O Caso De Scarle Road

17 Décimo sétimo.


Notas iniciais
OLÁ, MINHAS AMADAS LEITORAS. E bem-vindas ao penúltimo capítulo da nossa história ♥
Antes de ser pisoteada, DEIXEM QUE EU ME EXPLIQUE. Fui viajar no final das férias e me atrapalhei toda com essas postagens, e... só isso mesmo, hehe. Mas não fiquem chateadas comigo não, porque eu aproveitei esse longo tempo para escrever um pouco por vez e fazer a melhor edição que pude. Espero que esteja do agrado das senhoritas, hihi. ♥ ♥
Não vou mais enrolar porque sei que já demorei muito. Também não vou falar sobre o fato de estarmos no final, senão vou ficar toda mimimi e emotiva... e aí vocês já sabem. Quero apenas agradecer desde já e lembrá-las que vocês foram muito, muito mais do que uma motivação até aqui.
Divirtam-se com o capítulo e deixem reviews ao final, hihi.

Em um primeiro momento, Sherlock Holmes pensara que não conseguiria voltar a viver sem o parceiro ao seu lado. Em segundo momento, teve certeza. As suas opções eram poucas — como John Watson recusava-se a vê-lo de bom grado, era necessário recorrer a métodos ilícitos para atingi-lo. E com a mente que tinha, não era difícil para Holmes visualizar tais métodos; a parte ruim, porém, era que Watson também considerava-se um homem perspicaz.

Mudara os seus locais de frequência. Prevendo que Holmes planejaria acidentalmente encontrá-lo em alguns dos lugares a que costumavam ir, o médico simplesmente havia alterado suas rotas. Pensava em caminhos alternativos, não se expunha — e nem à mulher — em multidões ou locais abertos; direcionava-se a becos mais escuros, restaurantes pouco renomados, barbeiros desconhecidos. Era a sua forma particular de escapar do detetive. Assim, por mais que Holmes pudesse observá-lo entrando e saindo de casa (e por vezes até se rebaixasse a segui-lo), não havia desculpas que lhe servissem para simular um encontro ocasional com Watson. Encontrá-lo por acaso onde? Em um barbeiro de que nunca se tinha ouvido falar? Em uma feira que ficava a quilômetros de distância de ambos os lares? Não faria sentido.

Assim, a ideia de John Watson não era boa a ponto de impedir que Holmes o visse, não; mas era boa o suficiente para inibi-lo de apresentar-se, impedir que se encontrassem realmente. Sherlock Holmes via Watson, mas Watson estava a salvo de ser obrigado a vê-lo. E não o via há três semanas.


O ano era 1892. O consultório, re-aberto, lucrava. Durante o dia, os pensamentos do doutor eram tomados na íntegra pelo seu ofício; à noite, giravam em torno de Holmes, já que simplesmente não conseguia deitar-se com Mary Morstan.

O costume de dormir na poltrona da sala em Clay Street rendera-lhe uma dor crônica nas costas e um mancar característico da sua enfermidade. Quem o visse na rua não saberia que seu casamento andava de mal a pior; mas quem o visse e o conhecesse bem compreenderia com facilidade que nem todas as áreas da sua vida andavam bem como o departamento financeiro. Agora, era a sua mulher que parecia exausta das tentativas fracassadas de convivência entre eles.

“Mais um pouco”, repetia Watson quando sentia que ela estava na iminência de deixá-lo novamente e dirigir-se à casa de campo, local de onde jamaisdevia ter saído. “Mais um pouco e tudo volta à normalidade”. Mas nada voltaria à normalidade, apesar dos seus argumentos serem válidos.

Segundo Watson, o que precisavam era de uma casa que os abrigasse devidamente. O apartamento no qual se encontravam, além de apertado, não lhes permitia privacidade alguma, dado que tinha sido construído e decorado para hospedar uma só pessoa. Logo, uma casa – um lugar próprio que favorecesse o retorno à vida a dois – seria mais do que conveniente. Necessário.

Quando os olhos de Watson encontraram, no jornal diário, o anúncio que estiveram procurando há tanto tempo, foi difícil crer na própria sorte.

[…]

Seringas espalhavam-se pelo chão. Ao lado delas, examplares de tabaco sem filtro consumidos até a última grama de droga. No geral, Holmes sentia-se relativamente bem. Acumulava também, ao canto da sala de estudos, uma pilha de jornais das últimas três semanas, com recortes e destaques em caneta; costumava recolhê-los da sua babá no único momento do dia em que destrancava a porta do cômodo e aceitava dela, no máximo, um prato de comida. Mas que utilidade tinha a comida, afinal? Sua energia provinha de ideias. E Holmes, no momento, carecia de ideias.

