O Caso De Scarle Road
7 Sétimo.
Notas iniciais
Exatamente, cinco mil palavras. Mas eu juro que tenho um bom motivo dessa vez, e que a partir do capítulo seguinte volto a pegar leve com meus amados leitores. ♥
Gente... eu não sou de fazer spoiler não, mas demorei mais que o normal pra postar esse capítulo porque tive que vender minha alma pro diabo pra acabá-lo. E AINDA NÃO SEI COMO CONSEGUI.
Sejam muito legais comigo, por favor, que eu já sou perseguida u_u' Mas sejam sinceros também, porque sinceridade é tudo e eu quero poder melhorar mais a cada dia pra merecer os leitores que tenho ;;
Deus ajude vocês nessa leitura. Amém.
Cortante. O frio da madrugada era cortante. Maldita noite, maldita data.
Holmes permanecia sentado sobre a cadeira de seu hall de entrada. Com os cotovelos apoiados sobre as pernas e os dedos cobrindo os olhos em uma expressão de dor, o detetive procurava ater-se a qualquer coisa que não fosse o violento latejar da sua cabeça. Ao lado dos seus pés, triunfava uma garrafa de uísque vazia, e se o homem não estivesse concentrado na dor crescente que dilacerava seus miolos, teria condições de calcular que pelo menos metade daquela garrafa tinha sido ingerida nas últimas horas. Não restava nada.
Não costumava beber tanto álcool quando estava sozinho, era verdade; preferia quase sempre render-se a outras substâncias degenerativas, mas naquela noite optara pela bebida justamente por acreditar que não chegaria a engolir quase dez doses em tão pouco tempo. Acreditara que Watson bateria à sua porta antes que a garrafa terminasse, mas agora percebia o quão enganado estivera.
Pobre Watson. Ele definitivamente estaria pior do que Holmes àquela altura.
Enquanto mantinha os olhos fechados pelos dedos rígidos, Sherlock Holmes não podia evitar culpar-se pela desgraça do amigo. Ele vira com os próprios olhos, pela fresta da cortina que envolvia sua janela, quando Watson avistara Agatha Lloyd saindo de sua residência. O médico, aparentemente, ficara desolado a ponto de desistir da visita que faria a Holmes e apenas encaminhar-se a outro destino. Mas qual destino?
Holmes tinha um palpite, é claro. Um palpite quase certeiro. Já havia, porém, se enganado uma vez naquela noite – conhecendo Watson como conhecia, imaginara que o doutor voltaria a bater na sua porta bastante irritado pouco tempo após o ocorrido com Agatha, mas equivocara-se; havia já três horas desde que John avistara a mulher saindo de seu apartamento, e ele ainda não havia retornado. Onde estaria?
Bem, na sua própria casa, ou nas apostas, ou em um bar qualquer. Mas sozinho? John Hamish Watson conformara-se em passar o dia da ceia de Natal completamente sozinho? Sem nem ao menos exigir satisfações de Holmes acerca do encontro inesperado com a viúva? Estranho.
O relógio de bolso marcava uma hora e dez minutos da manhã. Se estivesse com sua mulher, Watson com certeza já teria terminado a ceia, e talvez estivesse já tendo momentos íntimos com ela. Mas não estava. Não estava, porque Mary Morstan não estava na cidade. Daquilo sim Sherlock Holmes estava certo.
E enquanto consumia seu próprio cérebro na formulação de hipóteses do porquê Watson não havia ainda batido em sua porta, o irritante cachorro Gladstone voltava a latir.
Holmes apertou mais a própria cabeça entre as mãos e murmurou pela última vez: “Para o inferno, Gladst...”. Mas então, percebeu.
Ergueu-se da cadeira, sentindo uma súbita gratificação em relação ao animal. Agachou-se com o intuito de aproximar- se dele e levou um indicador à boca, pedindo silêncio.
“Tudo bem, Gladstone”, sussurrou, uma mão estendida na direção do focinho do cão. Gladstone o encarava com medo e desconfiança. “Você é um bom garoto”, acrescentou o detetive.
Foi o último diálogo que teve com o bicho antes de trancá-lo em um armário que silenciasse seus latidos. Apesar de bruta, a sua atitude não era composta por más intenções; na verdade, era apenas necessária.
