O Cemitério
2 Capítulo 2 - Afrodite
Assim que resolvi tudo com Olívia sobre o café, ela se foi. Repassei tudo o que havia acabado de acontecer, a sua presença me invocando, seu choro, seu lamento, seu nome, o por do sol, o pedido, tudo. Não entendia esse sentimento que aflorou ao olhar para ela. É um sentimento terreno, o qual me fez querer me afastar dela no início, mas assim que a vi no cemitério eu tive o impulso de... Afrodite.
Como pude ser tão burro? Como pude me deixar levar por uma deusa fanfarrona que aprecia o amor, ou melhor, que aprecia quem sofre por amor. Entendi porque ela estava atrás de Olívia, ela amava a família, Afrodite viu isso e soube que ela sofreria. Não duvido nada que ela tenha armado, de algum jeito, aquela chuva só pra ela ver o amor de muitos se transformando em dor.
Ela não é toda má, suas intenções, as vezes, não são as piores. Mas preciso conversar com a bela deusa.
– Eu não acredito que está tentando controlar isso, sobrinha.
A moça elegante que havia esbarrado em Olívia, tirou o lenço e os óculos escuros. Revelou-me o rosto mais belo já formado. Afrodite.
– Não acredito que não soube antes, titio.
Ela riu de maneira debochada.
– Não se meta nisso. Ela já está sofrendo o suficiente e você não...
– Ai, titio — ela me interrompeu com desdém e foi se aproximando de mim — você está muito tenso. Até parece que eu vou matá-la. Pelo contrário, gostaria que ela vivesse de um jeito mais... Vivo! — e riu. Riu como se fosse uma piada ótima. — você não precisa se preocupar.
O sol já havia ido em bora e dava lugar à algumas estrelas no céu, o rosto da deusa ficava ainda mais belo sob o luar. Odiava me sentir atraído por ela. Não era eu, ela que provocava isso, ela gostava de ser a mais bela. Odiava isso, mas concordo plenamente. Ela é linda, o corpo, os olhos multi coloridos, o nariz, praticamente, esculpido, as maças do rosto, a boca, tão próxima da minha...
– Pare já.
– Parar com o que?
– Eu sei o que você está fazendo, funcionou com Ares e funciona com os terrenos, mas não vai funcionar comigo.
– Não sei do que você está falando, titio. — ela fez uma cara de desentendida e deixou pra lá. Ou, pelo menos, por enquanto. — E de qualquer forma, sei que você já tem olhos para outra. Como é mesmo o nome? Olívia?
Ela sorriu.
– Qual é seu plano?
– Não tem plano. Ta, tudo bem, eu dei um empurrãozinho no seu sentimento por ela, e fiz ela aceitar o seu pedido, mas agora eu já não preciso fazer mais nada, só observar o desenrolar da historia.
– Não vai ter história, eu vou acabar com isso logo.
– O que? Não vai sair com ela? — Ela pôs a mão na cintura fina e desenhada — Não me venha com essa, titio. Você sabe o que está sentindo, não negue. Além do mais, você precisa mesmo de alguém, você não fica com ninguém desde... Hm, desde quando Maria se foi.
Maria. Não esperava ouvir o nome dela.
– Não coloque-a no meio disso.
– E os terrenos achando que você era fiel á Perséfone! Mas eu não te julgo, titio. Sei como é irritante ter a mesma pessoa do seu lado desde sempre, ainda mais a insuportável da Perséfone. Não sei o que você vê nela, ela nem é tão bonita, eu sou muito mais!
Lá vamos nós, pensei. A minha sobrinha não era muito fã da minha esposa, isso porque os homens costumavam comparar a beleza das duas e Afrodite não aceita muito bem ter a beleza considerada inferior a quem quer que seja. Quem quer que seja.
Interrompi seu blá-blá-blá.
– Olha, eu não estou apaixonado pela Olívia.
– Ah, não?
– Não.
– Então desmarca seu encontro com ela.
Ao dizer isso ela entregou um celular e disse:
– Eu sei que você tem o número dela. Vamos lá, desmarque.
Desmarcar? Não posso... hesitei. Não posso? O que não posso é deixar Afrodite me controlar. hesitei mais.Hesitei por muito tempo e vi o sorriso triunfante no rosto adorável de Afrodite.
– Não posso. — disse
– Você pode. Mas não consegue.
Cerrei os dentes, me senti derrotado. Mas aliviado.
– Tá bom, tá bom, eu fui com a cara dela, ok? Achei ela linda, me encantei, to louco por ela, quero que ela seja mim e todos aqueles blá-blá-blás que você costuma ouvir. Mas eu quero ela. Entendeu? Eu quero Olívia, só ela. Não quero que você interfira.
– Não posso prometer, titio. Sabe que me encanto com casos de amor.
Eu não consegui mais ouvir essa ladainha. Virei as costas e fui andando deixando-a falando sozinha. Não sabia pra onde ir, mas fui andando. Até que ela me chamou. Que voz doce, precisava ouvir mais. Ela me chamou outra vez, me virei, fui em direção à ela. Faria tudo o que ela me pedisse naquele exato momento, não importa o quão idiota fosse, eu faria. Por ela.
– Sim? — preguntei sorrindo.
– Ouça bem , ta bom, titio?
– Tudo por você, sobrinha querida. O que você quer que eu faça?
– Quero que você ligue para ela e marque de sair hoje à noite. Ela vai aceitar. Quero que vocês se sintam bem. Quero que vocês se amem. Quero ver você e ela felizes juntos, entendeu?
Eu fiquei hipnotizado por um tempo, depois lembrei o que estava acontecendo.
– Afrodite, pare de usar seus poderes contra mim, ou usarei os meus contra você.
Ela percebeu o quando eu estava enfurecido, mas sabia que já tinha conseguido que queria. Eu iria mesmo ligar para ela esta noite, iria mesmo querer que ela aceitasse. Queria que ela se sentisse bem para eu poder me sentir bem também. Aliás, quero. Quero faze-la feliz, quero resgatá-la da morte, curar suas feridas, quero poder amá-la e quero que ela me ame.
Minha sobrinha percebeu isso e sorriu. Sorriu um sorriso encantador. Ela se aproximou mais de mim e colocou a mão em meu peito e subiu ela pela minha nuca.
Estava hipnotizado outra vez, mas dessa vez consciente. Estava hipnotizado pela sua incrível beleza. Ela era magnífica. Sabia o que queria, ela queria ter a certeza de que ainda é a mais bela e desejada de todas. Ela queria que eu esquecesse meu sentimento por Olívia, por Maria ou, até mesmo, por Perséfone, pra ficar com ela naquele momento. Como disse, Afrodite nunca se dava por vencida, ela queria ser a mais desejada por todos os homens. Eu pensei em afastá-la, mas sabia que ela me perseguiria e talvez, até fizesse Olívia sofrer para ter certeza de algo que ela julga ser a maior das verdades. Afrodite era insegura. Sempre foi. Nesse momento, ela precisava de mais um homem para se garantir. Ela nunca vai parar.
Olhei para dentro dos olhos dela e sabia que estava certo. Ela sorriu de canto de boca. Se aproximou mais de mim e me deixei levar.
Beijei-a.
Depois empurrei-a para longe de mim. Não era ela que eu queria.
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