Três semanas. Vinte e um dias. Quinhentas e quarenta horas. Trinta mil, duzentos e quarenta segundos. Quantos milésimos de segundo? Sua mente matemática era invencível quando comparada à de engenheiros, matemáticos, químicos. Invencível a tudo, menos à nicotina e os estimulantes que corriam pelo seu sangue. Em que dia estava? Não sabia ao certo. Mas tinha virado o ano, disso tinha certeza. Sabia que os jornais que preservava no quarto eram recentes, mas não sabia que data continham.

Talvez fosse manhã quando a senhora Hudson bateu à porta naquele dia.

“Entre”, murmurou, risonho. Ela não conseguiria entrar, porque a porta estava trancada.

Mas entrou.

“Senhor Sherlock Holmes, é a última vez que lhe trago jornal. Você trate de limpar essa pilha ainda hoje, ou amanhã não bato e não lhe trago nada. A aranha morta também deve sair”.

Tinha feito uma cópia da chave, naturalmente. Maldita fosse.

“Não pode sair”, disse o detetive, de olhos fechados. “É parte de um experimento”, completou. “Dê o jornal aqui”.

Foi atingido no rosto, brutalmente, pelo jornal. A babá velha estava mais ousada a cada dia.

Abriu os olhos e checou a data – realmente, três semanas – e os anúncios que analisava diariamente. De súbito, suas pupilas dilataram-se.

De deitado no chão, sentou-se em um pulo. Estreitou os grandes olhos escuros em direção àquelas letras miúdas. Leu e releu o quadro algumas vezes. Reconhecia o nome de um proprietário que colocava à venda uma casa que... uma casa que...

“Adolf... Weinberg”.

Adolf Weinberg, ex-suspeito pela morte de Walter Lloyd, um homem com sorte no jogo e sorte no amor, rico como o diabo e esperto como uma raposa, anunciava venda da casa que ficava a uma só quadra de distância do número 221B, em Baker Street. Uma casa requintada, de sala espalhada e móveis de arquitetura clássica. Aparecia por um preço justo naquela página de anúncios. Por quê? Bem, a resposta era evidente.

Lembrou-se do dia que invadiu o domicílio de Weinberg. Sob a sua cama, no andar superior, encontrara nada além de uma coleção de charutos, um pequeno quadro, uma roupa íntima feminina, um desenho apagado de Agatha Sharpen Lloyd – a viúva – e a escritura de uma propriedade comercial em Wembley. Sim.

Weinberg comprara uma propriedade próxima a Scarle Road alguns dias antes do assassinato de Walter, e apesar de ter sido absolutamente inocentado do caso de Lloyd, era mais do que comprovado que Adolf mantinha um caso em segredo com a mulher do falecido. Logo, era compreensível que, depois de tudo o que se tinha passado, planejasse viver em paz com Agatha em uma cidade na qual seu futuro já estava garantido. A indústria de tecidos era um ramo invejado na Inglaterra, afinal – e era a uma indústria de tecidos que a escritura encontrada sob sua cama dizia respeito.

Com o dinheiro que tinha, era quase certo que já tivesse comprado uma nova casa pelas redondezas e estivesse planejando mudança com a amante. Para completar a mudança, restava apenas livrar-se daquilo que ainda o prendia a Londres: a casa espelhada. Uma casa que certamente interessaria a John Watson.

Mas aquilo ainda não era tudo.

Não havia mais provas que pudessem falar contra Adolf Weinberg; a sua pessoa realmente não tivera culpa alguma na morte de Walter. Ainda assim, por ter conseguido livrar-se das suspeitas com tanta rapidez – e mais inúmeras investigações que atrasariam sua vida – devia algo a Sherlock Holmes e John Watson. Se por algum acaso Adolf soubesse que Watson tinha interesse na casa, com certeza faria com que o preço caísse pela metade. Era claro que o médico também tinha conhecimento daqueles fatos. E como o consultório também não andava lucrando pouco...

