O Caso De Scarle Road
18 Último.
Notas iniciais
Muito obrigada pela leitura até aqui. Agradeço mais ao final, mas queria que vocês, lindos leitores, soubessem desde já que fizeram toda a diferença. ♥
O Inspetor G. Lestrade encarava o cadáver à sua frente com uma expressão de ceticismo. Ao seu lado, Tobias Gregson fazia um sinal negativo com a cabeça. Fazia um lindo dia de primavera na Londres de 1892 e Sherlock Holmes havia cometido suicídio nas dependências do seu próprio lar em Baker Street.
A senhora Hudson tremia a ponto de quase não poder manter-se em pé. Por que Holmes cometeria suicídio em uma época do ano em que os casos apareciam aos montes à porta e a sua mente fervilhava em trabalho? Parecia improvável. Impossível. Mas ali estava ele, pálido como uma peça de marfim e ainda mais frio do que costumava ser em vida. Morto.
“Os senhores acham... que isso pode ter acontecido?”, perguntou, aflita pela resposta. “Quero dizer... houve outras vezes em que achamos que Sherlock Holmes tinha...”
“Senhora Hudson”, insistiu Gregson pela última vez. “Já lhe disse. Podemos avaliar as prováveis circunstâncias e motivos, mas não conferimos sinais vitais tal qual deve ser feito. Onde está o médico?”
“Só pode estar chegando.”
Mal as palavras deixaram a boca da mulher e a porta foi bruscamente aberta pelo Doutor John H. Watson. Watson caminhou com passos pesados até o suicida e ajoelhou-se no chão, ao seu lado. Não cumprimentou os presentes e não pareceu abatido pela morte do companheiro; mais do que indiferente, parecia bravo. Sim, Watson parecia verdadeiramente irritado com a situação.
Arregaçou as mangas e tomou-lhe o pulso.
“John Watson”, murmurou a senhora Hudson, temerosa. Apesar do nervosismo, procurou esboçar um sorriso ao vê-lo; fazia muito tempo que John não caía em seu campo de visão. Em verdade, era até mesmo surpreendente que ele e Holmes estivessem afastados há tanto tempo.
Watson permaneceu alheio por algum tempo. Posicionou uma mão em cada lado do pescoço do detetive. Depois de fazê-lo, pareceu voltar a si:
“Ah, sim”, respondeu. “Olá, senhora Hudson”, disse em retorno. E lançou-lhe um rascunho de sorriso tão falso, que foi um milagre seus dentes permanecerem alinhados. Que estava fazendo ali? Santa misericórdia. Sherlock Holmes bem que podia poupar-lhe um pouco de tempo e de paciência, mas não – continuava a persegui-lo e atrapalhá-lo em pleno turno de trabalho.
“E então?”, insistiu Lestrade com os olhos atentos e fixos no médico.
Watson suspirou profundamente antes de dar a resposta:
“Não. Ainda não está morto”.
Assim, com as mãos ainda posicionadas ao redor do pescoço do outro, começou a pressioná-lo. Foi-se utilizando de cada vez mais força para apertá-lo, espremê-lo, estrangulá-lo, até que os outros indivíduos na sala demonstraram objeção – se ainda não estava morto, estaria Watson tentando matá-lo por fim? — e, para a sua sorte, Sherlock Holmes despertou, engasgado.
Holmes sentou-se no chão e ficou alguns minutos tossindo enquanto os demais o encaravam sem expressão definida. O silêncio absoluto tomou a sala e o homem, a muito custo, conseguiu recuperar o ar perdido pelas mãos do seu amigo.
“Vivo”, murmurou Lestrade, parecendo um tanto feliz e um tanto desapontado.
“Ah, Sherlock Holmes!”, gritou a babá, incrédula. “Quantas vezes mais vai se passar por morto e nos causar esse transtorno?”
