O Caso De Scarle Road
1 Primeiro.
Notas iniciais
Londres, definitivamente, não era a mesma. Era o ano de 1891 e as decorações de Natal que ilustravam a cidade, somadas ao clima familiar e reconfortante do final do ano, satisfazia os habitantes felizes e medíocres, absortos em suas vidas felizes e medíocres, que se disseminavam e moviam como pragas pelas ruas sujas. O frio já não era frio como costumava ser. O progresso científico estava literalmente estagnado. E os crimes ainda não desvendados, antes polêmicos e interessantes, haviam diminuído consideravelmente.
Havia agora quatro anos que Sherlock Holmes trabalhava absolutamente sozinho. Comia pouco, saía pouco, falava pouco e usava bastante uma seringa pessoal que lhe trazia considerável conforto em uma época da vida na qual a renda mal entrava pela sua porta. Estava, de certa forma, distante de seu trabalho de detetive profissional, simplesmente pelo fato de que aqueles crimes que lhe apareciam eram tão óbvios, tão infinitamente desestimulantes, que o pico de adrenalina do seu dia acontecia pela noite, quando se deitava e dormia por milênios.
A cocaína e o cachorro faziam-lhe companhia. Evidentemente, havia também uma mulher, a sua babá, uma caquética de cabelos longos e rugas profundas. Mas ela mais resmungava a respeito dos hábitos de Holmes do que propriamente lhe fazia companhia. A cocaína e o cachorro, por outro lado, eram silenciosos e atuavam apenas quando requisitados, o que os tornava muito mais convenientes. Valia considerar também que Watson, agora casado, mudado, apático, um traidor, o havia deixado e, é claro, levado consigo toda a sorte que Holmes um dia tivera de encontrar casos que lhe garantissem o pão – ou ao menos uma insônia, uma ansiedade, um mínimo de excitação que fosse. Ainda assim, o lendário Sherlock Holmes considerava-se bem.
De maneira geral, seus dias não variavam. Algumas vezes por semana recebia em sua casa a visita de algum detetive fracassado que lhe pedia auxílio e dava em troca uma esmola. Além das visitas bastante previsíveis, passava as tardes estudando o novo aracnídeo – um pequenino animal de quelíceras avermelhadas e corpo bastante peludo – que havia adotado há algumas semanas; tinha ouvido em algum lugar a possibilidade de criar um estimulante a partir do veneno daquele aracnídeo e, desde então, trabalhava sobre tentativas fracassadas de criar uma substância que aplacasse seu tédio de alguma forma. Ironicamente, seu tédio seria aplacado naquele mesmo dia por uma visita imprevisível.
Eram cerca de três da tarde do dia 21 de dezembro e Holmes, mais uma vez, debruçava-se sobre substâncias como a cafeína, a soda cáustica e algumas aminas extraídas da própria aranha quando foi surpreendido por uma conversa à porta de entrada da sua casa.
Havia poucas luzes no cômodo em que se encontrava. Os poucos feixes que permitiam sua visão entravam ilicitamente pelas frestas da espessa cortina, geralmente fechada durante o dia e a noite, ininterruptamente. Assim, Sherlock Holmes era obrigado a ater-se ao som de passos e ao timbre de vozes se quisesse interar-se a respeito do mundo lá fora. Era raro que quisesse. Quando aparecia uma visita, entretanto, era necessário que reconhecesse vozes para prever o tipo de encontro que estaria prestes a ter. Tinha algum um tempo que não recebia visitas de cunho pessoal.
“Vim para ver o Sr. Sherlock Holmes”.
Mas a voz daquela tarde em especial tinha algo de familiar e, de alguma forma, distante. Intrigante o suficiente para fazer com que Holmes se afastasse rapidamente da mesa de trabalho e fosse em direção à porta. Pediu silêncio para o cachorro que latia, desacostumado a movimentos bruscos como aquele, e aproximou-se da fechadura da mesma porta. A conversa prosseguiu e Holmes pôde, após alguns minutos, identificar enfim quem estava do outro lado.
“Não é por motivos de trabalho, mas tem certa urgência. Ele pode receber visitas?”.
Não era por motivos de trabalho, é claro. Mas não recebia visitas informais desde que Watson estivera em sua casa, o que fazia exatamente... Bem, não sabia ao certo o tempo que se havia passado. Estavam em dezembro, mas quando tinha visto Watson pela última vez? Naquele mesmo mês? Em novembro? Talvez agosto?
De qualquer forma, não demorou muito para que avistasse a poucos metros de distância, ainda pela fechadura, o corpo delgado de um indivíduo que não via há algum tempo. Stamford estava envelhecido. Os cabelos ralos encobriam a cabeça de um homem de expressão cansada e um cenho franzido que evidenciava a preocupação que o trazia àquela casa. O punho, por fim, bateu algumas vezes sobre a madeira da porta da sala de estudos de Holmes. Estranhando a visita e a expressão do visitante, o anfitrião o atendeu quase que imediatamente.
“Stamford."