Levantou-se rapidamente. O seu plano estava armado. Era a oportunidade perfeita. Sabia que Watson vinha procurando uma casa para mudar-se com a esposa, sabia que o parceiro tentaria de tudo para salvar o casamento antes de vê-lo descendo por água abaixo. Era certo que o doutor recorreria à pendência que Weinberg tinha com a sua pessoa. A melhor parte, ainda, era que, estando a casa anunciada em jornal, não seria estranho se Holmes ocasionalmente aparecesse na mesma data e na mesma hora que John Watson.

Vestiu-se e saiu.

[...]

Conforme o casal caminhava em direção à propriedade do anúncio, o coração — frágil — de John Watson começou a latejar. As três residências eram extremamente próximas umas às outras, mas o apartamento em Baker Street ficava localizado exatamente entre o seu lar atual e aquele que pretendia adquirir.

Quando passou em frente ao edifício onde vivera por quase vinte anos, uma fraqueza tomou-lhe o corpo. Lançou um olhar triste à janela que não era sua. Não era daquele apartamento que sentia tanta falta; alguma saudade apertava-lhe o peito quando se lembrava da antiga disposição dos móveis, sim, mas a maior dor não era pela falta do lugar. Era pela falta dele. Sherlock Holmes, por todo aquele tempo e ainda agora, era considerado mais do que um amigo ou um colega de trabalho: era, acima de tudo, a sua motivação. Quando, há tantos anos, o doutor chegara do serviço militar, desolado, exausto, ligeiramente traumatizado, era Holmes que o havia resgatado e enchido de sentido a sua vida.

Agora, a sua imagem ainda o inspirava. E se todos os dias torcia para não topá-lo na rua, todas as noites rezava inconscientemente para que Holmes não desistisse da sua pessoa. Se é que já não havia desistido.

“Watson...", chamou a mulher a seu lado. De súbito, Watson deu-se conta de que estava parado há alguns minutos, os olhos deprimidos direcionados àquele mesmo edifício.

“Ah, sim. Claro".

Tratou de apressar o passo.

[…]

A fachada era simplesmente magnífica. Além de um jardim que se estendia por além do seu campo de visão, as grandes janelas e o telhado achatado faziam o estilo de uma construção francesa em meio às ruas caóticas de Londres. Watson deu uma boa olhada na pintura perfeita que recobria cada centímetro do edifício; a pessoa que pintara aquelas paredes certamente era tão obsessiva e paranóica quanto ele mesmo. Assim, à primeira vista, ficou bem satisfeito.

O lado interno não perdia em nada. Quando Weinberg, um homem alto e de olhos claros, atendeu-o ao lado de ninguém menos do que Agatha Sharpen Lloyd, Watson lembrou-se do motivo do preço tão baixo. A mulher, visivelmente constrangida, direcionou seus olhos ao chão – havia tentado flertar com Watson há algum tempo, no funeral, e agora passava a ter certeza de que sim, ele era casado.

“John Watson”, chamou o proprietário, os olhos sombrios sorrindo na sua direção. Não desejava vender a sua casa para ninguém mais além do médico. Após algumas apresentações entre as mulheres, Weinberg prosseguiu: “Fiquem à vontade para olhar a casa. Outro interessado está no andar de cima, mas espero que isso não os perturbe”.

Outro interessado no andar de cima. Bem, era justo que Weinberg analisasse com sabedoria todas as propostas de compra, mas estando John Watson ali, e existindo a pendência que havia entre eles, era estranho que o homem não desse total atenção à sua pessoa. A não ser que...

Outro comprador. No andar de cima. Anúncio em jornal.

Suas pernas compridas levaram-no, em desespero, até a escadaria. Os degraus confundiram-se e o doutor tropeçou algumas vezes. A pressa com que andava era tanta, que a sua vista começava a se confundir pela troca rápida de paisagens: sala, degraus, corrimão, corredor, porta, quarto. Sherlock Holmes estava no quarto. Por que corria tanto para vê-lo? Ultimamente, vinha tentando fugir daquela pessoa. Mas agora que sabia que estavam em um mesmo local, nada passava pela sua cabeça; o seu corpo movimentava-se por vontade própria e o levava ao encontro do amigo.

Chegou, ofegante, à porta do cômodo. Estava aberta.

“Holmes.”

O detetive, que antes estava de costas para a porta e virado para a janela, lançou-lhe um olhar. Era difícil interpretar o significado dos seus olhos, mas o resultado foi um pesado latejar na cabeça do médico e, mais uma vez, uma fraqueza nas suas pernas. A visão embaçou-se. Que estava fazendo ali?

