O Caso De Scarle Road

12 Décimo segundo.


Notas iniciais
E ADIVINHEM SÓ QUEM APARECEU??????? < 33333333
Ok, vocês tem todo o direito de querer dar na minha cara. Mas por favor não façam isso :(
15 dias pra postar, eu sei, perdi um pouco a noção das coisas. Se vocês soubessem desde quando o esqueleto desse capítulo está pronto, aí sim eu ia levar umas boas tijoladas ;~
Mas acontece que estou no meio da segunda semana de três semanas de provas e não estou me dando muito bem, então... juro que terminei a edição e vim postar assim que arrumei um tempinho, hihi.
Prometo tentar ser uma escritora menos desnaturada.
SOBRE O CAPÍTULO: evidentemente, precisei retomar o caso depois de tanto tempo. Espero não ter feito isso de maneira brusca demais. Vocês é que dirão.
Muito obrigada por todas as reviews do último capítulo. Ao final desse, espero mais, heh.
Mais uma vez, desculpem o atraso.

“Finalmente”, sussurrou um Inspetor Lestrade aliviado, os olhos revirando nas órbitas pela descrença na cena que presenciava.

“Não temos tempo”, retrucou o homem de sobretudo e chapéu que invadia o seu escritório como um rojão. Pela primeira vez em algum tempo, Sherlock Holmes parecia focado no caso que se estendia à sua frente. Tirou algumas anotações irrelevantes do bolso e lançou-as sobre a mesa do inspetor. “Dois lugares”, murmurou enquanto pela sua mente passavam-se e repassavam-se as possibilidades. “Mas um só suspeito”, concluiu enfim.

[...]

Charles Hoover tremia como um condenado. A presença de Holmes na sua casa causava-lhe calafrios. Evitara procurá-lo ao máximo, era verdade, mas a fraqueza da sua alma não lhe dera opções. A culpa multiplicava-se a cada dia dentro do seu peito. E por mais que a sua pobre pessoa nada tivesse a ver com o assassinato de Walter Lloyd... seria muita hipocrisia da sua parte não levantar um suspeito sequer.

Enfim, o detetive sentou-se na sua poltrona. A pressão nas veias de Hoover estava tão baixa que, quando o homem piscava, formavam-se alguns pontos arroxeados no seu campo de visão. Mesmo assim, não podia sentar-se também, não; estava nervoso a ponto de não conseguir realizar um movimento sequer. Pigarreou e procurou um resquício de coragem dentro de si – precisavam ir logo ao assunto.

“Sherlock Holmes...”, começou devagar, hesitante. “Quando vi seu assistente no enterro de Walter Lloyd...”

“Você foi o único a imaginar que eu e Watson estávamos trabalhando juntos mais uma vez”.

Àquela constatação, Hoover não pôde responder. Era evidente que, desde o princípio, demonstrara a existência de uma culpa que o relacionava de alguma forma ao assassinato do colega Walter. Tentou suspirar, mas faltou-lhe o ar.

“Você era próximo o suficiente de Lloyd para saber que Watson não iria ao seu enterro”.

“Eu não era... próximo de Walter Lloyd.”

“Você o conhecia relativamente bem.”

Era verdade. Desde que Walter entrara no movimento anarquista – o que fazia já mais de ano –, Hoover e ele haviam trocado alguns bons momentos. Discussões acerca de ideias, ideologias... aquilo certamente demonstrava alguma proximidade. Ainda assim, eram raras as vezes que Walter aparecia nos locais de assembléia; pensando agora, Hoover chegava à conclusão de que ele nem sequer havia entrado em uma alguma vez — dava aos outros o prazer da sua presença apenas nas ocasiões em que queria demonstrar que ainda fazia parte do movimento. Fora isso, eles jamais haviam sido realmente íntimos. Principalmente porque Hoover demonstrava algum medo das suas intenções.

“Mas Walter e eu nunca fomos...”

