Notas iniciais
Oi, meu povo ♥. Tô aqui de novo.
Imagina se eu ia passar o feriado sem postar meu bom capitulozinho, HAUHAUHA.
Matei pelo menos uns cinco pacotes de TicTac (morrendo desidratada aqui por causa da bala) durante a betagem (betagem?) desse negócio - lembrando que estou aqui às 3:42 da matina. Então, se vocês já estiverem viajando por conta da Páscoa, podem voltar já e vir comentar aqui u_u''' /tijolada.
Espero minhas lindas reviews ao final, viu? *-*
Comentários das leitoras lindas são sempre bem-vindos.

Crisântemos, lírios e narcisos enfeitavam os arredores e os interiores da casa de Watson durante o dia e a noite. Era estranho lembrar como as plantas costumavam ter apenas utilidade científica quando a sua residência ainda era em Baker Street. O tempo que vivera ao lado de Mary Morstan o havia mudado muito, indiscutivelmente. Uma mulher fazia toda a diferença na vida de um homem.

Havia somente quatro dias desde que Holmes, após dois meses de reclusão, tinha retornado à sua vida. Pouco mais de uma semana desde que Mary Morstan deixara a casa, afirmando que teria como destino uma cidade do interior onde morava a tia. Tão pouco tempo e Watson já começava a esquecer os seus traços femininos.

Ouvira algum dia alguém dizer que os rostos pertencentes às pessoas de maior significância sumiam da memória com maior facilidade. Agora, comprovava cientificamente o boato; quanto mais se esforçava para recordar os pequenos olhos claros, a boca delicada e a pele suave, mais a expressão parecia perder-se dentro da sua mente. Recordava-se da sua voz. Mas em dois meses de distância, reconhecia não ter esquecido os traços do seu amigo detetive uma vez sequer.



Era noite.

O orvalho e a neve tragavam os crisântemos, os lírios e os narcisos externos com alguma ferocidade. Já do lado de dentro, pequenos pertences encontravam-se dispostos em caixas de papelão que se acumulavam sobre o piso requintado. Trazer Sherlock Holmes à sua casa talvez não tivesse sido a melhor ideia dos últimos tempos. Mas tendo em vista que precisaria deixar o seu lar dali a dois dias e o parceiro simplesmente não o deixava em paz, tivera o brilhante plano de otimizar o serviço, trazendo-o consigo para ajudar na organização. Sherlock Holmes ajudando na organização. Onde estivera com a cabeça?

“Clássico”, murmurou a visita, tendo em mãos uma pequena estátua de um anjo que segurava arco e flecha. “Isso é uma imitação de Alfred Gilbert?”, perguntou, enquanto lançava um olhar de desdém à escultura. “É muito mal feita”.

Vinha tocando e analisando de perto todos os pertences de Watson e da esposa ao invés de ajudá-lo devidamente.

“Holmes...”, sussurrou de volta o mais alto, entre dentes. Aquela havia sido, certamente, a sua pior ideia. “É pra você colocar os objetos nas caixas, e não tirá-los delas”.

“Ah, sim. Se é que se pode chamar isso de objeto.”

Mas a seguir arrependeu-se do que acabava de dizer, porque o amigo lançou-lhe um olhar contendo ódio o suficiente para quase queimar as suas retinas. Imediatamente, pigarreou e colocou de volta o objeto na devida caixa.


Era injusto que Watson fosse tão impaciente. Holmes não se recordava sequer de ter definido local fixo para um só objeto na sua casa; organizar não era o seu forte. Tudo aquilo, aliás, que não tinha utilidade experimental na sua residência vivia em absoluto caos, e desde que o médico saíra, as coisas vinham apenas piorando. Estar ali para ajudá-lo já era fazer muito. E além do mais, ajudar alguém a empacotar objetos pessoais era exprimir intimidade demais com essa pessoa, ainda que se tratasse de um amigo próximo.

Procurou tocar em outros assuntos, na esperança de sentir-se mais confortável.

“Então, você terminou a carta?”

Ambos sabiam que a carta estava terminada e que residia sobre a escrivaninha mais próxima. Watson procurava até então deixar claro que não queria entrar nos méritos da carta e da esposa, mas o visitante parecia convicto a perturbá-lo. Visivelmente incomodado, então, o doutor assentiu com a cabeça. A perda da casa devia mesmo tê-lo abalado muito.

