O Ceifador de Anjos
6 Capítulo 5
Havia se passado duas semanas, os dias corriam para Vincent sem qualquer novidade. No trabalho, estavam fazendo novos testes, cujos resultados demorariam mais tempo para saírem. Via Donna quase todos os dias, e ela só agora se sentia melhor depois da entrevista frustrante que tinha feito na Universidade Americana de Los Angeles.
Ela contou para Vincent que o diretor da universidade, quem realizou sua entrevista, não lhe deu nem sequer a oportunidade dela apresentar uma aula-teste, procedimento padrão nas instituições de ensino, pois achou-a muito jovem e inexperiente para a função. Sem ser grosseiro, deu a entender que ela não estava preparada para lecionar para adultos, que poderia ter problemas com eles, pois era demasiadamente jovem, ressaltou que embora tivesse vinte e cinco, não parecia ter mais de vinte, o que dificultaria que fosse respeitada pelos universitários. Ainda sem querer ser rude, ele arriscou dizer que ter uma boa aparência não era suficiente para ensinar.
Donna se sentiu insultada com os comentários do diretor, que ainda se achou no direito de aconselhá-la a esperar mais alguns anos para tentar um trabalho como o que ela queria. Era absurda aquela situação, odiava ser vista daquela forma, como quem conseguia alguma coisa por a acharem bonita, como se ela fosse burra ou coisa assim. Acreditava que podia sim impor respeito, como também poderia ensinar, mas não argumentou. Agradeceu pela entrevista e por seus conselhos, não tinha mais nada que podia fazer.
Vincent a consolou, embora entendesse a namorada, também compreendia as razões do diretor, pois não eram raros os processos contra professores e até contra as universidades, por acontecer algum tipo de envolvimento íntimo por parte desses funcionários com os alunos, o que era estritamente proibido. E como o diretor não conhecia Donna, não sabia de sua boa índole e seu profissionalismo, além de nem sequer se dar ao trabalho de perguntar se ela tinha algum relacionamento, já que em seu currículo constava que ela era solteira. Quem sabe, se ela fosse casada, pareceria mais séria aos olhos dele, que pareceu vê-la como um possível problema para a instituição.
Ele ofereceu ajuda para a namorada, o que ela não aceitou de imediato, mas tanto insistiu que Donna acabou concordando que Vincent tentasse de alguma forma conseguir que, pelo menos, fizesse a aula-teste nessa mesma universidade. Donna não sabia como ele faria isso, mas se empolgou com a possibilidade.
Por todos os dias que se passaram nessas duas últimas semanas, sempre que Vincent tinha algum intervalo ou um momento sozinho, ia para a internet, onde conferia cada uma das atualizações das redes sociais da filha de Jaime Carter, pois criou um perfil falso para sondá-la, mas sem enviar solicitação de amizade ou tentar qualquer contato.
A garota se chamava Christine Vonda Carter, ela postava quase todos os dias na internet, quando não eram fotos alegres com o namorado, eram coisas simples do seu dia-a-dia e frases apaixonadas. Dessa forma, Vincent sabia que ela ainda não tinha ido para a cabana, pois as fotos e postagens referenciavam sempre lugares do centro de Los Angeles e de sua casa. Aguardava ansiosamente quando ela divulgasse aquela viagem e ele tinha certeza que ela o faria.
Suas redes sociais eram repletas de fotos e comentários sobre suas viagens anteriores para vários lugares, inclusive para a cabana, o que lhe dava a certeza que seria avisado por ela sobre o momento certo em que deveria agir.
Em meio a tantas imagens felizes, declarações apaixonadas e postagens, aos olhos de Vincent, desnecessárias, ele só conseguia ver naquilo tudo, muita hipocrisia. Achava-a uma hipócrita, que agora exibia a barriga cheia de dengo, prometendo amor eterno ao bebê que não conhecia e agradecendo aos quatro ventos pelo seu "final feliz", dizendo se sentir realizada com a nova família. "Quanta hipocrisia!" pensava. "É só chegar o filho, e eles sentirem o que é ser mãe e pai de verdade, que passa essa felicidade momentânea e acaba essa falsa alegria!"
