O Caso De Scarle Road
3 Terceiro.
Notas iniciais
Dentre tantos problemas para se preocupar, logo aquele.
John Hamish Watson era uma pessoa íntegra. Não tinha muitos objetivos na vida, era verdade, mas mantinha-se fiel aos seus poucos. Na verdade, refletindo sobre o assunto, por vezes chegava à conclusão de que talvez não tivesse muitos objetivos justamente por conhecer sua própria obsessão em cumprir sem demora todas as tarefas que reconhecia como suas.
Agora, era um homem casado. O reconhecimento que tinha não só por sua profissão de cirurgião, mas também por sua integridade e seus valores era considerável; quase todos que Watson conhecia o estimavam de alguma forma. Ele possuía, de fato, tudo o que um sujeito na sua idade poderia sonhar em ter – casa própria, um bom emprego, amigos que o admiravam, uma mulher que o amava. E, ainda assim... nada.
Parte dos problemas que enfrentava em sua vida agora tinha origem em seu passado, é claro. O período que havia servido como cirurgião do exército inglês na Índia o havia deixado com profundas cicatrizes, constituindo-se uma delas em uma intensa depressão que se vinha aflorando dentro do ser desde aquele tempo. Mas era evidente para ele que nada se comparava àqueles últimos meses do ano de 1891. Nada se comparava àquela insatisfação crônica que vinha corroendo sua mente e, é claro, seu fígado, desde que se dera conta de que aquele trabalho não o satisfazia.
Recorria à bebida, o que, sob seu ponto de vista, era bastante compreensível. Nenhuma das pessoas com quem realmente se importava estavam por perto – Mary Morstan estava para o interior do país e, apesar do desejo de Watson para que o fizesse, ela certamente não voltaria até o Natal, enquanto que Holmes, por ser o verdadeiro causador daquela insatisfação, não merecia suas considerações. Se ao menos Watson nunca houvesse servido de assistente ao detetive, se ao menos não tivesse chegado a dividir por mais de dez anos um apartamento com ele... se ao menos Holmes não tivesse enchido sua cabeça com questões perturbadoras por tantos anos, ele seria um homem melhor. Então, sozinho – mas importante lembrar que era melhor viver sozinho do que mal acompanhado –, tendo ao lado apenas algumas garrafas que o distraiam ocasionalmente, o médico prosseguia.
Era 21 de dezembro quando sua revolta com o antigo parceiro de trabalho era intensa. Como não bastasse lhe fazer uma visita absolutamente injustificável no meio da tarde, Holmes o havia acusado pela bebida e pelas apostas, o que estava fora dos limites da sua aceitação. Por isso, ao receber a visita do companheiro, que o intimava a entrar em um táxi do qual nem ao menos conhecia o destino, tudo o que se deu ao trabalho de produzir foi um alto e sonoro “não”, seguido de um brusco fechar da porta de entrada. Havia tomado a atitude certa e isso não se discutia. Sherlock Holmes tinha a desagradável mania de acreditar que podia entrar onde quisesse, na hora que bem entendesse; invadir a privacidade de Watson, tirá-lo da sua sossegada – sossegada? – solidão, atormentá-lo mais uma vez com seus malditos casos e suas malditas investigações... Bem, todos aqueles argumentos falavam em favor de Watson e atestavam que ele estava não somente correto, mas corretíssimo ao bater a porta na cara do detetive. Mas se estava tão certo de suas atitudes, por que aquela sensação agora?
Havia longos anos desde que o amigo pedira sua ajuda em um caso pela última vez. A dor de estar distante de seu antigo cargo de assistente também pesava em Watson por vezes, e... não que aquele fosse o motivo de sua súbita depressão (seria no mínimo cômico afirmar que a ausência de Holmes o estava ferindo a tal ponto), mas, quando realmente considerava a possibilidade de ajudá-lo uma última vez, o sentimento não era de todo mal.
O caso da vez certamente era delicado. O outro nem sequer se preocupara em esperar alguns dias para que Watson se recuperasse das graves acusações por ele feitas (e comprovadas) antes de pedir seus auxílios tão descaradamente. Sabia que o médico não teria interesse algum em ajudá-lo; sabia que ele nem ao menos estava nas condições psicológicas ideais para fazer uma boa resolução do caso que estava em andamento, seja ele qual fosse. Mesmo assim, foi sob a fria chuva de dezembro que Sherlock Holmes havia aparecido em sua casa, momento esse em que o doutor nem ao menos o havia deixado entrar para ouvir suas argumentações. Sim, havia sido de grande indelicadeza de sua parte. Talvez se procurasse o antigo companheiro apenas para retirar a grosseria e nada a mais...
