O Caso De Scarle Road
11 Décimo primeiro.
Notas iniciais
Acho que não preciso pedir desculpas de novo, né? Vocês sabem que eu fui viajar :( Mas mesmo assim descuuulpem! Atrasei um pouco o capítulo, mas juro que passei os últimos dias dando meu melhor para editá-lo.
Espero que as 4.500 palavras compensem um pouquinho só o fato de eu ser uma escritora desnaturada ;; E ah, espero que vocês gostem do resultado, claro.
Boa leitura e obrigada pela paciência, hi.
O remorso bateu-lhe na porta quando já anoitecia. Não considerara as consequências emocionais do plano que havia funcionado. Vez ou outra, falhava nesses méritos, o que caracterizava o seu maior defeito: levar sempre em conta as consequências prática, mas esquecer-se por vezes das emocionais. Dessa vez, falhara gravemente.
Havia algumas horas que o Inspetor Lestrade batera mais uma vez na sua porta, ao que Holmes, é claro, evitara recebê-lo. Tinha muito a dizer a Lestrade; na sua mente, o caso de Scarle Road estava praticamente solucionado. Ainda assim, recusara-se a tê-lo como visita naquela noite. E conhecia bem seus próprios motivos para tanto.
De que forma poderia discutir acerca de Walter Lloyd se a sua cabeça girava única e exclusivamente em torno de John Watson e das seqüelas psicológicas que o médico certamente contraíra após o último encontro entre eles?
Bufou, exausto. Já não era também a primeira vez que John Watson atrapalhava sua vida profissional. Por que ainda se importava com o assistente traíra se havia tanto a resolver como detetive?
Àquelas alturas, talvez Watson estivesse com algum problema. Tinha menos de vinte e quatro horas para abandonar o seu já antigo lar, e era quase certo que Lestrade também iria prestar-lhe uma visita em breve, já que não conseguira arrancar nada de Holmes.
Pensou no amigo com a expressão ainda perturbada pelo boxe, cheio de pertences a empacotar e com Lestrade enchendo-lhe a cabeça com perguntas inconvenientes.
Sherlock Holmes devia estar ajudando aquela pessoa, mas estava preocupado demais com o orgulho a ser novamente ferido. Ir à casa de Watson e mostrar-se arrependido pelas suas últimas atitudes era um passo grande demais, exagerado demais para ser dado. Se ao menos tivesse um outro pretexto para ir vê-lo…
De súbito, sua expressão iluminou-se. Havia sim um pretexto para ir vê-lo — o caderno. Ainda não tinha recuperado o bendito caderno. E era claro que ir até a casa do assistente para exigi-lo seria humilhá-lo ainda mais, já que Watson claramente se constrangia com o assunto do furto.
Mas bem, entre ferir o seu orgulho e humilhar John Watson mais um pouco… Que explodissem os sentimentos do medico. Precisava vê-lo e iria vê-lo.
Quando saiu de casa, uma garoa gélida tomava a cidade e indicava que prestar uma visita àquela hora não podia ser boa ideia.
[…]
A sua magnífica residência agora — quanto havia mesmo pagado naquele imóvel? — resumia-se a cacos de diversos tamanhos.
A princípio, pensara que a melhor opção seria sair atrás da funcionária e convencê-la a não abandonar o trabalho, mas a fim resolveu que era mesmo melhor que aquela inútil fosse embora, já que nem haveria mais casa a ser limpada.
Assim, passara as últimas horas terminando o serviço que já estava começado; alternava entre destruir e empacotar até que não restasse mais nada a ser resolvido. Estava considerando as alternativas de limpar o chão antes de sair ou de apenas varrer os cacos infinitos para debaixo do tapete. A ideia do tapete até que não era má. Principalmente porque queria mesmo era que fossem para o inferno os novos proprietários.
A visita de Lestrade não atrapalhara em nada o seu serviço. O homem havia entrado e se deparado com tamanha desgraça, que nem sequer tivera coragem de perguntar muito. Parecia mais preocupado em ir embora o mais rápido possível do que em sanar as suas dúvidas.
