O Caso De Scarle Road

13 Décimo terceiro.


Notas iniciais
Primeira coisa: DESCULPEM. DESCULPEM, DESCULPEM! Eu disse que procuraria ser uma escritora menos desnaturada e, mais uma vez, demorei 15 dias pra postar :( mesmo assim, vou ser cara-de-pau o suficiente pra pedir novamente a compreensão de vocês, hihi, já que eu ainda estou em provas e... bom, e esse capítulo foi realmente difícil de terminar e editar... ;;
Enfim, espero que a demora valha a pena agora pra vocês < 3.
Muito, muito obrigada pelas reviews do capítulo anterior, e... espero mais ao fim desse, claro. *-* Desculpem também as 4700 palavras, elas se explicam ao longo do capítulo...

Bromley era uma cidade localizada a cerca de cinquenta quilômetros de Londres. Nas suas ruas não havia asfalto e sobre as calçadas não havia pedestres. O Sol que iluminava as casas locais parecia mais radiante do que aquele que iluminava Londres, sempre fraco, tímido, cinzento. Qualquer lugar no mundo talvez fosse mais iluminado do que Londres, refletia Sherlock Holmes. Ainda assim, a neve que caía pisoteava quaisquer ilusões; ainda estavam no Reino Unido.

Dois veículos levavam quatro oficiais da Scotland Yard, um detetive e um médico ao hotel que se conhecia pelo nome Cattle Village. Lestrade e Gregson, evidentemente, faziam parte dos escalados; quanto aos outros dois, eram mandados de praxe, pelas regras da própria instituição, caso houvesse necessidade de reforços. O detetive estava em missão não-oficial e o médico não era convidado. Ainda assim, dirigiam-se os seis para um mesmo local.

Dentro do veículo que ia à frente, o inspetor G. Lestrade transpirava como um suíno. As suas mãos corriam intermitentemente pela testa molhada e eram passadas sobre a calça, que ia absorvendo aos poucos os vestígios da sua ansiedade. Era um covarde, afinal. Ao seu lado, Tobias Gregson parecia pouco mais contido; os seus olhos claros focavam hora o médico, hora Holmes, hora os seus próprios pés – ainda assim, na sua mente pareciam ser repassadas exclusivamente as últimas informações sobre o caso. Em terceiro, estava John Watson.

Watson, sempre sério, sempre aparentemente impassível, fitava apenas a janela sem vidros e não piscava. As mãos pálidas estavam firmes sobre o bastão fiel que carregava, de forma que quem o observasse naquela posição chegaria até mesmo a ficar inibido pela arma. Holmes concentrou cada músculo da sua face na missão de não abrir um sorriso discreto enquanto encarava o parceiro. Apesar da imagem de Watson passar alguma confiança, precisava ater-se a uma estratégia para quando chegassem ao destino. Quando chegaram, as ideias pareceram clarear na sua cabeça.

A semelhança entre o hotel de Scarle Road e o edifício era assombrosa. Além da fachada bastante similar, o corte da grama, o som das cigarras, tudo ali, assim como no local do assassinato, indicava a prosperidade de um empreendimento quase falido. Mentalmente, Holmes calculou o número provável de sujeitos que se hospedariam a cada mês e contou cerca de dez. Nada muito além de dez. O que tornava Cattle Village um recinto quase tão perfeito para a prática de um homicídio quanto aquele escolhido pelo assassino.

“É estranho”, murmurou Watson de forma que apenas o melhor amigo, mais próximo, pudesse ouvi-lo. “A cidade é mais deserta do que Wembley”.

Sherlock Holmes assentiu com a cabeça ao comentário sagaz. Compreendia perfeitamente o que o médico queria dizer – se Bromley era ainda mais deserta do que Wembley, e se o criminoso visitara ambas, por que escolher Wembley? Mas bem, a resposta era evidente.