Tendo enfim livrado-se da criatura, Holmes correu em direção à porta de entrada e aguardou. Ouviu silenciosamente enquanto John Watson abria a porta da área comum ao edifício 221B e caminhava até a porta privada de seu apartamento. Aguardou ainda as leves batidas do amigo na madeira antes de abri-la prontamente.
“Watson.”
Era um Watson, sim, que o visitava. Mas talvez não o exato Watson que Sherlock Holmes estivera aguardando.
Molhado pela neve fresca e com os lábios rachados pelo frio, o John Watson que se dispunha à sua frente parecia muito mais abatido, muito mais desolado e deprimido do que o que o anfitrião imaginara receber na residência. As íris azuladas do homem estavam envoltas por uma vermelhidão e um inchaço que indicavam profunda tristeza, e até mesmo a sua expressão facial não era nada convidativa. Se antes não estivera chorando, era certo que Watson vinha usando algum alucinógeno.
“Watson, eu...”
“Perdi tudo.”
O cheiro do álcool era exalado pela sua pele clara.
“Como?”
“Perdi tudo.”
A única reação que Sherlock Holmes pôde ter foi a de afastar-se e abrir passagem para que o amigo adentrasse o apartamento a grandes passos.
“Perdi dinheiro”, declarou ele com a voz trêmula, mas a caminhada ainda firme sobre o piso da sala de entrada. “Perdi pertences”, continuou, seguido de perto por um Holmes que não conseguia raciocinar claramente. Parou ao lado da garrafa vazia. “Você tem mais disso, não tem?”, perguntou, segurando o vidro em mãos.
“O que você está dizendo?”
O mais alto suspirou. Fechou os olhos por um instante e tornou a abri-los. Suas mãos cederam e a garrafa caiu no chão novamente:
“Perdi minha casa.”
“Perdeu a casa?”
“Perdi minha casa, Holmes”. Sherlock Holmes fazia um sinal negativo com a cabeça. “Perdi minha casa e tenho três dias para juntar meus pertences e os de Mary e deixá-la. Três dias.”
“No baralho”, concluiu o outro.
Um silêncio instalou-se entre os dois. Os pensamentos corriam na cabeça de Holmes e esvaíam-se da cabeça de Watson enquanto os segundos prosseguiam. Ninguém se movia, e o único ruído que se detectava no cômodo era da respiração descompassada da visita e calma e uniforme de Holmes – ruído esse, é claro, que se somava a latidos muito baixos e distantes de um Gladstone que reconhecia a presença do antigo dono ali. O médico franziu o cenho ao perceber o paradeiro do cachorro.
“Eu o tranquei no armário”, sussurrou Holmes, dando de ombros.
“Por favor. Por favor, diga que você tem mais uma garrafa dessas.”
A resposta foi mais um sinal negativo, e então Watson pareceu verdadeiramente irritado, apesar de, evidentemente, já ter bebido por si só o suficiente para uma noite de Natal.
“Como você bebe tudo?”, rugiu ele, andando então de forma muito rápida para os cômodos interiores ao apartamento. “Tem de haver mais alguma coisa aqui. Mais alguma coisa deve haver”, repetiu, e sumiu pela porta que o levaria à saleta de estudos do outro.
Organizar os pensamentos, organizar os pensamentos...
O homem acabava de perder uma propriedade de grande valor, e o mínimo que Holmes podia fazer era aproximar-se e consolá-lo com um abraço amigo, oferecer um ombro para que chorasse, um manto para que se aquecesse, o que quer que fosse. Mas não conseguia visualizar-se dando apenas um abraço amigo. Apesar de querer ajudar, a verdade era que ele próprio mal podia manter-se em pé e equilibrado – as quase dez doses de uísque eram bastante efetivas, e desde que John entrara, os olhos do detetive recaíam muito mais sobre a sua beleza do que seus ouvidos sobre o seu discurso. Precisava concentrar-se e exercer agora a função de melhor amigo, mas como?
Tão frio e tão molhado pelo orvalho da madrugada. Holmes não queria oferecer-lhe um manto; Holmes queria ser o manto. Mas não, não. Precisava esquecer aqueles olhos.
Esquecer a pele alva e gélida, esquecer o desenho dos lábios finos, esquecer o reflexo do sol matinal sobre aquela silhueta, a voz grave e calma, o sorriso cordial de sempre e a barba meticulosamente feita, mas acima de tudo precisava esquecer a visão etérea daqueles olhos. Naquele dia, Holmes seria apenas o amigo consolador.