“Íntimos”, concluiu Holmes. “Mais por falta de vontade sua do que dele, eu calculo”.

O anfitrião não pôde deixar de arregalar os olhos, em surpresa. As suas mãos estavam frias e formigavam pela ansiedade que crescia dentro do seu peito. Como Holmes podia saber tanto? Engoliu em seco. Aquele assunto trazia-lhe náuseas.

“O que era, Hoover? O que você chegou a perceber em Walter Lloyd que outros não perceberam?”

“Walter Lloyd era um homem diferente dos outros”, sussurrou. Suas cordas vocais estavam frágeis a ponto de quase se romperem. “Sherlock Holmes... você esteve com as pessoas que jogavam com Walter... as pessoas que desejavam mal a ele. Mas não é dessa forma...”

E pausou, trêmulo. Sherlock Holmes encarava-o com as sobrancelhas arqueadas. Não parecia comovido.

“Não é dessa forma que você vai encontrá-lo”.

“Não é dessa forma que vou encontrar...?”

“O motivo pelo qual Walter entrou no movimento”.

Holmes fechou os olhos, impaciente, e passou a mão pelo próprio rosto. Por que tanto drama? Por que tanta demora? A hesitação de figuras inúteis como Charles Hoover atrasavam o andamento da justiça no país.

“O nome”, murmurou entre dentes, agora com a absoluta certeza de que aquela pessoa conhecia o assassino. “Me dê um nome”.

[…]

“Elliot?”, perguntou o homem carrancudo com o cenho franzido. “Nunca ouvi falar”.

“Isso não é novidade.”

“Anarquista?”, perguntou Lestrade por cima, optando por ignorar a ironia que compunha a essência de Sherlock Holmes.

Holmes tomou fôlego e fez menção de responder à pergunta, mas faltou-lhe algum vocabulário. Voltara-lhe à cabeça as palavras que Charles Hoover havia escolhido para descrever o possível assassino da vez – e em meio àquelas palavras, Holmes perdeu as suas próprias. Estava longe de ser um homem sentimental; mas o caso era delicado. Guardava os maiores detalhes para si.

“Anarquista”.

“Vou identificar os sujeitos com esse nome dentro do movimento”.

“Nosso tempo é limitado”.

[…]

“Não era um mau menino”, sussurrava Hoover, encostado à parede gélida do seu próprio apartamento. “Não faria mal a uma mosca”, enquanto seus olhos trêmulos direcionavam-se para o chão sem, de fato, visualizá-lo. “Ninguém no seu lugar teria feito diferente”.

Ninguém no seu lugar teria feito diferente. Mas como? Levar um homem por livre e espontânea vontade a um hotel quase à beira da estrada, lá hospedar-se com ele e estrangulá-lo durante a noite. Holmes tentou convencer o anfitrião de que poucos teriam feito o mesmo no lugar do criminoso; mas Hoover não queria deixar-se convencer. Prosseguia dizendo que se tratava de um bom menino e que qualquer pessoa em sã consciência teria ao menos considerado a possibilidade, dado o que Walter Lloyd havia causado à sua pessoa.


E o que poderia ser tão ruim quanto uma morte violenta como aquela? No momento do interrogatório, Sherlock Holmes não soube responder – a sua cabeça estava cheia demais e faltava-lhe a concentração necessária. Fora isso, naquele instante Holmes considerava levar John Watson a uma luta de boxe tipicamente frequentada por Walter Lloyd, na tentativa de comprovar algumas hipóteses. E os pensamentos que envolviam Watson pareciam misturar-se e entrelaçar-se àqueles que envolviam o caso de Scarle Road. Logo, o seu progresso no caso, apesar de tantas evidências, naquela tarde era... nulo. John Watson prosseguia atrapalhando a sua vida.

[…]

“Você está considerando que o próprio criminoso tenha dado o seu paradeiro”, disse Lestrade muito sério, a expressão convicta em demonstrar preocupação com a sanidade de Holmes. A saúde mental daquele homem certamente havia sido afetada pela proximidade excessiva com John Watson; já era quase certo que Watson também não era bom das ideias.