O assassino conhecia bem a sua vítima; talvez, chegasse a conhecê-la como a palma da sua mão. Assim, preparara o terreno para ambas as possibilidades: para o caso de matar Lloyd e permanecer impassível, escolhera uma cidade na qual Adolf Weinberg, também possível suspeito, adquirira uma propriedade; para o caso de matá-lo e sofrer de remorso, entregara a Johan Boldweiser o nome dos seus prováveis paradeiros. E assim, planejando incriminar um inimigo de Walter e ao menos tempo considerando entregar a si mesmo, o jovem indicava ter conhecimento da sua própria personalidade hesitante, insegura, paranóica. A evidência daquela personalidade quase tranquilizava o detetive – uma pessoa insegura traduzia insegurança em todos os seus gestos, o que facilitaria a sua identificação; ainda assim, perguntava-se se uma pessoa realmenteinsegura gastaria tanto tempo planejando um assassinato passional, relacionando suspeitos, comparando lugares.

As reflexões fizeram-lhe o sangue ferver e o homem parou o veículo imediatamente. Era melhor que parassem a alguma distância da entrada, evitando chamar a atenção.

Ao que Lestrade pareceu fazer menção de descer, Holmes parou-o com um gesto de mão.

“Espere”, disse. “O que você está fazendo?”

“Você não entra nesse hotel se não for sob meu comando”, sussurrou o inspetor, já bastante aflito.

“Seu comando, Lestrade...”, repetiu, um tanto apático. “Não vou desmerecê-lo. Mas não parece fazer sentido entrarmos os seis gritando por justiça se nem sequer sabemos se o menino está aqui”.

“Tem que estar aqui”.

“Escute... Gregson é um homem racional e vai concordar”, declarou em tom baixo, enquanto Gregson estreitava os olhos na sua direção, desconfiado. Enciumado, Lestrade optou por ouvi-lo; por que Gregson era chamado de racional e ele não? “Entramos primeiro eu e Watson”, sussurrou Holmes. “Você e os outros permanecem fora e aguardam o sinal”.

“Esperar sinal seu?”, perguntou Lestrade, incrédulo. “Você está brincando”.

“Mas eu ainda não o decepcionei...”, lançou Holmes a seguir.

Àquela afirmação, o outro pôde fazer pouco. Abriu a boca e tornou a fechá-la, frustrado. Era verdade. Sherlock Holmes, em tantos anos de serviço, ainda não o havia decepcionado. Antes da sua tentativa seguinte de dizer “não”, Holmes saiu do veículo com Watson ao seu encalço.

“Qual é o plano?”, perguntou o mais alto durante a caminhada rápida até a entrada de Cattle Village.

“Siga-me”, foi a resposta curta do detetive. O médico foi obrigado a deixar o bastão no veículo.

[…]

Entraram. Do lado interno, logicamente, também havia poucas pessoas. Ou, ainda, o mínimo – mais adiante de duas poltronas que ornavam o hall de entrada, um único jovem residia do lado de trás do balcão sobre o qual se lia a placa Recepção. Assim que colocou os pés sobre o piso pouco conservado, Sherlock Holmes deixou que seus olhos analisassem aquela pessoa; os do menino, igualmente curiosos, ligeiramente mais assustados, recaíram também sobre ele.

As pernas de Watson endureceram quando suas íris claras focaram o sujeito. Os joelhos, presos ao chão como tivessem sido plantados, recusavam-se a dobrar e permitir a caminhada; foi capaz de prosseguir somente depois de receber a cotovelada vigorosa que o amigo deu-lhe na costela, sempre discreto. Pigarreou. Conhecia aquele jovem.

“Bom dia”, disse o detetive, com um sorriso espontâneo que não lhe pertencia. Ambas as suas mãos estavam soltas ao lado do corpo, visíveis. Era evidente que não portava arma alguma. “Vocês têm quartos de casal?”

As mãos pálidas, muito trêmulas do jovem, dirigiram-se a uma pilha de fichas que parecia conter as informações individuais de cada quarto. As unhas, roídas em carne, indicavam uma possível onda de estresse por que havia passado recentemente. Os olhos, que transpareciam a cor do céu de Londres em meio a tanta poluição, recusavam-se a encarar as duas pessoas que tinha em frente.

“Nenhum quarto de casal disponível”, respondeu. “Temos dois quartos simples”.