Deu um passo em recuo. As grandes íris escuras de Holmes focalizavam-no e julgavam-no, vivas como duas lascas de carvão em brasa. Sherlock parecia ler a sua mente; parecia saber que era por sua culpa que Watson não dormia bem à noite, por sua culpa que o casamento do doutor estava falido. E apesar de ter conhecimento de todos aqueles fatos, Holmes fazia o quê? Permanecia parado, encarando o outro. Talvez tivesse orgulho de ser o culpado por tudo aquilo. Talvez, o grande objetivo da sua vida fosse, enfim, estragar todos os planos de John Watson.

O cheiro do âmbar enchia os seus pulmões. Ao contrário da baunilha, aumentava a sua frequência cardíaca. Olhos tão aparentemente frios e apáticos. Mas se Holmes era ou não realmente apático frente a tudo o que lhe causava, não sabia. Não saberia. O que sabia era que os olhos sérios o atraíam, fisgavam e o deixavam sem nada. Mais um passo para trás.

“Watson...”

A voz grave era como uma melodia para os seus ouvidos, mas tão logo ela o chamava, Watson queria fugir. Esconder-se e ser infeliz pelo resto da vida talvez fosse melhor do que entregar-se mais uma vez de corpo a alma a Holmes sem nem sequer saber se havia qualquer sentimento envolvido por parte do detetive. Duvidava que coubesse qualquer coisa, qualquer pessoa, qualquer criatura viva ou inanimada no espaço pequeno do coração apenas funcional de Holmes. Fez um sinal negativo com a cabeça.

Saiu pela porta, mas não voltou a descer a escadaria. Um minuto de silêncio. Apenas precisava de um único e maldito minuto de silêncio. Estava do lado de fora do cômodo, mas a imagem de Holmes ainda o assombrava. Se descesse as escadas e voltasse para Mary, estaria indo contra os seus sentimentos; se entrasse novamente no quarto e encarasse o amigo – amigo? –, estaria indo contra os seus princípios. A alguma distância, começou a ouvir a voz de Mary Morstan.

Uma voz delicada e frágil que ouvira por quatro anos consecutivos. Então, mais nenhum pensamento passou-lhe pela cabeça.

Tomado unicamente por impulsos de uma natureza animal que não lhe pertencia, entrou novamente no quarto de Weinberg. Os passos certeiros levaram-no ao detetive e, com força, prensaram-no contra a parede em um movimento de alto ruído. Os seus cotovelos foram posicionados sobre a superfície, de forma que o rosto de Holmes ficasse entre eles. Mas apesar daquele rosto estar tão dramaticamente próximo, Watson não teve forças suficientes para encará-lo. Manteve a cabeça baixa.

Sentir a respiração do mais baixo era o suficiente. Fechou os olhos e sentiu o ar batendo sobre as suas pálpebras abaixadas; Holmes parecia agitado. A sua frequência respiratória estava um tanto alterada. Alterada pela atitude de Watson em atacá-lo ou somente pelo susto? Também não sabia. Mas logo lembrou-se de que Sherlock Holmes não se assustava.

"Watson.", chamou ele de novo. O chamado não fez com que Watson ganhasse forças, não; mas fez com que ganhasse um desejo irreversível de ouvir mais aquela voz. Uma voz que não ouvia há vinte e um dias.

Começava a se lembrar do quão insuportáveis tinham sido aquelas últimas três semanas.

“Holmes...”, murmurou em retorno. Precisava encará-lo e não era uma opção. Ergueu os olhos. Holmes ainda o fuzilava com as suas esferas escuras. "Às vezes... não se pode viver com a dúvida", prosseguiu.

"Como é?", perguntou Holmes com o cenho franzido. A proximidade com John Watson também o atordoava consideravelmente.

"Qualquer coisa é melhor do que viver com a dúvida", concluiu o mais alto.

Que estava fazendo? Talvez estivesse prestes a se declarar para Sherlock Holmes, o que indicava, cientificamente falando, que estava fora de si. Mas as palavras de Mary ecoavam na sua cabeça e indicavam que aquele era o caminho.

"Ainda que você não corresponda, não posso continuar assim”.

"Ainda que eu não corresponda", repetiu Holmes, cético, mas também bastante perturbado pela clareza daquelas íris. "Mas o que você está dizendo?"

John Watson eliminou com um gesto os poucos centímetros que separavam seus lábios. O toque da boca do mais baixo era único.