“Deviam tê-lo mandado enterrar enquanto ainda era tempo”, sussurrou o médico. Agora, porém, era um sorriso sincero, apesar de muito discreto, que tomava lentamente os seus lábios.
Holmes permaneceu distante de todos aqueles comentários. Com os olhos direcionados à parede mais próxima, optou por conversar consigo mesmo:
“Funciona.”
“Mais um experimento!”, prosseguiu a senhora Hudson, estupefata. Ignorando a breve alegria que sentira por voltar a ver Holmes com vida – e simultaneamente recordando-se de todas as consequências daquela vida –, retirou-se do cômodo, infeliz.
“Funciona mesmo”, concluiu mais uma vez o anfitrião. “Lestrade, dê a lista que está com você.”
“Como você...?”
“A lista.”
Ainda um pouco chocado pela cena de ressurreição que acabava de presenciar, o Inspetor Lestrade aproximou-se de novo de Sherlock e entregou-lhe um pequeno papel que continha nomes.
Holmes analisou o documento de forma muito apática. Ao final, perguntou:
“Quantos desses já foram mortos?”
“Todos, exceto pelo último”, murmurou o inspetor. Parecia envergonhado em afirmar que quase todos os sujeitos da lista já tinham sido executados. Havia recebido-a há cerca de uma semana, quando o penúltimo nome ainda vigorava em vida. Agora, restava apenas um; a sua falta de eficiência no trabalho e no controle do tempo custara-lhe pelo menos uma vida.
A presença de Holmes no caso, assim, era mais do que necessária. Àquelas palavras, o detetive abriu um sorriso de satisfação.
As suas habilidades na química e fisiologia, mais uma vez, tinham resultado em sucesso absoluto: acabava de comprovar a eficiência de um composto que retardava o metabolismo de seu usuário a ponto de quase tirar-lhe a vida; com um ritmo respiratório quase imperceptível, queda na temperatura corporal e armazenamento emergencial de energia, qualquer indivíduo que não tivesse cursado a faculdade de medicina acreditaria que o resultado da ingestão do composto era a morte. Apenas a falta de oxigenação efetiva traria de volta à vida o suposto falecido. Watson, é claro, já recebera as devidas informações do amigo antes mesmo que Holmes bebesse do falso-veneno. Assim, soubera exatamente como agir após ter sido informado do suicídio de Sherlock Holmes.
“Ótimo. Então vamos encontrá-lo e matá-lo antes do assassino. Psicopatas que deixam bilhetes com nomes de vítimas não gostam de ser surpreendidos”, concluiu. O sorriso tétrico realmente não abandonava sua expressão. “E imagine qual será a surpresa quando ele descorbrir que sua vítima já foi morta por outro, Lestrade”.
Lestrade suspirou:
“Holmes... você sabe que isso não é necessário. Se encontrarmos a próxima vítima e apenas aguardarmos no local, o assassino com certeza irá aparecer.”
“Encontrarmos a vítima e aguardarmos no local”, repetiu o detetive, ridicularizando-o. “Até quando? Isso pode demorar dias. Mas se o assassino se deparar com uma nota de falecimento no jornal, vamos tê-lo onde quisermos, na hora que quisermos. A visita com certeza será imediata.”
Os dois integrantes da Scotland Yard entreolharam-se. Holmes acabava de apresentar-lhes uma estratégia para o caso.
Os envolvidos empenhavam-se em encontrar a próxima vítima o mais rápido possível; Holmes envenenava-a com o seu novo composto e os inspetores encarregavam-se de espalhar a notícia da suposta morte com uma nota de falecimento que sairia já no jornal do dia seguinte. Assim, o assassino, psicótico e confuso como certamente já era, apareceria para averiguar o local. E as forças da cidade de Londres estariam no seu aguardo.
[…]
Mary Morstan suspirou pesadamente enquanto seus olhos úmidos percorriam a vista que tinham à frente.