“Não são próximos um do outro, eu imagino”, disse o detetive. Envolveu sutil e lentamente uma das mãos de Watson naquele momento. O doutor soube do que se tratava.

Se bem conhecia o parceiro, Watson sabia bem o que aquele gesto significava; dependendo da resposta do sujeito, era provável que tivessem de analisar o local separadamente. Mais do que um informativo e um preparatório, aquele gesto era a tradução de um sentimento íntimo de Sherlock Holmes – um sentimento que pedia para que Watson tomasse cuidado, para que estivesse atento, para que sinalizasse de alguma forma se precisasse da sua ajuda. Logo, as mãos ásperas soltaram as suas.

O funcionário então, agindo exatamente como Sherlock Holmes acabara de prever, utilizou os dedos machucados para pousar duas chaves sobre o balcão: uma à frente de Watson, na qual se lia o número doze, e uma à frente de Holmes, onde se lia o número treze.

“Quartos pares são à direita, ímpares à esquerda”, terminou, indicando duas escadarias diferentes que, evidentemente, levariam a corredores também distintos.

Estava mais do que claro que havia quartos de casal disponíveis, já que não se via ou ouvia uma alma dentro do estabelecimento. Ainda assim, a pessoa que os atendia parecia fazer questão que tomassem caminhos diferentes. Se aquela pessoa não fosse o já conhecido Johan Boldweiser, que se recusava a fitá-los diretamente, e se ele não fosse justamente uma das poucas pessoas que sabiam que Holmes e Watson estavam juntos no caso de Scarle Road, então Holmes estaria surpreso.

Perguntou-se o motivo daquela pessoa estar ali atrapalhando os seus planos. A princípio, considerou que tivesse mesmo sido convencido pelo assassino, que parecia utilizar-se dos mais diversos métodos para chegar aos seus objetivos; em seguida, resolveu que não se tratava de estar convencido. Olhou bem as mãos sôfregas do menino de vinte anos, o nervosismo nos seus olhos, o comportamento psicótico, e deu-se conta de que estava sob ameaça. Havia um terceiro refém.

Considerou ainda arrancar-lhe algumas informações, mas de que forma? O criminoso podia estar a apenas alguns passos de distância. Podia estar observando-os naquele momento mesmo. Se seguissem para uma mesma direção, provavelmente seriam desmarcados como funcionários da polícia. Enquanto que, se fizessem como Johan sugeria e seguissem para direções opostas, poderiam continuar passando por hóspedes comuns sob os olhos do desconhecido. Encarou as chaves.

Direita e esquerda. Um daqueles lados abrigava o assassino. Seria necessário arrombar todos os quartos e investigá-los um por um em discrição; se fizessem barulho, poderiam ser ouvidos. Se fossem ouvidos, poderiam levantar suspeitas. E bem, se levantassem suspeitas, haveria consequências para o refém. Encarou então o menino.

Johan Boldweiser conhecia aquela dupla. Sabia que Holmes estava em trabalho para a polícia e que queria ajudar. Ele era o profissional. Logo, nada mais lógico do que ceder a ele a direção do corredor que abrigava o criminoso. Watson, como sempre, atrapalhou sua linha de raciocínio.

“A treze é minha”, murmurou, arrancando-lhe a chave do campo de visão.

“Não”, respondeu Holmes, ríspido. “A sua é a outra”.

Poupá-lo; é claro que Watson queria poupá-lo do perigo. Mas que ideia estúpida, querer poupar Sherlock Holmes de realizar o seu ofício.

As chaves de número treze, afinal, terminaram nas mãos certas.

[…]

O coração de Watson palpitava em pavor. Pavor do quê? De morrer, talvez. Ou, o que era mais provável, pavor de que algo pudesse acontecer com Holmes. Boldweiser, pelas suas atitudes, estava em perigo; era possível que houvesse mais pessoas em perigo. Era possível que o criminoso estivesse armado. E quanto a Holmes...

Pensou nas mãos vazias e soltas ao lado do corpo. A memória traduziu-se em uma profunda dor no peito e informou-lhe que o amigo estava desarmado. Assim, precisaria da sua ajuda. Apertou o passo.