Por um breve instante, ao ver sua expressão, Holmes desejou ser bom nas questões de empatia e de solidariedade. Além de não cooperar no empacotamento de objetos, realmente não era a pessoa mais indicava para lidar com as questões do coração. Lidava bem apenas com as práticas. Esboçou uma tentativa de utilizar-se delas para alegrar o amigo:

“Watson, por favor. Foi uma perda grande, mas você tem o dinheiro.”

“Não para uma casa como essa.”

“Não. Mas uma casa menor pode ser boa.”

O mais alto então desviou os olhos e procurou imaginar-se em uma casa menor com Mary. Fazia mais de vinte anos que não morava em uma casa pequena; o próprio apartamento em Baker Street era relativamente grande quando comparado a outras propriedades que tivera em vida. Mas não precisava comprar uma casa pequena. Podia ser apenas um recinto menor. Menor quanto? Não sabia. Estavam em 25 de dezembro, o fim do ano se aproximava, a carta chegaria na esposa em poucos dias e ele não havia sequer começado a procurar um novo lar. Estava acomodado demais e não sabia o motivo. Mas sabia que em hipótese alguma voltaria a morar com Sherlock Holmes. Se juntasse algumas economias... E desde quando Holmes era o tipo de amigo que consolava?

“Você tem um consultório que rende muito e que provavelmente vai reabrir no começo do ano. Além disso, você tem família, é médico e tem uma renda bastante fixa, o que garantiria um empréstimo...”

Um empréstimo, sim. Watson já havia considerado um empréstimo, o que não era uma má ideia, apesar de parecer desnecessário no momento. Estava em plenas condições de comprar uma casa menor.

“Não tem motivos pra se abalar. Com a renda que tem, você não precisaria nem mesmo trabalhar em um caso comigo agora.”

“Como é?”

“Não precisaria, se não quisesse.”

“Você está insinuando o quê?”

“Insinuando nada.”

Os claros estreitaram-se na direção do detetive. Era impossível Holmes enganá-lo – os anos de convivências haviam destruído quaisquer barreiras que existissem entre o que era pensado por um e descoberto por outro. Fora isso, era certo que uma pessoa normal tocasse em um assunto como aquele sem segundas intenções, mas não Sherlock Holmes; por algum motivo, o médico sentia que sempre havia más intenções nas suas palavras.

“O que aquele homem falou?”, perguntou ainda, tentando tirar mais informações do parceiro mal-intencionado.

“Quem falou o quê?”

“Christopher Roger Hunt, o homem que quase te matou há alguns minutos.”

“Eu já lhe disse.”

“Não disse tudo.”

“Disse.”

“Você quer me tirar do caso.”

Holmes também franziu o cenho, mais para si mesmo do que para o outro. A seguir, murmurou:

“Não foi o que eu quis dizer...”, em uma afirmativa antecedente à pequena pausa. “Foi?”

“Você realmente quer me tirar do caso?”

Em quase vinte anos de amizade, nunca Holmes reclamara do seu trabalho. Watson sempre havia feito bem o seu papel de assistente; durante muito tempo, tinha sido um bom amigo, um cachorro fiel, um excelente inquilino quando ainda moravam juntos. Há menos de cinco dias o detetive ainda mostrara o apreço pela sua companhia e os seus serviços. Agora, estava sendo dispensado por uma simples informação dada por um desconhecido. Ou então, outro motivo.

“O que mais Christopher Hunt falou?”

A sua mentira havia sido descoberta, certamente. Sim. Um dia ao lado de Watson seria o suficiente para que o inigualável Sherlock Holmes descobrisse a sua mentira e decidisse por afastá-lo, já que não eram mais parceiros, não eram mais cúmplices, não eram mais irmãos. Se Watson se lembrava de atos tão repulsivos, e ainda omitia a verdade, então o constrangimento era tanto, que não havia mais por que andarem juntos. Ou então... ou então...


A noite anterior.

Enquanto sentia o próprio sangue gelar nos seus vasos, John Watson chegou à conclusão de que Holmes estava arrependido. Era isso. Convicto de que havia feito a maior besteira da sua vida, Holmes estava optando pela separação.

“Watson?”

O médico sentia os lábios petrificados quando sussurrou em retorno:

“Talvez seja a hora de você sair.”

“Não”, respondeu Holmes de imediato, aproximando-se do amigo. “Não foi o que eu quis dizer”. Mas a aproximação foi bloqueada pelas mãos de Watson, que seguraram seus ombros.