“Você ainda pode... trabalhar comigo”, murmurou para um Watson que não podia ouvi-lo, já que não se encontrava mais na sala. Chegou a elaborar uma tentativa de convencê-lo de que, se voltassem a trabalhar juntos e pegassem bons casos, o dinheiro poderia ser recuperado, mas... o álcool que corria por sua veias dava a impressão de que, se realmente se aproximasse para falar com o amigo, era bastante possível que começasse a agir de forma passional e cometesse atos imperdoáveis.
Atos imperdoáveis. Mas que malditos atos seriam imperdoáveis àquela altura?
Estava farto de podar-se. Estava farto de prosseguir com o fingimento de que não havia nada a mais além de um sentimento fraterno, farto de tentar persuadir a si mesmo que era auto-suficiente a ponto de viver sem o parceiro, farto de lutar contra a verdade dura e insistente que ecoava como um canto do demônio na sua mente. No passado, costumava ser um homem dominado apenas pela ciência – um homem que tinha prazer somente em utilizar-se de seus profundos conhecimentos na solução de crimes de grande atrocidade, na descoberta de novas fórmulas e substâncias que levassem ao progresso de alguma forma. E que tinha se tornado agora?
Lançou um breve olhar à grande janela que mostrava a cidade e procurou no vidro a imagem de seu próprio reflexo. Não era mais nada do que costumava ser. O grande cientista tornava-se lentamente apenas um grande aglomerado de moléculas inúteis, um organismo que se recusava a aceitar o fato mais verdadeiro e comprovado que já havia caído em suas mãos. Como se diminuía a ponto ser tão cego?
Um barulho de vidro estilhaçando-se no chão.
“Watson?”, chamou, os olhos agora direcionados à porta do cômodo que o companheiro ocupava. Não obteve respostas.
[...]
Idiota. Era um idiota.
Se ao menos pudesse, por uma única vez, agir de forma despercebida dentro daquela casa, mas não. Acabava de derrubar o frasco de substância transparente no chão e chamar a atenção do detetive. Desperdiçara a única vez em que Holmes não estivera observando atentamente todos os seus movimentos, e agora estava tudo perdido.
Imediatamente, ajoelhou-se, procurando salvar o mínimo que fosse do líquido que não havia conseguido terminar de beber, mas já era tarde: o recipiente acabava de se desfazer em inúmeros cacos, e a substância, que o médico ingerira em parte, agora formava uma pequena poça sobre o piso de madeira da sala de estudos.
Em uma fração de segundos, surgiu à porta um Sherlock Holmes atônito, que, com o olhar, repreendeu a sua falta de atenção.
“Desculpe”, disse Watson, ainda agachado. “Eu precisava beber algo”, justificou-se, como se todo o rum que destruía seu fígado não fosse o suficiente por aquela noite.
“Você bebeu isso?”
“O que era...?”
Sherlock Holmes avançou então sobre a sua pessoa. Puxou suas pálpebras inferiores de forma a poder examinar seus olhos, mas estava tão tonto, que não conseguia focar um só local das escleras avermelhadas por mais de dois segundos:
“Você sente alguma coisa? Está agitado? Está tendo alucinações?”, perguntou em sequência, a curiosidade tomando-o por completo.
O estimulante no qual estivera trabalhando acabava de ser ingerido, e Holmes tinha algumas expectativas em relação aos efeitos do mesmo, é claro, mas... não tinha certeza de tê-lo concluído. Ademais, ele não havia sido feito para ser bebido, mas sim injetado. E fora isso tudo, a ingestão simultânea de bebidas alcoólicas poderia comprometer significativamente aqueles efeitos.
Torceu mentalmente para que o médico não viesse a passar por um ataque epilético em plena véspera de Natal, mas guardou para si aquelas reflexões.
“Alucinações... como?”, perguntou Watson.
[...]
Muito próximo. Próximo demais. Insuportavelmente próximo.
O âmbar invadiu seus pulmões tão logo John Watson deu-se conta de que nem mesmo vinte centímetros os separavam. A visão embaçada começava já a confundi-lo, mas reconhecia com clareza as mãos de Holmes segurando-lhe as pálpebras enquanto ele o encarava de perto. Conseguia lembrar-se da primeira vez que avistara aquelas mãos, e por um breve momento, foi como se o tempo não exercesse uma barreira entre o presente e aquela época, quando foi apresentado por Stamford ao amigo em um laboratório de química. Mãos sempre feridas, mão mal-cuidadas. Mãos eternamente desbotadas pela quantidade de ácido com que tinham de lidar diariamente.