Se chegasse logo ao quarto número doze e se certificasse de que realmente não havia nada ali, poderia chegar logo à outra habitação e ajudar o parceiro.

O corredor continha portas que exibiam, unicamente, números pares. Como não houvesse motivos para ser tão cauteloso naquele momento – era evidente que o criminoso estaria no outro corredor, de Holmes, ao invés de no seu –, resolveu que arrombaria as portas da forma mais rápida e silenciosa que pudesse, uma por uma, do número dois ao catorze.

Não foi possível, porém, que chegasse ao número quatro.

Bastou colocar uma mão sobre a maçaneta da porta Dois e posicionar o pé com o intuito de arrombá-la para que percebesse uma movimentação no corredor e se virasse de imediato.

Uma arma mirava o centro do seu peito. Holmes havia se enganado.

“Fique parado”, murmurou o menino. O timbre da sua voz era tão trêmulo, que ficava difícil discernir as palavras que deixavam-lhe a boca. “Fique parado!”, repetiu irritado, mas ainda em sussurro, ao ver que o homem alto à sua frente fazia menção de vir na sua direção.

Watson imobilizou-se.

“Você vai me ajudar a sair daqui, Sherlock Holmes”.

“Eu... o quê?”, perguntou o doutor, o cenho franzido na direção da imagem de um homem que diferia pouco da de um adolescente frustrado. Mas em uma súbita iluminação, os pensamentos encaixaram-se na sua cabeça.

Johan Boldweiser percebera a aproximação de dois estranhos e identificara um como sendo Sherlock Holmes. Justamente a pessoa por quem estivera esperando. Johan , é claro, imaginara que a outra pessoa seria Watson, já que era a única pessoa com quem Holmes trabalhava lado a lado. E com ou sem a intenção, trocara as chaves e os corredores – colocara à frente de Watson a chave que deveria ser de Holmes, e na frente de Holmes a chave que deveria ter restado para o médico.

Identificar-se como John Watson naquele momento seria uma atitude que traria muitas consequências. Entre as piores, estava colocar o verdadeiro Holmes, de alguma forma, em perigo, afinal, era no detetive que o assassino estava interessado. Se pensasse que Watson era o detetive... bem, o amigo estaria a salvo.

“Você não quer sair daqui”, respondeu o médico com a calma que adquirira depois de muitos anos trabalhando contra o crime. “Por que não fugir enquanto você tinha tempo, Elliot? Você está aqui pra entregar a si mesmo. Você se sente culpado”.

“Quieto”, sussurrou ele em retorno. Os olhos esverdeados lacrimejavam e os dedos acertavam-se sobre o gatilho. As sardas de Elliot Marshall Bahman não detinham-se sobre as bochechas claras; infestavam-lhe o nariz comprido, parte do pescoço, pronunciavam-se sobre a testa larga. Os traços da juventude e a altura não permitiam uma mentira sobre a sua idade; e agora, encarando-o de frente, Watson não sabia mais se quem devia ser preso era ele ou o assassinado, pelo ato imoral que cometera em vida. “Você é muito esperto, não é?”, disse ainda, aproximando-se. A boca do cano da arma tocou uma das têmporas de Watson. “Vamos ver se você é esperto o suficiente para...”

“Watson?”

Dois pares de olhos claros dirigiram-se para os escuros de Sherlock Holmes. Estava parado ao pé da escadaria que levava ao corredor dos números pares; na sua mão, via-se claramente um revólver que, de longe, Watson reconheceu como sendo da Scotland Yard.

Se havia um revólver na sua mão, era certo que já havia pedido reforços e que havia mais dos seus homens no interior do hotel.

“Wat...son...”, repetiu o menino, parecendo concentrado naquelas palavras. “Você não é Sherlock Holmes”, concluiu em um sussurro. “Você é John Watson”.

“Abaixe a arma”, disse Holmes. “Só coloque as mãos onde eu possa vê-las”.