“Holmes, por favor. É a hora de você ir.”

Algo despertou no homem, porém, assim que seus dedos tocaram os tecidos sobre os ombros do amigo. Já havia tocado naqueles ombros. Podia até mesmo recordar-se facilmente da textura daquela pele, e ao mesmo tempo em que voltava a desejá-la, era tomado por um sentimento de repulsa. Vinte anos de amizade desciam ralo abaixo. Instintivamente, terminou por empurrá-lo.

“Te mostro o caminho até a porta”, sussurrou novamente, irritado, agora posicionando uma mão no centro das costas do mais baixo e começando a levá-lo em direção à saída.

“Deixe-me ficar.”

“Fora.”


Presenciando então a mesma brutalidade que sentira sobre a própria pele na noite anterior – mas com intenções bastante divergentes –, Sherlock Holmes foi expulso da residência do amigo.

[...]

A princípio, no início do dia, tivera as suas dúvidas; afinal, não conhecia realmente a natureza do composto ingerido por Watson na véspera. Ao vê-lo, porém, a dúvida não mais persistiu.

O arrastar de pernas, a aparência abatida, a tosse pelo tabaco – nada daquilo se comparava ao constrangimento estampado na sua face. O silêncio que se instalara na casa depois daquela noite expunha a vergonha e a culpa por parte do médico. Sentimental e impulsivo como no fundo era, bem capaz de Watson ter chegado à conclusão de que tinha perdido o amigo depois do ocorrido.

Fora o silêncio, o próprio semblante de Watson caracterizava não uma pessoa que acabava de acordar, mas sim uma que investira alguns minutos na elaboração de um bom diálogo matinal. Acordar e perguntar se havia dormido ali, e apenas isso, não seria típico da sua pessoa. Assim, era claro que estivera acordado, pensando no que falar ao sair do quarto.

A falta de interesse pelo que tinha acontecido também servia como prova. Se tinha vagas lembranças sobre como havia chegado em Baker Street, se não sabia por que se encontrava no local, se nem mesmo se recordava que era Natal, então devia ter se dado ao trabalho de perguntar mais sobre o que havia ocorrido. Mas lembrava-se bem de ter perdido a casa nos jogos, pelo que Holmes pôde perceber.

Como sempre, as evidências falavam por si só. Mas a evidência que acabava de obter falava mais.


Sherlock Holmes estava aflito a ponto de quase não acertar o buraco da fechadura na porta da sua casa. A sua cabeça girava apenas em torno daquele maldito estimulante. Que havia usado na sua elaboração?

As pernas guiaram-no rapidamente para a saleta de estudos. No seu campo de visão, não demorou a entrar o seu aracnídeo (há quantos dias não alimentava aquela criatura?) e o recipiente ainda estilhaçado no chão pelo assistente. Sobre a bancada, frascos vazios – Watson se dera ao trabalho de juntar o conteúdo de todos em um só recipiente, na provável tentativa de simular uma garrafa. Bem, aquela tentativa custaria ao detetive mais algumas horas de dor de cabeça. O líquido que antes residia sobre o chão estava seco e acumulavam-se na região apenas cacos de vidro sem grande utilidade.

Não se lembrava ao certo do que havia utilizado, já que a conclusão da substância tinha acontecido no dia 23, quando ele próprio não apresentava boas condições psíquicas. Lembrava-se, porém, da cafeína, da soda cáustica, das aminas extraídas. Contava ainda com a possibilidade de um arsênico e de uma cetona, mas tinha dúvidas. Nada, entretanto, o impediria.

Ficaria, se necessário, a noite toda tentando refazer a droga que o amigo bebera. Então, como Watson fizera no momento da ingestão, tomaria vigorosas doses de rum, e só então estaria pronto para engoli-la. Nada poderia dar-lhe precisão maior do que o ato de ser a sua própria cobaia. E para o caso das coisas não saírem exatamente como o planejado, com o intuito evitar um possível esquecimento dos efeitos no dia seguinte, anotaria todas as sensações obtidas no... no...

Vasculhou a escrivaninha à procura do caderno que comumente utilizava para fazer anotações sobre os seus experimentos. Ausente. As gavetas e bancada contavam somente com objetos absolutamente alheios às suas necessidades. Mas talvez estivesse no quarto.