Mas agora, talvez Lestrade estivesse mudando de opinião e retornando para indagá-lo mais, já que voltavam a ser ouvidas algumas batidas na porta de seu lar. Se fosse o caso, Watson o receberia com toda a cordialidade na qual se criara. Depois de destruir objetos e livrar-se do apego material, o médico estava sereno a ponto de conversar por horas e receber como visita quem quer que fosse.
Arrumou o suspensório lentamente e caminhou até a porta de madeira. Abriu-a. E deparou-se com a única, a única assombração que queria longe de si.
[…]
Fez menção de bater rapidamente a porta na cara do indivíduo, mas Sherlock Holmes foi mais rápido e segurou-a com o pé, de forma a manter apenas uma fresta unindo o meio externo ao interno.
“Watson, por favor”.
Watson, porém não respondeu. Estava ocupado demais empurrando aquela superfície a ponto de quase quebrar o pé do amigo. Como não bastasse ter quase arrancado seu braço no último encontro entre eles, agora queria também tirar-lhe o pé.
“Watson…”
“Fora”.
“Watson, quero lhe falar”.
“Não tem nada que falar”.
“É sobre o caso”.
“Não estou em nenhum caso”.
“Você precisa do dinheiro”.
“Eu preciso de paz, Holmes”.
“Eu serei breve”.
“Por que você está aqui?”
Lestrade. Perguntar sobre Lestrade. Tentou articular, mas as palavras não saíram. Não estava ali por causa de Lestrade.
“Por que você está aqui?”, repetiu-se a pergunta, agora em tom mais agudo e volume mais alto.
O caderno. Para buscar o caderno.
Malditas palavras que não saíam. O coração parecia prestes a pular-lhe do peito, mas por quê? Estava nervoso. Apesar do frio, as suas mãos suavam a ponto de quase derreter. O pé latejava como o diabo.
“Pra… ajudá-lo” foi a única resposta que pôde sair, rouca, da sua garganta. A garoa ainda caía incessantemente sobre o seu sobretudo.
“Mentira. Você não dá a mínima, Holmes”, respondeu o mais alto. E dito isso, bateu com tanta força a porta sobre seu pé, que Holmes sentiu um formigamento e soltou um grunhido. Se a violência não o excitasse, teria um problema a menos. O médico deu-se ao trabalho de perguntar uma última vez, em voz que indicava que, se não quebrasse o seu pé, abriria a porta e quebraria mesmo a sua cara:
“Por que você está aqui?”
“Para vê-lo”.
De repente, John Watson perdeu a força dos braços e a porta foi brutalmente aberta pelo outro, que adentrou a residência.
Encararam-se com os olhos muitos abertos por alguns segundos.
As íris azuladas de Watson estavam tão trêmulas, que pareciam incapazes de fixar-se em um só ponto da face do mais baixo, e as suas pálpebras estavam tão inchadas, que se não estivesse sob uma onda de estresse, seria possível afirmar que não dormia há semanas. Quanto aos olhos escuros de Holmes, demonstravam apenas cansaço.
Estava cansado pela hora, pelo frio, pelo peso do casaco. Cansado pelo quanto seu pé doía. Cansado pela forma de intensa repressão dos seus sentimentos, que acabavam todos engolidos como grandes bolas de saliva pela sua garganta abaixo. Engolia tanto sem expressar-se, que as amígdalas latejavam de dor quase tanto quanto seu pé.
“Watson, eu…”
“Me ver”, repetiu o anfitrião irônico, alterado, descrente. Não podia ter ouvido aquilo de Sherlock Holmes.
Os olhos do detetive correram pela sua sala de entrada. Salvavam-se do absoluto caos da destruição alguns poucos objetos separados e caixas juntas à parede. Estendiam-se sob os seus olhos as consequências por ter levado o amigo a lugar tão inapropriado e em condições tão alarmantes.
Tentou calcular silenciosamente o valor dos pertences que Watson havia perdido por sua culpa e sugerir remunerá-lo, mas falhou. Seria mais difícil admitir a ele a sua culpa do que oferecer o dinheiro propriamente.
Quando voltou a fitá-lo de forma direta, teve uma vertigem tão forte, que por pouco não caiu. Talvez não tivesse se alimentado bem na tarde antecedente. Talvez uma queda de pressão. Mas o seu palpite sobre uma possível evolução dos sentimentos em relação a Watson era forte. Não era novidade que a cada dia estivesse com maior dificuldade de manter-se perto dele; mas agora, parecia impossível.
