— Bom dia, Chris – cumprimenta Ramona ao entrar no carro do parceiro, fechando a porta. — Para onde vamos tão cedo? – boceja cansada, pois foi dormir de madrugada e ainda não passava das seis da manhã.

Christopher sorriu de canto ao olhar para Ramona, enquanto ligava o carro.

— Para a Floresta Nacional de Angeles – fala com naturalidade.

— Nossa, que jeito melhor de começar um sábado! Desova de corpos? – questiona curiosa, lembrando de quantas chamadas do tipo haviam respondido.

— Acho que pior. Jeremy disse que precisamos ver "ao vivo" a nossa vítima, em tom de quem diz "vocês não sabem o que os espera" – olha para ela sorrindo.

Christopher passou as informações que tinha para sua parceira, que não eram muitas: um rapaz havia andado oito quilômetros durante a madrugada para chegar até a primeira casa que encontrou para pedir ajuda, dizendo ter sido atacado e desconhecer o paradeiro da namorada que estava com ele antes do ataque. Chamaram a polícia, levaram-no para o hospital e iniciaram as buscas pela desaparecida. Encontraram-na, por isso, os detetives foram chamados com urgência.

Enfrentaram um pequeno, mas considerável trânsito, de forma que levaram aproximadamente quarenta minutos para chegarem ao local, uma charmosa cabana rodeada pela floresta, a uns cinco quilômetros de distância da rodovia.

— Os urubus chegaram antes de nós – rosna Christopher, ao perceber a presença de repórteres e jornalistas, afastados da cabana e impedidos de adentrar a floresta por uma extensa faixa de interdição, além de contarem ali dezenas de policiais.

Os detetives se esquivaram dos curiosos presentes e se aproximaram de um policial, para o qual mostraram seus distintivos. O acesso foi liberado para ambos, eles foram em direção a equipe de perícia, que estava reunida dentro da cabana.

Não se surpreenderam ao constatar que Ladonna Ortega estava presente, como perita e médica legista chefe, acompanhada por sua equipe. Nos últimos anos, era bastante comum o encontro deles, tanto nos locais em que encontravam os corpos, quanto no necrotério.

— Finalmente chegaram! – diz a legista com uma carranca, enquanto sua equipe se afastou, deixando-a na presença dos detetives.

— Faz tempo que está aqui? – pergunta Ramona, ignorando o mal humor de Ladonna, pois sabia que era devido aos jornalistas no local, cuja presença, na maioria das vezes, só atrapalhava.

— Há quase três horas. Liguei para Jeremy dez minutos depois de chegar aqui. E os nossos amiguinhos lá fora, estão aqui há mais de uma!

— Lamento não chegarmos antes, o que perdemos? – diz Christopher olhando mais atento o interior da cabana, cujos móveis rústicos e organização perceptível naquele espaço era de certa forma aconchegante, fora o telefone caído no chão, não havia nada ali que denunciasse a presença de um corpo, o que o fez deduzir que estava na floresta.

— Nada que não quisessem ter perdido! Nossa garota, Christine Vonda Carter, dezoito anos, estava nesse fim de mundo com o namorado, também de dezoito. Segundo ele, estavam dormindo quando ela o acordou dizendo que ouviu um barulho aqui embaixo. Ele desceu e foi atacado por trás com o fio do telefone, desmaiou sem ar e quando acordou, viu a porta aberta, mas subiu primeiro no quarto chamando a namorada, que não estava lá. Chamou do lado de fora e não teve resposta, pegou uma lanterna e seguiu pela estrada sem querer acreditar que a garota havia entrado na floresta no estado em que estava.

— No estado em que estava? O que isso significa? E por que dois jovens estavam aqui sozinhos? – pergunta Christopher.

— A cabana pertence à família da vítima, está em nome do pai dela, Jaime Carter. E o namorado não quis acreditar que ela entrou na floresta porque ela estava grávida.

Christopher e Ramona começavam a entender a gravidade da situação.

— Quem agrediu o namorado, a matou na floresta – deduz Ramona.

— Pior – para de falar, encarando-os. — Lembram do caso que vocês arquivaram, do casal Tompson?

Levou alguns segundos para que pudessem lembrar daquele sobrenome, do acidente e dos fatos estranhos desse caso.

— O feto foi extraído? – arrisca Christopher.

— Igual ao de Barbara, com a diferença de que o corpo de Christine não está queimado e há algo nele que vocês irão querer ver! Também há o fato de que "ele" lhe deu o que quero chamar de golpe de misericórdia.

