O Caso De Scarle Road
8 Oitavo.
Notas iniciais
Esse capítulo foi meio árduo (eu sempre falo isso, mas beleza). Não sei se correspondi a tudo o que vocês estavam esperando depois do ~~SÉTIMO~~, mas espero que eu pelo menos não tenha me distanciado muito das expectativas.....
Desculpem o tamanho, HIHIHI. Viciei em fazer capítulos grandes.
Enfim. Boa leitura e me deixem reviews de amor (ou não) ao final.
Os pássaros não acordaram para cantar na manhã do dia do Natal. Tinham o direito de tirar um mínimo de folga, é claro, ao menos uma vez ao ano. E se tivessem se esgotado na noite anterior tanto quanto Sherlock Holmes havia feito — e a dor da ressaca estava ali para lembrá-lo de tudo -, então as aves tinham escolhido a data certa para não trabalhar.
O frio lá fora era intenso, mas do lado de dentro o calor era tanto, que no vidro da janela se ia formando um rastro de vapor de água conforme os segundos passavam. Holmes ainda não tinha demonstrado coragem o suficiente para abrir aquelas janelas. Na verdade, tampouco pretendia fazê-lo.
O tabaco não largava seus dedos e lábios trêmulos desde que saíra do quarto onde ainda residia John Hamish Watson. E como houvesse adentrado aquele quarto uma única vez durante toda a noite — vez em que carregava o médico já vestido, com muita dificuldade, em seus próprios braços -, sentia já seus pulmões se desfazendo à fumaça morna e agradável da droga. Assim, seu gesto contribuía para a formação de uma segunda névoa dentro da sala de estar: a névoa de nicotina, intensa e consistente o suficiente para intoxicar o seu organismo, que já não apresentava alta imunidade.
Desejava pensar em algo que não incluísse Watson, mas seu cérebro estava atormentado. Quanto mais era forçado a refletir sobre Walter Lloyd e o seu assassinato, mais o órgão rebelde se pronunciava e fazia ressurgir as imagens que teimavam em persegui-lo. Imagens que, por mais que fosse difícil acreditar, chegara a ver com os próprios olhos e em tempo real.
Por que beber tanto? Por que chegar àquele ponto? Por que se render aos malditos sentimentos que vinham brotando em seu interior como ervas daninhas em um jardim sadio? Não aceitava. Era um homem da ciência, havia nascido para o estudo. Mas não se concentrava devidamente no estudo desde que o parceiro tinha retornado de uma vez só à sua vida.
Fechou os punhos, gelados, apesar da temperatura do recinto, acabando por tatear involuntariamente um folheto que carregava em mãos. Havia encontrado-o no dia anterior, logo após deixar a residência de Adolf Weinberg, e logo antes de Agatha fazer-lhe a constrangedora visita. Visita essa que tinha ocorrido pouco antes de... de...
Era um papel relativamente colorido e tinha sido encontrado nos arredores de Greenberry Street. Desde que sentara na cadeira de madeira onde agora se encontrava (o que fazia longas horas), Holmes viera segurando e se forçando a encarar o pequeno folheto. Como se na sua cabeça houvesse espaço para concentração.
Lançou um breve olhar ao anúncio e leu pela milésima vez:
Venda de estofados indianos semi-novos
Greenberry Street, 77
Em 25 de Dezembro de 1981
Necessário código de acesso na entrada
Bufou. Tratava-se de um anúncio para uma reunião fechada de um partido anarquista ainda naquele dia; um anúncio, evidentemente, disfarçado para não levantar suspeitas, já que nem mesmo um sujeito muito problemático estaria interessado em comprar estofados usados no dia do Natal.
Mas que interesse Holmes tinha naquilo? O grande prazer em desvendar crimes vinha tornando-se apenas uma grande válvula de escape à qual recorria em momentos de necessidade. Naquele momento, porém, a necessidade era tanta, que mal podia correr os olhos pelas letras e entender o que estava escrito.
De eminente detetive e químico, estava passando a um miserável analfabeto.
E bem, desejava continuar a dirigir a si mesmo outros xingamentos, talvez bem mais graves; mas não pôde. Não pôde, porque ouviu a porta do quarto ser aberta enfim.
