O Caso De Scarle Road
10 Décimo.
Notas iniciais
Vou viajar hoje e volto só no dia 27 de abril, então além de estar toda atrapalhada com malas e mimimi, eu também quis caprichar um pouquinho mais no capítulo, já que minhas lindas leitoras vão ficar sem me ver aqui por tanto tempo. Sim, a viagem é no meio de abril e sim, eu vou perder duas semanas de aula u_u Mãs a vida é assim, gente.
E eu prometo que volto cheia de ideias lindas como vocês se eu receber minhas boas reviews, hihihi. Não me abandonem jamais :(((
Ah, espero que gostem do capítulo.
Com amor, eu.
A hora do almoço fora substituída por algo mais produtivo.
Charles Hoover era um homem de poucos pertences. O seu apartamento era, em suma, composto por paredes que levavam quase nenhum ornamento; sobre o piso de madeira mal polida, um tapete de muitos remendos guardava uma sala de entrada que não possuía objetos decorativos. Encontrava-se ali apenas o necessário para a sobrevivência. A presença de Sherlock Holmes era a única a isentar-se dessa classificação.
“Muito honrado de conhecer sua moradia...”, murmurou ele, sem nem ao menos preocupar-se em parecer convincente. Estando na posição de visita, era de se esperar que Sherlock Holmes apresentasse o mínimo de educação, mas por mais que conhecesse os bons modos, a sua espontaneidade era visível.
“Por favor...”, sussurrou Hoover em retorno, enquanto suas mãos gesticulavam para que o detetive entrasse e se sentasse em uma poltrona antiga e malcheirosa que se encontrava a um canto. A higiene no recinto era rara.
A parte surpreendente daquela cena detinha-se no fato de que, pela primeira vez em muito tempo, Sherlock Holmes não se tinha convidado para visitar o lar de um envolvido; não. Utilizara-se de outra técnica, muito mais eficiente e de resultados, entretanto, muito mais duvidosos.
Prevendo que aquele pobre sujeito teria algo preso na garganta a lhe dizer, Holmes tivera a bondade de fazer uma caminhada matinal bem em frente ao seu edifício, de forma a facilitar o contato entre eles. Hoover não hesitara um momento sequer; assim que avistou aquela pessoa pela janela, tratou de sair de casa e de convidá-lo com alguma urgência para uma visita. Não poderia perder mais uma vez a oportunidade de aliviar-se da culpa que carregava.
O detetive, é claro, tinha fortes palpites em relação àquela culpa. Seria melhor que fossem direto ao assunto.
“Quando vi seu assistente no enterro de Walter Lloyd, Sherlock Holmes...”
“Você foi o único a imaginar que eu e Watson estávamos trabalhando juntos mais uma vez.”
Charles Hoover não se pronunciou. Já tinha o detetive sentado sobre sua poltrona favorita dos momentos de reflexão, mas não podia sentar-se também – o nervosismo exigia que permanecesse de pé.
“Você era próximo o suficiente de Lloyd para saber que Watson não iria ao seu enterro”, concluiu a visita.
“Eu não era próximo de Walter Lloyd.”
“Você o conhecia relativamente bem.”
“Walter e eu nunca fomos...”
“Íntimos”, concluiu Holmes. “Mais por falta de vontade sua do que dele, eu calculo.”
As mãos de Charles Hoover estavam esbranquiçadas e aparentavam pouca capacidade de movimento. O nervosismo daquele pobre homem era visível não somente por elas, mas pelas pupilas dilatadas, o escapismo dos olhos, as narinas que se abriam e fechavam enquanto o outro o encarava, pouco impressionado.
“O que era, Hoover? O que você chegou a perceber em Walter Lloyd que outros não perceberam?”
O relógio de parede tiquetaqueava com uma velocidade menor que a normal. Sherlock Holmes, de fato, era pouco impressionável. Mas ainda assim, uma aflição crescente vinha se instalando entre os seus pulmões.
Há algum tempo, imaginara que seria possível relacionar a situação por que vinha passando na vida com o caso de Scarle Road. Agora, tendo Hoover à sua frente e lendo a sua expressão facial, passava a ter certeza de que, mais uma vez, o seu dom magnífico da dedução estivera correto. Pensou em Watson.
“Walter Lloyd era um homem diferente dos outros”, sussurrou o anfitrião.
Era bom que Watson estivesse em casa naquela tarde.
