O Ciclo da Vida
7 Os Ciclos Se Iniciam
Nós descemos do carro depois de Louis estacionar. E adivinha quem estava esperado a gente na escadaria? Angel! Em sua forma mortal e angelical.
Hoje ela vestia uma calça jeans azul, rasgada em tiras na parte da coxa, um Converse preto, e uma regata estampada com o Justin Bieber.
Ela levantou a mão e acenou apenas mexendo os dedos e piscou pra mim. Aquilo estremeceu meu corpo inteiro.
–Bom, eu tenho que agradecer alguém — ela disse.
Então deu um abraço em Louis por ele ter feito tudo enquanto passeávamos. Ele tomou um susto, mas se aproveitou e foi abaixando a mão.
–Vai com calma garotão — disse ela enquanto tirava a mão dele do seu corpo, antes que ele abaixasse demais.
–Foi mal — ele se desculpou.
–Porque os homens estão sempre nucís?
–Eu não tô! — protestei.
–É porque você é gay, mano.
–Vai achando.
O primeiro sinal focou e uma multidão de alunos atravessou a entrada da escola.
–Bem na hora — Louis disse.
–Vamos Marcus-Não-Nucil — disse Angel.
Então nós entramos.
Vários armários estavam enfeitados com adesivos e glitter.
–Que clichê — comentou ela.
E quando olhamos nossos armários sem graça, todos os livros estavam lá.
"Bom saber que alguém sabe a senha de todos os armários!", ironizei para mim mesmo.
–Vocês tem aula de quê agora? — eu perguntei.
–Religião — Angel respondeu.
–Física — disse Louis decepcionado — e você?
–Religião.
–Legal, vamos — ela segurou em minha mão e me puxou.
Eu acompanhei Angel até a sala.
Então nós entramos, e sentamos lado a lado.
A aula era sobre a guerra entre Israel e os islamistas. Estudamos as crenças islã, fizemos um resumo da aula, e um texto sobre o que nós achamos sobre eles terem contrariado as leis da religião. O professor disse que iria continuar o assunto na próxima aula, e parte dela, baseada nos nossos textos, para entrar no assunto pela parte entendida por nós, e depois explicar mais coisas do islã.
Todos foram dispensados.
No caminho da próxima aula Angel disse:
–Se auto explodir é burrice.
–Eles poderiam explodir as escolas — comentei.
–Nem o abracadabra do Harry Potter destrói essa belezinha — disse ela colocando a mão na parede.
–Abracadabra do Harry Potter?
–Eu não leio isso, nem assisto o filme, então não me chame de burra.
–Você é burra por não ler nem assistir... Não sabe o que está perdendo.
Ela revirou os olhos.
Fomos para a sala de química, e aprendemos fórmula.
Aquela sala cheirava à álcool e formol, tinha um cheiro parecido com o laboratório da minha antiga escola, e tudo me lembrava hospital, e como a maior parte da juventude, eu odeio hospital.
Em cada sala hospitalar tem uma agulha esperando por você. Todo aquele eco, a espera, todo aquele aroma desagradável, tudo me dá ânsia de vômito.
Estava indo ao hospital com minha mãe depois de estar perdendo o apetite:
–Exames — ela disse — alguns exames.
Mas eu sabia que aquele "alguns" era bem mais do que eu esperava.
Todos aqueles corredores sem fim, todas aquelas pessoas indo de um lado ao outros, tudo deixava minha cabeça palpitando.
Estar naquele lugar, me fazia lembrar de quando me perdia no supermercado: eram minutos aterrorizantes.
–Sr. Marcus Oliver France? — disse a moça que ficava no auto-falante.
Minha mãe se levantou com um pulo e foi dando passos rápidos e precisos até a sala B2. De lá, surgiu mais uma mulher vestida de branco com uma daquelas mascaras que eles usam na boca: uma médica.
–Sra. Olivia Morg France?
Minha mãe assentiu.
–Pode entrar.
