Notas iniciais
Gente, juro que não foi fácil acabar isso. Mil desculpas pela demora, mas com o Carnaval e a betagem do demônio que esse capítulo exigiu, juro que fui tão rápida quanto pude. Tô ~~bolada~~ com uns leitores que estavam por aí e sumiram, mãs é a vida. Pra me vingar, fiz um capítulo de 3.000 palavras, cês que me aguentem u_u.
Comentem pra mim, seus lindos ♥.

O orvalho, a escuridão e o silêncio sepulcral de Wembley tragavam os únicos dois indivíduos que se davam ao trabalho de permanecer sob um céu aberto quando o frio era tão intenso que até mesmo os termômetros da cidade moviam-se com alguma dificuldade. Watson era capaz de observar o vapor de água expelido pelas suas narinas enquanto respirava, e aquela fumaça úmida e quente causaria nele um desejo intenso de enfiar-se debaixo das cobertas se não estivesse ao seu lado o próprio Sherlock Holmes.

“Você sabe, Watson”, dizia ele agachado sobre uma marca de carruagem que se encontrava fixa no solo. O médico era a única pessoa com que Holmes não se importava de trocar algumas palavras enquanto analisava um ambiente à busca de evidências. “Você dá uma única informação a Lestrade e Gregson e eles já pensam que podem resolver o caso por conta própria. Mais atrapalham do que prestam ajuda. E além disso...”, pausou, tocando com a língua uma rocha que acabava de encontrar e que lhe parecia de alguma relevância. “Você conheceu Walter Lloyd”.

Evidente. Nada mais natural do que o detetive tentar convencê-lo de que estava certo em não dar informações aos investigadores da Scotland Yard. Nada mais natural do que Holmes tentar justificar para si mesmo a necessidade da presença de Watson.

“Lestrade e Gregson atrapalham, mas você sabe que não vou continuar no caso, Holmes”, respondeu, ríspido, o homem que se mantinha atento a quaisquer movimentos que detectasse na rua deserta. “Vou ajudar com o que sei sobre Lloyd, e então você continuará sozinho”.

“Claro, claro”, retrucou o mais baixo, sem interesse. “Eles chegaram aqui no começo da noite de ontem, com certeza. O que me intriga, Watson, é que a violência só tenha acontecido no quarto. Walter Lloyd em nenhum momento foi forçado a entrar e se hospedar aqui.”

“Então estavam aqui para discutir sobre alguma coisa.”

“Muito bom, muito bom. Mas Walter não trabalhava, você disse?”

John Watson não precisou sequer pensar antes de responder àquela pergunta. Era mais do que conhecido por ele o fato de que Lloyd era um homem sem compromisso. Não só não trabalhava, não só não possuía renda fixa, como nem ao menos o seu patrimônio tinha estabilidade – Walter apostava ao ponto de dominar a cidade um dia e perder até mesmo as roupas íntimas no momento seguinte.

“E morreu sem nada”, murmurou o detetive após a resposta do amigo, falando mais consigo mesmo do que com o mundo exterior.

“Morreu com uma aliança”, corrigiu o mais alto.

Era verdade. Nas mãos da vítima, rigidamente presas à cabeceira da cama, encontrava-se um dedo anelar violentado, no qual se viam marcas de um anel que não pertencia mais a ele. Além de preso, torturado, espancado e estrangulado, Walter Lloyd havia também sido roubado pelo criminoso. Mas ainda assim, as chances de ocorrerem todos aqueles atentados por conta de apenas uma jóia no anelar esquerdo eram... bastante diminutas.

De qualquer forma, logo os pensamentos de ambos foram interrompidos, pois ouviu-se na larga avenida o ruído de um automóvel que indicava a chegada dos oficiais que retirariam o corpo dali. Holmes e Watson afastaram-se sem pesar, pela certeza de que haviam analisado o suficiente até então. As demais respostas acerca do homicídio viriam apenas por evidências que provavelmente estavam distantes da cena do crime. Observaram enquanto três homens de chapéu e sobretudo abandonavam o veículo e caminhavam a passos pesados na direção da entrada do edifício.