Um largo campo de gramíneas estendia-se sob seu campo de visão, e as árvores espaçadas e o cheiro primaveril faziam aumentar a serenidade – e a tristeza – que carregava dentro do peito.
Com os olhos claros ainda marejados de lágrimas, arriscou encarar mais uma vez a carta que repousava sobre seu colo. Ainda que fisicamente longe, John procurava manter-se tão perto. Tão próximo. Como se realmente pudesse reconhecer toda a dor que causara à ex-mulher.
Não haviam encontrado outra forma de proceder. Depois de literalmete escutar um momento íntimo entre o seu esposo e a pessoa mais depravada da cidade de Londres, foi resolvido por Mary que a distância entre marido e mulher era a solução mais viável. A única forma de esquecer John Watson era mantendo-se longe dele. Mas a verdade rondava a casa de campo onde se encontrava e sussurrava diariamente nos seus ouvidos o fato de que não conseguiria esquecê-lo.
Uma gota caiu dos seus olhos e manchou a carta que permanecia aberta. Deu-se ao luxo de lê-la mais uma vez:
Querida Mary,
Espero que esteja bem. Cuide-se e aceite minha ajuda mais
uma vez; é o mínimo que posso fazer por você. Por favor,
mande notícias quando puder.
Com amor,
Sempre seu John.
“Sempre seu John”, dizia ele. Utilizava e re-utilizava aquelas palavras, repetidamente, em todos os documentos que enviava à mulher. Raramente recebia respostas. Mas por não ter presenciado o retorno de nenhuma carta até então – e nem tampouco da quantia considerável de dinheiro que enviava junto a cada uma delas – Watson sabia que a moça as recebia. Sentia-se no dever de ajudá-la sempre, da forma como pudesse. E por mais que Mary precisasse mais de ajuda no campo emocional do que no financeiro, respeitava seu espaço e não a visitava, ao que ela realmente agradecia.
“Sempre seu John”. Mas nunca havia sido seu de fato. Desde que conhecera Sherlock, há mais de vinte anos, Watson passara a pertencer àquela pessoa. Holmes chegara mesmo muito antes de Mary; agora, permanecia depois dela. E a verdade era que os meses se haviam passado com alguma rapidez, e por mais que ainda existisse na mulher a dor da perda, boa parte daquele sentimento fora substituído por uma calma e uma conformidade. Se Watson estava feliz ao lado do amigo, então ela também tentaria a felicidade.
Tanto tempo sem o esposo e tantas consequências negativas para a sua vida. Ainda assim, era incapaz de detestá-lo. O único sentimento que ainda tinha dentro de si em relação àquele homem era... amor. Ou, talvez, empatia. Uma afetividade que não deixaria seu âmago tão cedo.
Com pensamentos subitamente melhores, Mary secou os olhos e lançou um sorriso simples ao documento. A caligrafia de Watson a encantava. Imaginou aqueles dois homens de meia-idade infiltrando-se em casos investigativos como dois adolescentes e teve vontade de rir.
Respirou fundo.
Ao menos o ar puro lhe fazia bem.
[…]
“Absolutamente incompreensível”, murmurou Gregson, maliciosamente e com o evidente intuito de cutucar a ferida do companheiro. “Tantos anos e você continua seguindo ordens dele”.
“Você também está seguindo ordens”, cuspiu Lestrade, cheio de ódio.
Caminhavam com passos rápidos em direção ao centro da cidade. Todos os assassinatos, até então, tinham acontecido por aqueles arredores – o que significava que a próxima vítima não poderia estar longe.
“Você erra tanto nas deduções, que não conseguiu nem mesmo acertar o que dizia sobre aquelas duas pessoas, Lestrade”.
“Mas que raios você está dizendo?”