Vincent estava realmente atraído pela jovem, mais especificamente, por sua gestação, por isso, em momento algum lutou contra essa atração. A verdade é que não se importava com ela. Só sentia que precisava fazer algo, afinal, Christine tentou abortar o próprio filho e para infelicidade dela, falhou. "O que ela poderia fazer com o bebê depois que ele nascer, que outras formas de sofrimento ela seria capaz de lhe causar?". Ele conseguia pensar em muitas formas.
Mais dias se passaram, Vince se perguntava do porquê de tanta demora, pois lembrava que Jaime havia dado a entender que Christine ficaria com eles só aquela semana em que esteve no Instituto, quando já haviam se passado quase três. Nesse dia, ele acessou com seu perfil falso a rede social dela, sem muitas expectativas, quando se deparou com uma mensagem de Samuel, o namoradinho: "Muito feliz com você gatinha. Não vejo a hora de ficar com você, já arrumei tudo aqui.", ao que Christine havia respondido: "Já arrumei as malas também, pronta pra partir! Papai vai passar aí te pegar depois do trabalho. Te amo."
Vincent finalmente podia se preparar para uma breve viagem, estava pronto também. Até já havia comprado o que ia precisar. Decidiu que o melhor era por seu plano em prática durante a noite, para não chamar a atenção de possíveis vizinhos, o que tinha quase certeza que não haviam. Não poderia se aproximar muito com o carro por causa do barulho e da claridade dos faróis, para enxergar não podia usar lanternas, pois arriscava atrair a atenção do mesmo jeito. Planejou tudo minuciosamente.
Esperaria pelo menos dois dias para que o casal tivesse tempo de se instalar na cabana e ficassem a sós por lá, pois não queria correr o risco de encontrar Jaime ou qualquer outra pessoa inesperada.
Chegado o dia, almoçou com Donna e lhe disse que passaria a noite no hospital trabalhando, de forma que não poderia vê-la depois.
Era tarde, já passava das dezessete horas, mas o interior da mata já se fazia sombria. O carro de Vincent estava bem escondido entre a vegetação espessa, pois havia adentrado a floresta. Ninguém que passasse pela estrada poderia vê-lo e ninguém entraria ali, era uma área particular com pouca movimentação.
Ficaria ali até o anoitecer e depois seguiria para perto da cabana, que não ficava muito longe dali. Conferiu mais uma vez sua mochila, verificando se tudo que poderia precisar estava lá, constatou que estava. Tirou as roupas que estava usando, apanhou outro traje, de cor escura, composto por uma calça não muito fina e uma camisa de mangas compridas sem botões. Embora ficassem bem coladas em seu corpo, as novas vestes estavam bem confortáveis. Calçou botas de borracha que eram pelo menos dois números maiores que o seu, cujos canos iam quase até os seus joelhos e eram bem estreitos, impedindo que elas saíssem conforme ele se movesse. Vincent havia treinado bastante com esses calçados, não teria muitos problemas de locomoção, de qualquer forma, não era apropriado que deixasse seu rastro ali, pelo menos, não o verdadeiro.
Esperou até as dezenove horas, pôs a mochila nas costas e se aproximou devagar, ficando a uma distância segura da cabana. Apanhou seu binóculo para ver melhor. Era uma casa bonita e grande, as luzes do térreo ainda estavam acesas e dava para perceber a movimentação do casal. Eram jovens, provavelmente demorariam a subir para o quarto e dormirem. Esperaria até que abaixassem a guarda, até porque não tinha pressa e não importava o que acontecesse, não passaria daquela noite.