Os detetives se entreolharam. Ficaram realmente surpresos com o que Ladonna contou. Nunca pensaram em se deparar com algo do tipo novamente. Barbara Tompson foi um caso estranho e isolado, mas agora não mais. E se entenderam bem, a legista iria mostrar a eles mais coisas estranhas, por isso a acompanharam para fora da cabana e adentraram a floresta.

Caminharam atentos entre as árvores, enquanto Ladonna apontava para alguns galhos quebrados e folhas amassadas, explicando que a vítima corria, ou pelo menos tentava, e que o seu perseguidor provavelmente fez exatamente o mesmo percurso que ela, como forma de não deixar muitos rastros. Disse ainda que foram encontrados fragmentos da vestimenta de Christine preso em galhos.

Depois de percorrerem pouco mais de trezentos metros, chegaram ao corpo coberto por um pano branco, em meio a uma grande poça de sangue. Os detetives puseram luvas e se abaixaram para ver o cadáver, que tinha barriga e pernas cobertas pelo líquido viscoso. A legista prosseguiu com as informações:

— Foi feito em Christine a mesma incisão supra púbica que identifiquei no cadáver de Barbara Tompson, arrisco dizer que assim como no caso dela, foi usado um bisturi de lâmina 15, com a diferença de que enquanto a outra morreu queimada, essa aqui teve uma morte mais rápida. Todo esse sangue que vocês estão vendo é da veia femoral de Christine, que recebeu um ferimento certeiro na virilha, causando a ela uma hemorragia grave.

Os detetives ficaram ainda mais surpresos.

— O horário da sua morte foi entre uma e duas da manhã, o que coincide com o que o namorado falou, ele deve ter recobrado os sentidos por volta das duas ou duas horas e trinta, caminhou mais de uma hora até achar uma casa em que pediu ajuda. Fui chamada em seguida, cheguei aqui davam quatro horas – conclui Ladonna.

— O golpe na virilha foi com a intenção de matá-la, aqui onde estavam, ninguém poderia socorrê-la em meia hora – constata Ramona.

— Meia hora? – diz a legista irônica. — Ela só teria todo esse tempo se o ferimento tivesse causado uma hemorragia pequena. Só poderei dar certeza depois da necropsia, mas meu palpite é que ele não só feriu, mas rompeu a veia femoral dela, o que acarretou em redução no volume intravascular e hipóxia cerebral, dando-lhe aproximados cinco minutos de vida.

Christopher e Ramona continuaram vasculhando o corpo rígido e frio de Christine, que já dava sinais do estágio inicial da decomposição, apresentando uma coloração roxa e acinzentada. Do minúsculo baby doll que a jovem usava, só sobraram trapos ensanguentados, ainda presos ao seu corpo pelas alças, fora isso, estava completamente nua. Movimentavam o seu rosto e braços cuidadosamente. Embora parte de sua barriga estivesse coberta por sangue, a incisão supra púbica citada por Ladonna era aparente.

— Algum sinal de violência sexual? – pergunta Ramona, enquanto dedilhava a pele fria da barriga de Christine.

— Também vamos ter que esperar os resultados dos exames para saber com certeza, porque ela teve relações, isso é certeza, colhemos sêmen de sua vagina, mas como não há sinal de penetração forçada pode ser do namorado, aliás, encontrei sua calcinha jogada no chão do seu quarto.

— Ou pode ser do assassino, ele pode ter ameaçado ferir sua barriga – sugere Christopher.

— Não descarto essa hipótese – responde ela.

— Havia algo mais no corpo, certo? – pergunta Ramona, lembrando do que a legista disse dentro da cabana.

— Ah sim, olhem isso – diz se abaixando ao lado do corpo. Já com as luvas, tocou a coxa direita de Christine, tentando afastar parte daquele sangue. Sem sucesso, apanhou o tecido manchado que antes cobria o cadáver e deslizou limpando, deixando à mostra uma pequena escarificação onde via nitidamente as letras "Mt" seguida dos numerais "13 39". — Se isso estava gravado no corpo de Barbara também, nunca iríamos saber – acrescenta, reforçando a lembrança de que ela havia morrido queimada.

Christopher e Ramona ficaram estupefatos com a novidade encontrada na coxa da vítima, era uma coisa a mais para discutirem a respeito, o que não fizeram naquele momento. A equipe de Ladonna se aproximou para embalar o cadáver em um saco preto e o levar para o necrotério, pois já haviam colhido material e registrado todos os detalhes daquele assassinato. Haviam vasculhado toda a cabana e ao seu redor, principalmente o interior da mata, não havia mais nada que precisassem fazer.

A legista e os detetives ficaram parados em pé, de frente a poça de sangue, onde se percebia a silhueta do corpo recém retirado.