Watson desligou-se do mundo em que vivia para concentrar-se apenas no toque daquelas mãos. Sentia agora a acidez da substância que ingerira revirando seu estômago, mas resolveu que não faria alarde, não. O momento era precioso demais para ser desperdiçado, e ainda que tivesse perdido a esposa, a casa própria e a dignidade, percebeu que nada realmente importava; se o seu destino fosse morrer em Baker Street pelos efeitos de um estimulante formulado pelo amigo – e, o que era melhor, ao lado do próprio Holmes –, estava bem, estava pronto, havia vivido o suficiente.
Existia no mundo uma única pendência que teria de resolver para partir em paz.
Com as pálpebras já livres, fechou mais uma vez os olhos. Estava desorientado a ponto de cair, mas estava certo de que os braços de Sherlock Holmes o segurariam. Já não distinguia o odor do âmbar. Mas a respiração do mais baixo estava tão próxima, e parecia tão morna em relação aos seus lábios gélidos...
Desequilibrou-se.
Abriu os olhos.
Sherlock Holmes havia juntado a boca à sua.
Como que por instinto, a circulação acelerada, o coração pulsante, as pupilas contraídas pelo susto, Watson empurrou-o para longe. E levou, trêmulo, os dedos aos próprios lábios enquanto sentia o pesar do ódio nos olhos do parceiro.
Ao contrário do que se esperava da sua pessoa, porém, Sherlock Holmes não se afastou. Não se afastou, porque reconheceu nos olhos de safira do médico o mesmo sofrimento que vinha carregando nos seus próprios. Então, com a força e a convicção que não lhe pertenciam, segurou firme nos pulsos de Watson, impedindo que ele voltasse a se afastar, e juntou, à força, seus lábios aos dele novamente.
Impossível perfurá-los. O amigo mantinha a boca fechada com tamanha força, que Holmes não conseguiria abri-la nem mesmo se utilizasse um alicate. A expressão do mais alto estava contraída em profundo desgosto, mas Holmes não podia dar-se ao luxo de desistir naquele momento. Sabia o que estava fazendo.
Precisava quebrar a barreira. Não podia ceder, não estava enganado. Sherlock Holmes não podia enganar-se.
Lutando contra a dor e a humilhação por estar sendo rejeitado, colocou as duas mãos sobre a face de Watson e forçou-se mais contra ele, agora em uma tentativa desesperada de obter qualquer outra reação do outro que não fosse o nojo. Adentrou, porém, um território não permitido, e Watson começou a torcer seu braço de forma que tudo o que Holmes pôde fazer foi soltar um grunhido enquanto ainda insistia num beijo que não vingaria.
A torção prosseguiu. Era uma tentativa de quebrar o seu braço, decerto.
Os joelhos do mais baixo começaram a ceder e ele foi-se aproximando do chão, destruído pelo cansaço, seguido de perto por um Watson cheio de raiva que continuava decidido a causar-lhe mais dor. Com certeza ele estava alucinado pela droga, mas Holmes não podia reagir. Podia lutar contra qualquer pessoa no mundo, exceto John Watson.
Quando estavam enfim ambos no chão, a dor foi tamanha, que se fez necessário o afastamento. Por conta dele, o doutor aliviou o golpe e deixou que o outro respirasse por alguns instantes. Encaravam-se como inimigos, mas a situação na verdade era outra.
“Desculpe”, murmurou Holmes, um pouco ofegante. “Pelo seu Natal”, completou. “Se soubesse que lhe causaria tanta amargura, teria deixado você levar o manto, Watson”.
Watson avançou sobre ele novamente. Deitou-o no chão, posicionou as mãos estrategicamente sobre o seu pescoço. Os dedos trêmulos, porém, não estavam em bom estado para a prática de um homicídio. O equilíbrio mental para o cálculo de uma boa estratégia também se ausentava na situação. Mas a raiva acumulada era tanta, que a hipótese de tirar a vida daquele homem perverso era bastante convidativa.