Áspera pela barba mal-feita e suave pela própria natureza, a sua pele exalava não apenas o cheiro terroso e levemente adocicado a que o doutor estava acostumado; havia também uma essência que lembrava o orvalho e o amanhecer frio daquela época do ano, misturada ao odor da nicotina e de um... inseticida. Não era possível que tudo em Holmes o atraísse como um ímã.

[...]

Ao gesto do outro, Sherlock, é claro, cedeu imediatamente — como já estivesse quase acostumado àquela situação, fechou os olhos e glorificou-se mentalmente: o plano que bolara para topar com Watson estava dando mais do que certo. Mas ao contrário do que estava se acostumando, o beijo que se seguiu foi diferente.

Watson parecia calmo, sereno, certo do que fazia — sóbrio. E por mais que as suas pernas realmente tremessem como varetas ao ar livre, a sua consciência ali parecia absoluta. Lentamente, foi empurrando o detetive em direção ao pequeno sofá que se posicionava entre a cama de Weinberg e a janela da rua; e Holmes não soube dizer se escolhera o sofá ao invés da cama por educação ou por conveniência, já que era, de fato, o móvel estofado mais próximo. John Watson realmente era o único ser vivo que escapava ao seu entendimento.

Watson os afastava quando estavam próximos e aproximava quando estavam afastados. Abandonara tudo que fazia referência a Holmes: o cargo de assistente, o apartamento em Baker Street, até mesmo roupas e objetos antigos que faziam com que se recordasse demais do parceiro. E a troco do quê? Naquele momento mesmo, estava deitando-o sobre um sofá que não lhes pertencia, com a esposa a apenas um andar de distância.

Suas atitudes não tinham coerência.

"Watson", murmurou já deitado sobre almofadas, no instante em que o doutor posicionou as mãos sobre os botões da sua camisa. "Eles podem nos ouvir".

"Deixe que nos ouçam", sussurrou Watson em retorno.

Holmes indagou mentalmente a si mesmo se aquela pessoa estava de fato em plena consciência. Franziu novamente o cenho na sua direção. Mas ao que já estava deitado sob o maior, e assim que ele colou os lábios macios ao seu pescoço, deu-se apenas ao trabalho de fechar os olhos e levar mais um pouco a cabeça para trás, facilitando o contato.

"Eu nunca sei quando volto a te ver", continuou o médico. Falava por entre lambidas e mordiscadas naquela pele de textura ímpar.

"Depende... só... de você”.

"Depende só de mim".

John interrompeu o trabalho que fazia naquela área para encará-lo mais uma vez.

"Depende só de mim porque pra você é fácil demais, Holmes."

Concentrar-se na articulação pra responder. Concentrar-se na articulação pra responder.

"Fácil?” foi a única coisa que pôde balbuciar.

"A situação é sempre boa pra você. Nos vemos de vez em quando, nos deitamos de vez em quando, trabalhamos juntos de vez em quando e pra você tudo está bem".

Uma acusação? Uma sugestão? Uma pergunta? Sherlock Holmes não sabia definir, porque nunca na vida realmente tivera uma discussão de relacionamento – e também não era agora, bem embaixo de John Watson, que pretendia iniciar um diálogo decente. Apenas não sabia o que responder, então pretendeu encará-lo até que algum traço da fisionomia do médico denunciasse o que ele esperava ouvir.

Por sorte, Watson deu-lhe mais uma chance:

"Antes, era o trabalho que nos prendia. O que nos prende agora, Holmes?"

Sherlock fez menção de abrir a boca, mas tornou a fechá-la.

"Sexo?", sugeriu o maior.

Foi o suficiente para que Holmes começasse a rir em tom baixo. A ideia de ser prendido a John Watson por sexo era a mais ridícula a que já fora exposto em toda a sua vida. Desde quando o sexo fazia com que Sherlock Holmes se prendesse a alguém? Antes o afastava dos demais.

Mas a sua reação fez subir o sangue para o rosto de Watson.

"Você está rindo". Imediatamente, o detetive parou. Tentou também tirar o sorriso do rosto, mas naquilo não obteve êxito.

"Não, desculpe. A forma como você falou..."

John Watson mostou gestualmente a sua intenção de levantar-se: ergueu a coluna, esticou os braços, moveu um pouco as pernas, e... e foi impedido por um puxão no braço. Holmes o segurou com a força de quem agarra um último fio de esperança na vida.

"Espere", pediu. "Watson...".