Afaste-se você!”, ameaçou o assassino. Watson teve um dos braços apertados, enquanto sentia sobre a cabeça o metal gelado do revólver. Não havia, porém, medo que o desconcentrasse naquele momento. Esperaria a hora certa. Tinha o dobro do seu tamanho. Esperaria a hora certa e, quando Bahman se distraísse por qualquer motivo, então iria arrancar-lhe a arma e imobilizar todo o seu corpo em um golpe.

Estava acostumado demais àquele tipo de situação; e acima de tudo, se todos os seus planos dessem errado, ainda assim estaria seguro – quem estava à sua frente era Sherlock Holmes. Mas Holmes teve atitude diferente daquela que o doutor estivera imaginando.

Enquanto Elliot começava a descer a escadaria que levava novamente ao hall de entrada – e, consequentemente, ao piso em que estavam Holmes e os outros –, o detetive se afastava. As pupilas, dilatadas como se estivessem sob o efeito de uma adrenalina, estavam absolutamente fixas em Watson. Assim, o menino avançou e o homem recuou alguns passos.

“Afaste-se”, declarou-se a ordem mais uma vez.

Estava errado. O comum de Holmes seria atacar com mais um dos seus golpes planejados; ter ideias, visualizá-las e aplicá-las era uma tática sua quase infalível de luta, e estando o alvo nervoso como estava, a eficiência da prática seria indiscutível.

“Holmes”, sussurrou Lestrade. “O que você está fazendo?”

De qualquer forma, eram, só naquele cômodo, três homens armados e treinados contra um que possuía como vantagem apenas um refém; do lado externo, mais dois policiais que poderiam desarmá-lo sem dificuldades. Mas ainda assim... era o refém. Um refém que importava tanto.

[…]

Afastem-se”, repetiu Holmes, bruto, a ordem do menino.

Quando Watson e aquela pessoa chegaram ao nível térreo, a sua dor pareceu crescer. Quantas vezes vira Watson ser ameaçado? Quantas vezes o tinha colocado em perigo a troco de nada e por ele mesmo havia sido salvo? Inúmeras. Mas daquela vez, algo estava errado. O desespero de vê-lo sob aquela ferramenta de metal estava aniquilando seus neurônios. A vista chegava a quase embaçar-se pela queda de pressão nas suas veias. Reagir como? Planejar o quê? De que forma poderia raciocinar se a única coisa que lhe importava estava correndo risco? A agonia enrijecia seus músculos, e se Lestrade não se afastasse e abrisse passagem para a dupla, iria quebrar-lhe a cara ali mesmo.

Curiosamente obedecendo às suas palavras, ele e Gregson recuaram também.

[...]

Elliot Bahman passou ainda à frente de Boldweiser com a mão fincada no braço de Watson e chegou perto de uma das grandes janelas que se localizavam próximas à saída. Por algum tempo, permaneceram parados, enquanto o criminoso analisava o ambiente externo da forma como podia. Devia haver mais gente ali. Como saber? Observava com cautela o gramado, mas não identificava ninguém. O médico, é claro, aproveitou-se da situação em mais uma tentativa de desconcentrá-lo:

“Você não quer fugir, Elliot”, sussurrou, mal-intencionado. “Você quer se entregar. Você se sente culpado”.

“Calado.”

“Você se sente culpado porque matou Walter”.

“Culpado? Eu estive por um ano com Walter e escutei as suas histórias”, revelou. Os grandes olhos verdes oscilavam, paranóicos, entre os seus. O diálogo era baixo o suficiente para ser ouvido apenas pelos participantes, mas o pesar na voz do menino pareceu aumentar quando completou: “Eu perdi tudo”.

“Você foi expulso da sua casa e ele se casou”, disse Watson. As informações haviam sido cedidas por ninguém menos do que Holmes. “Você não perdeu tudo, Elliot. Ele perdeu tudo”.

“Eu estou avisando”.

Uma movimentação do lado de fora da janela fez com que Bahman virasse seus olhos e examinasse o ambiente com ainda maior cautela. Depois, voltou a fitar o maior. O revólver permanecia firme sobre a sua cabeça.

“Escute. Você é casado?”

Watson, a princípio, não respondeu. Não tratava de assuntos pessoais com nenhum sujeito que estivesse envolvido nos casos de Sherlock Holmes; fora isso, a conversa não deveria desviar do percurso correto.