“Você sabe o que vem a seguir”, murmurou Sherlock Holmes, dando uma rápida olhada em seu relógio de bolso e enfiando-o nas vestes novamente.

“Entrevistar o homem”, disse Watson. E também pôs-se a andar na direção da entrada do hotel. O mais baixo permaneceu imóvel no local por mais algum tempo.


Estranho. Sempre que resolvia algum caso que estimulava o mínimo de sua criatividade, Holmes sentia-se afoito o suficiente para ficar ruminando todas as informações que tinha, com ideias turbulentas o suficiente para tirar o sono de quaisquer pessoas com quem resolvesse dividi-las. Agora, porém, era o silêncio que tomava o seu interior. Por um segundo, enquanto analisava as costas do outro, deu-se conta do sentimento de gratificação que se apoderava do seu ser. Depois de quatro anos trabalhando em casos irrelevantes na mais absoluta solidão, era estranho ter ao lado alguém que o conhecia e compreendia tão bem, o que, de fato, trazia um sentimento estranhamente gratificante.

Claro que ignorou aquelas reflexões sentimentais quando se colocou a caminhar atrás do parceiro.

[...]

Oscar Boldweiser era um velho caquético que tinha muita dificuldade para andar e subir escadas. Apesar de ter recebido Watson na noite anterior aparentando somente cansaço, o dono do hotel parecia agora bastante nervoso enquanto os dois amigos o olhavam diretamente nos olhos. Tremendo, fosse por medo ou por moléstias da velhice, Oscar recusava-se a permanecer calmo na frágil cadeira localizada atrás de seu adorado balcão de recepcionista.

“Por favor”, pedia ele, fazendo um sinal negativo com a cabeça. “Eu não sei de nada sobre isso... Eu vim apenas tirar meus pertences e inspecionar os quartos antes de fechá-los de uma vez...”

“Você disse que o hotel já estava fechado?”, perguntou Holmes.

“Fechado...”, repetiu o homem, amedrontado. Parecia não saber que resposta dar.

Holmes, como indivíduo empático e paciente, era um excelente detetive. Suas habilidades em abordar calmamente outra pessoa eram deploráveis. O doutor, felizmente, detectou o motivo de nervosismo daquele homem e incumbiu-se de tomar a liderança no questionário. Tocou o ombro do amigo sentado e murmurou para o velho:

“Está tudo bem. Eu sou um médico.”

Conforme os anos tinham passado, deu-se conta de que as pessoas em geral sentiam-se menos aflitas quando ele se identificava como médico – por mais que a sua graduação em medicina não fosse de grande utilidade do momento, é claro. Utilizava-se desse artifício e quase sempre tinha sucesso.

Os ombros de Oscar, enfim, pareceram menos tensos após aquelas palavras, e mais uma vez Holmes sentiu-se aliviado pela presença do ex-assistente.

“Estava falido há meses”, começou ele. “Dois meses. Mas como ainda recebíamos hóspedes, só tomei coragem para fechá-lo há menos de uma semana”, concluiu. Enquanto falava, os olhos cansados estavam fixos em um ponto no solo, distantes. “Resolvi fechá-lo antes de ontem, porque um homem pareceu interessado em comprá-lo...”

“O senhor fechou os quartos antes de ontem?”

Estavam no dia 22 de dezembro de 1891. O corpo fora encontrado na manhã do dia 21. E Oscar alegava que tinha trancado as portas da casa na manhã do dia 20.

“Eu tenho duas chaves-mestras. Mas minha cabeça...”, pausou, fechando por um momento os olhos e tocando a testa com uma das mãos. “Minha cabeça já não é boa. Sempre deixo as duas sobre esse balcão, então não esqueço nenhuma aqui quando volto para casa. Cheguei para fechar os quartos do hotel antes de ontem, e assim que cheguei deixei as duas sobre o balcão...”

Mais uma pausa. Ele parecia confuso. Tinha entrado no estabelecimento para inspecionar e trancar os quartos e agora dizia que ambas as chaves estavam sobre o balcão?

“Se o senhor ia trancar os quartos, não pode ter deixado as duas sobre o balcão. Precisava de uma para usar na hora.”