Era difícil concentrar-se quando íris tão azuis e tão etéreas focalizavam seus olhos escuros tão de perto. Procurou manter o tom sério, mas não pode ir contra o sorriso discreto que insistia em tomar-lhe a expressão. Um sorriso típico de quem estava insuportavelmente envergonhado de si mesmo.

"Amor", resolveu. "Amor é o que nos prende agora".

Os olhos azuis, então, arregalaram-se.

[...]

John Watson não soube definir ao certo o que sentiu. Uma onda de silêncio invadiu o quarto e o seu interior. Seus músculos relaxaram. A traqueia desobstruiu-se. Respirou fundo e conseguiu sentir o próprio pulmão enchendo-se e esvaziando-se de ar. O ar que saiu pelas suas narinas bateu sobre a testa de Holmes e fez mover alguns fios do seu cabelo. Um soluço escapou-lhe da garganta.

“Desculpe”, sussurrou. “Não sei há quanto tempo espero ouvir isso.”

A sua explicação e o seu constrangimento fizeram apenas aumentar o sorriso no rosto do outro, que julgou:

“Tão cego.”

Então, sentiu-se livre o suficiente para posicionar as mãos sobre a nuca do médico e trazê-lo para perto novamente. Antes que se pudesse dar conta, eram os seus próprios dedos que desabotoavam a camisa, enquanto que os de Watson tratavam de cuidar da sua calça. Havia naqueles gestos uma pressa singular; uma pressa que só explicava por uma espera de mais de vinte anos para se ter algo. Não se podia esperar mais um segundo sequer.

O tempo passava rápido, e o interior da boca de Sherlock parecia cada vez mais vivo, mais sedento por devorar e ser devorado. E bem, se queria ser devorado, quem era John Watson para negar-lhe alguma coisas? Seu membro inferior palpitava como se fosse o verdadeiro responsável pela sua circulação. Não havia no mundo obsessão maior do que a do seu desejo por Sherlock Holmes.

Quando nenhuma peça de roupa os afastava, Watson teve a certeza de que não conseguiria sustentar cerimônias; a pressa era mesmo tanta, que as mãos que colocavam as pernas do menor sobre seus ombros tremiam como se estivesse doente. Mais uma vez, a sobriedade pesava um pouco; não teria jeito de simular uma embriaguez, um esquecimento depois que suas ações ali estivessem concluídas. Ainda assim, mantinha-se firme: agarrava-se à necessidade fisiológica de tê-lo e tentava não pensar.

As duas lascas de carvão em brasa lacrimejaram de vergonha quando o mais baixo percebeu que Watson já posicionava um dedo sobre o orifício que já estava exposto. Procurava forçar-se, porém, a encará-lo; colocava-se na obrigação de satisfazê-lo. E se para Holmes o contato visual era a concretização absoluta da sua vergonha, para Watson ele certamente tinha muito valor. Por fim, se para Watson tinha valor... estava decidido.

Dois gemidos longos invadiram o cômodo quando o dedo foi finalmente introduzido.

“W-Wats...on... não... faça...”

Mas o instinto falava nos ouvidos do médico muito mais alto do que o fazia a voz de Holmes; e então, tomado por aquela natureza sombria que aparecia quando Sherlock estava a ele submetido, passou a movimentar a mão adiante e em recuo. Holmes ainda fechou os punhos sobre a almofada e arqueou as costas quando foi colocado o segundo dedo. Nenhum deles conseguia manter silêncio. O contato visual parecia mais impossível a cada segundo.

Logo, a passagem estreita por onde passavam os dedos de Watson – a muito custo – pareceu dilatar-se; as gotículas involuntárias de vergonha ainda rodeavam os olhos escuros do detetive quando o maior julgou que talvez fosse o momento de prosseguir. Delicadamente, retirou os dedos da entrada em que se encontravam e posicionou-se de forma a adentrá-la na íntegra.

“Não... não...”, murmurou o detetive, travando as pernas. A lembrança da dor ainda estava viva demais na sua memória. Fora isso, as consequências... Depois de ter dito a Watson que era amor que os prendia, não poderia simular que um ato como aquele seria proveniente de um simples desejo. Além disso, o cômodo. A casa. Nada daquilo lhes pertencia. Mary Morstan estava a um piso de distância. Se fossem ouvidos. Se suspeitassem. Não teria quase nada a perder, era verdade; a moral que tinha na cidade dizia respeito apenas à sua excelêcia no trabalho. Mas quanto a Watson... Agora, bem no momento de concretização do ato, era como se toda a racionalidade estivesse voltando ao seu lugar.