“Você sabe por que Sherlock Holmes trouxe você aqui?”

Mais uma vez, o mais alto recusou-se a responder. Estava ali pelo simples motivo de estar no caso. Trabalhara com Holmes por quase vinte anos e agora estava reassumindo sua posição. Aquela era a resposta.

“Sherlock Holmes não gosta de ninguém. Todos sabem disso. Ele trabalha sozinho e vive sozinho. Não precisa da ajuda de alguém como você”, e fez uma pausa. “Quando ele perceber isso e dispensá-lo, você já ter perdido sua casa, sua esposa e a sua vida. Enquanto que ele não vai ter perdido nada”.

Um momento de silêncio afastou John Watson do momento em que eles se encontravam. As palavras de Elliot eram fracas e tinham pouco fundamento; ainda assim, não eram constituídas apenas por mentiras.

Watson jamais vira Holmes apegar-se afetivamente a alguém por mais de um mês; na verdade, aquilo até mesmo chegava a indicar que Holmes não se apegava afetivamente a pessoa nenhuma. Até quando prosseguiriam daquela forma? Chegara a ouvir os lábios do amigo pronunciando o fato de que Watson era necessário não apenas no caso; mas à exceção daquelas palavras, não havia evidência alguma. E que evidências poderiam constituir as palavras de Sherlock Holmes?

Antes, tudo diferenciava Watson das outras pessoas com quem Holmes se relacionava – eram amigos, parceiros; nada poderia afastá-los até então porque Watson não estava atrapalhando o andamento da vida profissional do outro. Mas a partir do momento que estivessem próximos demais, era quase certo que Holmes iria afastá-lo, da mesma forma que havia feito com todos os seus outros relacionamentos. Talvez, àquela altura, Watson tivesse mesmo já perdido a sua esposa e o seu trabalho. Enquanto que Holmes, por não possuir coisa alguma, não perderia... nada.

“De repente, tudo começa a fazer sentido”, disse o menino. Na sequência, disse em tom alto, referindo-se ao próprio Holmes: “Você. Abra a porta”.

[...]

Bastou a ordem para que o homem de estatura mediana caminhasse até a porta de entrada do estabelecimento e a abrisse. Estando Watson submisso ao assassino, ele, Holmes, também estava. A sua linha de raciocínio havia se perdido há muito tempo.

Ambos prosseguiram, ainda unidos, para a saída. Quando estavam na iminência do lado externo, o detetive sussurrou:

“Mais dois homens estão aqui”, e ao que Elliot assentiu com a cabeça, acrescentou: “Se você precisa de um refém pra fugir, leve a mim”.

“Holmes...”

De súbito, uma distração dominou Elliot. Surpreso pela reação do famoso Sherlock Holmes, ele afrouxou um pouco a mão que levantava a arma contra Watson. E o descuido foi suficiente para que John Watson desviasse o seu braço da mira inicial e usasse os seus para imobilizá-lo em um golpe que prendia-lhe a garganta e segurava com força a mão ainda armada.

“Holmes!”, gritou por auxílio.

Imediatamente, Holmes pareceu voltar a si. Enquanto o menor ainda se debatia e Watson apertava seu pescoço, bloqueando a passagem de ar, o detetive arrancou-lhe a arma. Não sem antes, porém, de ter sido atingido por acidente na lateral do pé e urrar de dor.

Watson utilizou-se de todas as suas forças para não soltar o assassino e ir socorrê-lo.

Por uma sorte grande, os inúteis oficiais da Scotland Yard não demoraram a chegar.

[…]

[…]

Era 27 de dezembro de 1891 quando Elliot Marshall Bahman, dezoito anos, foi pego pela polícia e convencido, com muito pouco esforço, a confessar os seus crimes. O estrangulamento foi justificado, segundo ele, pela sedução por um homem de meia idade, abandono pela família em detrimento do seu caso amoroso e posterior casamento de Walter Lloyd.