[...]
Não era fácil encontrar um táxi disponível às dez e meia da noite na Londres daquele tempo, mas era possível. E bastou chegar-se à porta, o arrependimento batendo-lhe cada vez mais forte nas costas, para que Watson descobrisse o exato endereço ao qual deveria se dirigir. Acontecia que, sempre prevendo as atitudes do amigo de forma extremamente irritante, Holmes havia deixado sob ela um papel no qual se lia:
Scarle Road, 451, região de Wembley. Confidencial.
[...]
“Estrangulamento, sem dúvida”, repetiu Gregson pela quinta vez, pondo um fim, com louvor, à última gota de paciência que restava no inspetor.
“Gregson, por favor”, sussurrou Lestrade, controlando-se. Gregson e ele, assim como Holmes e Watson, eram parceiros há muitos anos; a relação entre eles, porém, diferenciava-se em alguns aspectos. “É necessário o silêncio.”
Sherlock Holmes mantinha os olhos estreitos em um ponto da parede do cômodo no qual nem Lestrade, nem Gregson e nem um microscópio científico identificariam alguma evidência para o crime. Tinha cerca de duas horas que ele havia iniciado a investigação, e a última meia hora referente a esse tempo estava sendo aproveitada naquele único ponto absolutamente irrelevante para o caso. O inspetor Lestrade suava frio, incomodado, e Gregson continuava re-afirmando que se tratava sim de um estrangulamento.
“Holmes também acredita que tenha sido um estrangulamento.”
O nível de tensão era mantido nas alturas não apenas pelo tempo que o detetive demorava na análise minuciosa da cena e seus arredores; na verdade, o que mais perturbava no estudo de Sherlock Holmes era o seu absoluto silêncio. Desde que adentrara o quarto 27 de um hotel que se estendia no número 451 de Scarle Road, em Wembley, não havia dito uma só palavra, e não importava o quanto Lestrade e Gregson pedissem sua opinião, ele não diria nada até que voltasse de seu frenesi. Em sua mente, as informações eram trabalhadas de forma quase doentia. Sendo uma criatura capaz de absorver com facilidade todos os elementos visuais que chegavam a ele, Holmes passava e repassava para si a cena do crime.
Era um quarto pequeno, sem dúvida. Pertencia a um hotel abandonado à beira da estrada – um hotel que estava oficialmente falido há meses – e era composto por três cômodos, sendo eles: sala, na qual se encontrava uma única poltrona de veludo; banheiro quase intacto; e um quarto cuja cama abrigava um homem morto por razões desconhecidas. Ao adentrar o recinto e deparar-se com o corpo frio de Walter Lloyd, o detetive não ficara exatamente surpreendido, mas precisava admitir, ao menos para si mesmo, que a violência utilizada pelo assassino era no mínimo impressionante.
Naquele quarto, sobre a cama de casal desfeita, o homem tinha os pulsos atados à cabeceira por uma grossa corrente de ferro. Os olhos entreabertos, distantes, não exprimiam sentimento algum, mas a sutil inclinação da sobrancelha esquerda indicava profunda dor, surpresa, desgosto ou aflição frente à última cena por ele presenciada. A face cansada estava coberta por inúmeras manchas roxas que caracterizavam hematomas típicos de espancamento, e na lateral dos lábios cortados verificava-se também uma gota de sangue fresco. Ao redor do pescoço, marcas ainda avermelhadas que se explicavam pelo estrangulamento, e na virilha direita, na região da clavícula e sob um dos olhos, profundos cortes causados por faca ou ferramenta similar. Walter Lloyd estava absolutamente nu quando fora encontrado na manhã do dia 21 de dezembro, e assim permanecia desde então. No banheiro, na pequena sala, em todo trecho desde a entrada do edifício até a porta número 27 não havia nada; rastros de sangue, vestígios de violência e móveis quebrados ausentavam-se de todo o local, com a exceção do quarto escolhido para o homicídio. Ainda assim, era com facilidade que o inigualável Sherlock Holmes já formava algumas conclusões acerca do ocorrido.