Agora, era certo que Sherlock Holmes sabia. Era certo que sempre soubera ser a verdadeira moléstia do médico, o verdadeiro motivo pelo qual o outro bebia e vinha assustando sua esposa. Holmes sempre soubera do desejo de Watson para que voltassem a trabalhar juntos. Sempre soubera que o médico iria a Scarle Road ao encontrar seu bilhete embaixo da porta; que o parceiro aceitaria de bom grado passar uma noite com ele em um hotel desconhecido; que Watson havia cheirado o seu manto e procurado desesperadamente, a cada dia mais, uma forma de reaproximá-los. E acima de tudo aquilo, certamente também soubera que ele cairia, inconsolável, em mais uma mesa de jogos ao ver Agatha saindo de sua casa. Nada escapava aos seus olhos calculistas.
"Você planejou tudo", sussurrou. Não tinha firmeza nas mãos para continuar pressionando por muito tempo o pescoço do menor, mas prosseguia. Gotículas de origem duvidosa formavam-se ao redor dos olhos cor de safira.
"Planejei o quê, Watson?"
"Planejou pra que eu voltasse a frequentar essa casa."
"Eu não planejei nada, Watson."
Um novo silêncio na sala. Recomeçaram, ao longe, os latidos de Gladstone.
"Você está aqui porque quer."
Não soube definir então o que se passou pelo seu organismo quando ouviu aquelas palavras duras. Tudo o que soube foi que suas mãos fraquejaram e que foi necessário apoiá-las no chão para que não caísse. O seu coração solitário, acelerado, pediu para que tomasse uma atitude. Assim, rendeu-se ao efeito da droga. E antes que pudesse ser dar conta, ele próprio estava abaixando e selando a boca de Holmes.
O mais baixo levou rapidamente as mãos à sua nuca e prendeu-o, prensou-o mais contra si mesmo, de forma a fazer os seus órgãos mais sensíveis se tocarem por cima das vestes. Bastou aquele gesto para que o médico ofegasse e deixasse transparecer o desejo que o vinha consumindo há tanto tempo. Enganar a quem? Enganar-se por quê? As provas do seu almejo doentio estavam ali – e ausentavam-se testemunhas. Acometido por uma vontade latejante de intensificar o beijo, abriu a boca, deixando que apenas a língua se arrastasse lentamente pela do detetive.
O deleite que invadia ambos era gritante. O ato era imoral, talvez ilegal, mas nada mais tinha importância. Conforme tinha o interior da boca violentado, Holmes ia deixando que o lado racional se esvaísse do seu ser. Estava vivo, afinal. E precisava externar aquela vida.
Aproveitando-se do visível desconcerto do médico, que já mantinha a respiração acelerada e ousava apertar com a mão uma de suas pernas, Holmes exerceu toda a força que tinha dentro de si e trocou bruscamente as posições; empurrou o outro e deitou-o com agressividade sobre o chão, sentando-se a seguir sobre o seu abdômen. Watson gemeu alto àquele susto; não esperava uma atitude tão convicta por parte daquela pessoa. E a seguir, cravou parte das unhas curtas sobre as costas do menor e enroscou a parte restante nos seus cabelos enrolados enquanto Holmes passava a examinar de perto o seu pescoço.
Tantas vezes desejara aproximar-se do pescoço. O odor do almíscar contrastava com o do âmbar; era quente e convidativo, e tudo o que o homem podia fazer era mordiscar a pele lisa e suave que o continha. Ouvia em alto volume as reações daquele que tanto desejava, e surpreendeu-se ao notar que o amigo erguia a própria pélvis em uma tentativa desesperada de maior contato com o seu corpo, além de já segurar com alguma força os braços do mais baixo, planejando mais uma troca de posições.
O seu sangue ebulia em testosterona. Queria não só deitar Holmes novamente, não só tomar para si a posição de dominância, mas abri-lo, rasgá-lo, machucá-lo se fosse necessário. O seu membro, bem como todos os outros órgãos que o compunham pareciam latejar, clamando por atenção em um só ritmo, uma só frequência. E se não tirasse aquela pessoa do seu pescoço imediatamente e se encaixasse sobre ela como jamais havia feito antes, era bem provável que explodisse pelo desejo.
Segurou os braços do detetive com mais força. Tentava imobilizá-lo para que saísse de seu tórax, mas o anfitrião era escorregadio como o óleo. Mantinha-se firme ao seu objetivo e ia deslizando o corpo sobre a superfície do corpo do mais alto. Quando chegou a encostar o espaço entre suas pernas sobre o botão da calça de Watson, os lentos movimentos de fricção que começou a fazer arrancaram quaisquer pensamentos do mesmo.