Em 20 de dezembro de 1891, convencera o homem a um último encontro em um hotel abandonado onde não poderiam ser vistos – o exato tipo de hotel que costumavam frequentar quando ainda estavam juntos. Convicto de que seria uma noite normal, Walter Lloyd caminhou até o quarto, despiu-se, deitou na cama, deixou-se atar a ela com correntes de ferro e viveu o inesperado: foi cortado, espancado e estrangulado pelo menino de 18 anos. As circunstâncias do encontro explicavam a ausência de sangue nos corredores do hotel de Scarle Road e de móveis quebrados.

O hotel, que havia sido fechado e trancado pelo proprietário Oscar Boldweiser na manhã do mesmo dia 20 de dezembro, foi aberto posteriormente pelo próprio garoto, que conseguira furtar uma chave por descuido de Oscar. Valia considerar que Elliot Marshall Bahman tinha consciência da existência de duas chaves e já conhecia há algum tempo Johan Boldweiser, tendo visitado o recinto algumas vezes antes do dia 20 sob a alegação de ter interesse na compra do terreno.

O fato de Walter Lloyd ter adentrado o movimento anarquista um ano antes, justamente para manter-se próximo de Elliot sem levantar suspeitas, justificava a suspeita de Christopher Roger Hunt, elemento do partido opositor que vinha nos últimos tempos fazendo ameaças; a ausência de Walter Lloyd em sua própria casa e as longas noites gastas com apostas em luta de boxe levantou as suspeitas da noiva – agora Agatha Sharpen Lloyd – que, desde a época dos encontros escondidos, contratara Robert Boucher, detetive barato, para seguir de perto o seu cônjuge. Restara ainda a suspeita de Adolf Weinberg, que nenhuma relação tinha com Walter além das apostas – e da certeza que Walter lhe devia boa quantidade de dinheiro – e servira de suspeito apenas por conta da aquisição de uma propriedade em Scarle Road em data próxima à do homicídio.

Tudo indicou, até o momento da apreensão de Elliot Bahman, que a sua própria culpa pelo assassinato do amante o levara a, desde o princípio, a considerar a hipótese de entregar seu próprio paradeiro após a concretização do crime. Como planejado por ele mesmo, Elliot fora encontrado em um hotel semelhante ao de Scarle Road, denominado Cattle Village e localizado na cidade de Bromley. Até o último momento, apesar de aparentemente almejar pela condenação em seu âmago, Elliot procurou fugir.

Para tanto, utilizou-se da ajuda de Johan Boldweiser, jovem que conhecia as autoridades envolvidas no caso – Sherlock Holmes – e cedeu-lhe a informação. Johan não pôde optar entre ajudá-lo ou não, já que o tio Oscar Boldweiser era mantido preso como refém no quarto número 13 do hotel Cattle Village. Johan Boldweiser, por um descuido, trocou as chaves cedidas por Elliot e acabou colocando em risco a vida de John Hamish Watson.

De forma muito irônica, o assassino foi imobilizado justamente por John Watson e, em seguida, apreendido por Sherlock Holmes e a Scotland Yard. O caso não chegou a ser publicado.

[…]

[…]

“Wat...son...”, murmurou Holmes, em dor, enquanto o médico borrifava mais água oxigenada sobre o seu ferimento. Felizmente, não parecia ser grave: tratava-se apenas de uma pequena queimadura causada pela proximidade com a bala na lateral de seu pé direito. “Você pode apenas deixar isso aí e não mexer mais...”

“Você precisa repousar”, interrompeu Watson, sério. As mãos moveram-se para pegar um pouco de gaze e fazer um novo curativo.

O mais baixo não pareceu muito feliz ao ouvir a palavra repousar.

“Eu não tenho que fazer isso. Não é grave”.

“Você quase se matou hoje cedo”.

“Eu quase me matei”, repetiu Holmes, irônico. “Você foi refém de um criminoso sem estabilidade emocional”.

O doutor, ao som da alegação que ouvia, não pôde deixar de segurar uma risada:

“Desde quando isso é um problema?”

Ora, desde quando era um problema. Desde que ele se tornara a única coisa que realmente importava na vida de Sherlock Holmes. Mas Holmes não respondeu. Nem sequer haviam comentado sobre o caso depois do retorno a Baker Street. Assim, deteve-se em morder os próprios lábios e aguentar em silêncio a dor de sentir Watson cobrindo-lhe o pé de gaze.