Lestrade e o caderno de anotações ausentavam-se de seus pensamentos. Assim, concentrou-se para articular as únicas palavras que lhe ocorriam:
“Você sabe”, pronunciou em tom baixo. “Eu lamento por isso”.
Assistiu em silêncio enquanto o mais alto franzia o cenho, mais por angústia do que por confusão ao ouvir aquela frase incomum. Então, viu-o demonstrar mais um pouco do seu abatimento enquanto caminhava até a escrivaninha mais próxima, abria uma das gavetas e retornava até Holmes com o caderno que não lhe pertencia. Aproximou-se e estendeu-lhe o objeto em um só gesto.
Bastou, porém, que Sherlock Holmes o segurasse na mão para dar-se conta do quão insignificante aquilo na verdade havia sido desde o princípio. Um bloco de notas pequeno, no qual liam-se os seus próprios garranchos, coberto por uma capa gasta e arranhada de couro falso.
"Agora que você já tem o que veio buscar, já pode..."
"Eu já vou sair", murmurou em seguida, o sorriso de infelicidade estampando-lhe abertamente o rosto. "Sei perceber quando minha presença não é desejada".
"Pode parar de fingir que veio aqui por outro motivo", completou o próprio médico a sua frase, ignorando absolutamente as palavras do mais baixo.
"Fingir?”
E foi aí que uma possibilidade surgiu na sua cabeça. Holmes ponderou por poucos segundos a chance que tinha de concretizar os pensamentos que há muito vinha formulando. Em tempo diminuto, visualizou duas cenas diferentes.
Em uma delas, sua própria pessoa assentia com a cabeça, dava as costas a Watson e saía triunfante, mas infeliz, pela porta de entrada; na outra, abria mão de todos os valores que tivera até então na vida e rebaixava-se à frente dele.
Estavam dolorosamente sóbrios. A face do assistente era composta em 50% por uma expressão de afeição à sua pessoa. O restante diferia pouco de um sentimento de ódio.
A visita assentiu com a cabeça e sacudiu o pequeno caderno em mãos. Em seguida, lançou-o sobre uma pilha de cacos que se acumulavam sobre parte do piso, com apatia.
"Você pode manter isso, se quiser."
As gotículas da garoa escorriam pelo seu casaco e inundavam aos poucos o cômodo. O silêncio era sepulcral ao ponto de se poder escutar o barulho que aqueles pingos provocavam ao explodir sobre o chão. Por vezes, a sua racionalidade falhava. Enquanto as duas safiras de Watson encaravam-no e perfuravam-no como sabre, perguntou-se por que saíra sem guarda-chuvas em meio à garoa. Talvez não tivesse tido tempo de lembrar. Agora, o frio do seu corpo somava-se ao frio da sua alma e o homem tremia como um gato de rua.
Watson parecia não perceber a poça que se formava sobre o chão. E como podia não perceber? O som da água pingando era desconcertante. Fazia doerem os tímpanos do outro. Mas ainda assim, era com a dor dos tímpanos, das amígdalas e do pé que a sua mente mostrava-se mais clara do que nunca.
Tirá-lo do caso para poupá-lo dos fatos que estavam prestes a desvendar. Mas poupá-lo do quê? Sorriu enquanto fitava Watson e concluía pelos olhos inchados, pela raiva na expressão e pela casa destruída que o assistente estava mais vinculado ao caso e à estranha relação entre eles do que Holmes um dia pudera imaginar que estaria.
Lembrou-se então de que Watson era vulnerável e parou de prestar atenção aos pingos da garoa.
Em seguida, parou de pensar naquela vulnerabilidade. Parou de refletir sobre os seus motivos para tirá-lo do caso. Parou de súbito de temer a raiva contida nos olhos claros.
Quando se deu conta, apenas os estava observando enquanto todos os pensamentos esvaíam-se lentamente do seu cérebro.
As suas pernas ganharam vontade própria. Levaram-no de imediato e com muita urgência até o maior. As mãos desbotadas por ácido avançaram até a nuca de Watson e puxaram-no com muita força até que os lábios se colassem.