Christine é uma garota magra, de estatura baixa, pele clara e olhos escuros. Embora já tivesse seus dezoito anos, a magreza somada aos seios pequenos e nádegas pouco privilegiadas davam a ela um ar mais jovem. Não era feia, pelo contrário, tinha uma beleza juvenil de menina inocente, apesar da barriguinha estar bem apontada, mostrando que não tinha tanta inocência como parecia. Christine possuía uma expressão arteira e alegre, de um jeito que lembrava o seu pai. Ela falava e gesticulava bastante com o namorado, ao que ele respondia animado.
Samuel, também com dezoito anos, é um rapaz alegre e divertido. Seus cabelos castanhos e lisos que vão até o ombro lhe dão um certo charme. É de estatura mediana e tem o corpo mais trabalhado que muitos garotos da sua idade.
O casal namorou por todo o colegial e muitas vezes planejaram uma vida juntos, só não esperavam que acontecesse daquela forma. Samuel amava Christine e sofreu muito com a possibilidade de perdê-la, quando ela quase morreu tentando abortar o filho. Ele ainda não tinha ideia de como seria se tornar pai, mas estava feliz e empolgado com essa nova realidade.
Estavam na cabana há dois dias e se curtiam muito, como se estivessem em lua de mel. Algumas vezes discutiam, mas na maior parte do tempo, brincavam um com o outro ou namoravam, a barriguinha de Christine não era nenhum impedimento. Acabavam indo dormir por volta da meia noite, acordavam tarde e preparavam o café juntos, assim como o almoço e o jantar. Jaime Carter havia deixado a despensa cheia de mantimentos, de forma que nada lhes faltava.
Vincent viu as luzes do térreo serem apagadas. Assistiu de longe o casal namorar na parte superior da cabana, no quarto. Esperou pacientemente que terminassem e apagassem as luzes, o que aconteceu depois das vinte e três horas.
Esperou um pouco mais, era importante que estivessem mais relaxados. Enquanto esperava, se preparou para o grande momento. Vestiu nas suas mãos um par de luvas cirúrgicas azuis e colocou um capuz feito de meia fina, que só deixava visíveis os seus olhos, que foram logo escondidos após ajeitar seu recém-comprado óculos de visão noturna.
Caminhou sem pressa para perto da cabana, deixando a mochila ali, onde poderia pegar depois de terminar o serviço. Os únicos ruídos que ouvia vinham de dentro da mata, fora isso, havia apenas escuridão e silêncio.
Christine e Samuel já tinham adormecido, mas ela despertou ao ouvir um barulho do que parecia ser vidro se quebrando no térreo. Receando a entrada de algum animal, acordou o namorado contando-lhe o acontecido e pedindo para que ele fosse averiguar. Samuel levantou sonolento, estava apenas de cueca, mas foi assim mesmo, pois a temperatura no interior da cabana era agradável, mesmo em meio àquela mata.
Se passaram quase dez minutos e Samuel não retornou para o quarto, ela o chamou, mas não obteve nenhuma resposta. Começou a ficar preocupada com o namorado, o que a fez descer para procurá-lo.
— Samuel, está tudo bem amor? Responde, estou ficando assustada – diz alto, começando a descer pela escada e antes que chegasse ao fim dela, viu a porta totalmente aberta e o namorado caído de bruços no chão, sem pensar, correu para ele aos gritos.
— Meu amor, fala comigo. Pelo amor de Deus, Samuel, o que houve? – fala histérica, enquanto tentava virar o rosto dele para ela. Percebendo que o fio do telefone estava enrolado no seu pescoço, começou a afrouxar, para que ele pudesse respirar. Levou alguns segundos para que Christine percebesse que não estava só, levantou rápido e virou-se assustada.
— Quem é você? Por que fez isso com ele? – diz olhando para o homem encapuzado. Ele estava em pé, de costas para a escadaria, além dos seus olhos sombrios, nada nele estava à mostra e Christine sabia que nunca os tinha visto. — Leve tudo o que quiser, mas não nos machuque, por favor – ela balbuciava, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto, sentia o ar faltar, um clima pesado, a sensação de que a presença daquele homem representava o seu fim, algo nele lhe inspirava essa certeza.