[...]
Watson parecia estar saindo das entranhas da boca do inferno. Arrastando as pernas, uma mão segurando a testa que parecia dolorida, ele tossiu algumas vezes pelo cheiro do tabaco — ainda que também fosse usuário — e encostou as costas na superfície da parede mais próxima, em uma tentativa de apoiar-se.
O estômago de Holmes virou-se em uma circunferência perfeita quando seus olhos negros avistaram aquela pessoa. Como era possível que Watson apresentasse uma boa aparência até mesmo quando seus miolos pareciam estourados pelas drogas e a bebedeira? Adquirindo então vontade própria, os olhos escuros fixaram-se em um ponto qualquer não chão e ali permaneceram. Não estavam em condições de encará-lo de frente.
“Holmes...”, iniciou o mais alto, pausadamente. Mantinha o cenho franzido na sua direção, e a articulação das palavras assemelhava-se a um árduo trabalho. “Você não tem... janelas?”
Era lógico que não teria respostas. Mas Sherlock Holmes deu-se ao trabalho de pigarrear, o que já era muito, dado o seu estado atual.
O mais alto coçou a cabeça algumas vezes antes de tentar novamente:
“Você sabe... eu passei a noite aqui?”
Mais uma vez, não ouviu nada em retorno. Resolveu, portanto, que estava no direito de colocar em prática a sua agressividade natural:
“Cortei sua língua no meio da noite, eu suponho?”
O detetive então forçou-se a fitá-lo. Watson não havia cortado a sua língua, era verdade; mas tinha feito coisa muito pior. Por uma fração de segundos, Holmes ainda ponderou se não preferia ter a língua cortada a ter de dar explicações tão constrangedores a alguém tão próximo.
Um homem da ciência. Um homem tão inteligente. E um homem tão próximo a um cachorrinho indefeso quando se tratava de assuntos pessoais.
“Você sabe que perdeu a casa?”
Ao ouvir as palavras diretas, o doutor fechou os olhos e suspirou pesadamente, como quem se lembra de algo desagradável.
“Ah, sim... A casa. Mary não está ciente disso, está?”
“Eu é que lhe pergunto.”
“Hoje é Natal?”
Um aceno positivo de cabeça dispensou demais diálogos. Logo, um silêncio instalou-se no local.
Gladstone, já solto, movia os olhos de Holmes para Watson e de Watson para Holmes, sem compreender o que acontecia. Ainda que não soubesse, porém, era o ser mais convicto de suas atitudes no recinto.
“Preciso... avisá-la”, murmurou o médico metido a assistente. Parecia mais conversar consigo mesmo do que com o outro. E ao dar-se conta do assunto que ele insistia em tocar em uma ocasião tão delicada, Holmes revirou os olhos dentro das órbitas.
“Claro. Mas antes de sair, Watson, veja isso”.
Passaram-se alguns poucos minutos enquanto os olhos azuis percorriam o folheto de autoria suspeita. Watson não parecia crer no que via.
“Venda de estofados indianos semi-novos”, repetiu em voz alta. “Holmes, você quer... comprar isso hoje?”
Para o detetive, foi impossível evitar um sorriso àquela conclusão absurda.
“Não seja ingênuo, Watson. É uma reunião fechada do movimento anarquista durante todo o dia de hoje, e eu estou incluído nela”.
Os olhos de safira estreitaram-se na direção das grandes letras:
“Não vou poder comparecer.”
“Evidente que não. Você só atrapalharia. Termine os seus afazeres e eu dou continuidade ao caso. Depois veremos”.
Depois veremos. Aquilo não estava certo. Se Watson estava participando ativamente de todo o caso e tomando parte na remuneração, o ideal era que estivesse por perto durante todas as etapas. Mas o detetive sentiu a necessidade de dispensá-lo, simplesmente porque seus olhos ficavam tão magnetizados pela sua imagem, que ele não conseguiria concentrar-se em mais nada — o que já vinha sendo difícil nos últimos tempos. Assim, e considerando que o amigo ainda estaria desejando enviar uma carta, um mensageiro, um telegrama ou o diabo que fosse para avisar Mary Morstan dos últimos ocorridos, a melhor solução que viu foi a de encontrá-lo mais tarde. Todas as pessoas comuns, afinal, mereciam um descanso no dia do Natal.