Não houve reação. Não houve repreensão e tampouco apoio.
Watson permaneceu imóvel, os braços compridos soltos ao lado do corpo, passivos, indiferentes, ou pelo menos inconciliavelmente desorientados e debilitados pela situação. A sobriedade que corria pelas suas veias era severa; ainda assim, o desejo era forte a ponto de não permitir a tentativa de afastamento. Fez menção de erguer as mãos e posicioná-las sobre a lateral do corpo da visita, mas a falta de forças na ocasião concedia-lhe somente o direito de não se mover. Estava à absoluta mercê de Holmes. E apesar do ódio que dirigia ao menor ser também muito intenso, simplesmente não conseguia controlar-se e rejeitá-lo. O pavor que o tomava naquele momento dizia respeito não só à falta de vontade própria em dizer não àquela pessoa; dizia também respeito ao fato de Watson saber que o detetive não desistiria.
Balbuciou o nome daquela pessoa algumas vezes, da forma que lhe foi possível, na tentativa de trazê-la de volta ao mundo real. Mas a sua voz estava abafada, e o estômago se contraía tanto em nervosismo, que quando as suas costas encostaram a parede mais próxima – movimento friamente planejado por aquele que o atacava –, achou que se fosse desfazer ali mesmo.
“Holmes, não faça...”
Mas o tempo que Holmes lhe deu para respirar durou apenas o suficiente para que pudesse descer as alças do seu suspensório preto e enxergar em melhor ângulo a camisa que agora começava a desabotoar.
“Holmes.”
Sherlock Holmes murmurava palavras que não se podiam ouvir. Os sussurros eram tão baixos e tão rápidos, que por mais que Watson se concentrasse para entendê-los, os esforços eram inúteis. Identificava, em meio aos murmúrios, apenas o seu nome em meio a uma ou mais frases que não conseguia discernir. “Watson”. E então, uma sequência de sons que tinham a tonalidade de um pedido.
“Holmes, se você não ajudar...”
Os pêlos do seu corpo magnetizavam-se instantaneamente aos toques do menor. Holmes deslizava a língua sobre a sua e aproximava uma das mãos da região mais baixa do seu ventre. O peito e a barriga de Watson arrepiavam-se e contraíam-se de desejo ao toque sutil das mãos ásperas. Até mesmo as glândulas salivares alteravam-se e trabalhavam em dobro enquanto os seus pulmões enchiam-se do cheiro do âmbar. E ainda assim... um bloqueio.
A aliança fincada no seu dedo ardia como fogo. Não era reação alérgica. Eram dois homens. E a pessoa que estava à sua frente era ninguém menos que... Perguntou-se, com o último fio de raciocínio que mantinha, se algum dia poderia voltar a ser apenas o fiel cão do detetive mais famoso de toda Londres. Soube que não. O alívio e o desespero tomaram lugar ao lado da excitação que substituía a sobriedade nas suas veias. Na sequência, perguntou-se até onde Sherlock Holmes poderia ir sozinho. Não muito longe. Sem o seu consentimento ou repressão, a segurança de Holmes não podia durar tanto. Ainda que se tratasse de Sherlock Holmes.
Então, lembrou-se de que Sherlock Holmes, no fundo, era vulnerável. Deu uma trégua ao próprio órgão enrijecido que urrava por um mínimo de respeito e posicionou enfim uma mão sobre a sua cintura.
Os olhos de Holmes abriram-se muito e os lábios afastaram-se dos de Watson. O medo da rejeição logo transpareceu pelas íris cor de carvão – um único gesto do médico era capaz de reverter todas as suas atitudes. Um único sinal, uma única insinuação. E o que aquele gesto, afinal, significava? A dúvida sobre as vontades do outro fê-lo lembrar que o fato de ser Sherlock Holmes não o auxiliava em nada naquele momento. Como tantos outros, Holmes transformava-se apenas em uma pobre alma que implorava pela concretização de um desejo. Tornava-se, enfim, uma pessoa comum.
Mas Watson foi bom. Foi bom e permitiu que a sua personalidade, confiante, convicta, retornasse. Porque no instante seguinte, o mais baixo sentiu sua cintura ser apertada com alguma força. Não era rejeição. Não podia ser rejeição.