Os passos rápidos levaram-no até o cômodo. Procurou primeiro no seu, é claro, para a seguir dirigir-se ao de Watson. Sobre as camas ou abaixo delas não havia nada; mesas de cabeceira também se abstinham da situação; sobre o chão, atrás das portas, mais gavetas. No armário havia peças de roupa e pó. A senhora Hudson não limpava aquilo muito bem. Mas onde estava mesmo?

O observador Sherlock Holmes não conseguia encontrar um caderno dentro de sua própria casa. E por mais que agora já não precisasse tanto do objeto – podia muito bem fazer anotações em qualquer outra superfície ou simplesmente não fazê-las –, a curiosidade por localizá-lo parecia maior do que tudo. Foi dar-se conta do que realmente havia acontecido somente quando já estava no quarto do amigo, as mãos revirando os lençóis que ainda pareciam quentes pela recente (recente?) utilização.

Havia sido roubado.

[...]

John Watson fora novamente tomado por uma intensa depressão. E depressão agora não era apenas por conta de ter sido dispensado pelo detetive, não. A depressão que se instalava no seu peito o fazia justamente por ele não tirar a razão de Sherlock Holmes. Não fora um amigo tão fiel assim nas últimas vinte e quatro horas, afinal.

Do bolso das calças que ainda vestia, retirou devagar o caderno que o amigo certamente já tinha dado pela falta àquela altura. Ao encontrá-lo sobre o piso do próprio quarto em Baker Street na manhã daquele dia – e agora se perguntava se havia sido Gladstone que o colocara ali o próprio Holmes, na tentativa de provocá-lo –, tivera seus motivos para realizar o furto. Mas utilizara-se de uma fraqueza do amigo.

Holmes talvez fosse esperto o suficiente para identificar uma mentira sua; mas com certeza não teria a malícia de desconfiar que o melhor e único amigo que possuía seria capaz de roubá-lo. Vinte anos de amizade e John Watson acabava de apossar-se de um pertence do outro por simples vaidade; apenas com o intuito de manter uma mentira, já que conhecia Holmes a ponto de saber que ele procuraria o caderno e testaria em si próprio a droga.

Bem, o arrependimento batia-lhe nas costas, mas estava feito. Ao menos Holmes havia tido a sua vingança, dispensando o amigo do caso e da sua companhia.


Não havia, enfim, mais nada a se perder. Já não tinha a casa, não tinha a sua dignidade, não tinha à esposa e agora não tinha mais a Sherlock Holmes. Ponderou se havia qualquer possibilidade de apostar qualquer coisa em mais um jogo de cartas para aliviar a sua tensão, mas concluiu que não. Teria de encarar com sobriedade o buraco que cavara em torno de si mesmo.

[...]

[...]

Na manhã do dia seguinte, o inspetor G. Lestrade saiu de sua casa com passos vigorosos para vir a bater justamente no edifício 221B em Baker Street. Identificou-se logo na entrada, e como deu a sorte de encontrar um residente que também era seu conhecido, foi acompanhado por ele até o apartamento particular de Sherlock Holmes.

Era o dia 26 de dezembro e algumas coisas precisavam ser tiradas a limpo. Holmes dera a entender que o caso estaria concluído antes mesmo do dia do Natal, o que não havia acontecido; então, se obtivesse nenhuma informação acerca do caso, ainda assim Lestrade não perderia a viagem – poderia utilizá-la muito bem para simplesmente jogar na cara do homem que os seus serviços estavam em queda íngreme de qualidade.

Às batidas na porta, o inspetor não foi atendido. Ouviu os passos do cachorro – aquela praga pulguenta que Holmes costumava dividir com Watson antes da mudança do médico (a relação entre os dois até que era bem estranha mesmo) – e os latidos, mas fora isso, não havia sinal de vida dentro do apartamento.

Talvez o homem não estivesse em casa. Ou, o que era mais provável, talvez estivesse em uma ressaca tão pesada que não conseguisse mover os próprios músculos. Mas após alguns minutos, foram ouvidos novos passos – passos femininos – aproximando-se da porta. Então, apareceu à sua frente a senhora Hudson, uma mulher alta e pálida, cheia de rugas e que aceitava trabalhar naquela residência assombrada sob condições que só Deus conhecia.

“Inspetor Lestrade”, murmurou ela, esbanjando um sorriso falso como uma nota de três libras esterlinas. “Sherlock Holmes não está em boas condições.”

“Preciso vê-lo mesmo assim”.

