O Cemitério
1 Capítulo 1 - Mortes
Notas iniciais
A morte. Não os mortos."
Linda.
Era só nisso que eu conseguia pensar, a mulher diante dos meus olhos era linda, sua pele clara e seus olhos escuros, seus cabelos louros e o olhar arregalado, assustado, abatido, morto. Ela era mais do que linda, ela me encantava de tal forma que precisava dela perto de mim. Sentia que ela precisava de alguém, toda a sua família havia vindo me visitar há duas semanas atrás e ela estava sozinha, morta também, mas de outro jeito, um jeito mais complexo que me deixava fascinado.
Eu sei que é um ultraje ficar fascinado com a morte, seja ela física ou não, das pessoas mas eu sou o deus dos mortos.
A morte sempre me fascinou.
A morte, não os mortos.
Os mortos são, na maioria das vezes, uns chatos e ingratos. Eu os acolho em minha própria casa e eles ainda ficam se lamentando! E tem aqueles metidos no Elísio, se acham os tais porque foram dignos do Paraíso. Por favor... Como se não bastasse tudo isso, ainda preciso levar Cérbero para passear todo santo dia. Por mais que isso me irrite eu adoro meu cãozinho e se isso me tira da mira daqueles ingratos, incluindo minha esposa Perséfone, eu vou sem pensar duas vezes.
Neste dia eu resolvi ir ao Brasil, depois de deixar Cérbero em casa, fui visitar as vitimas daquele soterramento. Foi uma beleza, vários mortos de uma vez, incluindo a família dessa mulher linda. Eu , escondido nas sombras, assisti o desespero dos vivos e a confusão os mortos, assisti aos noticiários, as falsas culpas. Assisti tudo, fiquei bastante tempo por lá, assisti os brasileiros patéticos continuarem com sua vida patética.
Sabe, eu acredito que o povo brasileiro tem um grande potencial mas que são burros demais para perceberem o quanto são ótimos.
Eu perambulei por toda a região do país até voltar ao meu ponto de partida, onde estava tudo, praticamente, do mesmo jeito que deixei. Apenas promessas de melhora e a mulher. Linda. Magra mas brasileiramente linda. Os cabelos loiros, os olhos escuros e mortos. As roupas de luto. Observei-a por muito tempo, até que resolvi agir. Ela estava no cemitério visitando a família, tomei minha forma humana.
A última vez que me apaixonei por uma terrena, foi por Maria, não acabou bem mas eu a amava.
Mas nessa mulher tinha uma coisa diferente, era como se sua presença me invocasse. Cheguei perto, com os olhos fundos a pele quase translúcida, as barba por fazer, o cabelo castanho na altura do ombro.
Uma vez, Nico, meu filho, disse-me que minha forma terrena era bem parecido com um ator famoso no EUA chamado... Hm... Como era o nome? Ah, sim! Deff! Johnny Deff, ou algo parecido.
Me aproximei e puxei algum assunto.
– Foi a tragédia?
– Sim. A tragédia.
– Sinto muito.
– Tudo bem. Eu só não entendo, sabe? — ela precisava desabafar, e me escolheu pra isso. Gostei de conseguir a confiança dela logo de cara — Porque levar toda a minha família? Ou melhor, porque me deixar? Porque deixar só a mim? O que eu fiz pra merecer essa dor insuportável? — sua voz foi se alterando — Eu fui uma boa mãe pro meu filho, fui uma boa esposa, eu conseguia deixar todos felizes dentro de casa, nós nos amávamos, minha vida era perfeita, minha família era perfeita, mas agora acabou! Acabou! Estou sem minha família e sem meu emprego! Eu estou mais morta do que eles, eu deveria ter sido enterrada junto! Eu... — ela se lembrou que estava falando com um completo estranho. — Eu sinto muito te encher com isso, quero dizer, eu mal te conheço, mas o seu sinto muito foi o mais sincero que recebi.
– Sabe, as vezes não entendemos o que acontece em nossas vidas simplesmente porque é algo fora do nosso alcance. A morte — a maneira como disse morte a deixou com dor. Com mais dor. — é algo fora do alcance de qualquer um, acontece o tempo todo. Acredita em mim, eu entendo. Sei o que é morte, sei o que é luto. Luto é uma coisa na qual devemos nos apegar, o luto faz parte da vida. No luto é quando pensamos com clareza — enquanto falava ela chorava — o luto é contínuo, o luto é eterno, principalmente no seu caso, mas com o tempo é preciso aceitar que certas coisas, simplesmente, se vão. Para fora no nosso alcance.
– Quem é você?
Não tinha pensado num nome adequado. Não queria dizer Hades, ela parecia ser muito culta e estranharia... Pensei no nome do ator famoso, como é mesmo? Hm... Johnny! Mas Johnny não é nem um pouco brasileiro... João? É, tá aí. João.
– Meu nome é João.
Ela deu um sorrisinho de canto de boca, enquanto encarava as lápides.
– É um belo nome, João.
– E o seu, qual é?
– Olívia.
– É um belo nome, Olívia.
Ela sorriu. Ou tentou sorrir.
O sol estava se ponto e deixou o cemitério com uma aparência linda. O céu estava perfeito, as árvores deixando suas folhas balançarem pelo vento fraco, tudo estava lindo. O cemitério, ela, a sua dor, os corpos sob nossos pés, as árvores, o céu, tudo. Sentia que deveria ir mais afundo com ela, tentar entender sua morte psicológica, tentar resgata-la de um jeito ou de outro.
– Já está ficando tarde, é melhor eu ir em bora...
Eu dei-lhe um aceno de cabeça, e deixei ela dar as costas para mim quando chamei-a pelo nome:
– Olívia?
Ela se virou lentamente como se estivesse cansada da vida, cansada de se sentir morta mesmo exalando uma vida saudável.
– Sim?
– Você aceitaria sair pra tomar um café comigo, qualquer dia desses?
– João, eu...
Nesse momento, uma moça elegante passou por nós, esbarrando em Olívia e pedindo desculpas logo em seguida, tinha o rosto abatido. Deve ter perdido alguém na tragédia. Voltei minha atenção para Olívia.
– Eu adoraria.
Ao ouvir essas palavras, nunca me senti tão vivo.
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