— Vou levar o que quero. E o que eu quero, está aí. – diz em tom grave, dando passos lentos, enquanto apontava para a barriga de Christine.
Ela sentiu como se um buraco se abrisse embaixo dos seus pés e a engolisse inteira. As palavras dele soaram como uma apunhalada em seu coração. Sentiu a cabeça latejar, enquanto tentava entender o que aquelas palavras significavam. Ao ver que ele se aproximava, sem tempo para pensar mais, atravessou rápido a porta da cabana, indo em direção à escuridão
Christine não tinha para onde ir, era ficar na cabana e enfrentar aquele homem, muito superior em tamanho e em força comparado a ela, ou então, adentrar a floresta. Achou melhor fugir dele, já que ela era demasiadamente pequena para enfrentá-lo, além de que seu estado não ia colaborar.
Ela tentava correr, mas era difícil, pois não conseguia enxergar quase nada estando dentro da mata, além de estar descalça e seminua, trajando apenas um baby dool de cor rosa, praticamente transparente. Parou cansada, sentindo pontadas na barriga, além das dores dos arranhões que os galhos haviam lhe causado, o sangue lhe escorria quente, mas ela sentia muito frio. O medo que Christine sentia era devastador. A respiração também lhe faltava, pois tendo um corpo tão miúdo, seus órgãos internos se apertavam por causa da sua gravidez. Ficou apoiada entre as árvores atenta aos ruídos, enquanto mantinha uma das mãos em sua barriga com a intenção de proteger o seu bebê, que mexia insistente dentro dela.
Por alguns minutos, só ouviu a vida noturna existente na floresta, até que identificou passos pesados quebrando gravetos e amassando as folhas secas do chão. O desespero aumentou, entendeu que se ele deixou para agir durante a noite, certamente estava preparado com equipamentos que o auxiliasse em sua captura, talvez por isso deixou a porta aberta, para ela sair e ele caçá-la. Christine não sabia o que pensar.
Começou a caminhar devagar, tentando não fazer barulho, o que percebeu ser impossível. Precisava correr, e correu. Embora o coração estivesse acelerado, a adrenalina que tomou conta de seu corpo a fez ir mais longe.
Enquanto corria, ela sabia que não se afastava o suficiente, pois sentia que ele ainda estava no seu encalço, pelo barulho que fazia, ele nem sequer se dava ao trabalho de correr. Eram passos rápidos, mas apenas passos.
Christine implorava a Deus mentalmente para que a ajudasse, para que ou aquele demônio desistisse ou para que alguém aparecesse e a salvasse. Perdida em seu desespero, sentiu uma forte dor em seu pé ao pisar em uma pedra, que a fez cair.
A dor e o cansaço que sentia era tanta, que não tinha mais forças para se levantar, correr ou lutar. Ouvia os passos dele se aproximando, não adiantava fazer silêncio, ela podia sentir que ele a via. Christine chorava e implorava por piedade. Ele não respondia.
Ele estava ali, em pé, olhando-a com um olhar frio que ela não tinha como ver, mas podia sentir. Christine ouvia as batidas do seu próprio coração, além da sua respiração ofegante. Queria implorar mais, até chorar se fosse possível, mas o bisturi que ele segurava com uma das mãos a fez calar, como se esse seu último gesto pudesse mudar o seu destino.
— Sabe Christine, eu sempre admirei Shakespeare por mostrar com palavras um pouco daquilo que as pessoas realmente são. O rosto enganador deve ocultar o que o falso coração sabe... – ele sorri. — Não sei se é capaz de entender a profundidade disso, mas é brilhante, não acha?
Christine não respondeu, nem sequer compreendeu suas palavras. Também não teve tempo para tentar entender o seu significado, pois as mãos dele foram rápidas sobre ela.
Ele a fez gritar alto, fazendo com que os pássaros que dormiam tranquilos acabassem alçando voo.
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