[...]
Quando finalmente chegou à sua magnífica residência, Watson não acreditou; parecia apenas bom demais para ser verdade que tivesse um dia chamado aquele local de lar. A verdade, agora, era de que nada daquilo lhe pertencia mais. Bastou entrar pela porta para que sentisse a diferença. Algo havia mudado.
Os móveis todos pareciam retrair-se. O chão de madeira, recusando-se a sustentá-lo, estremeceu sob seus pés. Os quadros alinhados o estavam julgando. Em um gesto de reprovação, pinturas e esculturas balançavam a cabeça. Aqueles objetos já não mais o reconheciam como dono, já não mais o respeitavam. Em seu lar, era um completo estranho.
Deu alguns passos, sentindo que as solas dos sapatos colavam-se no piso, de forma a impedi-lo de prosseguir no ato de adentrar os cômodos. Não era mais bem-vindo. Pensou em Mary Morstan e sentiu vergonha. Pensou em seu diploma e desejou rasgá-lo. Em que se havia tornado? Era o proprietário, mas não mais o homem daquela casa. Suas atitudes desmoralizantes haviam destruído com qualquer legado que o homem de outrora viera construindo até então. Agora, nada mais restava.
Afundou-se em uma poltrona qualquer que também se recusava a recebê-lo. Forçou as pernas e as costas contra ela, na insistência de acreditar que ainda tinha autoridade sobre aquele lugar.
Autoridade. Que autoridade? Até mesmo o peso de papel ria da sua pessoa e sussurrava nomes. Não queria ouvir aqueles nomes, mas como evitá-los, se ecoavam incessantemente na sua cabeça desde que amanhecera na residência errada? Não havia solução, não – teria de passar por aquilo. E o que era pior, teria de aturá-los enquanto se misturavam a lembranças tão adoráveis. Lembranças tão insuportavelmente adoráveis.
“Holmes...."
Sherlock Holmes havia... ele havia...
Era evidente que se lembrava bem de todos os momentos da noite anterior. Lembrava-se de ter jogado suas peças de roupa próximas às de Holmes, de tê-lo beijado, de ter apoiado os pés daquele homem sobre os seus próprios ombros. E ao mesmo tempo em que um sentimento de completo fracasso o dominava — tinha perdido seu lar e agora ia perder sua esposa -, uma felicidade sem fim também se instalava no seu peito. O seu desejo era, enfim, recíproco.
Recíproco após o efeito de algumas de doses de uísque, era verdade, mas... Perguntou-se por um momento se Holmes estava consciente de seus atos no momento do ocorrido. Era improvável que estivesse. O próprio Watson estava também bastante alucinado; mas... aquilo não queria dizer que Holmes não se lembrava do que estava feito. Não, ele certamente se lembrava. A primeira evidência era a forma como o tinha olhado, com muito constrangimento, naquela manhã; a segunda evidência era... bem, o fato de se tratar de Sherlock Holmes. Talvez, Holmes, como ele, não estivesse nem mesmo arrependido.
E se fosse realmente esperto como parecia ser — coisa que de fato era -, Sherlock Holmes estava prestes a descobrir suas mentiras.
Não queria ter mentido. Aquilo não estava nos seus planos. Mas de que outra forma podia ter agido ao ser ver encarando o amigo logo pela manhã com aquela expressão de dúvida? Afinal, utilizara-se da mentira não apenas para salvar a própria pele, mas também a dele; nenhum dos dois se sentiria à vontade para tocar em um assunto tão tenebroso. Tão tenebroso e, ao mesmo tempo, tão... prazeroso.
Seria descoberto, sim. Mas levaria suas mentiras até onde pudesse. Nem que aquilo resultasse em mais humilhação para a sua pessoa.
Enganar Holmes. Até quando se iludiria a respeito de ser capaz de fazer aquilo?
A poltrona rosnou mais uma vez pela sua presença, e então Watson resolveu que o melhor seria voltar à carta.