À demora de Tobias Gregson para responder à sua pergunta, Lestrade não pôde evitar; a pontada de curiosidade que tomou seu íntimo fez com que suas pernas se recusassem a prosseguir na caminhada até que o outro homem explicasse o que acabava de dizer. Gregson, visivelmente incomodado com aquela reação infantil, também tratou de parar logo e esclarecer:
“Relação estranha, não é? Não é o que você diz há anos?”
“Não entendo”.
“Sherlock Holmes e John Watson”.
Agora constrangido, Lestrade desviou os olhos e focou-os no chão. Demorou algum tempo até que se recuperasse.
“Aqueles dois não se vêem desde o início do ano”, prosseguiu Gregson. “Estão tão distantes que o doutor nem se abalou ao achar que Holmes estava morto no chão do apartamento”.
“Porque sabia que não estava”.
“Ah, sim” respondeu o outro, cheio de ironia. Logo voltou a caminhar, ao que o parceiro foi obrigado a acompanhá-lo. “Além disso, tem a mulher”.
“A mulher não está em Londres”.
“Porque está cuidando da tia”, explicou. Transmitia informações que vinha ouvindo há dias, de pessoas que não tinham relação alguma umas com as outras. E não perdia por nada a oportunidade de jogar na cara do companheiro que ele falhara novamente em mais uma suposição. “Ela vem visitá-lo uma vez por semana”.
“Impossível”.
“Estou dizendo. Ela vem visitá-lo semanalmente. Você é mesmo uma lástima como detetive, Lestrade”.
[…]
A cidade de Londres escurecia cedo, independentemente da época do ano. Os tempos, de maneira geral, eram sombrios – os casos de roubo e assassinato acumulavam-se como não vinham fazendo há muito tempo e, assim, era como se a cidade levasse mais em consideração as estatísiticas criminais do que o fato de ser primavera. A noite caía logo.
A senhora Mary Morstan era vista com pouca frequência nas ruas estreitas. Furtiva como um gato de rua que se esconde da luz, trombava com pouquíssimas pessoas em seu trajeto semanal até a antiga casa de Adolf Weinberg; casa essa que agora pertencia ao seu esposo. Mas o que era mais curioso em Morstan (dentre suas visitas sempre noturnas, o pouco diálogo com outros moradores, o pouco desejo de ser vista em público) era o fato de que ela sempre deixava algum vestígio da sua presença na cidade. Era como se calculasse as pessoas por quem desejava ser vista; com essas, e apenas com essas, trocava algumas palavras. E na manhã seguinte, quando voltava a deixar a nova casa de John, escutava seu nome ser comentado e dissipado por aqueles que a haviam visto no dia anterior. Poucos.
Sherlock Holmes e ela nunca mais se haviam topado. Holmes nunca mais pôde realmente ter certeza, então, do que se passava na vida de John. Um dos motivos pelos quais tinha pouco acesso à vida particular do médico era que estavam relativamente distanciados.
Vez ou outra, Holmes aparecia e tentava convencê-lo a participar de mais um ou dois casos investigativos, mas o doutor Watson recusava-se, de forma muito convicta. Era compreensível: o ofício de médico não casava bem com o de assistente de Sherlock Holmes. Fora isso, os boatos dos quais Watson havia sido vítima há algum tempo recordavam-no de que o melhor, de fato, era manter-se tão distante de Holmes quanto pudesse.
Ou quase isso.
Naquela semana em especial, Mary Morstan chegou à cidade fora das datas normais em costumava fazê-lo: era comum que chegasse em uma noite do final de semana, mas dessa vez ali estava ela, em plena quarta-feira, à frente da porta da casa de John Watson.
Watson estava em casa, mas demorou a atendê-la. Por um breve momento, achou que estivesse ouvindo coisas – e desejou realmente estar: por que a mulher apareceria em data como aquela e sem avisos prévios? Torceu para que estivesse enganado. Não estava.
Abriu apenas uma fresta da porta e deparou-se com um rosto que tirou-lhe a serenidade:
“Ah, não”.