— Alguma ideia do que significa aquilo? – diz Ramona em tom baixo, como se perguntasse para si mesma.

— Nenhuma, embora eu torça para que não indique uma sequência – adianta a legista.

— Ou alguma seita – completa Christopher.

Com algumas hipóteses levantadas, saíram da mata e verificaram mais uma vez a cabana, onde a polícia informou que a porta dos fundos teve o vidro quebrado, o que explicava o barulho que acordou Christine e o fato de não haver qualquer sinal de arrombamento na porta principal, além da perfeita organização da sala. Como a chave estava na fechadura, foi só o assassino girá-la e abri-la. Indo para a sala, viu e atacou o namorado da jovem com o fio do telefone. Os detetives recolheram todas as informações que puderam, do próprio lugar como também dos profissionais que estavam cobrindo o caso.

Teriam que esperar o resultado da autópsia e da perícia, que adiantou a descoberta de pegadas maiores que as da vítima e supondo que fosse do seu perseguidor, ele calçava 42. Não encontraram marcas de pneu, dando a entender que ele estava a pé ou que deixou o carro ou quem sabe uma moto bem longe, provavelmente escondido na mata.

Christopher e Ramona teriam um longo trabalho pela frente. Precisavam ir ao hospital entrevistar Samuel e posteriormente a família da vítima. A presença dos jornalistas no perímetro dava-lhes a certeza de que seriam pressionados nesse caso, isso sem contar que alguns detalhes seriam expostos, prejudicando a investigação. Já não havia o que fazer quanto a isso, afinal, chegaram bem depois deles.

Entre os detalhes que iam discutindo, se demoraram mais nos possíveis significados da escarificação, pois concordavam que de todas as estranhezas daquela tragédia, aquela marca "Mt 13 39” era a mais curiosa, mas não chegaram à nenhuma conclusão.

Antes que chegassem ao hospital, o celular de Christopher tocou, Ramona atendeu pondo no viva voz:

— Ainda na floresta? – pergunta logo que foi atendido.

— Estamos indo para o hospital, mais vinte minutos chegamos.

— Cheguem em dez. Samuel Murray já está ciente do que aconteceu com a namorada, soube pela televisão. Os pais dela também já sabem, estão aqui no departamento, Ralph e Timothy estão recolhendo os seus depoimentos, mas quero que vocês conversem com eles também – diz Jeremy, desligando em seguida.

Christopher acelera.

Vincent acordou cedo, pois combinou com a namorada de que passariam o sábado juntos, a começar pelo café da manhã, que ele preparou antes mesmo dela chegar, que foi logo, pois ansiava por mais um dia agradável ao lado do namorado.

Eles também haviam programado um almoço na casa dele, para o qual convidaram a melhor amiga do casal, Adelle Potts Mercer, de forma que Donna ficou de ajudar o namorado a preparar o almoço para a amiga.

Ao chegar, Donna encontrou mesa posta, como sempre muito bem arrumada e abundante, tudo bastante apetitoso. Não se demoraram tomando café, pois Vincent mostrou urgência em tirar o vestido estampado de flores que ela usava, que embora cobrissem os seus joelhos, marcava sua silhueta perfeita, e que mesmo tendo um decote mínimo, seus seios chamavam muita atenção.

O clima esquentou, enquanto ainda estavam à mesa. Vincent a pegou no colo e subiu as escadas, levando-a para o seu quarto. A colocou na cama com cuidado, sem esperar qualquer ajuda da parte dela, tirou a camiseta, a bermuda e os chinelos, subindo em seguida sobre seu corpo, amando-a com urgência.

Passaram a maior parte da manhã na cama, ora namorando, ora conversando. Donna estava deitada com a cabeça apoiada no ombro do namorado, quando ele abriu a gaveta do criado-mudo e apanhou o controle da TV, ligando-a. Procurou algum programa que interessasse aos dois.

Parou em um noticiário, pois reconheceu na reportagem a cabana no meio da Floresta Nacional de Angeles. A matéria não era ao vivo, dando a entender que tinha sido gravada horas atrás. O repórter informava a morte trágica e misteriosa de Christine Vonda Carter, além do ataque ao seu noivo, a extração do feto, que afirmavam ter sido feita por um profissional, e a marca deixada pelo assassino: Mt 13 39, que ninguém sabia o que significava.

Vincent se surpreendeu com os detalhes vazados na mídia, aquilo não devia ser nada bom para a polícia. Riu em pensamento. Lembrou do convite de Jaime Carter "com certeza ele não vai mais querer uma reunião com ninguém na cabana, que pena, o lugar é mesmo o paraíso."

