Mas Angel tinha algo diferente, ela tinha uma magia, sua personalidade forte, sua beleza, o jeito que ela se expressa e desabafa é totalmente viciante, você quer ouvir mais e mais. A maneira que ela olhava pra mim, aqueles olhos azuis claros. Percebi que voltei pra casa com overdose de Angel. Meu cérebro pirava toda vez que eu pensava no nome daquela garota. Ese foi o melhor dia da minha vida desde que eu me entendo por gente.
Começou a chuviscar de repente. No decorrer do caminho, via as pessoa pela rua: algumas conversavam com amigos em frente à sua casa, outras estavam fazendo churrasco, e todos estavam em volta da churrasqueira para se manterem aquecidos; eu vi casais de namorados abraçados: palavras, votos e promessas indo e vindo um do outro. Poderiam estar fazendo planos pro futuro, ou só sendo carinhosos um com o outro. Também poderiam estar jogando as palavras no vento:
"Tudo da boca pra fora", dissera Angel.
Mas é quase impossível saber o que acontecerá no ciclo do amor, este é o pior dos ciclos: suas reviravoltas são imensas. Todos deveriam vir ao mundo com um aviso: CUIDADO: NÃO SE APAIXONE.
Talvez deixasse a pessoa mais ciente, talvez ajudasse em algo, talvez não ajudasse em nada.
Por isso o ciclo do amor é o pior: é impossível de se moldar com precisão, e é quase inevitável.
Quando cheguei em casa, minha mãe só perguntou da roupa molhada, ainda era 8:00 pm horas, eu poderia ter ficado mais com ela, ou com Louis, mas decidi deitar na cama, depois de um bom banho, e pensar nela.
Tirei as roupas molhadas e fui ao banho. Um banho quente, como sempre. Pelo menos, eu sabia que a chance de, naquela noite, eu morrer de hipotermia, era quase nenhuma.
Mas havia algo diferente, eu não me sentia tão frio, eu não me sentia tão vazio, eu não me sentia tão só.
Como pode alguém te tornar uma pessoa totalmente diferente em tampouco tempo?
Eu pensei no nosso abraço no lago, aquele momento, em que eu percebi que eu gostava dela, que poderia assumir, mas ao mesmo tempo não podia, porque pra ela, eu era como um irmão. Eu não podia culpá-la, as coisas estavam acontecendo rápido demais, o que eu falaria?
"Olá, eu sou Marcus Oliver, te conheço à algumas horas e já quero seu corpo nu".
Eu não podia estragar a nossa amizade, até porque a amizade é a base pra qualquer romance de verdade. Acho que alguém só pode se apaixonar verdadeiramente, se primeiro ela for amigo e entender todos os sentimentos e preocupações da outra pessoa. Do que adianta amar e haver amizade?
Eu não arriscaria tudo por um beijo. Então decidi que iria me calar, e esquecer, iria ser o bom amigo, o irmão.
"É isso que a vida faz. Ela te despedaça, te pra ver erguer das cinzas".
Quando falei aquilo estava pensando nela. E agora eu percebi como ela é forte. Eu não me imagino passando por tudo isso. Eu realmente desmoronaria, e não teria coragem de lutar. Talvez ela esteja no ciclo da força emocional, ela sabe lidar com as coisas, mas não esconde o que sente, ela não deixa a mágoa corrompê-la, ela joga tudo pra cima, como já disse, ela tira o peso para se manter mais leve. E essa transparência dela, essa determinação, é linda. E eu percebi também porque ela gostava de mim: porque eu fiz a chama de Jay arder mais forte, eu revivi sua presença, eu entendi suas palavras. E ela nunca iria me tratar como namorado. Iria ser o irmão de sempre. Iria ser a reencarnação de Jay Condor pra fazê-la companhia após sua perda. Mas eu não estou reclamando. A amizade dela é a coisa mais pura que eu já senti.
Decidi então, tirar o nome dela de minha cabeça por um momento, e ir dormir, amanhã seria mais um longo dia de aula.
Fechei os olhos e apaguei.
Quando acordei, não estava com sono, estava disposto. Angel me fez mais bem do que eu esperava.
Eu fiz as mesmas coisas de sempre, e comi torradas com Nutella. Vesti a mesma calça, uma blusa amarela com caixas de som e notas musicais de partitura, e meu All-Star Tech preto; sim eu gosto pra caramba de All-Star.
Eu disse tchau pra minha mãe e passei na casa de Louis.
Ele veio e estava escutando Boulevard of Broken Dreams.
Ele estava com uma faca na mão, estranhei, mas enfim falei:
–Vamos?
–Sim — ele respondeu como se estivesse no seu outro mundo paralelo: Louis e o Sono.
E se você juntar o mundo paralelo 1 e 2, não teremos uma combinação tão gratificante.
–E essa faca?
–Ah é — ele olhou pra ela como quem olhava pra lição de casa — cara eu tô lerdo hoje. E pior ainda, minha mãe passou cera no chão.
"O que tem de mau em cera no chão?"
Ele abriu a porta e no primeiro passo escorregou no piso encerado.
"Ah, Louis estava lerdo, e nos seus dois mundos paralelos, cera nunca era uma boa opção".
5 segundo se passaram e ele não se moveu.
–Louis?
Então uma poça de sangue se formou sob ele.
"Mas o quê..."
Ele estava com a mão direita sob o corpo, a mesma mão em que segurava a...
–Louis... AÍ MEU DEUS A FACAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!
Eu corri desesperado e o virei.
–LOUIS LOUIS LOUIS LOUIS LOUIS LOUIS!
Eu virei e nenhuma parte do seu corpo parecia perfurada, ele resmungou:
–Vo... In... Ta.
–O QUÊ? — me desesperei.
–VOCÊ É UM IDIOTA.
Então ele sorriu e levantou a camisa: mostrou a bolsa de sangue falso e a faca de brinquedo.
Eu fervilhei de raiva.
–VOCÊ SABE O SUSTO QUE ME FEZ AGORA?
–CALMA — ele disse na lentidão de sempre — estou ensaiando pro teatro.
–Você? No teatro? Sei. Conta outra.
Ele revirou os olhos e disse:
–Você dúvida do meu potencial?
–Sim. Vamos Louis, pega essa lataria — apontei para a garagem.
Ele ainda irritado tirou o UNO de lá e, em seguida, fomos pra High School York Future.
–O que rolou ontem com a Angela?
–Angel — corrigi.
–Angel, Angela, Angélica, Angelina. É tudo a mesma coisa.
–Bom eu sai com ela pro Central Park. E estava frio. A gente sentou num banco e ela desabafou comigo. E eu tentei consolar. Então ela viu o balanço, se emocionou, a gente mergulhou num lago artificial, e ela me deu esse anel escrito: 4ever — disse sem especificar as partes mais tocantes.
–Aí que lindo, vou até vomitar arco-íris — ele ironizou com o rosto sério — Cara...Você tá afim dela?
–Não — se eu falasse o que sentia de verdade dela para ele, no dia seguinte já estaria sendo anunciado no The New York Times.
Não que Louis seja fofoqueiro, claro, mas ele iria querer juntar a gente, e iria fazer uma droga só.
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