Notas iniciais
FALA, GENTE. Muito obrigada pelos reviews ♥. Eu, que não esperava nenhum pra essa história, até que fiquei bem animada com o resultado. Aqui vai o segundo. Aliás, desculpem pelo tamanho, mas juro que dei uma encurtada... Continuem comentando e façam uma pessoa feliz!

Dizer que a casa de Watson com Mary Morstan era mais bonita do que a de Watson com Sherlock Holmes seria de grande indelicadeza. Na verdade, não se comparavam. Holmes estivera lá poucas vezes, mas recordava que o novo espaço de moradia de Watson era amplo, todo iluminado pelo frio sol da cidade àquela época do ano; havia áreas verdes para futuras crianças e havia cômodos bem dispostos, limpos e organizados de forma que jamais seriam se o outro morador fosse o detetive. As paredes claras refletiam a suposta alegria de um casal junto há apenas quatro anos e a mulher que o atendeu à porta, muito bem selecionada, era delicada e tinha bons modos incomparáveis. Ela foi, evidentemente, a encarregada de levar a visita à sala de estar daquela propriedade bem cuidada e preservada, exatamente como Watson sempre sonhara em tê-la.

Enquanto caminhava pelo largo corredor, Holmes se perguntava que raios estava fazendo ali. Não havia chance alguma de Watson estar deprimido e precisar de seus auxílios; e ainda que estivesse, que auxílios uma pessoa solitária e apática como Holmes poderia dar? Sua vivência pessoal em relações afetivas era quase nula, salva por algumas mulheres com quem havia, ocasionalmente, trocado experiências sexuais (e outras relações de pouca intimidade). Encarava agora as pequenas costas cobertas da mulher que andava à sua frente e pensava que podia muito bem ajeitar-se na vida com uma pessoa tão jovem quanto ele próprio, casar-se, ter filhos... Mas aquelas considerações não estavam em sua mente. Não. A única coisa em que tinha qualquer interesse era o quarto escuro, as seringas com cocaína, a possibilidade de desvendar novos e estimulantes casos – esses sim o excitavam verdadeiramente.

Ao chegar à sala, deparou-se com um Watson polido, engomado, sentado sobre um largo sofá, o tabaco em mãos. Ele cuidou de apagar a droga no cinzeiro e levantar-se assim que avistou quem chegava.

Watson era poucos centímetros mais alto do que seu visitante, mas a postura sempre ereta, contrastada com o desleixo característico de Holmes, dava a impressão de que aquela pouca diferença era, na verdade, relevante. Não era só a postura que se fazia admirar em Watson; o corte da barba, o vocabulário, os trajes, até mesmo o sotaque inglês impecável, todos esses elementos e alguns outros ainda contribuíam para a integridade absoluta de sua imagem. Era de se admirar que havia suportado morar tantos anos ao lado de Sherlock Holmes.

“Holmes”, cumprimentou ele, com o eterno sorriso cordial, enquanto dava alguns passos na direção do amigo. Estava, de fato, vestido quase formalmente. Os dentes brancos reluziam os olhos que, direcionados para baixo, fitavam os de Holmes de forma direta. Havia algo de estranho naquela aparência, afinal.

“Watson”, veio a resposta rápida, um sorriso muito menor fazendo-se e desfazendo-se em seguida sobre os lábios do detetive. Não havia espaço para cerimônias em uma visita como aquela.

O aperto de mão entre os dois com forma de cumprimento era indiscutivelmente dispensável. Sempre que se viam, desde que a intimidade dominara a relação, cumprimentavam-se apenas com o olhar, com uma franqueza característica apenas de duas pessoas que jamais se despediam, mas sempre se reencontravam. Assim, o estender de mãos por parte de John Watson serviu somente como uma prova de que algo não andava bem; a mão, é claro, permaneceu suspensa no ar, sem chance alguma de ser tocada.

“Você se cansou das visitas ao nosso lar, como percebo”, observou Sherlock Holmes enquanto seus olhos varriam ferozmente a sala de estar do amigo à procura de evidências que explicassem o estranho comportamento. Encontrou-as no hálito do anfitrião, assim que ele, rindo, frisou:

“Seu lar, Holmes. Seu lar. Como anda a casa?”