Pegou o papel e a caneta de tinta em mãos, mas não soube como começar. Tantas palavras a serem ditas e tão escasso vocabulário. Tantos anos de estudo rígido e não tinha a capacidade nem para concluir uma carta simples. A confusão em sua mente era tanta, que não sabia nem mesmo se o certo seria começar com “Querida Mary”, “Mary” ou não começar com vocativo algum e ir direto ao ponto. “Perdi a casa".
Deixou que a caneta caísse e os olhos se desviassem do papel algumas vezes. Precisava pensar em letras e frases, mas ainda pensava naquela noite. Ainda pensava em Sherlock Holmes. E nos seus pensamentos, Holmes estava absolutamente desnudo, deitado em um chão frio e sorrindo ameaçadoramente na sua direção. Então, a barba curta do detetive misturava-se aos cabelos longos de Mary Morstan em um frenesi de sentimentos e sexo bruto, e Watson já não sabia o que deveria estar fazendo.
Talvez devesse apenas começar a carta com “Desculpe”.
[...]
Quando o detetive chegou em Greenberry Street, não demorou a avistar uma pequena aglomeração de indivíduos de diversas faixas etárias em frente a uma residência. Na entrada, era certo que estariam pedindo o maldito código de acesso. Holmes não tinha aquele código, não; mas o teria conseguido, se desejasse.
O fato era que sua presença ali se dava por outro motivo. Seus planos não envolviam adentrar a reunião anarquista, mas o exato oposto — sua ideia era permanecer do lado de fora, à procura de qualquer sujeito que lançasse olhares tortos na direção daquele grupo de pessoas. Se Walter Lloyd tinha qualquer ligação que fosse com o movimento, um sujeito de partido opositor com certeza teria algo a levantar contra o falecido.
Um sujeito que seria tão obcecado e tão temeroso por atentados, que teria se dado ao trabalho de sair de casa em um dia de Natal para observar de perto a mencionada aglomeração. Um sujeito engajado na política do país e que talvez estivesse apresentando algum disfarce na tentativa de entrar na reunião e ouvir o que era dito. Um sujeito de estrutura corpórea muito grande, roupas simples e barba crescida que fumava um cigarro a poucos metros de distância.
O seu tipo físico não combinava com a descrição do assassino; mas ainda assim, poderia haver um envolvimento.
Sherlock Holmes coçou brevemente a barba falsa que implantara em si mesmo há poucos minutos e acenou com a cabeça na direção do seu alvo.
O alvo retornou o aceno. Em um gesto, e provavelmente pensando que o detetive estava lá pelo mesmo motivo que ele próprio, ofereceu-lhe um cigarro, ao que Holmes aceitou. Aproximou-se devagar.
“Eu o conheço?”, perguntou o homem, com uma voz grave que correspondia ao grande tamanho do seu tipo físico. Talvez tivesse dois metros de altura.
“Acredito que não”, foi a resposta murmurada. Holmes teve o cigarro aceso, e então prosseguiu: “Eu não moro por perto. Vim especialmente para o evento”.
“Entendo. Você tem um código?”
“Não. Mas acredito que um de nós possa passar despercebido.”
O alvo então assentiu com mais um gesto de cabeça. A sua expressão foi tomada lentamente por um semblante demoníaco, cheio de um ódio que parecia sedento para ser liberado.
“É melhor que você entre”, sussurrou ele. “Se eu entrar, posso acabar destruindo todos de uma vez só”.
Fez menção de parar a conversa, mas como menor não aparentou desejo de interrompê-lo, prosseguiu:
“Minha mulher foi morta em um atentado súbito no centro da cidade. Não souberam dizer o motivo, mas eu tenho certeza de que...”
“Foram eles”, concordou Holmes.
No fundo, não concordava e nem discordava. Pouco lhe interessava a política.
“Um em que Walter Lloyd estava envolvido?”
