O Cemitério

3 Capítulo 3 - A Garçonete


Afrodite ficou extremamente furiosa por eu ter empurrado ela e deixado claro que não queria ela, ela estava planejando algo mas fui mais rápido.

Os corpos saíram de suas lápides e a seguraram. Ela gritou. Eu não liguei. Dei ordens aos mortos que a segurassem até ela jurar pelo Rio Estige que não iria atrás de mim, de Olívia ou de qualquer um que está, de alguma maneira, envolvido com a minha vida.

Fui até algum restaurante de comida mineira pois queria aproveitar daquela culinária fantástica.

Assim que me sentei, percebi os olhares.

Por dois motivos: primeiro: eu sempre deixava um clima ruim de velório por onde quer que eu passe. segundo: bom, ainda sou um deus grego.

Uma garçonete loira venho me atender. Não a reconheci na hora mas depois reparei quem era.

– Você ta me seguindo?

Era Olívia.

– Juro que foi coincidência!

Ela riu e eu vi uma pessoa totalmente diferente. Ela escondia sua morte muito bem.

– Não sabia que era garçonete. — disse

– Eu não costumava ser garçonete. Costumava ser professora, mas eu fui afastada...

– Afastada?

– É uma longa história.

– Temos tempo. Você é a minha convidada. Vamos, senta aí.

Ela me olhou com cara de desentendida.

– João, eu não posso sentar com você. Eu to trabalhando.

– Tudo bem. Eu te espero. Quando você terminar, me chama e a gente sai. Vou espera aqui.

– Ok, o que vai querer?

– Nada, vou esperar pra comer com você.

Ela sorriu. Estava viva.

Quando ela se virou, ela voltou a ser morta. Ela morre quado ninguém olha. Percebi que ela é uma mulher forte, típica brasileira.

As mulheres do Brasil são fortes, decididas, se recusam a sofrer. Ela é uma dessas.

Mas a dor que ela sente é muito mais forte do que ela.

Fiquei observando ela trabalhar, na frente dos outros ela renasce das cinzas, é sempre simpática, sempre com um sorriso no rosto mas toda vez que se vira ela morre.

O que será que se passa pela cabeça dela? Será que ela vai superar?

Fico imaginando como deveria ter sido sua família. Um marido bonito, trabalhador, que sempre que chega do trabalho lhe da um beijinho e conta como foi o dia, depois espera pra ouvir o dia dela. Uma vez na semana à entrega flores, consegue pedir desculpas sempre que está errado. Depois de colocar o filho pra dormir dança Tom Jobim na sala de estar. Vai de férias à praia mais próxima e toda a família se diverte. Muitos castelos de areia, muitos mergulhos no mar, muitos sorrisos, muitas risadas. Ela mesma faz o almoço pros dois homens da vida dela. Até que isso acaba. De súbito, do nada, sem ninguém esperar ela enterra sua família perfeita, enterra sua vida. Mas ela permanece. Olha pra dentro de casa e vê o quanto ela perdeu. Ela dava valor quando tinha, mas quando perdeu ela deu mais valor. Lembrava das pequenas coisas que a deixava feliz. Dos desenhos que o pequeno fazia para ela na escola e depois colava na geladeira de casa. Passa a noite bebendo e escutando Tom Jobim para se lembrar do homem que mais amou em toda a vida. Ficava bêbada. Deve ser por isso que perdeu o emprego, não aguentava as crianças felizes com suas famílias felizes na frente dela. Mas, mesmo assim, refazia o mesmo ritual toda noite. Bebia ao som de Tom Jobim. Lembrava-se de cheiros, de vozes, de beijos, de afagos, de olhos profundos.

Quando percebi que estava longe, ela estava parada na minha frente e me encarando com os olhos de defunto mas com um sorriso no rosto.

– Tá aí ?

Eu sorri envergonhado.

– Estou aqui. — olhei para ela. — te esperando.

Ela olhou pra mim com o olhar interessado e disse:

– vou guardar meu avental e te dar atenção.

– Eu espero.

Ela foi e pensei no quanto poderia estar certo ou no quanto eu poderia estar errado. Poderia ser tudo de um jeito muito diferente do que eu pensei. Estava curioso e queria saber isso dela.

Ela voltou.

– Vamos?

E fui.

Curioso e encantado com essa mulher brasileira.