“Muito bem. A sua também anda bem, pelo que vejo”. E, percebendo o súbito ato de franzir o cenho vindo de Watson, explicou: “Você parece ter recebido visitas.”

“Não muitas.”

“Então bebeu sozinho?”

O sorriso nos olhos do maior se desfez. Claro, quem estava ali era Sherlock Holmes. Mas John tratou de recompor-se a tempo de sorrir novamente e corrigir-se: “Alguns poucos amigos.”

“Claro.”

Havia uma grande mesa de centro e quatro sofás no cômodo. Além desses, localizava-se encostado à parede um grande armário dividido em duas partes, sendo uma de vidro, estampando uma bela prataria, e outra de madeira, da qual não se podia visualizar o conteúdo. Tudo isso, somado a um tapete caro, alguns quadros e portas que conectavam diferentes cômodos, era iluminado por um lustre central prata, aceso por velas ao tardar do dia. Mas Holmes deteve-se somente no móvel da prataria.

“Ali é onde você guarda suas bebidas?”.

Mas não obteve nada além de um sorriso de reprovação como resposta. Percebendo que acabava de tocar em um assunto delicado, achou que convinha variar a pergunta:

“Há quanto tempo que não nos vemos, Watson?”, murmurou, aproximando-se a ponto de ficar com o rosto um só palmo distante do rosto do outro. As sobrancelhas arqueadas de Holmes e a sua expressão séria incomodavam profundamente.

“Dois meses, eu creio.”

“Dois meses.”

Então, em uma mente, surgiu um palpite. Rápida e instintivamente, Holmes saiu do alcance do amigo e dirigiu-se ao armário recentemente localizado. Precisava correr se desejasse continuar fora do alcance de Watson; chegou a ouvir, durante a curta trajetória, objeções vindas do outro, que andava rápido, procurando segurá-lo. Mas felizmente, chegou ao seu objetivo e abriu as portas pesadas a tempo.

Dentro do armário, inúmeras garrafas de vidro. Aguardentes locais e de diferentes nacionalidades, com diferentes rótulos e diferentes teores alcoólicos. Uísques, runs e vinhos que Holmes conhecia de vista e desconhecia de sabor. E tantas garrafas absolutamente vazias. Não se recordava de um Watson viciado em bebidas alcoólicas; era verdade que mantinham em algumas épocas o costume da bebida e usavam drogas que por vezes as superavam – destacando-se nessa categoria o detetive –, mas o dom da observação e intuição apontava para o fato de que o amigo havia comprado e bebido recentemente aquilo tudo apenas com a companhia de sua própria pessoa.

“Você não opera ninguém quando bebe isso, certo?”

“É pra isso que você vem, Holmes”, afirmou um Watson com o semblante apagado, empurrando bruscamente o mais baixo para longe e fechando novamente as portas do seu armário.

“Vim pra ajudar um amigo, Watson”, foi a resposta ofendida. “Mas você andou bebendo”, acrescentou; nesse momento ainda, viu com o canto dos olhos um pequeno papel caído sobre o chão, à frente do sofá no qual se encontravam. Como Watson estivesse mais resoluto em trancar o armário de bebidas – e estivesse tendo alguma dificuldade para tanto –, Holmes apenas caminhou em direção àquele sofá e apanhou o pequeno papel nas mãos. Havia nele nada além de um número.

“Bebendo e apostando, Watson”, concluiu. Ajoelhou-se e espiou embaixo do mesmo sofá, encontrando diversos outros papéis como aquele. Foi o máximo que pôde ver antes de ser brutalmente puxado pela gola da camiseta e posto de pé pelo outro, que permaneceu segurando seu colarinho em tom de ameaça.

“O que você quer aqui?” sussurrou um Watson irritado, sacudindo-o e arrancando-lhe um grunhido. Os seus olhos perfuravam facilmente os olhos de Holmes, mas o menor não desviaria os seus; em verdade, a única reação do detetive podia ser a abertura de um sorriso frente à violência do amigo. Aquela violência gratuita sempre lhe havia chamado a atenção de alguma forma, e às vezes se pegava em atos de provocação apenas para experimentá-la mais uma vez.