Quando os dois funcionários da Scotland Yard evidenciavam o cansaço por meio de gestos – estando Lestrade com uma das mãos na testa e os olhos fechados, enquanto Gregson apoiava-se de forma desleixada na parede da sala – o herói pareceu pronto para dar seu primeiro depoimento.
“Muito bem, senhores”, murmurou ele finalmente, dando alguns passos para trás. Todos os olhares recaíram sobre sua pessoa, sedentos por informação.
[...]
Um senhor de idade, as roupas pouco engomadas, a face apresentando algum nervosismo recebeu Watson atrás de um balcão empoeirado. Ele falava com muita dificuldade, e eram poucos os dentes que compunham sua arcada.
“O senhor... veio ver... o corpo?”, perguntou trêmulo, ao que Watson assentiu. “Sim”, continuou ele. “Siga-me”.
Segui-lo era difícil. Como não bastasse ser coxo, o homem caminhava lentamente, e o doutor precisou guiá-lo para que conseguisse concluir a subida à escadaria que os levariam até o segundo piso. Os degraus, inclinados e distantes uns dos outros, davam a impressão de que a escada se estreitava conforme eles subiam, e a pouca iluminação local e a distribuição ocasional de algumas teias de aranha pelo teto atribuíam morbidez ao edifício. A partir do primeiro andar, era possível ouvir o som de vozes que se misturavam, e... pelo tom da conversa, era também possível identificar que o que se tinha ali era não um diálogo civilizado, mas uma discussão de alto volume que envolvia pelo menos Lestrade e Gregson. Pelo menos.
O cheiro de putrefação que inundava o piso adentrou as narinas do médico tão logo ele pôde reconhecer os indivíduos que quebravam a paz e o silêncio no recinto.
“Watson.”
Lestrade e Gregson viraram-se para encará-lo assim que ouviram seu nome. Encontravam-se os quatro – dois oficiais, um detetive e um médico – no corredor do segundo andar enquanto o velho voltava a descer as escadas com dificuldade.
“Ah, Watson! Quanto tempo!”, exclamou o inspetor, enquanto caminhava em sua direção e o empurrava levemente ao encontro de Holmes. “Sempre em momentos apropriados, Watson. Por favor, ajude a convencer seu amigo...”
“Você está atrasado, Watson.”
Os grandes olhos de Holmes mantinham-se fixos nos seus. Como se esperassem a chegada de Watson desde o princípio, acusavam-no, irritadiços, e o seu semblante mantinha-se sério. Frente a tal acusação, doutor pôde fazer pouco além assentir em reconhecimento à sua falha.
“Tive um contratempo.”
“Como sempre.”
“Watson, por favor...”, iniciou então Gregson, também andando em direção ao doutor e posicionando-se ao seu lado. “Convença-o. Holmes está dizendo...”
“Estou dizendo que ainda há muito a ser analisado nessa região”, interrompeu, apático.
“Por favor, Holmes”, interceptou Lestrade, visivelmente alterado. “É um hotel fechado. Está falido há meses. Não existe possibilidade alguma de hospedagem.”
Hospedagem então era o motivo que os levava a discutir. Um hotel fechado, falido, imundo... e Holmes desejando hospedar-se nele por aquela noite. Haveria problemas, é claro. Se realmente houvesse um cadáver no quarto 27, a perícia logo chegaria e faria questão de isolar o recinto de qualquer indivíduo humano, já que a presença de outras pessoas poderia comprometer uma análise séria. Não que Holmes pudesse ser considerado humano.
“Pois eu não vejo sentido em irmos a Londres se amanhã cedo teremos de voltar à região”, insistia ele, afastando-se de Lestrade, que agora andava em sua direção de forma ameaçadora.
“Watson, por favor”, pediu Gregson.
Os três pares de olhos concentraram-se em Watson de uma só vez. Então, como era de se esperar, o médico apenas permaneceu em silêncio por algum tempo, a postura muito ereta e a expressão muito grave na direção do companheiro.