Assumindo um papel de submissão que não lhe era comum, colocou uma mão sobre a de Watson e exerceu mais pressão sobre a própria cintura, como que em um pedido para que o doutor não a soltasse. Resolveu que quebraria a última barreira e desceria o último degrau na caminhada da humilhação para conseguir o que desejava.
Até então, estivera somente sussurrando as palavras. Agora, iria pronunciá-las em alto e bom tom, ainda que a voz por si só estivesse já trêmula e a frase não saísse com tanta clareza. Desencostou o corpo do de Watson. Tocou a parede com as próprias costas e puxou o mais alto pelo pulso, de forma que as posições, exatamente como da última vez, fossem trocadas. Em seguida, virou-se. Deu as costas a Watson, aceitando em encarar de frente a parede que se estendia. Encostou as mãos, que seguravam as do médico, sobre a parede também. E virou a cabeça para o lado de forma a poder encará-lo. Recorreu finalmente às palavras:
“Watson, por favor.”
Fechou os olhos por um breve instante. Não imaginou que seria daquela forma. Ao imaginar-se com Watson, sempre acreditara que lutaria eternamente pela posição de dominância. Mas agora, vendo-se sob o olhar e claro e ainda assim sombrio do outro, a dominância perdia a importância. Queria senti-lo da exata forma como sentira da última vez; agressivo, rígido, certeiro. Queria dar-lhe o prazer que pessoa nenhuma, mulher nenhuma havia dado. E se Watson fizesse com ele o que bem desejasse, então aí sim Holmes estaria satisfeito.
Só por senti-lo atrás de seu corpo e por entre suas pernas, o detetive ofegava em deleite. A racionalidade talvez tivesse ido para o inferno junto com o orgulho e o desejo pela dominância; daquilo tudo, não restava nada. O que lhe restava era apenas o desejo de ser violentado. Um desejo tão intenso, que ele próprio começava a movimentar-se para frente e para trás, implorando por um mínimo de piedade da parte de Watson.
“Watson, por favor”, murmurou pela última vez. “Por favor”.
E finalmente houve reação.
John Watson sentiu os hormônios de seu corpo ebulirem. O coração bombeava com tanta força, que podia quase ouvir as próprias artérias tentando conter o fluxo do seu sangue.
Forçou uma perna sobre a união das pernas de Holmes, de forma a abri-las, e o gemido que arrancou do mais baixo fez latejar o seu órgão já sofrido. Com os braços, apertou-o contra si. Mas o casaco atrapalhava. Com a pressa de quem luta pela sobrevivência, Watson puxou-o pelas mangas e jogou-o sobre os cacos de vidro do chão. Quanto aos botões da camisa do detetive, pareciam impossíveis de se desabotoar; os dedos finos do médico enroscavam-se e atropelavam-se na urgência de enfim tornar seu o corpo daquela pessoa. E ainda quando lhes restava tecido cobrindo as partes baixas do corpo, o movimento de ir de vir recomeçou, inútil naquelas circunstâncias de ser feito sobre peças de roupa, mas tentador, necessário, inevitável.
Não houve tempo para que as calças fossem tiradas devidamente. O assistente apenas desabotoou as suas próprias e desceu as daquele que estava à sua frente, na ânsia de vê-lo o quanto antes. Holmes também não teve o tempo de sentir constrangimento ao perceber-se despido na frente do médico. O tempo, pelo que parecia, era reduzido. Reduzido até que a sanidade voltasse a tomá-los e torná-los infelizes.
John Watson não pôde deixar de apenas observá-lo por algum tempo. Se voltasse a pensar que aquela pessoa era Sherlock Holmes, talvez não conseguisse mais realizar movimento algum. Mas sentia-se tão livre e tão leve, tão infinitamente desesperado para possui-lo, que não havia ideia capaz de criar raízes na sua mente. Era improvável que aquilo fosse apenas simples desejo.
Posicionou o maior dos dedos sobre o orifício posterior do mais baixo. Holmes passou a ofegar como se estivesse prestes a afogar-se no próprio oxigênio. Ainda assim, assentiu com a cabeça, e ao sentir que Watson finalmente o introduzia na sua entrada estreita, soltou um gemido tão longo quanto o tempo que o médico utilizou até chegar ao máximo de profundidade que a sua mão permitia. Recuou um pouco aquele dedo e tornou a introduzi-lo. Mais um gemido longo ecoou pela sua sala. Não era possível que até mesmo a voz de Holmes o excitasse.