“Não, Holmes...”, respondeu Watson em um sussurro, sem conseguir aceitar aquela resposta. “Não, por favor... Preciso...”

Toda a face do mais alto contraía-se em uma triste expressão de súplica. Como explicar, sob um pedido tão urgente, que se terminassem o que estava começado o próprio Watson era quem sairia prejudicado? Era o seu casamento, a sua reputação que estavam em jogo. E ainda assim, ao ouvir um “não” de Holmes, o doutor parecia acreditar que não prosseguiam por falta de vontade do detetive.

“Eu faria qualquer coisa”, continuou ele. Talvez estivesse sim um pouco fora de si.

“Não, Watson. Eu sei. Mas...”

“Qualquer coisa”, retomou. “Holmes...”

Um pouco irritado, mas ainda sedento pelo que estava por vir, Holmes fechou brevemente os olhos. Se bem conhecia John Watson, teriam de fazer ali mesmo, naquele instante mesmo. Porque, caso contrário, era capaz que o médico achasse que Sherlock não o queria o suficiente ou que não havia envolvimento emocional. Watson sempre achava que não havia envolvimento emocional.

Então, acostumado à posição de submissão, Holmes relaxou as pernas e suspirou, cansado. Colocou as duas mãos sobre a própria boca com a intenção de abafar os gemidos que se seguiriam – se fizesse ruídos realmente baixos, era possível que não fossem ouvidos do andar inferior. Assim, com a boca coberta, consentiu:

“F-faça.”

Apesar da sua evidente sede em satisfazer um desejo tão profundo, Watson não teve pressa. Deteve-se em aproveitar cada e todas as unidades de tempo da sua dominância; lentamente, foi-se introduzindo dentro de Holmes e observando a reação do detetive, que conseguiu urrar, ainda que a voz saísse abafada. Todos os músculos do rosto do menor estavam contraídos; e por mais que John quisesse iniciar logo uma movimentação, não pôde ir contra a vontade de apenas manter-se parado por algum tempo enquanto sentia a pele de Holmes adaptar-se à sua. A expressão que seu rosto adquiria quando estava submetido era mesmo tão adorável.

“Watson...M...Mexa-se”, ordenou ele. A dor da primeira estocada o estava dilacerando, e se o outro não começasse a realizar logo os movimentos, o prazer e o alívio não viriam.

Watson, a princípio, tremeu com aquela ordem. Lembrou-se que quem estava sob seu corpo era ninguém menos do Sherlock Holmes. A mente brilhante, o detetive inigualável, o cientista frio e apático que costumava dar-lhe ordens quando estavam trabalhando juntos. Mas então, eis que se lembrou de que aquele não era aquele Sherlock Holmes que estava abrindo as pernas, não. O Holmes daquele momento não era tão frio e nem tão apático; não era tão duro ou cruel quanto parecia, não; era uma pessoa sozinha que tinha pelo médico sentimentos aparentemente verdadeiros, e... e bem, a princípio, estava fazendo de tudo para agradá-lo. Era isso. Aquele Holmes gostava tanto da sua pessoa, que fazia de tudo para agradá-lo.

Uma bomba de auto-estima estorou nas suas veias e Watson, ao invés de tremer, manteve-se firme. Ainda mais excitado pela ansiedade da resposta que receberia, respondeu:

“Mexa-se você”.

O forte de Sherlock pareceu desabar. Como uma criança que recebe ordem dos pais, Holmes o encarou com os olhos muito abertos. E então, indo contra a dor e os seus princípios, passou a mover-se sobre o órgão rígido do maior. A cada descida sobre aquele órgão, sentia como se o seu interior estivesse sendo rasgado por uma navalha. Ainda assim, gemendo baixo, prosseguia; prosseguia, porque aquela navalha era de John Watson. E Watson, a poucos centímetros de distância, sentia o seu coração quase explodir à observação daquela pessoa indo e vindo sobre o seu quadril. Em pouco tempo, precisou fazer por si mesmo.

Segurou as pernas de Sherlock e passou a movimentar-se por si só sobre ele. Os gemidos de dor, de súbito, viraram gritos de prazer. Holmes sentia mais uma vez a contração e o relaxamento daquela área sensível e passava a querer que Watson fosse mais forte, mais fundo, mais rápido. A transpiração colava e magnetizava a superfície dos dois corpos, e ambos ofegavam em ritmo similar ao do vaivém que os dominava.