“Ah, sim. Deixei uma... deixei as duas...”

Novamente, uma pausa. Holmes e Watson entreolharam-se.

“Deixei uma!”, resolveu o velho, em uma exclamação. “Deixei uma”, parecendo certo do que dizia. “Deixei uma sobre o balcão e tranquei os quartos com a outra. Quando voltei, não tinha nada sobre o balcão, então voltei para casa.”

“Por que duas chaves?”, perguntou Holmes, desconfiado.

“Meu sobrinho. Meu sobrinho fica na recepção em dias que eu não venho, então ele também precisa de uma chave. Foi Johan quem me lembrou que tinha uma chave faltando e eu voltei para buscá-la na manhã seguinte, no dia 21. Entrei e a chave estava de novo no balcão, então achei que ele estava lá, arrumando alguma coisa. Subi as escadas e encontrei um quarto aberto, e... e...”

“Por volta de que horas você encontrou o corpo?”

“Por volta das sete... oito.... Não, não. Acho que foi às dez. Ou mais tarde. Mas pode também ter sido às oito.”

Holmes perguntou ainda sobre o homem que havia mostrado interesse na compra do hotel, mas Oscar afirmou não tê-lo visto antes.

“Um pouco baixo, assim”, falou, enquanto gesticulava no ar. Apontou Sherlock Holmes e resolveu: “Mais baixo que você. Ele tinha um cabelo claro e sardas, e o nariz era comprido, a testa era larga, e estava vestindo chapéu. Parecia jovem. Era sorridente. Disse que já tinha se hospedado aqui, mas eu não o reconheci.”

“Claro. Precisaremos da chave, de uma lista dos últimos hóspedes e do seu sobrinho.”

“Johan ficará feliz em ajudar.”

[...]

A alegação de que Johan Boldweiser agora trabalhava em um pequeno comércio no centro de Londres convenceu a Holmes e a seu antigo assistente de que a melhor opção seria voltar à cidade naquele dia mesmo – era altamente recomendado que se infiltrassem também no funeral de Walter Lloyd, já que as reações de qualquer um de seus amigos ou parentes próximos poderiam resultar em importantes evidências.

[...]

Ao adentrar o táxi com Sherlock Holmes e sentar-se no pequeno banco à sua frente, Watson foi invadido por uma sensação desconcertante. Era a exata cena que costumava visualizar quando ainda eram parceiros de trabalho; o olhar longínquo do amigo, seguido de algumas poucas palavras que seriam trocadas entre eles, o bom humor estampado na face do detetive... Tudo isso contribuiria para incomodá-lo naquela situação, já que, diferente do que acontecia antes, não eram mais parceiros de trabalho. Watson tinha uma vida, afinal. Enquanto que Holmes... Bem, Holmes estava parado no tempo, é claro.

Para a sua dor, porém, o detetive aparentava ser muito mais feliz com seu trabalho maldito do que ele próprio era com seu consultório. E aqueles pensamentos eram perturbadores, o que fez com que Watson percebesse que preferia não estar ali, presenciando de perto a vida de alegria e adrenalina que antes tivera e que agora estava perdida.

“Holmes, eu não estou à vontade. Prefiro que você continue sozinho.”

O que precisava era de um bom depoimento, sim. Precisava que Johan apresentasse uma descrição do assassino similar àquela que Oscar tinha dado. Cabelo claro, sardas, nariz comprido, testa larga, chapéu, jovem, sorridente. Metade da população da Grã-Bretanha atenderia àquela descrição, de qualquer forma. Velho inútil. Holmes possuía nos bolsos do sobretudo a chave utilizada pelo assassino para abrir o quarto escolhido – uma chave delicada, dentes bem afiados e fácil de manusear – e levava consigo a certeza de que o criminoso havia adentrado o hotel no exato momento em Oscar o havia feito de manhã para roubar a chave restante, fosse com um disfarce ou qualquer artefato que o tornasse discreto o suficiente para não ser percebido. Aquela chave, ainda assim, dizia muito pouco. E menos ainda dizia a lista que o detetive carregava sobre o colo, portando nome de dezenas de cidadãos que poderiam não ter ligação nenhuma com a vítima. Havia, porém, alguns outros fatos que poderiam ajudar na solução do problema. Era sabido, ou ao menos desconfiado que Walter Lloyd possuía ligação com o movimento anarquista da cidade; era sabido que, por ser um homem de jogos e de dívidas, possuía inúmeros inimigos que desejavam sua morte; e era sabido que, apesar de bastante boêmio, o homem era recentemente casado quando se deu a tragédia. Mas tantos fatos desconexos.