Assistindo à reação do detetive enquanto tornava a aprofundar e retirar o dedo, a sua própria respiração começou a acelerar-se também. A umidade no interior daquele corpo era o que o enlouquecia. A necessidade de satisfazer-se aumentava a cada milésimo de segundo. Mas precisava ser paciente.
O visitante assumiu a posição de soltar gemidos uniformes quando Watson resolveu, enfim, introduzir o segundo dedo. Dois dedos. Dois. O desejo fazia seus braços tremerem tanto, que o assistente nem sequer conseguia concentrar-se nos movimentos realizados. Desconcertado, parou o vaivém e fechou os olhos na tentativa de apenas sentir o orifício de Holmes contraindo-se e dilatando-se à sua vontade. Estava acontecendo.
Não só aquela passagem estreita contraía-se e dilatava-se implorando por mais, como a sua própria vítima começava a levar o quadril para frente e para trás na sede de continuar sentindo-o.
Watson não soube definir se a visão lhe deu vertigem ou se era a sua pressão que caía. Tudo o que soube foi que precisava aliviar-se, e se não fosse naquele momento... não, não havia outra opção. Teria de ser naquele momento.
“H...Holmes...”, gaguejou, enquanto afastava as mãos daquele local e apoiava-as sobre as do amigo, na parede, após terminar de descer as próprias calças. “Tem que ser agora”.
Também não houve tempo para a negação ou o consentimento por parte de Sherlock Holmes.
No instante seguinte, sentiu o membro do mais alto adentrando-o com tanta força, que urrou de dor e perdeu a força nos joelhos, que vacilaram. Desejou recompor-se antes da investida seguinte, mas era tarde; a velocidade dos movimentos do doutor sobre o seu órgão era alta o suficiente para destrui-lo a cada vez que o penetrava. A sobriedade tornava mais uma vez tudo mais difícil. Lembrava-se de dor, mas não se lembrava daquilo. Com os músculos da face todos contraídos, perguntou-se como suportara passar por tanto da última vez.
Mas então o anfitrião, percebendo a sua agonia, deu-se ao trabalho de inclinar a cabeça de Holmes levemente para trás, de forma a encostá-la sobre o seu ombro e permitir o contato visual entre eles. Abaixou ainda o rosto e selou-lhe os lábios. E aquilo pareceu ser o suficiente para Sherlock Holmes passasse a sentir-se relaxado – e a dor física se transformasse, como que por magia, em um prazer dilacerador que o fazia gritar para que o mais alto prosseguisse. Era o vinha querendo até então, afinal.
O barulho da fricção aumentava conforme os minutos caminhavam, disputando vorazmente contra os gemidos, que também se acumulavam e se arrastavam pela sala. O ato de ver Holmes arfante daquela forma estava intensificando em Watson o desejo de desfazer-se dentro dele. O seu membro, já em profundo frenesi, pedia por alívio, e o médico sentia que, se não liberasse o seu prazer na parte mais profunda do ventre de Holmes e não o visse gemer por isso, então de nada teriam valido os seus esforços até ali.
Tendo a certeza de que suportaria aquela situação por tempo limitado, pegou em mãos o órgão rígido do outro, do qual já nem se discerniam os gemidos de dor, de deleite, de súplica, e começou a manipulá-lo no ritmo das suas investidas. E apesar do momento puramente sexual que se travava entre eles, teve vontade de abraçá-lo quando Holmes inclinou-se mais para trás e soltou-se sobre o seu corpo, deixando que apenas os braços e o corpo do maior o mantivessem de pé.
Com um último gemido, o detetive liberou os jatos de líquido claro nas suas mãos, e ao vê-lo, John Watson também forçou mais o órgão naquela passagem estreita que já considerava sua e desfez-se sobre ela.
Permaneceram de pé, imóveis, arfantes, por alguns minutos. John Watson engoliu em seco, ainda por prazer, quando sentiu sobre as suas pernas o líquido proveniente de seu próprio corpo; líquido esse que escorria de dentro do orifício do seu melhor amigo.