E Stamford, ao vê-lo, deixou que desaparecessem as rugas de sua face, nela instalando um novo e largo sorriso pelo reencontro. Deixaram-se de lado as formalidades e cumprimentaram-se os dois com um aperto caloroso de mãos e um abraço rápido. Estranho constatar que, depois de tanto tempo, sentia-se mais próximo de Stamford do que costumava se sentir nos tempos de juventude. Era certo que não chegavam a ser amigos, mas o reencontro ocorrido depois de anos fazia parecer amizade o que era, em verdade, uma relação de pouca intimidade.
A visita entrou logo e não pôde deixar de reparar nas peculiaridades do cômodo no qual se encontravam. Precisava deixar que as pupilas se acostumassem à escuridão para enxergar os poucos móveis componentes da sala; a desorganização era notável em papéis e documentos que se empilhavam em cantos variados, e o cheiro lembrava uma mistura entre acetona e urina de cachorro.
“Vejo que prosseguiu em seus estudos, Holmes”. Os olhos do homem envelhecido recaíram então sobre um monte de jornais cuja função era, de fato, reunir os excretas daquele animal – e quiçá os de Holmes, se o detetive andasse mesmo tão mal quanto diziam. Um arrepio percorreu a espinha de Stamford, mas o sorriso de sincera diversão manteve-se em sua face. “A vida ordinária nunca foi para você, Holmes”.
“Nunca foi”, concordou o detetive, deixando-se contagiar brevemente por aquele sorriso.
Os diálogos absolutamente inúteis eram inevitáveis, mas logo um silêncio hesitante tomou o cômodo. Stamford, parado no centro da saleta mal-cheirosa, não falava pela dúvida do assunto a ser tratado, enquanto que Holmes não falava apenas porque não era de seu feitio introduzir novas conversas – a simpatia gratuita não era atributo seu, ainda que ele a desejasse; tampouco se incomodava com o som do silêncio. Cedo ou tarde, a visita chegaria à conclusão de que algo precisava ser dito.
Stamford suspirou pesadamente.
“O tempo cuidou de nos afastar, Holmes”, iniciou com cautela. “Mas você morou por mais de dez anos com John Watson, e certamente sua relação com ele é bastante estreita...”
“Certamente."
“Watson não anda bem.”
Então, súbita e claramente incomodado com o rumo que a conversa estava tomando, Holmes desviou a atenção para qualquer ponto da sala que não incluísse os olhos de Stamford.
“Não anda bem”, repetiu após a visita, um sarcasmo incontrolável começando a agitar-se dentro de seu peito. “Uma mulher e uma casa, um emprego fixo, a iminência de construir uma família e Watson não anda bem. A praga tomou seu lar, eu presumo.”
“Watson não anda bem, Holmes.”
Bem, que não estivesse. Watson vivia jogando na sua cara o seu sucesso amoroso e profissional; nos últimos anos, andara ainda afirmando que Holmes morreria sozinho enquanto que ele, vitorioso, construiria uma família completa, com uma vida normal e sadia. Havia exatos quatro anos que John Watson havia abandonado aquele apartamento e algumas semanas que havia exorcizado Sherlock Holmes pela última vez. Agora não andava bem.
“Diga a Mary Morstan Watson que o marido dela venha me ver se estiver com algum problema”, cuspiu o detetive, imaginando que a mulher é quem havia mandado Stamford à sua casa, talvez para convencê-lo a prestar uma visita a Watson e alegrá-lo.
“Mary não sonha que eu esteja aqui, Holmes. Você, melhor do que ninguém, devia saber”, acrescentou a visita. “O problema talvez seja ela, na verdade. Eu estive com Watson e vi o seu estado.”
“Mary é o problema?”
“Ela estará viajando até o Natal, então você deve ir vê-lo nesta semana."
Uma luz, de súbito, acendeu-se no peito de Sherlock Holmes. Mary Morstan não havia mandado Stamford, e talvez ela fosse o problema de Watson. Estaria viajando ainda por três dias, o que possibilitaria uma visita sem maiores desconfortos. E Watson não estava bem.
“Você deve ir vê-lo e me dizer qual é o problema, Sherlock Holmes. Uma visita é o mínimo que um amigo antigo como você pode fazer por ele”.
Diante das explicações, o anfitrião apenas assentiu com a cabeça sem maiores resistências e Stamford percebeu que aquela talvez fosse a sua deixa para se retirar.
“Não deixe de dar notícias. Você sabe onde me encontrar.”
Sabia. E Holmes soube também, nesse instante, que não voltaria à mesa de trabalho naquele dia. Iria à casa de Watson e, seja lá qual fosse o motivo de sua moléstia, ficaria tão agitado que provavelmente não voltaria a concentrar-se em seu aracnídeo. Para afetar a vida e estabilidade de Watson, era preciso muito, o que atribuía à situação certo potencial de gravidade. Sem mais demoras, vestiu o sobretudo sobre a camisa que não tirava há cerca de dois dias e saiu pela porta dos fundos, antes mesmo que Stamford pudesse despedir-se devidamente.
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