A médica olhou pra mim e sorriu, percebi isso pois as maçãs do rosto dela se ergueram, um olhar acolhedor. Mas como disse, uma coisa bonita sempre encobre um coisa feia, e eu tinha certeza, que por trás daquele sorriso, havia uma agulha pronta pra me perfurar.
Quando entrei na sala, vi o tipo de cadeira que eles usavam, vi agulhas descartáveis, vi pequenos tubos de borracha e cilindros de plástico com uma coisa vermelha dentro: sangue.
EXAME DE SANGUE.
Eu dei um passo pra trás assustado, mas minha mãe me segurou com força, tentando disfarçar a situação.
–Marcus — ela disse — lembre-se do que eu disse, a picada da agulha é como se fosse a picada de uma formiguinha.
–Picadas de formigas doem! — protestei.
Um senhor estava na cadeira ao meu lado finalizando o exame.
–Você pode seguir para casa, nós faremos o exame, e veremos se seu sangue está saudável para ser doado — disse uma enfermeira.
–Doar sangue? — perguntei para mim mesmo.
Ele me olhou.
–Sim meu jovem — ele tinha a pele branca e vermelha, com poucos cabelos na parte superior da cabeça, vestia uma calça surrada e camisa xadrez vermelha e marrom, com olhos castanhos e esbugalhados — doar sangue.
–Por que você faz isso? Pelo dinheiro?
–Mark! — minha mãe apertou meu braço.
–Também — ele riu — mas não só por isso. Eu ainda estou em pé, mas um dia, sei que precisarei de ajuda. Você colhe o que planta, não é mesmo? E como eu não tenho família, ajudo os outros como se fizessem parte da minha.
–Como você considera todos uma família se nem mesmo conhece eles?
–O mundo gira. Um dia você é a caça, no outro o caçador, um dia você necessita, no outro poderá ajudar o necessitado. Todas as coisas dão voltas, o dia vira noite, a noite vira dia — ele se ajoelhou para que eu tivesse melhor visão dele — as coisas estão sempre em movimento, o ciclo está sempre sendo construído. Esse é o ciclo da vida: um ciclo de erros e acertos, idas e vindas. Você vai fazer uma escolha hoje, que irá alterar seu futuro. E faça essa escolha sabiamente, colha o que quer plantar, não faça com o outro o que não queres que te faça. O ciclo da vida é feito de escolhas, e só você pode fazê-las.
–O ciclo da vida? — perguntei.
–O ciclo da vida — ele respondeu e saiu.
–Mamãe — disse.
–O quê?
–Estou preparado, não vou fraquejar.
Esse foi o único dia em que eu não odiei totalmente uma ida ao hospital, porque daí, surgiram os ciclos.
Fomos pro intervalo finalmente.
Louis veio correndo e disse:
–CARA O CORPO DA CLARISSE DANYOR É PERFEITO.
–É eu vi. Você pode tentar pegar ela.
–E tinha uns garotos da aula de física dizendo que iriam fazer o Jordan beijar a Angel. Ele pediu e ela não quis, então na saída ele vai dar o beijo, ou fazer coisa pior.
–QUÊ? ISSO NÃO PODE ACONTECER!
–Por quê? É só um beijo. A garota virou propriedade particular sua?
–Não mas... Aff.
–A próxima aula dele vai ser de espanhol, e ela vai tá lá. Ele vai passar uma cantadas nela. Se ela ceder ele vai roubar o beijo. Se não, ele vai fazer isso à força.
–MERDA.
Louis revirou os olhos.
–Pra quê tanto desespero? Você não é o pai dela.
–Eu sou o irmão — então mostrei o anel 4ever.
–Só por causa que ela te entregou isso, não significa que você vai ser o escudo de vibranium dela.
–Onde ele vai beijar ela?
–Perto da casa. Por quê?
Eu lancei um olhar malicioso.
–Eu não acredito que você está pensando no que eu estou pensando! Cara... No que, que você tá pensando?
–Te conto no caminho da aula de filosofia.
–Olha não quero me meter em encrenca!
–Estamos no colegial cara, temos que fazer algo interessante.
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