[...]
John Hamish Watson transpirava como o diabo.
Por mais que a menina o auxiliasse no empacotamento de seus bens materiais, a prática era trabalhosa. Uma prática infeliz, ingrata, na qual o ex-assistente era obrigado a tomar parte. E fora o trabalho ordinário, que já não era simples, não tinha coragem de pedir para que aquela funcionária delicada carregasse os pertences mais pesados. Assim, tinha como verdadeiros ajudantes apenas os músculos do próprio braço e a boa piedade do Senhor.
Teria de deixar o seu lar dali a um dia e meio e o tempo andava a passos largos. Importante ressaltar ainda que o abandono da casa ainda não era tudo – tinha a consciência de que teria que gastar um bom tempo e paciência na procura de um novo local para habitar se definitivamente não quisesse voltar a morar com Sherlock Holmes. Não queria.
A memória do último encontro com Sherlock Holmes vinha dando-lhe náuseas. Depois de ter os seus serviços (e a sua companhia) claramente dispensados pelo companheiro, tinha em mente a certeza de que não desejava nem mesmo ter de se hospedar em Baker Street durante a procura de uma nova casa. A tensão que se instalava entre eles tornava tudo muito pior.
Com aqueles pensamentos, ficou atordoado a ponto de desconcentrar-se do trabalho e não perceber que a moça que o auxiliava se havia retirado do cômodo por algum momento. Foi dar-se conta da sua ausência somente ao retorno da mulher, que trazia consigo as correspondências. Uma única, em verdade.
“Senhor Watson...”, disse ela, sempre muito submissa, estendendo-lhe a carta com a cabeça baixa. “Parece que Sherlock Holmes deixou algo para o senhor”.
Watson arrancou rapidamente o documento das mãos da pequena e leu para si o seu conteúdo. Tratava-se de uma carta simplória, de poucas linhas; Holmes, mais do que nunca, parecia ter secado o seu discurso a ponto de informar Watson apenas do necessário, sem nem ao menor preocupar-se em pedir o perdão do amigo pelas suas últimas atitudes.
Depois da absorção das poucas palavras, o médico abaixou o papel que as continha e o amassou lentamente. Por mais que o seu desejo fosse dizer não para o pedido que Holmes fazia, os batimentos acelerados do seu coração exigiam para que assentisse. Lançou um olhar sem esperanças para a moça que ainda o encarava, atônita, e deu-lhe como satisfação nada além de um longo suspiro.
[...]
O lugar era feio, de fato. Reunia homens de todos os gêneros, de todas as classes, de todas as intenções. Homens brutos de carne, que vinham para a luta, e senhores de boa índole que ali se encontravam apenas por conta do dinheiro trazido pelas apostas. Ou talvez nenhum daqueles grupos tivesse mesmo boa índole.
À porta de entrada, o cheiro era uma mistura de suor e álcool, e dentro, certamente, a situação era pior. Enquanto era cumprimentado por pessoas que reconheciam seu rosto mas não lembravam seu nome, Holmes lutava fortemente contra o desejo de pegar uma garrafa para si e virá-la de uma só vez. Seria muito mais fácil fazer o que tinha de ser feito se estivesse embriagado; mas a sua racionalidade exigia que estivesse sóbrio para lidar com o gênio difícil de Watson.
Logo, decifrou no ar os traços do odor do almíscar e um deleite violento invadiu suas entranhas. Chegou a fechar os olhos para melhor senti-lo; assim que tornou a abri-los, deparou-se com a pessoa que vinha procurando. A verdade era que estava sempre procurando Watson. Procurando a vida toda talvez, em um ciclo vicioso de achados e perdidos... que os afastava eternamente da felicidade.
“Você veio”, murmurou, fazendo um esforço surreal para concentrar-se no assunto a ser tratado, e não no brilho daqueles olhos.
“Não, eu estou em casa”, retrucou Watson, ácido.
Mas Holmes, ao invés de ofender-se pela ironia, sorriu. E percebeu que o amigo também segurava um sorriso por trás da fisionomia fechada.
“Por que estamos aqui?”, perguntou o mais alto.
O outro correu os olhos pela multidão que adentrava o recinto e pareceu, de súbito, contente por avistar alguém. Antes que o médico pudesse virar-se para identificar quem Holmes olhava, o amigo respondeu:
“Você sabia que Walter Lloyd estava assistindo a uma luta aqui antes do seu assassinato?”