Logo, o médico envolveu também o órgão daquele que dominava e passou estimulá-lo com as mãos, atitude que fez duplicar os ruídos que deixavam a garganta de Holmes. Não havia mais mãos para abafar a voz que saía – a moral, a casa, o sofá e Mary Morstan simplesmente deixavam de existir para dar lugar a uma pessoa de relevância muito maior. Uma pessoa que servira como uma inspiração para Holmes por mais de vinte anos e que há algum tempo vinha sendo também o único alvo de afeição que tivera na vida. Apenas John Watson existia.

“Holmes... eu... vou...”

Bastou sentir um líquido viscoso sendo derramado no seu âmago para que Sherlock Holmes tivesse também que liberar o seu, terminando por molhar o seu próprio corpo e o tórax do mais alto. A atmosfera local foi imediatamente preenchida por um silêncio sepulcral, quebrado apenas pelo som de duas respirações descompassadas.

Watson não demorou a retirar-se de dentro do amigo; calmamente, saiu da posição em que estava e tirou as pernas do outro dos seus ombros, abaixando-nas. Mesmo assim, não pôde parar de olhá-lo.

De olhos fechados, uma expressão despreocupada e apenas recuperando o ritmo da sua respiração, Holmes passava uma imagem tão serena, que o médico desejou embalá-lo e não deixá-lo mais. Olhá-lo por tempo ilimitado não seria ainda suficiente.

“Watson...”

“Eu... amo... você”.

“Como é?”

Não obteria resposta alguma à altura, é claro. Duro como era, capaz de Sherlock fingir que nem mesmo o tinha escutado. Mas não havia mal. Não havia mal, porque Holmes já havia feito e dito o suficiente por aquele dia; dissera que era o amor que os prendia. Era mais do que o suficiente.

“Ah, sim...”, murmurou o detetive. Manteve os olhos fechados. “Mas Watson, preciso lhe falar...”

“Não, você não precisa...”

“Ela saiu”.

Watson pareceu confuso:

O quê?”

“Mary Morstan saiu e deve estar indo para a sua casa...”

“Você ouviu isso?”

“Se não sair daqui em dez segundos, capaz de você não conseguir alcançá-la”.

“Holmes...”

“Dez. Nove...”

[...]

Desesperado como estava, Watson saiu com os botões da camisa semi-abertos e desarrumados. Mas o que diria? O que faria? Queria realmente alcançá-la? Queria realmente convencê-la de algo e mantê-la em Londres? Não sabia. Tropeçava nas próprias pernas. Chegou no andar mais baixo e deu também pela falta de Weinberg e Agatha; uma aflição aguda fez seu peito latejar quando considerou a hipótese de ter sido ouvido também pelos anfitriões da casa. Estava, de fato, perdido.

Os pensamentos passavam em alta velocidade pela sua cabeça e era como se sua vida tivesse também passado, de repente, de um sonho para um pesadelo. Foi lembrar-se de Sherlock Holmes e do momento que haviam tido apenas quando já estava fora da casa. O máximo que pôde fazer, no momento em questão, foi lançar um olhar à janela e torcer para que Holmes estivesse bem.

Mas que besteira. Sherlock Holmes sempre estava bem. Precisava preocupar-se consigo mesmo, sim; Watson sim era a vítima. Na rua, os pedestres passavam e não compreendiam a dor estampada em seu rosto – como poderiam? Amar uma pessoa, desejá-la acima de qualquer coisa e saber que não poderia viver ao lado dela com estabilidade. Sua vida era mesmo um desperdício.

Faltava poucos metros até a sua casa quando John Watson respirou fundo e preparou-se para o pior. Agora, o seu presente e o seu futuro eram incertos. E assim, temeroso como era natural à sua pessoa, mas também racional, contido, conformado como Holmes lhe ensinara a ser, John H. Watson adentrou a sua residência em Clay Street.

Notas finais
Ok, informação mais importante para o momento: não esperem uma sequência cronológica dessa última cena no próximo capítulo. Aliás, não esperem nada desse próximo capítulo, porque nem eu sei realmente o que vai ser. NÃO ESPEREM NADA, MAS ESPEREM COM AMOR, OK? Não me deixem agora, coisinhas lindas.
Vou deixar pra chorar e ficar mimimi no último mesmo.
Muito, muito, muito obrigada pela leitura até aqui ♥
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