“Mary... está... viajando...”, disse Sherlock Holmes com a pouca voz que aquela posição lhe permitia. As mãos de Watson sobre seu colarinho estavam começando a sufocá-lo; então, foi colocado novamente sobre o chão. O mais alto mantinha os olhos estreitos na direção dos seus, evidentemente desconfiando do rumo daquela conversa. “Mycroft tem uma casa de campo, você sabe...”

“Nós não vamos a lugar algum.”

“Claro. Mas então poderíamos ir para o centro...”

“Você? Indo para a cidade?”, interrompeu Watson, os olhos demonstrando novamente a desconfiança e o nervoso que aquele diálogo estava lhe proporcionando. O detetive apenas deu de ombros. “Eu não estou doente, Holmes.”

“Certamente que não.”

“Eu e Mary estamos bem. Ela foi visitar uma tia no interior, estará de volta em três dias e nós passaremos o Natal juntos. Não que eu te deva alguma satisfação”, murmurou entre dentes. “Você está perdendo seu tempo.”

“Nesse caso, terei que ir embora.”

E então, Sherlock Holmes, após arrumar novamente a gola do sobretudo e fazer um breve aceno, virou-se e dirigiu-se lentamente à entrada da sala de estar. Era claro que havia algo errado, já que Watson jamais ficara dois meses sem visitar a casa em que moravam antes do casamento; costumava ir vê-lo semanalmente e, por vezes, ia até mais de uma vez por semana, para evitar que Holmes precisasse ir até sua casa e encarasse Mary Morstan, com quem não se dava. A bebida e o jogo, esses não eram novidade; mas a frequência com que parecia recorrer a eles era um pouco perturbadora, já que nem ao menos se dera o trabalho de manter trancado o armário de bebidas ou de jogar fora bilhetes antigos. Ou então, aqueles bilhetes não eram antigos; poderiam muito ser apostas diferentes em diferentes jogos e corridas... o que decididamente seria mais preocupante.

De qualquer forma, enquanto via o detetive dirigindo-se à saída, John Watson pensou mesmo em impedi-lo, mas perguntou a si mesmo o que diria para manter Holmes em sua casa. Além de previsível, isso seria rebaixar-se e inflar o orgulho do outro, que perceberia sua preferência em mantê-lo ali. Não, não convinha manter Holmes em sua casa, da mesma forma que não convinha explicar os bilhetes ou a bebida; nem ele mesmo, em verdade, conhecia os motivos de se estar entregando aos vícios daquela forma.

Assim, tudo o que o anfitrião fez foi observar o amigo que se afastava. Engoliu as palavras que pensara em proferir e foi em direção à janela. Precisava abri-la e respirar um pouco de ar fresco, talvez.

[...]

Ao chegar em casa, Holmes sentiu uma inquietação apoderar-se de seu espírito. Não havia realmente descoberto o motivo da moléstia e do sumiço de Watson, mas apenas por tê-lo visto, e naquele estado, o detetive sentia-se agitado demais para voltar a seus estudos acerca do estimulante; ao mesmo tempo, estava desperto demais para tentar pregar os olhos. Havia algum tempo que não experimentava os sintomas da insônia, mas, ao cair da noite, viu-se novamente vitimado por ela.

Eram cerca das nove horas quando, para a sua sorte, um jovem desconhecido apareceu à porta segurando em mãos uma carta cujo remetente era o inspetor Lestrade.

O documento, de forma sucinta, intimava-o a comparecer imediatamente em um café específico localizado no centro da cidade, e que não fosse seguido até lá. Como não recebesse a dádiva de casos interessantes desde que Watson renunciara ao cargo de assistente, Holmes não pôde deixar de estranhar a intimação; ainda assim, tratando-se de um pedido da Scotland Yard, o problema certamente era grave, e sua presença era mais do que obrigatória.

Procurando ater-se ao fardo do dever, então, suspirou profundamente ao ter de vestir mais uma vez o pesado sobretudo. Interessante notar que, após a visita à casa de Watson, o que antes era um desejo doentio por um caso interessante tornava-se agora um problema a mais a ser resolvido. Sua mente era acabava de ser tomada por outras preocupações.