Watson fez um sinal negativo com a cabeça, incrédulo. Mas o sinal e a incredulidade não eram uma resposta àquela pergunta; na verdade, ele simplesmente não podia acreditar que Holmes o havia levado até ali para discutir o caso. Já não o tinha humilhado na noite anterior? Já não o tinha afastado? E agora pedia os seus auxílios novamente? Bem, mas os serviços de John Watson não eram assim, de se pegar em um dia e descartar no outro, não.
Irritado, o homem fez menção de se afastar, mas o mais baixo segurou rapidamente seu pulso.
“Espere”, sussurrou. O contato visual entre eles fez parecer que Watson corava de forma sutil. Felizmente, o contato logo se desfez.
“Eu não estou mais nesse caso.”
“Já tenho conhecimento.”
“Eu não vou discutir sobre o caso.”
“Certamente que não vai.”
A fisionomia do maior, então, pareceu menos dura. Soltaram-se os braços.
“Viemos aqui assistir a uma luta e vamos fazer isso. Vou apostar dez libras em qualquer sujeito e nós vamos torcer”. Watson então assentiu, convencido de que talvez aquela fosse a forma de Holmes de tentar reconciliá-los. Sherlock Holmes era mesmo uma pessoa muito estranha, afinal. Mas toda a sua crença nas boas intenções do parceiro se esvaíram quando Holmes completou, as sobrancelhas arqueadas: “Vai ser divertido.”
Era um tipo de frase para se estranhar. Agora, entretanto, os homens que chegavam no estabelecimento caminhavam, empurrando ambos para dentro. Era tarde demais para a desistência.
O local constituía-se por uma arena central de forma retangular e uma área livre que a circundava, preenchida por alguns elementos que bebiam e falavam alto. Ali, no subsolo, faziam-se as apostas e aconteciam as lutas de pouca formalidade. Sherlock Holmes já estivera como lutador dentro daquela arena.
Mais adiante, havia pouco. Um bar e uma mulher que o servia, além de mais homens que contribuíam para o forte cheiro de nicotina. A clientela daquele dia, entretanto, parecia particularmente diferente, percebeu Watson. Pensou em verbalizar sua dúvida, mas não foi necessário; logo, Sherlock Holmes notou a sua reação e explicou:
“Em alguns dias, as lutas diferem. Você já deve ter percebido que há algo fora do normal.”
“Diferem como?”
E então, Holmes deu uma boa tragada no tabaco que acabava de acender para si:
“São mais leves”.
Mais leves. Aquela não era a palavra.
Enfim, a luta começou. Mas não foi definida por socos e chutes, não; as duas pessoas que se encontravam dentro da arena trataram de segurar-se e iniciar algumas tentativas frustradas de se derrubarem sobre o chão. A força ali estava concentrada no ato de empurrar o adversário e bloquear seus movimentos, ao invés de concentrada em golpes certeiros, como seria de costume. Aquilo não era boxe.
“Holmes, mas o quê...?”
“Assista.”
John Watson bufou, irritado, e arrependeu-se por ter aceitado o convite daquela criatura. Assistir a combates não era uma atividade que estava entre seus hobbies, mas a princípio acreditara que teria um mínimo de diversão ao assistir uma luta efetivamente violenta. E daquele espetáculo bizarro, ausentava-se a verdadeira violência. Impaciente, o médico passou as íris pelo público que assistia, já que parecia haver mais monotonia na arena do que em qualquer outro ponto do local. Ao analisar os sujeitos que torciam, teve mais uma surpresa.
Os torcedores não urravam da forma costumeira. Ao invés disso, encaravam os dois homens que se empurravam com uma expressão que demonstrava uma calma incomum, um interesse estranho, uma fixação que se assemelhava à hipnose. Assistiam à movimentação lenta e concentrada dos lutadores quase como se estivessem assistindo a um espetáculo de ballet; e mantinham em suas faces um semblante que Watson reconheceu ter visto há pouco tempo. Um semblante que vira no rosto de Mary Morstan há alguns meses, quando haviam tido seu último momento de intimidade. Um semblante que vira há dois dias no rosto de...
Seus joelhos vacilaram. Voltou o olhar para os indivíduos que estavam em combate.