A expressão facial do gigante então mudou-se novamente. Agora, parecia surpreso de uma forma negativa. As palavras seguintes foram pronunciadas com alguma dificuldade:
“Walter... Lloyd?”, perguntou, os olhos arregalados. Um sujeito sem experiência teria afirmado que, depois daquelas palavras e da súbita surpresa, o homem tinha-se recuperado. Para Holmes, porém, o equilíbrio emocional que ele aparentou tratava-se um disfarce de fácil identificação. “Eu tenho algo a dizer sobre Walter Lloyd”, concluiu.
[...]
O envelope lacrado encarou o médico com alguma hesitação. Continha poucas palavras (cerca de três linhas) que explicavam resumidamente a perda da casa. A princípio, Watson escrevera um documento no qual pedia o retorno da mulher; mas então, deu-se conta de que a presença de Mary Morstan resultaria somente na necessidade de mais explicações acerca do ocorrido, coisa que faria apenas aumentar a sua dor de cabeça. Depois escreveu um novo, afirmando sentir a falta da esposa, mas também resolveu rasgá-lo, considerando-se hipócrita. E, por fim, desistira também de um último, no qual havia começado com “Querida Mary”. Precisava ser claro, direto. Estava em uma situação emergencial e dispensavam-se sentimentalismos.
Mary,
Devido à necessidade, mando esta carta para informá-la de que perdi a casa em um jogo de baralho. Pretendo recuperá-la, mas ainda não sei como. A sugestão é para que você se mantenha afastada até que as coisas se normalizem. Voltarei a dar informações.
Com amor,
John.
Ergueu-se da poltrona convicto de que havia concluído um texto de alta mediocridade, mas que estava livre, já estava feito. Era o dia do Natal e sua única obrigação estava concluída. Bastava que no dia seguinte enviasse o documento para o endereço já conhecido e pronto, Mary estaria ciente. E ele agora estava livre para encontrar Sherlock Holmes e tomar parte nos últimos acontecimentos.
De manhã, quando despertara em Baker Street, havia sido possuído por uma intensa vontade de deixar aquele apartamento e afastar-se do amigo o máximo que pudesse. Agora, porém, que já se via distante por algum tempo, era o seu coração que voltava a palpitar e pedir ao seu lado a presença do detetive. Somada então ao medo de ter sua mentira descoberta – o que seria realmente inevitável – a necessidade de vê-lo unia-se a uma estranha adrenalina e tornava-se ainda mais gritante.
Agasalhou-se bem e trancou a porta da casa – que não era mais sua – ao sair.
[...]
O homem, agora identificado como Christopher Roger Hunt, fazia parte da forte oposição ao movimento anarquista. Os seus olhos, escuros como os de Holmes, perfuravam lentamente todos os revolucionários que ousassem adentrar o seu campo de visão.
Sherlock Holmes estava longe de ser um revolucionário anarquista. Mas ao mencionar o nome de Walter Lloyd, viu-se também perfurado por aqueles glóbulos perversos; quando o sujeito sugeriu que se afastassem da multidão para que trocassem algumas palavras sobre o falecido, surgiu em sua mente a certeza de que o rumo da conversa não seria benéfico. Ainda assim, assentiu com a cabeça, convicto a usar seus dotes da dedução até quando fosse possível.
Assim que viraram a esquina de Greenberry com Bridgeman Street, viu-se brutalmente forçado contra a parede de um edifício pelos cerca de cento e vinte quilos do homem que, de fato, era grande. As palavras ameaçadoras foram sussurradas quando sua testa estava quase encostada à testa daquele senhor pouco distinto:
“Você está me acusando, companheiro?”, perguntou ele, enquanto ia fechando o canal da passagem de ar na garganta do menor.
“Só... perguntando”, respondeu Holmes. O seu sorriso e o bom humor no trabalho eram evidentes até mesmo quando estava sufocando.
“Envolvendo Walter Lloyd em um atentado anarquista...” sussurrou o homem em retorno, a cabeça produzindo um gesto de reprovação. “Você é o quê? Um esperto metido a investigador?”
“Eu não sou...”
“Antes que eu termine o que comecei, fica uma dica pra você”, afirmou por fim. As mãos rígidas apertaram vigorosamente a superfície sobre a qual se encontravam. “Walter Lloyd nunca participou de um atentado. Ele nem sequer foi a uma única reunião anarquista. Walter Lloyd nunca foi anarquista”.