Sentado sobre o seu ventre, Holmes prosseguia com os movimentos de subir e descer de forma cada vez mais rápida e mais forte, impedido de um toque efetivo apenas por conta das peças de roupa que os separavam. A sua necessidade aumentava a cada segundo, e assim, com as mãos espalmadas no peito de um parceiro que gemia por mais contato, e sentindo nos lábios o sabor da própria transpiração salgada, o mais baixo ardia na sua paixão reprimida, sempre admirando o sofrimento que parecia ser ainda maior no doutor.
Era adorável ver um Watson suplicante como aquele, mas Holmes queria mais. Queria vê-lo implorando com palavras para que prosseguisse. Queria ouvi-lo confessando a sua vulnerabilidade. E nesse instante, um sorriso de maldade moldou a face de Sherlock Holmes – estava sobre um médico do exército, um homem respeitado e teoricamente viril, mas que a fundo era tão... frágil. Iria manter-se sobre seu corpo até quando desejasse.
“H-Holmes...”
“Diga, Watson”, sussurrou em retorno.
“Você... vai...”
E o discurso pausou.
Tão adorável. Tão insuportavelmente adorável. Holmes parou então os movimentos, na tentativa de fazer o amigo recuperar o ar e poder proferir as palavras que desejasse. Mas... equivocou-se com a natureza daquelas palavras. Porque assim que, agora já parado, fechou os olhos para selar novamente a boca do médico, sentiu uma mão firme fechar-se sobre os seus fios de cabelo e puxá-los com brutalidade. Fitou então os olhos azuis que o encaravam em tom de alarme.
Já não possuíam a cor da safira. A pigmentação celestial que lembrava o éter e a pureza os havia abandonado. Agora, assumiam uma coloração azul-marinho que lembrava a ágata, escura, nublada, ameaçadora, e com aqueles faróis que guardavam intensa violência, Watson o advertia pela última vez. Holmes sentiu um sutil arrepio na espinha ao fitar de frente aquelas esferas maléficas. De repente, estremeceu. E não soube discernir se o medo súbito que o invadia era por conta daquela coloração, por conta da dor dos fios de cabelo que eram puxados ou por conta do sussurro sério que o maior direcionou à sua pessoa:
“Você vai fazer o que eu disser”.
Se Watson o tivesse ameaçado com uma faca, certamente o efeito de temor sobre Holmes não seria tão eficiente.
Perfurado por aquele olhar e aquelas palavras – e dando-se conta de que ele próprio era vulnerável àquele ponto –, o detetive assentiu com a cabeça. Estava pronto para sair de cima do ventre do médico e deixar-se dominar por livre e espontânea vontade; mas não foi preciso. Em uma fração de segundos, Watson deu-se ao trabalho de empurrá-lo novamente para o lado, saindo debaixo de seu corpo e terminando por jogá-lo de bruços sobre o chão. As posições invertiam-se novamente.
O pavor e a adrenalina corriam agora livremente pelas veias de Sherlock Holmes. As mãos gélidas dispunham-se sobre o chão de madeira, inofensivas, e todo o seu corpo parecia submetido às ações da visita. Prendeu a respiração por alguns segundos ao ouvir o maior livrando-se do suspensório e da camisa branca que o sufocavam.
O cheiro do âmbar e do almíscar foram substituídos por um cheiro de transpiração fresca quando o médico posicionou as mãos sobre o único botão das calças do outro e passou a roçar lentamente o seu membro, rígido, por entre suas pernas ainda cobertas. Gemidos começaram a abandonar a garganta de Sherlock Holmes involuntariamente. Ele sentia, entre as ondas de prazer que invadiam seu corpo, o orifício posterior – a parte contra a qual Watson se forçava – abrindo-se, dilatando-se, por mais que não houvesse nada o adentrando ainda. (E por favor, por favor, que começasse a adentrá-lo logo.)
“W...Watson...”
Watson depositava alguns beijos sobre os seus ombros, também cobertos, e o detetive se contorcia àqueles toques promíscuos. Teve certeza que o coração ia saltar-lhe do peito quando o homem às suas costas finalmente desabotoou o fecho maldito das suas vestes e abaixou a cueca de algodão apenas o suficiente para que pudesse explorar com liberdade a sua entrada mais estreita.
Vergonha. Sentia o rosto arder em vergonha. Estava absolutamente exposto aos olhos azuis. Saber que o maior estava em posição de vê-lo pelo ângulo mais constrangedor traria um sentimento insuportável se a bebida alcoólica não tivesse efeitos para aliviá-lo. Mas aquelas sensações ainda iriam piorar.