“Considerando?”, perguntou o detetive. Parecia quase segurar uma risada pela pergunta ridícula que Lestrade fazia naquela hora. “Eu não considero. Eu estou afirmando”.

“Certo. Holmes, se você achar que é o momento de tirar um tempo para si e descansar...”


Mas o inspetor Lestrade não entenderia. Simplesmente não entenderia porque talvez nunca houvesse tido alguém da forma como Holmes tivera Watson na noite anterior.

Foi depois daquele momento íntimo, aquele momento tão constrangedor e lúbrico, que as verdadeiras respostas do caso passaram a lhe surgir na cabeça. Em meio a todo o ocorrido que se dava na casa do médico, Holmes havia imaginando o seu próprio estado psicofísico se, de súbito, tudo o que estava tendo para si no momento se perdesse no ar.

Então, pela primeira vez, as palavras de Charles Hoover passaram a fazer sentido. E foi como se o detetive pudesse adentrar a cabeça daquele criminoso e enxergar com clareza a sua linha de raciocínio. Em meio a tantas autoridade, Sherlock Holmes era o único a compreendê-lo. E estava certo; estava absolutamente certo de que o homem que matara Walter Lloyd havia também entregado o seu próprio paradeiro nas mãos de alguém descuidado.

Host Taylor, Bromley”, leu o inspetor em um papel amassado que acabava de lhe ser entregue. “E Cattle Village, Chigwell”.

Alguém descuidado como um jovem de vinte anos que costumava trabalhar com o tio em um hotel simplório em Scarle Road. Johan Boldweiser havia sido de alguma utilidade, afinal.

“Qual deles?”

“O menos frequentado”.

G. Lestrade fez um sinal afirmativo com a cabeça enquanto prosseguia na tentativa de entender as ideias de Holmes. Estava mais do que claro que a sua tarefa agora era identificar o mencionado Elliot e descobrir qual daqueles locais seria o seu provável paradeiro. Mas enquanto encarava as costas do visitante e os seus passos na direção da porta, não pôde evitar a pergunta:

“Holmes, você me evita no dia do interrogatório de Charles Hoover”, disse, um pouco temeroso. “E aparece no dia seguinte cheio de respostas e afirmando que não temos tempo. Se o homem que matou Lloyd esperou para ser encontrado até agora, por que nosso tempo seria limitado?”

Holmes hesitou em respondê-lo por algum tempo; não era aconselhável que todas as informações fossem entregues de uma só vez àquele sujeito. E por mais que estivesse recebendo para esclarecer as dúvidas na mente de Lestrade, não havia dúvidas que pudessem ser esclarecidas se o seu cliente não tivesse pleno conhecimento e compreensão dos motivos do assassinato. A compreensão era improvável. Logo, a sua resposta poderia ser uma só:

“Precaução.”

[…]

Tudo estava muito escuro quando Watson abriu os olhos. A claridade proveniente do dia que nascia não adentrava o seu lar simplesmente pelo fato de que as cortinas fechadas bloqueavam qualquer comunicação entre a casa e o mundo exterior. Do lado de dentro, viam-se as silhuetas de diversas caixas sobre o chão – enfim, havia chegado o dia de deixar a casa, notou ele.

Reconhecia-se sentado sobre uma poltrona que residia justamente virada para uma das grandes janelas fechadas. Tentou se lembrar de ter fechado aquelas cortinas, mas a tentativa não deu resultados; a única coisa de que se recordava da noite anterior era de um Sherlock Holmes vulnerável, submisso e dolorosamente excitante que permanecera na sua casa encarando aquela janela com a sua pessoa depois do ocorrido. Encarando uma janela, evidentemente, aberta. E cujas cortinas agora estavam fechadas. Aquilo queria dizer...