Aos poucos, as forças do detetive parecem voltar ao lugar de origem. O homem soltou-se do doutor e ergueu-se sobre si mesmo. Ficar de pé nunca havia sido tão difícil.
Aproveitando a posição na qual estava, encarou a parede por mais algum tempo. Watson, evidentemente, continuou admirando com alegria o escorrimento do seu prazer pelas poucas curvas do parceiro.
“Holmes...”
“Não olhe pra mim˜, disparou Holmes, subitamente agressivo pela vergonha de estar exposto à frente do outro. No seu âmago, porém, não havia nenhuma agressividade. Havia sim uma sensibilidade que estava causando-lhe náuseas. Por que aquele sentimento? Por que não podia simplesmente livrar-se daquilo como Watson estava livrando-se dos seus pertences?
“Por que não?”, perguntou o mais alto. Não parecia fazer sentido que o amigo assumisse aquela postura depois de...
“Não olhe pra mim.”
Watson, incomodado, desviou os olhos e fixou-os em um dos muitos cacos dispostos sobre o chão. A essa atitude, Holmes subiu as calças novamente e pegou do chão a camisa que lhe pertencia. Percebendo o seu constrangimento, o médico também subiu as próprias calças e fechou-as. Pegou-se, então, sendo encarado pelo homem que há pouco tempo parecia ser absolutamente seu. A realidade era a pior coisa de se enfrentar em um momento como aquele.
“Já é hora de ir embora.”
O anfitrião fez um sinal negativo com a cabeça:
“Não.”
“Eu já devia estar indo.”
“Holmes, isso não é o que...”, mas parou. Não era o que ele queria. Não era o que nenhum deles queria. Não era o justo. Por favor, por favor, que ficasse. Que conseguisse mantê-lo ali até pelo menos organizar os seus pensamentos. “Não é o que... faz... sentido.”
Sherlock Holmes não respondeu àquelas palavras. Queria abrir o peito, tirar todo aquele sentimentalismo e tornar a fechá-lo. Ou talvez pudesse deixá-lo aberto, decompondo-se como um cadáver. A vergonha era tamanha, que acordar no dia seguinte seria desnecessário.
“Fique”, insistiu o maior.
“Ficar e fazer o quê?”, perguntou, irritado.
John Watson deixou que um silêncio se instalasse no recinto antes de prosseguir. Deu de ombros, o sorriso cordial de sempre tomando-lhe o semblante e disfarçando-lhe a dor:
“Nada”. E ao que Holmes pareceu contrariado, completou: “São meus últimos momentos nessa casa. Você poderia ficar e nós poderíamos só não fazer nada. Como fazíamos antes.”
Holmes parecia cabisbaixo. Ainda assim, olhou o maior com o canto dos olhos e lentamente pareceu assentir. Tentar passar algum tempo apenas com o amigo Watson podia não ser má ideia. Afinal, acima de tudo, ainda sentia a falta da sua companhia. Abririam uma garrafa de qualquer coisa e esperariam o tempo passar. Como faziam antigamente.
Suspirou e encarou a porta. Não havia condições de sair na rua àquela hora. Fora a chuva e o fato de que ele nem sequer conseguia manter-se sobre dois pés e caminhar normalmente, o seu cérebro o puniria de forma muito severa se ficasse em Baker Street na mais pura solidão. Não. O melhor era que ficasse e passasse o tempo com o único amigo que tivera na vida.
Único amigo. Não conseguia fazer outros. Não conseguia relacionar-se com quem quer que fosse; as mulheres em geral, senhora Hudson, Lestrade, o cachorro Gladstone, todos aqueles que via com alguma frequência significavam absolutamente nada para a sua pessoa. Watson sempre ofuscara todos. E a única coisa que o distraia de alguma forma era o trabalho como detetive. Então, bem, não era tão ruim que fosse submisso em fazer a sua vontade – mais uma vez – e ficasse.
Era aceitável ser submisso à única pessoa que importava.
Notas finais
Próxima vez juro que retomo o caso e a parte técnica que ficou esquecida, haha.
Não se esqueçam das minhas reviews! ♥
E obrigada.
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