Lentamente, Watson tocou com o maior dos dedos a abertura da sua entrada. A reação foi um gemido alto e dolorido, seguido por um brusco fechar de olhos da parte de Holmes. O médico, evidentemente, notou a profunda vergonha que dominava o amigo; mas agora era tarde demais para simplesmente parar.
Afundou o dedo até onde lhe era permitido, e a passagem estreita daquele canal, o seu calor, a sua umidade, o tecido delicado por que era composto o estavam deixando louco. O seu membro inferior pulsava em dor e agonia e a sua respiração descompassada era forte o suficiente para bater e fazer mover alguns fios de cabelo do menor. Quantas vezes desejara tê-lo de tal forma. Deitado de bruços, à espera, submisso. Submisso aos seus desejos. Aquela imagem ia atiçando-o mais a cada instante, enquanto introduzia e afastava em movimentos sequenciais o dedo premiado que explorava cuidadosamente a região sensível de Sherlock Holmes. Um Sherlock Holmes que gemia e mordia os próprios lábios, também pulsante. À introdução do segundo dedo, o detetive revirou os olhos nas órbitas e começou a colaborar com os movimentos de ida e vinda, levando o corpo para frente e para trás.
Era o momento. E Watson precisava olhá-lo nos olhos.
Dominado por uma agressividade quase animal, tirou os dedos do orifício sensível e virou com brutalidade o corpo de Holmes, de forma a tê-lo deitado de barriga para cima. Sem pensar, sem raciocinar (precisava apenas aliviar-se naquele segundo), Watson posicionou as pernas parcialmente cobertas do menor sobre seus dois ombros e o encarou com ferocidade. O detetive chegou a fazer menção de desviar os olhos, virando a cabeça para o lado direito, mas Watson segurou seu queixo e o puxou novamente para o centro. Querendo ou não, iria encará-lo.
“Você vai fazer o que eu disser”, repetiu, bruto como o desejo demoníaco que destruía seus neurônios.
Mais uma vez, ofegante, Holmes assentiu com a cabeça. Foi o último gesto que pôde fazer antes de ser literalmente deflorado naquela madrugada.
Dor. A dor começou a dilacerar absolutamente o seu interior à medida que o órgão do médico adentrava seu orifício estreito. O grito inevitável, abafado pelos lábios contraídos, ecoou no pequeno cômodo e excitou ainda mais a visita, se é que era possível. Quando finalmente a estrutura toda posicionou-se dentro do canal estreito do detetive, a sensação foi de que ele não aguentaria. Apertou em mais uma súplica a nuca do amigo, prestes a pedir verbalmente para que aquele sofrimento cessasse, mas ao encontrar a fisionomia de prazer de Watson – o cenho franzido, a boca semi-aberta, os músculos todos contraídos na concretização de seu desejo –, Holmes decidiu que suportaria qualquer coisa. A movimentação logo começou.
Tão estreito. Tão apertado, e ao mesmo tempo, tão macio. John Watson estava fora de si.
Conforme ia e vinha em movimentos cada vez mais ritmados, o coração do médico dava batidas mais e mais estrondosas, de forma que ele começava já a sentir um latejar na região da clavícula. A sensibilidade que tinha no órgão permitia que notasse que o estreito orifício do outro realmente ia dilatando-se e contraindo-se, obedecendo ao seu ritmo. Sherlock Holmes estava obedecendo ao seu ritmo. E a intensidade das estocadas simplesmente precisou aumentar quando o menor finalmente aparentou estar tendo algum prazer físico.
Os gemidos passaram a misturar-se e a preencher por completo a sala que já cheirava ao sexo em seu sentido pleno. As mãos de Holmes soltaram-se da nuca do amigo e deslizaram sobre as suas largas costas, arranhando-o violentamente enquanto o barulho das investidas parecia cada vez mais alto. Arqueou as costas e grunhiu quando Watson começou também a movimentar as mãos sobre o seu membro, que até então quase não recebera a devida atenção. O conjunto daqueles movimentos ritmados – o de receber as estocadas e ser simultaneamente aliviado pelas mãos do médico – transformava-o em nada além de um grande duto de prazer, e ao que a visita pareceu encontrar o ponto ideal para as suas investidas, os gritos transformaram-se em verdadeiros urros e as unhas encravaram-se mais naquelas costas, arrancando-lhes até mesmo espessas gotas de sangue.