Vendo-se asfixiado por aquelas mãos em poucos minutos, Sherlock Holmes teve, então, a astúcia de bolar uma tática boa o suficiente, rápida o suficiente para livrar-se do ataque e ainda deixar o local com vida.
Fitava diretamente o rosto grotesco de Hunt a poucos centímetros, mas por uma verdadeira fração de segundos, desviaria as íris escuras para a direta, de modo a fixá-las em um ponto específico, e arregalaria os olhos de forma a parecer surpreso pela existência imaginária de uma terceira pessoa ali. O seu oponente, preocupado em manter o anonimato nas proximidades da reunião, seria distraído por aquele ponto, chegando até mesmo a virar a cabeça para identificá-lo, temeroso. Então, Holmes atacaria.
Utilizando-se da pouca distância entre o seu joelho e o ventre do homem, teria como primeiro alvo a parte baixa de seu abdômen. Avançaria sobre ela com alguma violência, o que faria com que Hunt, percebendo que caíra na armadilha, voltasse a sua atenção à luta rapidamente. Revidaria com um soco certeiro na lateral da face de Holmes, mas o golpe seria neutralizado de imediato pelo cotovelo esquerdo do mais baixo que, além de atuar na defesa, abriria passagem para um punho fechado destinado ao grande nariz, já feio naturalmente.
Com o osso nasal fraturado, o oponente certamente recuaria alguns passos, mas Holmes avançaria, decidido a nocauteá-lo. O seu próximo golpe envolveria um soco frontal no seu diafragma, seguido por chute cujo objetivo seria a fratura da... da...
Sua linha de raciocínio foi repentinamente interrompida. Não teve sequer tempo de desviar o olhar na direção planejada ou iniciar qualquer movimento que fosse, porque no momento seguinte Christopher Hunt foi misteriosamente golpeado e caiu no chão, inconsciente.
Holmes estava arfante quando encontrou a origem do nocaute do seu oponente. Encontrou John Watson e o seu bastão compacto.
“Wat...son?”
“Você pode me agradecer depois”, murmurou o médico, enquanto dava as costas ao amigo e recompunha a postura sempre ereta.
“Agradecer?”, perguntou o mais baixo em sequência, descrente. “Você atrapalhou minha estratégia”.
“Estratégia para ser morto, pelo que pareceu”, caçoou-o ainda o outro, colocando-se a caminhar na direção oposta de Greenberry Street. “Eu viro as costas por um minuto e você se coloca em perigo de novo”.
“Certo, obrigado...”, começou Holmes, surpreendentemente. Ao perceber que o amigo o estava agradecendo talvez pela primeira vez na vida, Watson arqueou as sobrancelhas na sua direção. Logo, porém, compreendeu do que se tratava. “...Mas sua ajuda foi desnecessária”.
Era verdade. Nunca na vida Sherlock Holmes agradeceria ou admitiria que a ajuda do médico era necessária. Mas enquanto caminhava com o mais baixo à procura de um local que os acolhesse para a refeição natalina, Watson deu-se conta de que não se importava. Ainda que o parceiro fosse um verdadeiro ingrato, a afeição que lhe tinha permitiria que John ainda o salvasse diversas vezes, inúmeras vezes. Quantas vezes fossem necessárias. No seu íntimo, gostava até mesmo de imaginar-se não apenas como um assistente, mas também um protetor de Holmes. E ainda que aquelas divagações fossem absurdas... ainda que soubesse que jamais poderia verbalizar na frente do outro a sua ideia patética, ela o reconfortava. Em meio a uma relação de tão poucos toques, tão poucos diálogos, tão poucas demonstrações, a simples ideia de protegê-lo o reconfortava.
Mas tratou de mudar logo o rumo de seus pensamentos. O dia ainda não havia acabado... E acima de tudo, Watson não podia pisar em falso. Ainda havia mentiras a manter em sigilo.
Notas finais
Antes que eu me esqueça, amei muito as reviews do último capítulo, obrigada também por todas elas.
Agora deixem mais e continuem me fazendo feliz ;;
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