Suspirou. Quando ele e Watson chegassem ao seu lar, certamente faria questão de abrir uma garrafa que estimulasse as sinapses no seu cérebr...

“Acho que vou ficar em casa”, disse Watson mais uma vez, assim que percebeu que estava sendo ignorado. Terminou por quebrar brusca e completamente o fluxo de informação que corria pela sua mente.

“Hein?”

Ao tirar o olhar da janela e fixá-lo no mais alto, como já não bastasse ter perdido a linha de raciocínio, Holmes perdeu também a noção do local e do ano em que estavam.


Aconteceu que os primeiros raios do sol agora adentravam pelas grandes janelas do veículo e refletiam sobre a pele e as íris claras de Watson. Como um espelho, os traços bem desenhados, agora dourados, emanavam e repassavam o calor da estrela que, pela primeira vez em todo aquele rigoroso inverno, parecia realmente aquecida. Holmes sentiu-se aquecido também. Sherlock Holmes, sentindo-se aquecido. Sentiu um calafrio na espinha e os seus olhos negros vasculharam com cautela a expressão da criatura iluminada que tinham à frente.

Watson mantinha o ar sério, grave, e parecia certo das palavras que acabava de pronunciar, apesar do mais baixo não ter prestado absolutamente nenhuma atenção a elas. A visão etérea que tinha naquele momento o privava de qualquer concentração. Logo, porém, que encontrou os faróis cor de safira do amigo, os seus, humildes, escuros como o carvão, reconheceram a própria posição e desviaram-se; fixaram-se novamente na paisagem que passava por eles. Mas que raios...?

"Holmes, eu estou falando com você.”

“Ah, sim. Claro. Primeiro em nossa casa, Watson. Depois, no endereço de Johan Boldweiser. E então no funeral.”

“Holmes, eu estou dizendo que vou ficar na minha casa”, repetiu, impaciente.

“Como?”, perguntou o detetive, encarando-o mais uma vez. Concentrou-se para não perder novamente o foco, e agradeceu pelo veículo ter virado e o sol não mais ocupar os traços de Watson. “Você quer abandonar o caso?”

“Eu não estou abandonando nada. É o seu caso, não meu. Já o ajudei com Walter Lloyd, e a partir daqui sei tanto dele quanto você.”

“Ah, não, Watson. Você precisa vir ainda no funeral. Depois do funeral, você estará liberado.”

“Holmes...”

“Você conhece muito mais os relativos do homem do que eu”, alegou Sherlock Holmes, os olhos arregalados na direção do parceiro, indicando evidência frente ao que se discutia. “Você frenquentava os mesmos lugares que ele. Bares de fundo de quintal em que se apostava Deus sabe o quê. Isso se não frequentar ainda”, acrescentou, percebendo a expressão de incredulidade do médico. “Além disso... você precisa me ajudar a reconhecer nos rostos do funeral pessoas que possam estar aqui”, terminou enfim, o dedo indicador sobre a relação de nomes que tinha sobre o colo. “Você estará liberado depois disso.”


Uma última ajuda. Uma última ajuda e Watson estaria liberado para voltar à sua casa e encher-se de álcool e de números novamente. O táxi prosseguia na direção do número 221B em Baker Street e o doutor já não sabia distinguir se era pior permanecer com o amigo e participar de mais uma investigação ou voltar para casa e encarar a dura realidade que o vinha perseguindo desde os últimos quatro anos. Permaneceu.

[...]