O pedido de Holmes, surpreendentemente, não deixava de fazer sentido daquela vez. A experiência de anos no ramo da investigação ensinara a Watson que perder tempo em casos que envolviam desaparecimentos ou homicídios estava fora de cogitação; e Wembley não era realmente longe do centro de Londres, mas a mobilidade entre elas era dificultada por uma estrada irregular que tornava quase impossível a visibilidade àquela hora da noite e nas primeiras horas da manhã. A locomoção conjunta à da Scotland Yard também não era recomendada – a mídia, sempre atenta às novidades do submundo, logo publicaria uma possível parceria entre Holmes e a polícia, o que, às vésperas do Natal, serviria apenas para alarmar desnecessariamente e desesperar os habitantes da cidade frente a um crime violento. A volta de uma união entre eles também não seria conveniente para o doutor; agora Watson era casado, tinha um emprego, e se começassem a borbulhar notícias que o relacionassem a Holmes (e a seu antigo trabalho) de alguma forma, tanto Mary Morstan quanto seus pacientes ficariam atônitos. Não, não convinha ir e voltar a Londres incessantemente, e convinha muito menos mover-se junto à Scotland Yard.
“E então?”
“Convém que você e Gregson voltem a Londres ainda hoje. Eu e Holmes precisamos ficar”, concluiu. Nesse exato momento, apesar de dirigir-se a Lestrade, Watson ainda encarava o antigo parceiro e viu quando o detetive mostrou seu curto sorriso de desdém aos dois indivíduos que o atormentavam; ouviam-se agora as novas objeções vindas de ambos.
“Estava acostumado a considerá-lo a mente mais sensata, Watson, mas agora vejo que me enganei.”
“Andarmos nós quatro juntos às vésperas do Natal, Lestrade...”, foi a resposta em tom de reprovação do médico. “Isso não faria bem à cidade...”
“Vocês não estão em uma investigação oficial.”
“Mas estamos a pedido da polícia”, interrompeu Holmes.
“Deve haver uma exceção para hóspedes desse gênero”, complementou o doutor.
Ainda assim, Lestrade não parecia convencido. Foi preciso que Sherlock Holmes aproximasse o rosto do seu e sussurrasse as palavras que realmente fariam sentido para o inspetor naquele contexto:
“Você certamente preferiria fechar esse caso antes da virada do ano, Lestrade”, murmurou ele, um sinal de reprovação visível nos grandes olhos. “Talvez, até mesmo antes do Natal...”
Assim, foi decidido. Estava dado o aval para que a dupla de investigadores mais conhecida de Londres permanecesse no recinto.
[...]
O segundo andar do único hotel localizado na região mais deserta de Wembley ficava muito mais agradável e silencioso sem a presença de funcionários da Scotland Yard. Holmes e Watson ainda encaravam a escada vazia quando foi possível ouvir Lestrade e Gregson chegando ao térreo e encontrando o táxi que os levaria de volta.
“Então, você veio”, disse o mais baixo entre eles.
“Por que você me chamou?”
“Você logo saberá, Watson.”
Lá fora, era possível escutar o canto noturno das cigarras. Seria uma questão de tempo para que a perícia chegasse e eles tivessem que se dispersar pelos arredores da região. Até lá, permaneceriam sozinhos com o dono do hotel, um senhor de idade, roupas pouco engomadas, nervosismo aparente, coxo e lento na escadaria – a primeira pessoa a ser entrevistada quando o dia raiasse.
“Dormiremos em quartos separados.”
“Se houver quartos disponíveis”, corrigiu Holmes.
“Você não acha realmente que terminaremos o caso antes do...”
“Do Natal, não”, interrompeu o detetive. Ele fez questão ainda de fixar as íris negras nas de Watson antes de fazer sua última acusação: “Você também não está realmente preocupado com o mal-estar que a divulgação desse caso causaria à cidade.”
O doutor evitou sorrir àquela insinuação, mas chegava a ser hilária a forma como o amigo o conhecia. Era verdade. Watson direcionava um pouco de sua preocupação ao bem-estar dos habitantes de Londres e à manutenção de seu emprego como médico em consultório privado, mas o motivo real de sua permanência ali não era esse; o motivo real era o desejo pulsante de sentir nas veias a adrenalina que sentira pela última vez há quatro anos, ao lado de Sherlock Holmes. Nenhum trabalho no mundo o satisfaria como aquele.
“Espero que você não deseje realmente dormir, Watson. Há muito trabalho a ser feito.”
De tantos lugares para se estar em uma noite como aquela, logo em um hotel abandonado na região de Wembley – e, mesmo com a morbidez daquele ambiente, Watson sentia-se melhor do que com suas garrafas em casa.
“Creio que ficarei bem”, murmurou em retorno.
De tantas pessoas para passar uma noite como aquela, logo Sherlock Holmes.
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