Desde que haviam voltado, Watson o encarava de uma forma diferente. Ainda assim, recusara-se a deixá-lo ferido daquela forma. Por mais que... bem, por mais que Holmes realmente preferisse permanecer ferido do que sentir a dor na hora. Procurava concentrar-se no toque delicado e, ao mesmo tempo, certeiro das mãos frias.

“No geral, a sua tática foi boa”, resolveu o médico.

“Sim, obrigado”, respondeu Holmes. De repente, percebeu. “A tática... de qual tática você fala?”

“Dizer a Bahman pra te levar em meu lugar para distrai-lo”.

Os olhos negros imediatamente arregalaram-se; em seguida, desviaram-se, constrangidos. O homem sentiu algo na garganta e não soube se era pigarro, refluxo da digestão prejudicada pela sua idade ou mais um sentimento que crescia e tinha dificuldades para ser externado. Esforçou-se para responder em volume sempre baixo:

“Não era tática”.

Watson soltou um longo suspiro e, terminando o serviço no pé do parceiro, ergueu-se da cama na qual antes estava sentado.

“Já terminei aqui”, declarou. “Se precisar de mim, você sabe onde me encontrar”.

Sabia onde encontrá-lo, claro. Watson estaria exatamente no único outro quarto daquele apartamento. Ao menos isso. Mas ao vê-lo encaminhar-se para a porta, foi involuntário no mais baixo tentar novamente:

“Eu não queria colocar você...”, mas a porta fechou-se. “Em risco”.

Holmes imaginara que a primeira noite oficial de Watson em Baker Street seria diferente; imaginara que, talvez, eles não tivessem que dormir em quartos separados como nos tempos antigos. Algo, porém, informou-lhe naquele momento que o doutor passaria a noite bem distante da sua pessoa.

E apesar de ter finalmente resolvido o caso de Scarle Road, e de tê-lo feito antes da virada do ano, e de se sentir levemente orgulhoso – como de costume – por conta daquilo, ao pensar em Watson distante mais uma vez, a dor em seu pé pareceu dobrar. Teve quase tanta vontade de arrancá-lo quanto tinha vontade de arrancar a própria a cabeça nas noites que, como aquela, passava em claro. Pensando no assistente.

Notas finais
OK, GENTE. Esse capítulo me deixou ~meio~ insegura. Mas não teve jeito, tive que postar, já que eu já tinha conferido todas as informações do caso mais de cem vezes. Acho que já tô sabendo mais do que o próprio Holmes, hehe (não). Não sei se tudo foi devidamente explicado ou se atendi a todas as expectativas do caso. Acho que as informações mais importantes foram dadas, mas... vocês é que têm que me dizer. ;;
Enfim. Li e reli a fanfic toda e todos os santos capítulos pra terminar a edição desse. As informações dele e de outros, claro, se complementam. Se nem tudo tiver sido esclarecido, não vejo problema nenhum em voltar a comentar o caso nos próximos capítulos. Porque citar uma ou outra vez ainda, já é certo que vou.
Se nem tudo estiver claro na mente de vocês, por favor não hesitem em me dizer ou em retornar a capítulos antigos pra satisfazes essas dúvidas (se é que são dúvidas tão profundas assim, heh). Lembrando que: o interrogatório do Oscar e alguns detalhes sobre o dia 20 estão no capítulo quatro; funeral e interrogatório do Johan são no quinto; explicações sobre a Agatha, Adolf Weinberg e Robert Boucher estão no sexto; cena com o Christopher Hunt é no oitavo; e interrogatório do Charles Hoover é no décimo e décimo segundo; e lembrando também que eu estou disponível para mais informações, hihi, deixe seu recado após o bipe.
É com muita tristeza que informo que hoje também fiz as contas e duvido muito que cheguemos ao capítulo vinte. Mas deixemos esse mimimi pra depois, ok.
DEIXEM MINHAS REVIEWS, POR FAVOR ♥! E elas podem ser (de preferência) sinceras :~