“Bom te ver, Watson”, disse a voz forçada por trás de todo o pó e a maquiagem que cobriam seu rosto.
Bom te ver, Watson. Mas desde quando Mary Morstan o chamava de Watson? Desde nunca, é claro. Porque aquela pessoa não era Mary Morstan. Tratava-se de outro indivíduo.
“Hoje não é dia”, rosnou Watson por entre dentes. Aquela pessoa ainda lhe traria muitos problemas.
“Pois eu digo que é”.
“Se você continuar infringindo o acordo, vão suspeitar”.
“É uma emergência”.
Watson bufou; não tinha escolhas. Por mais que não desejasse a entrada do sujeito na sua casa, não poderia simplesmente largá-lo do lado de fora. Afinal, seria ainda mais estranho não abrir a porta para sua esposa do que aceitar uma visita no meio da semana.
Assim que Sherlock Holmes adentrou a residência, correu os olhos pela sala espelhada e teve náuseas. A organização da casa fazia com que imaginasse a monotonia da rotina do amigo. Era difícil compreender como Watson conseguia viver naquele silêncio.
“E então?” perguntou o doutor, referindo-se à emergência.
“Ah, sim”, lembrou-se Holmes. Começou a falar enquanto arrancava bruscamente as luvas femininas das próprias mãos. Os trajes de Mary Morstan não lhe serviam bem. “Localizamos a vítima. Hoje mesmo vou encontrá-la e dopá-la. Amanhã já estará morta”, afirmou. E abrindo o seu sorriso convencido, completou: “Supostamente”.
John Watson optou por não se pronunciar. O que ele tinha que ver com o assunto? O outro logo tratou de esclarecer:
“Amanhã você vai aparecer e dá-la como morta”.
Mais uma vez, Watson não respondeu. Deu-se apenas ao trabalho de dar as costas ao amigo e caminhar em sentido à escadaria que o levaria ao quarto.
“Watson, isso é importante”, insistiu o detetive. “Se não tivermos a confirmação da morte, não teremos o quadro em jornal no dia seguinte”.
“E por que eu colocaria em risco minha carreira como médico?”
“Bom, porque eu estou pedindo”.
O mais alto parou de andar. Fixou os olhos azuis nos daquela pessoa mais uma vez. Sua mente indicava que a melhor opção era expulsá-lo da sua casa e da sua vida, como sempre; mesmo assim, Watson sabia que não seria capaz de fazê-lo. O que mais irritava em Sherlock Holmes não era a insistência para que o amigo participasse dos seus casos, não. O que mais irritava era o fato de Holmes saber e demonstrar o conhecimento de que Watson simplesmente não diria “não” à sua pessoa. Uma palavra tão singela... e que, ainda assim, nunca conseguiria pronunciar frente a ele.
“Você não devia ter vindo”, resolveu, em tom baixo.
Era verdade. Se queria sua ajuda, Holmes podia apenas tê-lo enviado uma carta ou qualquer outro tipo de documento por escrito. A visita em meio à semana era arriscada. Mas para aquilo também Sherlock Holmes teve resposta. Caminhou com passos lentos até o assistente; parou quando quase nenhuma distância instalava-se entre os dois corpos.
“Depois de me ver hoje, Watson... Você gostaria de ter esperado até o final de semana?”
Watson desviou os olhos, envergonhado. Como Holmes podia saber? Ficara realmente inquieto depois de vê-lo naquele dia. A princípio, a verdade era que tivera raiva por ter sido convocado por ele em pleno turno de trabalho; mas a seguir, ao vê-lo, ao tocá-lo, ao sentir o âmbar mais uma vez correndo pelas suas vias respiratórias, tudo o que pôde sentir foi uma satisfação imensurável. Não queria mesmo ter de esperar mais dois ou três dias para tê-lo perto de si.
“Apareça amanhã no endereço da vítima e me veja de novo”, desafiou Sherlock. As palavras já deixavam-lhe a boca em forma de sussurro. Por que não conseguia manter a postura profissional quando estava ao lado de Watson?