Bem, se Watson dormira com cortinas abertas e amanhecera com cortinas fechadas, aquilo queria dizer que Holmes se dera ao trabalho de fechá-las para impedir que a claridade ferisse os olhos do médico logo pela manhã. E que, de certa forma, Sherlock Holmes se importava.

Considerou aquela possibilidade por algum tempo, mas o seu coração latejou tão violentamente à simples hipótese, que resolveu descartá-la o quanto antes; talvez ele mesmo tivesse fechados as cortinas e não estivesse lembrando, afinal.

“Holmes.”

O chamado foi inútil. Estava mais do que claro que o detetive tinha passado a noite e deixado o local ao amanhecer. Ainda assim, a esperança de acordar e encontrá-lo estava viva na cabeça do doutor. O otimismo, por vezes, ressurgia na sua pessoa e tornava-se o seu ponto fraco. Mas logo, felizmente, desaparecia; e o homem era tomado mais uma vez pela realidade sombria que vinha assombrando sua mente e o seu peito nos últimos tempos. Abandonar a casa não seria fácil.

O novo apartamento que vinha considerando comprar era, em suma... não, não havia apartamento. Não havia sequer um porão ou um sótão, comprado, alugado, emprestado, que tivesse arrumado até aquela data. E aquilo significava que teria de pedir um favor. O único maldito favor que implorara a Deus para que não fosse obrigado a pedir. Deus, de qualquer forma, nunca havia sido muito prestativo com a sua pessoa. Tentou levantar, mas os músculos doeram-lhe de forma que tudo que pôde produzir foi um gemido pelo fôlego que havia tomado antes da tentativa. Que horas deveriam ser? Talvez dez. Talvez meio-dia.

Ou talvez não fossem nem mesmo sete horas da manhã – quando animado, Sherlock Holmes podia passar muitas noites em claro, e era bem possível que tivesse deixado a casa do amigo em meio à madrugada. Então, Watson ouviu o barulho de passos próximos à casa e à porta.

As esperanças refizeram-se na sua alma e deram-lhe forças para enfim levantar.


Os olhos muito escuros de Sherlock Holmes encontraram os seus e o reflexo de Watson foi de passar as mãos sobre o próprio rosto e o cabelo, como que tentando arrumar algo que estivesse fora do lugar. No momento seguinte, achou-se patético; era apenas o velho amigo Sherlock Holmes.

“Watson, precisamos falar”.


Tudo na aparência de Holmes incitava o imoral. A sua forma de andar, a fisionomia apática, as poucas palavras que saíam da sua boca lembravam, em tudo, o Sherlock Holmes que se deixara dominar na noite anterior. E ao vê-lo, Watson não enxergou o amigo de vinte anos. Enxergou aquela criatura vulnerável – e, ao mesmo tempo, impúdica – que literalmente pedira para, por favor, ser penetrado. Agora, era tão difícil olhá-lo e não desejá-lo.

John Watson chegou até mesmo a salivar pela memória fresca, mas a boa consciência fez funcionar o seu cérebro e as palavras saíram arrastadas:

“Sim. Claro”.

Pequeninos flocos de neve caíam do casaco pesado e dos cabelos curtos de Holmes. As minúsculas esferas brancas sobre os seus cabelos castanhos causavam um tipo de efeito hipnótico que desconcentrava facilmente um indivíduo que já não tinha muito foco.

“Você dorme bem, Watson”, afirmou. O sorriso perverso que estampou seus lábios proporcionou ao doutor uma tontura e uma fraqueza. Antes que obtivesse resposta, porém, o visitante prosseguiu, a fisionomia tornando-se séria: “Mas agora... sobre o caso”.

“Caso?”

“Consegui convencer Lestrade de que o assassino entregaria o seu próprio paradeiro”.