Contrariado, abriu a porta e encarou mais uma vez o frio da cidade de Londres. O que o tirava de seu lar naquele momento era o trabalho de auxiliar as autoridades em mais um caso de investigação; a cabeça, porém, passava a girar em torno única e exclusivamente do antigo assistente, agora alcoólatra, a quem, sem dúvida, preferiria estar estendendo a mão.

[...]

Lestrade era um homem de idade consideravelmente avançada, rugas profundas nos cantos dos olhos e uma expressão de arrogância rara de se encontrar. A arrogância estampada em sua face, aliás, quase chegava à altura da arrogância de Sherlock Holmes quando eram seus métodos e seu trabalho que estavam em discussão. Naquele dia, em um café apertado e de poucas luzes, eles se encontraram, apenas os dois, para discutir um caso que havia recentemente chegado às mãos da Scotland Yard. Enquanto ouvia o renomado inspetor dar as informações básicas acerca do ocorrido, o desinteresse de Holmes era evidente. Jamais se sentira desinteressado frente a um caso como aquele.

“Assassinato, Holmes. A poucos dias do Natal”, disse o homem, a voz baixa e os olhos percorrendo rapidamente o recinto na desconfiança de estar sendo ouvido. “Um sujeito odiado por pessoas poderosas, segundo as poucas fontes que tenho. Walter Lloyd, 46 anos, encontrado morto em um pequeno hotel na região de Wembley. Tudo indica estrangulamento, mas evidentemente esperamos a sua opinião antes de seguir em frente”, concluiu. Estendeu ao detetive um pequeno papel em que se lia Scarle Road, 451, Wembley, nordeste de Londres, Inglaterra. Seria necessário um táxi com cavalos realmente rápidos para chegar à região de Wembley antes de uma hora, mas Holmes apenas assentia com cabeça enquanto sua mente filtrava rapidamente as informações cedidas pelo inspetor. O nome Lloyd não lhe era estranho, mas tinha a impressão de que havia alguém que o conhecia melhor do que ele próprio...

“Um homem de apostas?”, perguntou, uma sensação extremamente agradável invadindo seu corpo enquanto chegava àquela conclusão.

“E jogos”, complementou Lestrade. “Imagino que você o conheça. Ou... quem sabe... Watson”.

Watson.

Ao pronunciar o último nome, o inspetor sorria quase maliciosamente para um Sherlock Holmes que até podia ignorar aquele sorriso, mas não podia disfarçar a surpresa expressa em seus próprios olhos ao ouvir o nome do companheiro. Era claro que estivera pensando em Watson ao perceber que Lloyd era um homem de apostas, mas o fato de Lestrade ter lido sua mente de forma tão fácil o havia deixado levemente perturbado. Talvez estivesse se tornando uma pessoa previsível.

Bem, as chances de Watson aceitar resolver mais um caso com Holmes eram absolutamente nulas. Além de casado e afastado, o amigo devia estar com alguma raiva da sua pessoa, já que havia sido acusado de alcoolismo e jogatina em uma mesma visita, no mesmo dia e há poucas horas. Ainda assim, era um caso importante, e estava claro que a senhora Watson voltaria de viagem apenas na véspera do Natal. Talvez se Holmes implorasse muito... Não, ainda assim John Watson não aceitaria. Talvez se o ameaçasse. Mas com o quê? Talvez se apenas inventasse alguma mentira convincente e o infiltrasse no caso de alguma forma.

“Mas Watson não trabalha mais com você, pelo que tenho ouvido...”, provocou Lestrade, a maldade refletida nos olhos escuros e risonhos. “É uma pena, Holmes. A presença dele no caso seria significativa para nossos esforços, já que o nome da vítima não lhe deve ser estranho...”

“Watson e eu trabalhamos juntos, Lestrade”. Chances absolutamente nulas. “Se suas fontes dizem o contrário, arrume fontes melhores. Scarle Road, 451, em Wembley, a nordeste de Londres”, murmurou entre dentes enquanto os punhos eram fechados brutalmente sobre o pequeno papel entregue pelo inspetor. Quem Lestrade pensava que era para afirmar que não trabalhavam mais juntos? Era evidente que trabalhavam juntos. Haviam se juntado dá mais de dez anos e jamais seguiriam rumos diferentes. “Estaremos lá.”