Pernas e braços entrelaçavam-se com uma sincronização surpreendente. As superfícies dos organismos daquelas duas pessoas tocavam-se e roçavam-se, de forma que as transpirações de ambos pareciam unir-se em uma só. E da mesma forma que era muito menos agressiva do que o boxe, a batalha que se travava entre eles parecia muito mais letal.
Aquilo não era boxe. Não era boxe.
O corpo de Sherlock Holmes também estava próximo ao seu, mas um arrepio percorria continuamente a espinha de Watson de forma que ele simplesmente não conseguia encará-lo. Estava com uma sensação estranha. Por que estava com aquela sensação?
Enquanto seus pensamentos pareciam a cada segundo mais atordoados pela cena que seus olhos fotografavam, o médico mantinha as pupilas já dilatas ainda fixas no centro da arena. O que havia de tão estranho naqueles dois homens? Como dois cachorros de rua que se atacam na hora do desejo, pareciam disputar a posição da dominância. Watson também disputara com alguém a posição de dominância.
Os minutos corriam desesperadamente e a tensão no seu peito não cessava. Queria ir embora dali – já havia visto o suficiente. Tomou coragem quando um daqueles indivíduos gemeu alto ao cair no chão, e lançou a Holmes um pedido de súplica não-verbalizado. Mas vê-lo, encontrou nos seus olhos negros tamanha obscenidade, que já não soube se o que o envolvia no momento era tensão ou se estava realmente excitado.
Quando Sherlock Holmes tocou novamente seu pulso com as mãos ásperas, sentiu que aguentaria por pouco tempo.
“Já é o suficiente?”, sussurrou ele, displicente como nunca, os olhos funcionando como duas bocas de cano de revólver que miravam uma vítima indefesa.
John Watson abaixou as pálpebras para não ter de encará-lo. Ainda assim, era evidente que estava vulnerável, já que bastou Holmes pressionar um pouco o seu braço para que engolisse em seco, desorientado.
“Por que eu estou aqui?”
“Você está com algo que me pertence.”
Watson, então, havia perdido. Tivera a audácia de jogar com Sherlock Holmes e agora havia perdido. Já não havia mais nada a esconder. Holmes tinha descoberto não só o furto do caderno – uma atitude que realmente tinha sido tomada em meio ao desespero –, mas também o fato da memória da véspera do Natal estar intacta na mente do médico; era provável que agora tivesse até mesmo o conhecimento da ineficiência da droga quando tomada nas condições de Watson na ocasião. Efeito nenhum.
[...]
O lado racional na sua mente esmagava o emocional. As suas mãos tremiam como se estivesse enfermo, mas John Watson não parecia percebê-lo. Parecia, na verdade, incomodado pelo clima do lugar a ponto de não ter condições de concentrar-se em mais nada. Aquilo era vantagem para Sherlock Holmes.
E o detetive precisava mesmo de alguma vantagem, já que a vulnerabilidade na fisionomia de Watson estava quase tirando também a sua consciência. Precisava de foco, precisava de equilíbrio. Estavam sóbrios, afinal; e o que era ainda mais grave, estavam em um lugar público. Resolveu, assim, que o deixaria ir embora. Iria auxiliá-lo até a saída, se fosse preciso. Mas antes, precisava da sua confissão.
“Você vai me devolver, Watson.”
Watson encarava agora o chão, mudo. Mais se assemelhava a um adolescente do que a um médico que passara pelas mãos do exército. Holmes deu-se ainda ao luxo de aproximar-se mais dele, na tentativa de arrancar-lhe a resposta com maior facilidade. Encostou a parte anterior de seu corpo ao dele, e nesse instante suas mãos tremeram tanto, que foi necessário fechar os punhos para que elas não saíssem ao seu controle. A voz, por outro lado, saiu natural como a sua maldita racionalidade:
“Você vai me devolver, Wats...?”
O mais alto já assentia com a cabeça, mas não foi possível ao outro terminar a frase. Não foi possível, porque pela cavidade ventral de seu corpo sentiu um volume rígido se formando por dentro das calças formais de Watson, e a sua linha de raciocínio finalmente se perdeu.
Foram salvos pela multidão local que, assistindo ao término da luta na arena, gritava vigorosamente. John Hamish Watson nem sequer se deu ao trabalho de ver quem era o vencedor; tirando forças inexistentes da parte mais obscura de seu âmago, aproveitou-se da situação para sair como um rojão e subir à escadaria que levava à rua.
[...]