O mais alto não respondeu. Procurou manter uma postura ereta, típica da sua pessoa, e uma respiração uniforme que não levantasse suspeitas acerca da sensação que o tomou ao som daquelas palavras. Não estivera interrogando Charles Hoover no dia anterior, mas fosse pelo boxe ou pelas evidências que se sobrepunham umas às outras a cada dia, parecia absolutamente consciente do que se passava na mente do parceiro.

“Elliot Marshall Bahman provavelmente está em um dos dois hotéis que Boldweiser mencionou...”

“Holmes...”

“...estamos identificando o menos frequentado e vamos ainda hoje...”

“Holmes”.

O detetive percebeu logo que aquele discurso não convenceria. Diferente do que se passava anteriormente, Watson não parecia mais constrangido em concordar que havia alguma relação entre os dois casos – sendo um referente a Scarle Road e o outro a ele mesmo. Assim, se quisesse de fato atingi-lo, teria de passar à esfera da intimidade.

Suspirou.


“Por quase vinte anos, você atuou ao meu lado. Nunca houve envolvimento pessoal com nenhum outro caso. Não há motivo para se desvincilhar desse”.

“Não há motivo...”, pareceu concordar. Mas os fatos já não eram tão simples. Mantinha-se frio até onde o sentimentalismo da sua essência lhe permitia, mas apenas ignorar o fato de que estava sim se envolvendo de forma pessoal era regredir à hipocrisia que dominara sua vida por tantos anos. Não havia força de vontade que pudesse torná-lo apático como Sherlock Holmes.

Fez um sinal negativo e desviou as íris na direção da parede mais próxima; deixar de assistir o melhor amigo não estava em seu plano inicial, mas as circunstâncias atrapalhavam tudo. Acompanhou com o canto daqueles olhos enquanto o mais baixo caminhava na sua direção e parava a poucos centímetros de distância.

“Watson”.


As respirações cruzaram-se livremente. A de Holmes, gélida como a rua, traduzia bem o seu falso estado de espírito; a de Watson, mais morna e mais sincera, não traduzia nada. As palavras do mais baixo soaram tímidas e reprimidas, apesar dos olhos grandes fitarem diretamente o homem que estava próximo:

“Eu preciso de você”.

E bastou que fossem pronunciadas para que os faróis cor de safira também arrumassem forças para encará-lo.

“No... caso”, esclareceu Holmes, para o caso de eventuais desentendimentos, assim que se percebeu no campo de visão do outro. Watson segurou o sorriso de dor e de deboche e assentiu com a cabeça àquele pedido.

“Também quero lhe pedir...”, aproveitou.

A pesada cortina movia-se e formava sobre a face do médico uma sombra que oscilava, irregular. A mancha escura e a fina fresta de luz sobre o seu rosto misturavam-se e causavam no mais baixo aquela estranha vertigem que já era conhecida. Não foi necessário que terminasse de falar.

“Não tem que pedir nada. Você volta para Baker Street”.

[...]

Tendo finalizado o diálogo e conseguido aquilo que viera buscar – o consentimento de Watson em fazer uma última aparição no caso investigativo -, chegava o momento de ir-se embora. Ainda assim, enquanto ainda sentia os seus pulmões enchendo-se com o ar que saía dos pulmões de John Watson, era como se os pés de Holmes tivessem criado raízes sobre o piso. Tentou movê-los algumas vezes, mas os membros tinham adquirido vontade própria e recusavam-se a deixar a residência. Como convencê-los? Discretamente, fechou o punho sobre o tecido da calça que cobria suas próprias coxas e movimentou-o, tentando despertá-las. Pareceu surtir algum efeito.

“Mais tarde, então... nos veremos”.

Quando finalmente as pernas e pés parecem voltar a si, uma das mãos do maior fechou-se sobre um dos seus pulsos. Com os olhos ainda fixos nos seus, Watson aproximou os lábios até que quase se encostassem. E assim, sem forças e sem coragem para prosseguir o que estava quase começado, congelou na posição e apertou novamente os ossos de Holmes, pedindo auxílio. Não recebeu auxílio.