John Watson, porém, não daria atenção a dor alguma. Percebia o maior relaxamento por parte do companheiro e aproveitava para enfiar-se mais a fundo e utilizar-se de mais força, tendo, por vezes, a sensação de que estava prestes a partir o organismo daquela pessoa em duas partes. As suas mãos adquiriam uma velocidade cada vez mais rápida, e apesar do alucinógeno e tudo que havia ingerido naquela noite, ainda dava-se ao luxo de fazer exigências. Ofegante, utilizava os restos de ar no seu pulmão para pedir:
“O nome, Holmes...”
E Sherlock Holmes, o cientista distante, o detetive incomparável, o sujeito mais apático de toda a cidade de Londres, em um frenesi intenso, gaguejava seu nome. Realmente queria que o seu organismo fosse partido em dois, se aquilo fosse garantia de prazer para o seu Watson.
“Wa...tson...”
Tornava-se impossível continuar carregando aquela necessidade dentro de si. O ápice tornava-se mais iminente a cada segundo; os corações descompassados de ambos, a dilatação e a contração, a falta de ar, os movimentos de ir e vir, os corpos rígidos e as células vivas como nunca clamavam pelo relaxamento. E Watson, percebendo que o fim era inevitável e necessário, acelerou a manipulação do órgão do amigo, vendo-o gemer e arfar antes de liberar, em jatos vigorosos, o prazer líquido sobre o seu ventre. A seguir, todo o corpo de Sherlock Holmes amoleceu por fim, o que resultou no orgasmo em sequência do maior, que se derramou sobre aquele canal estreito junto a um grande gemido de satisfação.
Depois, não houve mais nada.
[...]
Com gotículas ao redor dos olhos – por que diabos tinha sempre que exibir seu sentimentalismo? –, Watson tirou delicadamente as pernas do outro de seus ombros e colocou-as de novo sobre o chão. A seguir, e por mais que o seu desejo mais profundo fosse deitar sobre o detetive (ou ao menos puxá-lo para si), deitou ao seu lado, contido. O discernimento racional voltava à sua mente a passos rápidos.
Lançou então um breve olhar a Holmes, que o encarava.
O detetive parecia ainda fora de si pelo efeito do álcool, o que gerou no outro a vontade de falar algo. Falar naquele momento o que não poderia dizer nunca mais. Mas falar o quê? E como?
“Holmes, eu...”
“Você não precisa...”, interrompeu ele, ainda arfante, as pálpebras já abaixadas. “Não precisa dizer nada, Watson”.
John Watson mordiscou os próprios lábios com aquela resposta.
Talvez, o efeito do álcool não estivesse mais assim tão presente. Talvez, Sherlock Holmes estivesse já se arrependendo do que haviam acabado de fazer. Talvez, ele próprio não se lembraria de nada no dia seguinte, devido ao rum e ao que quer que fosse que tivesse bebido...
“Eu só queria dizer...”
Holmes o olhou novamente. Os olhos da cor de carvão, distantes de novo, acusativos de novo, frios de novo, bloquearam toda a sua necessidade de expressão. O que estava tentando fazer? Declarar-se? Para Sherlock Holmes? Sentiu-se motivo de piada. Se Holmes ao menos imaginasse o que estava passando pela sua cabeça naquele momento, era certo que daria gargalhadas.
Engoliu em seco antes de reformular a sua frase:
“Eu só queria pedir... você sabe... agora que perdi a casa, vou precisar acumular mais dinheiro o mais rápido possível, apesar de já ter alguma coisa. E você talvez ainda precise da minha ajuda para o caso, então...”
O mais baixo então sorriu. Um sorriso que não podia ser exatamente definido como feliz; parecia mais, em verdade, um discreto atestado de tristeza. Mas John Hamish Watson estava alucinado demais e preocupado demais para notar o que quer que fosse.
“O que você quiser, Watson...”, foi a resposta sussurrada.
Dito isso, Sherlock Holmes fez menção de dormir, ou ao menos tirar um breve cochilo antes do dia raiar e ele ter que voltar a analisar os acontecimentos recentes da maneira doentia como previa que faria. Watson, pensativo, mantendo dentro de si uma explosão de sentimentos, permaneceu de olhos abertos.
Mas o médico foi, curiosamente, o único indivíduo a realmente dormir no apartamento naquela noite.
Notas finais
MAIS AMOR (reviews), POR FAVOR T-T
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