Estava cansado. Estava exausto. Conforme caminhava pelas ruas lotadas, a excitação transformava-se em desgosto.
Quando, por um milagre, acertou a chave na fechadura da porta de sua casa e adentrou, Watson viu-se no fundo de um poço gigantesco. Nada mais voltaria a ser como antes. Era infeliz. Era infeliz com a esposa, infeliz com o seu trabalho sem o detetive, infeliz na sua casa de homem casado e chefe de família. John Watson era a pessoa mais infeliz que ele próprio conhecia e a única pessoa que podia trazer-lhe um mínimo de felicidade era justamente a culpada por todo o ódio que agora direcionava a si mesmo.
Olhou as caixas empilhadas com seus pertences e achou-se ridículo. Tudo tão arrumado. Era sempre tão neurótico e organizado. Mas organizado por quê, se a organização não o fazia feliz? Tão correto e inabalável por quê, se nada daquilo lhe dava prazer? O único prazer que tinha era em Baker Street, no número 221B. Com a desorganização de Holmes, as peças de roupa e livros misturados, os animais peçonhentos, a sala sempre escura, a escrivaninha e o piso desbotados pelo desleixo do amigo.
Então, um espírito demoníaco o possuiu. Queria destruir aquela casa. Destruir toda a organização e a hipocrisia que o dominara por tantos anos. Destruir toda a sua integridade e render-se aos caprichos do único sujeito em todo o mundo que o completava. Caminhou lentamente até uma daquelas pilhas de caixa e pensou em todo o controle que Holmes exercia de forma inconsciente sobre a sua pessoa. Pensou em Mary Morstan e no seu retorno. Agradeceu a si mesmo por já ter postado aquela maldita carta, mas sentiu que ainda não era o suficiente; avisar Mary Morstan que seu retorno era indesejado não era o suficiente.
Chutou a caixa basal que estava à sua frente e toda a pilha de mais três caixas em sequência caiu no chão, o que provocou um alto de barulho de vidro sendo quebrado. O barulho deu a Watson alguma sensação de conforto.
A seguir, pegou em mãos a escultura que imitava a obra de Alfred Gilbert e apertou-a um pouco, tentando sentir o seu material. Parecia resistente. Mas seria mesmo? Mirou na parede meticulosamente pintada de branco e, como em um tiro, lançou-a naquela direção, estilhaçando o objeto em inúmeros cacos. Não era tão resistente assim, afinal.
[...]
[...]
Ofegava muito. As suas pernas finas não pareciam ser capazes de levá-la a tempo de prevenir uma catástrofe. Algo estava acontecendo no piso inferior, mas estava tão nervosa, que seus olhos lacrimejavam, impedindo uma visão boa da escadaria que a levava à sala principal. Os trajes de copeira atrapalhavam seus movimentos a ponto de fazê-la quase tropeçar no último degrau; mas assim que chegou ao térreo, pôde correr livremente até a entrada da residência de Watson.
Quando abriu a porta que separava o corredor do cômodo principal, um grito agudo de medo e surpresa abandonou seus lábios enquanto a moça cobria a boca instintivamente, assustada. Tivera trabalhado exaustivamente com seu patrão durante todo o dia para empacotar todos os seus pertences, mas agora tudo estava destruído. O chão acumulava cacos de diversos tamanhos, pedaços de objetos decorativos e pessoais, e John Watson a encarava com surpresa também, os olhos azuis arregalados na sua direção.
Um grande pavor apoderou-se de seu pequeno corpo. Trêmula, com gotículas formando-se no canto dos seus olhos, a moça começou a recuar para a cozinha, onde havia uma saída de serviço. Watson fez um sinal para que parasse, já que ele não tinha a intenção de machucá-la, e chegou até mesmo a balbuciar algumas sílabas soltas no ar, mas era tarde. Assim que percebeu a tentativa do homem de se aproximar, tratou de correr em urgência e sair pela porta dos fundos.
Já vinha duvidando da sanidade do médico há algum tempo, mas a destruição da casa já era demais. A boa esposa ou as autoridades que o colocassem na linha; ela não tinha mais nada que ver com aquela pessoa ou aquele lar mal assombrado.
E assim, John Watson, que já tinha perdido a mulher, a casa, a reputação e a consciência por causa de Sherlock Holmes, perdeu também a sua funcionária.
Notas finais
Vou sentir saudades de vocês, nhonho ♥.
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