“Watson, eu estou... saindo”.

“Precisa de mim no caso”, repetiu o maior, enquanto Holmes sentia as veias do próprio rosto dilatarem-se, causando-lhe um calor fora do comum. Faria de tudo para dar a entender que não compreendia as intenções daquela pessoa.

“Como?”, perguntou, o cenho franzido e o olhar fixo na porta que levava à rua.

No caso”, retomou Watson.

O timbre da sua voz deixava transparecer alguma frustração ou alguma raiva. Holmes tentou soltar-se, mas mais uma vez a mão alva parecia forte o suficiente para quebrar-lhe os ossos do carpo. Era estranho pensar que na noite anterior as suas mãos haviam estado sob aquelas. O seu corpo todo havia estado sob o de Watson; e pela primeira vez, era como se o médico estivesse realmente farto de fingir que não havia acontecido.

“Watson, eu preciso ir”.

Mas se conhecia bem o seu velho amigo, sabia que a permissão para deixar aquela casa só seria obtida se a sua postura frente a ele mudasse. Lentamente, posicionou a palma da mão livre sobre as costas da mão que o segurava. Trêmulo, acariciou-a como nunca acariciara nem mesmo a própria mãe. Talvez estivesse mesmo perdendo a consciência e a sanidade. E todo resultado que obteve de Watson foi uma mudança de expressão; uma mudança que pareceu torná-lo menos tenso, menos severo. Como um cão obediente, ele o soltou para, no instante, seguinte colocar aquelas duas mãos frias sobre o seu rosto e puxá-lo até que os lábios enfim se tocassem.

Permaneceram imóveis. Foi Watson também quem os afastou:

“Vá”, murmurou.


Holmes andou, trôpego, até a porta. Não importava quantas vezes a sua boca havia se juntado à de Watson – sempre, irreversivelmente, o efeito sobre os seus joelhos seria o mesmo que o da primeira vez. O seu lado racional era, de forma muito irônica, aquele que o empurrava de maneira rápida até a porta e também o que sussurrava para que soltasse logo às palavras presas à garganta.

O detetive mais famoso de Londres não demonstrava sentimentos; mas se não pronunciasse o que estava na sua mente, a concentração durante todo o resto do dia seria prejudicada. Sem concentração, não haveria solução efetiva do caso. Logo, o sucesso da sua vida profissional naquele dia dependia unicamente da admissão dos sentimentos pelo amigo. Como precaução, esperou até que a porta estivesse bem à sua frente antes de esclarecer:

“Preciso de você não só no caso”.

[...]

Enquanto caminhava na rua, imaginou mais uma vez a situação pela qual o possível assassino havia passado antes cometer o crime. Ter absolutamente tudo em um dia e nada no outro. Viu-se saindo da casa dos próprios pais por conta de Watson e alojando-se em um porão alugado quase fora da cidade. Viu-se dando tudo por ele e por ele sendo enganado por mais de ano. Viu-se esperando reciprocidade depois de abrir mão de uma vida confortável e de anos de estudo e recebendo em retorno a notícia do casamento de um homem que lhe havia tirado tudo.

Por uma fração de segundos, cogitou matar John Watson com a certeza de que o remorso e a dor seriam grandes demais para suportar em liberdade. Depois, deu-se conta de que o sofrimento por perder aquela pessoa seria grande demais para suportar mesmo em vida. O seu laço com o assistente estava estreito o suficiente para não permiti-lo passar nem um dia sequer sem a visão dos seus traços e dos seus olhos.

A necessidade de chegar a Baker Street e acender um tabaco revirou-lhe o estômago. A principal tarefa do dia ainda estava longe de ser concluída.


Notas finais
Informação demais? Espero que não. Ainda temos um ou dois capítulos antes das coisas finalmente se esclarecem (espero). E ainda temos uns bons capitulinhos até o final, hi :B
Tô esperando minhas reviews de braços abertos. < 3
E ah, obrigada pela leitura.