A nostalgia por ele sentida ao adentrar o antigo apartamento foi inevitável. Surpreendeu-se ao perceber que a única coisa que vivenciara ao analisar o local há dois meses havia sido uma profunda depressão, já que a disposição dos móveis jamais mudava; mas agora, o único sentimento que tinha era de uma grande saudade dos tempos quando dividia o teto com o amigo. E a saleta escura, o quarto bagunçado do detetive, os experimentos jogados sobre a escrivaninha e a aranha dentro do aquário de vidro, enfim, o agradaram bastante.

A senhora Hudson não se fazia presente, por tratar-se de um dia de sua folga, mas o cachorro Gladstone incumbiu-se de receber o antigo dono à porta. Aparentava uma alegria sincera e uma saúde rara de se ver nele, já que geralmente servia como cobaia e era brutalmente anestesiado para mais um dos experimentos de Sherlock Holmes. Enquanto mantinha-se agachado no chão para agradecer com gestos a recepção do animal, Watson viu o outro encaminhar-se diretamente ao espaço do seu quarto, não sem antes deixar pelo caminho um rastro da sua inconveniência:

“Ah, quase me esqueci. Onde estão meus modos? Sinta-se em casa, Watson”, disse, com considerável ironia.

O médico, é claro, ignorou aquela demonstração recalcada de afeto. Tinha mais com o que se preocupar. Mas bastou ver-se sozinho no cômodo da entrada para lançar um breve olhar ao pequeno sofá que tinha, sobre as suas almofadas, um manto completamente revirado. Sabia que o mais baixo, por vezes, dormia ali quando se sentia muito ou muito pouco inspirado em seus estudos, e instintivamente Watson ergueu-se do chão e caminhou na direção do móvel.

Tateou-o. A textura era ainda igual à que estava acostumado – apesar de agora estar um pouco mais envelhecida e desbotada, é claro. Quanto ao manto, tocou-o também. Era quente o suficiente para manter o amigo aquecido nas noites do duro inverno e, ao mesmo tempo, leve o bastante para não incomodar o detetive durante seu pesado (e raro) sono. E então, aconteceu. Sem nem pensar, Watson levou aquele manto à região próxima das suas narinas e inspirou imediatamente o odor que permanecia ali impregnado.


Âmbar. Consistente, mas sutil. Holmes não se dava ao luxo de perfumar o corpo, mas o médico jurava, por tudo o que fosse mais sagrado, que reconhecia no seu cheiro natural o odor doce e terroso do âmbar. Como esquecê-lo? Quando estava solitário na sua residência, reparava também no cheiro de Mary Morstan – doce também, mas forte demais, concentrado demais, artificial demais. Como em muitos outros aspectos, ainda que fosse sensível, delicada, uma boa mulher, Mary não o satisfazia. Não estava nunca satisfeito.

“Watson, apronte-se”, declarou Holmes, do outro cômodo. “Eu e você vamos comer fora.”

Um pulo de susto. Quando se deu conta do gesto grotesco que acabava de realizar, já era tarde. Jogou com força o manto de volta ao sofá desbotado com alguma surpresa, mas o cheiro de Sherlock Holmes já estava contido em seus pulmões. Incomodado, inspirou e expirou rapidamente o oxigênio, com o intuito de fazer com aquele ar saísse de seu corpo. Não obteve sucesso.

Mas... aquele gesto era somente um reflexo do seu cansaço, sem dúvida. Pela noite mal dormida e a viagem incômoda, o médico deixou-se cair sentado sobre uma das almofadas do mesmo sofá com que acabava de trocar momentos íntimos e absolutamente desnecessários. Não deveria se ater a tão pequenos detalhes – o que acontecia era que o manto lhe trazia boas lembranças. Era apenas isso. Uma refeição fora da casa lhe faria bem, afinal.


Convicto de sua ideia, ergueu-se do sofá e caminhou, íntegro, até o encontro do amigo. Em algum lugar de seu âmago, porém, sabia. Sabia que seriam necessárias inúmeras refeições fora da casa, inúmeras tomadas de ar fresco para que conseguisse tirar da cabeça os pensamentos que o vinham atordoando.

Notas finais
Reviews, reviews, reviews. *-*
Cadê-las? ;;;;;;