O médico engoliu em seco. Não conseguiria negar. O ar que deixava os lábios de Holmes chegava, morno, à pele do seu rosto. Era difícil descrever a natureza daquele toque. Na verdade, tornava-se difícil qualquer tipo de raciocínio. Tudo o que sabia era que queria encher os pulmões com o ar que o detetive exalava; queria prendê-lo dentro de si, levá-lo consigo para onde quer que fosse. Lentamente, assentiu com a cabeça. E aguardou, sem reação imediata, quando Holmes resolveu selar demoradamente a sua boca.
A alegria parecia ser infinita quando realizavam-se os encontros semanais. Mas então lembrou-se que não se tratava de um encontro semanal como os outros, nos quais Holmes se permitia passar uma noite toda em sua companhia.
Quando os braços do médico já envolviam a sua pouca cintura e algum ar faltava a ambos, o detetive afastou-se, um tanto atordoado:
“W-Watson... não... podemos hoje. Não hoje. Tenho muito o que fazer”.
“Claro”.
Soltaram-se. Indo contra todos os seus sentimentos e instintos, Watson deixou que aquela pessoa saísse, apressada, pela porta da frente. Pensava em revoltar-se contra a situação, mas nunca o fazia – lembrava-se que, justamente por ter acesso restrito a Sherlock Holmes, o seu desejo aumentava a cada dia, a cada instante. A necessidade de tê-lo crescia de forma doentia dentro do seu peito.
O que o consolava era a certeza dos próximos encontros. Semanais.
[…]
Holmes saiu da casa apressado, mas precisou de algum tempo em recuperação antes de retomar sua típica caminhada pelas ruas da cidade. Um pouco sem ar, encostado à porta da casa do amigo, fechou os olhos. Se mantivesse a concentração durante poucos minutos, conseguiria ouvir ainda alguns passos e resmungos de John Watson. Qualquer evidência de que Watson estava próximo fazia com que se sentisse tão tentado e, ao mesmo tempo, tão... sereno. Watson trazia-lhe a serenidade que não conseguira nunca antes obter em vida.
Suspirou. Aproveitou os últimos momentos de proximidade com o doutor enquanto o ouvia terminando de subir a escadaria e recolhendo-se ao seu quarto. Então, voltou a si. Retomou a postura de Mary Morstan e caminhou em direção ao seu apartamento em Baker Street.
Não podia ser visto por ninguém enquanto adentrava aquela residência, mas, para Holmes, era fácil. A adrenalina corria diária e livremente pelas suas veias. Fazia com que se sentisse vivo. Quase tão vivo quanto se sentia quando... bem, quando estava ao lado do assistente.
Adentrou o número 221B enquanto era tomado pela alegria de ver John Watson no dia seguinte. Nos dias seguintes. Nas semanas seguintes. Nos anos seguintes.
Nenhuma incerteza podia mais afastá-los.
Notas finais
Assim, queria agradecer a todos os que leram e, principalmente, aos que comentaram, me recomendaram e me apoiaram até aqui. Posso dizer sem hesitar que só consegui chegar até o final por conta de todo esse apoio e essa motivação. Vocês me inspiraram muito ♥ E tiveram muita paciência comigo também, hihi.
Aos poucos interessados, já confesso que não posso dizer que não tenho um novo projeto (PORQUE TENHO!), mas esse vai demorar pra sair, se sair. Por hora, quero me empenhar em ler e acompanhar os trabalhos de alguns desses leitores lindos que tive. Espero que realmente possamos manter contato ♥ ♥
E... bom, é isso. Nos vemos por essa vida afora, minha gente.
E não, vocês ainda não estão livres de me deixar reviews aqui, hehe u_ú'
Mais uma vez, muito, muito, MUITO obrigada por tudo ♥ ♥ ♥
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