— Que horror! Que monstro faria isso com uma mulher grávida? – indaga Donna desapoiando-se do ombro e do corpo de Vincent, se ajeitando. Sentou, prestando atenção na matéria.

— Notícia sensacionalista – comenta ele, sorrindo para ela.

— Acho que não, Today Los Angeles é um telejornal sério.

Vincent ia responder, mas não o fez, pois ouviu o repórter dizer que o fato se tratava de um segundo caso. Afirmou que o assassino já havia feito isso dois anos atrás, mas não citou o nome dessa primeira vítima.

— Ok amor, nada de tragédias por hoje, não quero que nada do tipo estrague nosso dia – diz de forma natural, desligando a TV. — Acho melhor tomarmos banho e irmos para cozinha – levantou.

— Vai lá, depois eu vou – diz Donna sorrindo ao pegar o controle de suas mãos, ligando a TV, interessada em assistir o final da matéria.

Vincent ri divertido.

— Venha cá mocinha, hora do banho – diz pegando-a no colo e a levando para o box do banheiro.

Vincent saiu do banho primeiro, desligou a TV que a namorada deixou ligada e se vestiu. Donna saiu em seguida, pôs o vestido estampado de flores, os saltos e penteou o cabelo louro, que estava molhado.

Desceram alegres para a cozinha. Enquanto Vincent cozinhava, a namorada o auxiliava.

Já passavam das onze horas quando a campainha tocou, Donna é quem foi atender a amiga, que estava linda como sempre. As amigas se abraçaram antes mesmo de fecharem a porta.

Adelle é uma advogada empenhada, herdou a perspicácia e os clientes de seu pai, tendo então uma carreira tão promissora quanto ele teve. É uma mulher alta, pele branca, mas não tanto quanto a da amiga. Suas curvas, no entanto, são muito mais chamativas do que as de Donna: tem seios fartos, bumbum avantajado e levemente empinado, somado a uma cintura finíssima. Seus olhos são escuros, o cabelo do mesmo tom, são lisos e compridos, além de sempre usar uma franja, que ela garantia ser o seu charme.

Donna a olhou contente e admirada, era difícil entender como sua amiga parecia sempre mais incrível a cada vez que se viam. Adelle usava um vestido de cor escura, curto e bem solto no seu corpo, o decote e o corte em V nas costas eram amplos, deixando bastante pele à mostra. A maquiagem nos olhos era leve, enquanto sua boca carnuda e bem desenhada, pintada em um tom de vermelho, atraía atenção.

Elas se vestiam de forma bem diferente. Claro que os trajes que a advogada usava no trabalho eram mais comportados, mas não a deixava menos atraente. Adelle estava sempre muito bem vestida e maquiada.

Também suas personalidades eram bem distintas, enquanto uma era mais discreta e até recatada, a outra não se incomodava em chamar atenção, e se fosse necessário discutir, discutia sem cerimônia, não importava com quem.

Vincent apareceu na sala para cumprimentá-la.

— Ai meu Deus, que chefe mais gato! – diz fazendo biquinho e abraçando-o apertado. — Esse avental te deixa sexy – fala, endireitando o mesmo no corpo de Vincent, que apenas ria do jeito da amiga.

Vince e Adelle tinham a mesma idade, se conheceram quando ainda eram dois adolescentes, pois estudavam juntos. Passaram a frequentar a casa um do outro após suas mães se tornarem grandes amigas.

Por muitas vezes, no início de seu relacionamento com Vincent, Donna se sentiu incomodada com a amizade dos dois. Levou algum tempo para entender e aceitar que eram como irmãos, além de ter sido a própria Adelle, que se tornou sua amiga na faculdade, quem os apresentou com o propósito de juntá-los.

A torcida dela pelo casal era sincera, ela realmente amava os dois como se fossem de sua família. Adelle apenas tinha um jeito espontâneo, alegre e divertido de ser.

Vincent terminou o almoço sozinho, pois perdeu a namorada e auxiliar para a amiga, com quem ela conversava animada. Falavam sobre seus trabalhos e sobre os últimos relacionamentos frustrados de Adelle, não que ela fosse muito namoradeira, mas queria ter um namoro sério, então sempre que surgia alguém interessante, arriscava um envolvimento, que chegava a durar semanas, talvez um mês ou dois, mas acabava deixando o namorado na mão com muita frequência, pois como almejava se tornar promotora, sua dedicação estava voltada integralmente ao seu trabalho. Sua personalidade demasiadamente forte somado aos seus vários argumentos em prol das suas razões, acabava por afastá-los, o que não era sua intenção.

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