O cheiro de rum era exalado pelas paredes e o teto. Lestrade não precisou dar muitos passos para identificar sobre o chão uma pessoa caída e aparentemente desacordada. Com as pernas e braços estirados sobre o piso, Sherlock Holmes, com a aparência mais medíocre do que nunca, parecia disposto a abraçar os visitantes que adentravam sua casa.

“Lestrade”, chamou ele com a voz grave, os olhos ainda fechados. A senhora Hudson teve a delicadeza de retirar-se do cômodo.

“Vinte e seis de dezembro e você ainda não apresentou nada, Holmes...”

“O caso está quase concluído.”

“...mas tive astúcia de me informar sobre as pessoas que já estiveram na sua companhia”.

Um pouco desajeitado, Lestrade tirou do bolso das vestes um pequeno pedaço de papel que logo desdobrou. Estreitou os olhos sobre as letrinhas miúdas (como era possível que ele não compreendesse a sua própria caligrafia?) e começou, ainda um pouco hesitante:

“Agatha Sharpen Lloyd, a viúva... o que você tem a dizer sobre ela?”

Ótimo. Agora, Lestrade estava exigindo satisfações. O detetive soltou um longo suspiro antes de responder.

“Não tem envolvimento. Pagou um homem para seguir Walter e descobrir com quem ele se encontrava. Robert Boucher era o contratado. Esteve no hotel certo...”

“...mas na data errada”, completou Lestrade. A forma como o homem completou sua frase fez com que se lembrasse de Watson; e uma pontada de dor ressurgiu no seu peito. Abriu os olhos.

“E Adolf Weinberg?”, continuou o inspetor.

“Comprou uma propriedade em Wembley e hospedou-se no hotel pelo menos uma semana antes de todo o resto.”

“Você tem uma escritura como prova, naturalmente.”

“Naturalmente.”

Lestrade assentiu com a cabeça.

“E Christopher Roger Hunt?”

E então, foi a vez de Holmes fazer um sinal negativo. Chegou ainda a mentir, afirmando que Walter Lloyd era membro ativo do movimento anarquista – não queria que Lestrade permanecesse em seu encalço e tivesse o mesmo número de informações –, mas deu-lhe a certeza de que Hunt não estivera perseguindo o falecido.

A verdade era que já não via a hora de livrar-se do inspetor.

“Você está dizendo que o assassino nada tem a ver com essas pessoas? Você não sabe quem é e não sabe como encontrá-lo.”

Sherlock Holmes suspirou uma última vez:

“Eu não sei quem é, mas sei como encontrá-lo. Já não é o momento de você ir, Lestrade? Preciso ir atrás de Watson.”


[...]

Efeito nenhum. Ingerida e misturada ao alto teor alcoólico do rum, a droga possuía efeito nenhum. A agitação, alucinação e excitação provocadas por ela tornavam-se agora hipóteses descartadas. Ao beijá-lo, posicioná-lo e possui-lo, John Hamish Watson estivera exclusivamente sob o efeito do álcool.

Quando G. Lestrade retirou-se da sua casa, Holmes deu-se conta de que nada mais o impediria. Tiraria algumas informações a limpo do amigo nem que fosse à força e ainda naquele dia. Mostraria a ele os seus motivos (até então sigilosos) para desejar tirá-lo do caso; e quando finalmente Watson percebesse do que se tratava o caso de Walter Lloyd e passasse a arrepender-se de estar envolvido em uma última investigação com Sherlock Holmes, seria tarde. Estariam ambos envolvidos emocional e profissionalmente até o último fio de cabelo.



Havia sido enganado e roubado pela única pessoa que talvez confiara na vida. Watson chegara ao ponto de trai-lo pela vergonha de assumir seus próprios atos. Mas Holmes ainda não estava acabado. Iria observá-lo. Lançar a ele insinuações e sugá-lo como um parasita até que o traidor assumisse concretamente que ainda havia resquícios do desejo no seu sangue.

O céu já estava parcialmente nublado quando Sherlock Holmes também deixou a sua residência em Baker Street.


Notas finais
Sinto que as minhas tentativas de explicar pelo menos brevemente as conclusões do caso até aqui foram ~~fail~~, mas é nóis. Persistirei nas explicações até o fim.
DEIXEM MINHAS REVIEWS? *-*
Preciso passar a Páscoa feliz e isso depende de vocês. Minha família agradece, huhu.