O Casamento da Minha Melhor Amiga

1 O DIAGNÓSTICO DE UMA APENDICITE EMOCIONAL


Notas iniciais
✨ Olá, meus amores! Sejam bem-vindos a "O Casamento da Minha Melhor Amiga", uma comédia romântica onde Edward Cullen finalmente descobre que está apaixonado por Bella Swan... apenas vinte anos atrasado. Nesta história, Bella está prestes a se casar com Jacob Black, Forks inteira está animada com o evento e Edward, que deveria ser apenas o padrinho do casamento, sofre uma crise existencial monumental ao perceber que talvez tenha cometido o maior erro da própria vida. Preparem-se para muito caos, planos absurdos, vergonha alheia, amigos intrometidos e um médico brilhante que, aparentemente, não sabe diagnosticar os próprios sentimentos. Boa leitura! 💙

CAPÍTULO 1: O DIAGNÓSTICO DE UMA APENDICITE EMOCIONAL

O estetoscópio em volta do meu pescoço parecia, pela primeira vez em sete anos de carreira médica, uma corda de estofador prestes a me sufocar. Eu era o Dr. Edward Cullen. O pediatra-chefe da ala infantil do Hospital de Forks. O homem que conseguia acalmar um bebê de três meses com cólica apenas mudando o tom de voz e que diagnosticava uma estenose pilórica antes mesmo do primeiro exame de imagem ficar pronto. Eu tinha o controle. Tinha a conta bancária que qualquer homem de trinta e dois anos invejaria, um Volvo de última geração estacionado na vaga privativa, e uma lista de contatos no celular que faria um universitário chorar de inveja. Eu tinha tudo.

Até que um pedaço de papel texturizado, com gramatura excessiva e um laço de fita de cetim na cor off-white, foi depositado em cima da minha mesa de mogno pela minha secretária.

— Chegou para o senhor, Dr. Cullen. A entrega foi feita por um serviço de batedores especiais. Acho que é da sua irmã — disse a Sra. Cope, sorrindo com aquela condescendência típica de quem sabia que eu era o solteirão mais cobiçado da península de Olympic.

Eu não respondi. Olhei para o envelope. Havia um aroma sutil de lavanda impregnado no papel. Um aroma que eu reconheceria até se estivesse anestesiado em uma mesa de cirurgia. Era o cheiro do amaciante que a dona Renée usava nas roupas de cama desde 1998. Era o cheiro da casa ao lado da dos meus pais. Era o cheiro da Bella.

Quando meus dedos tocaram o relevo americano dourado que unia as letras “I” e “J”, meu estômago despencou de um penhasco. Uma dor aguda, lancinante, bem na fossa ilíaca direita, me fez curvar a espinha. Como médico, meu primeiro pensamento foi puramente clínico: Apendicite. Uma apendicite fulminante. Vou precisar de uma laparoscopia de emergência antes que essa desgraça supra e cause uma peritonite. Mas eu sabia que não era o apêndice. O apêndice é um órgão vestigial inútil. O que estava inflamando dentro de mim era algo muito pior, muito mais antigo e infinitamente mais difícil de operar.

Abri o envelope com o bisturi de metal que usava para abrir correspondências oficiais. O cartão interno saltou aos meus olhos, reluzindo com uma pompa que decididamente não combinava com a garota que passava os finais de semana vestindo camisas de flanela xadrez desbotadas e comendo cereal direto da caixa no meu sofá.

“Isabella Marie Swan e Jacob Black convidam para a celebração de seu matrimônio...”

A data estava marcada para dali a exatamente duas semanas. Duas semanas.

Eu encostei na minha cadeira de couro, sentindo o suor frio brotar na minha testa. Meus olhos se fixaram no nome do Jacob. Jacob Black. O cara era um cavalheiro. Ele era o mecânico e designer de automóveis que todo mundo em Forks adorava. Ele era o sujeito que sorria exibindo trinta e dois dentes brancos perfeitos, que ajudava o chefe Swan a limpar a calha no inverno e que, honestamente, eu considerava um grande amigo. Eu adorava o Jacob. Ele era o tipo de cara que você quer ter no seu time de bife de domingo.

Mas ver o nome dele impresso ao lado do de Isabella, em letras cursivas douradas, fez com que uma onda de bile subisse pela minha garganta. Aquilo não descia. Não fazia sentido anatômico, biológico ou cosmológico. A Bella não podia casar com o Jacob. Era uma infração grave às leis da natureza.

Por que eu estou reagindo assim?, perguntei a mim mesmo, cobrindo o rosto com as duas mãos, enquanto o relógio de parede da clínica parecia bater no mesmo ritmo descompassado do meu miocárdio. Você sempre soube disso, Cullen. Você é o padrinho. Você vai assinar a droga do livro junto com a Alice.

E foi ali, no silêncio do meu consultório, com o aroma de lavanda me torturando, que as comportas da minha memória se abriram de forma violenta. Uma epifania tardia, estúpida e humilhante me atingiu como um desfibrilador com carga máxima.

Eu não era um solteirão convicto porque amava a minha liberdade. Eu não era o homem que trocava de namorada a cada seis meses porque tinha "problemas de compromisso" herdados de alguma crise existencial da juventude. Eu era um idiota. Um idiota diplomado com residência médica.

Comecei a passar a limpo a minha folha corrida de relacionamentos. Desde o ensino médio na Forks High School até os meus trinta e dois anos, haviam sido exatamente dez mulheres. Dez namoradas formais, sem contar os casos de uma noite só. E, pela primeira vez na vida, olhei para o histórico médico do meu coração com total honestidade diagnóstica.

A primeira foi a Jessica Stanley, no segundo ano do ensino médio. Ficamos juntos por três meses. Eu terminei com ela no banco de trás do meu carro, no estacionamento do colégio, porque o tom da risada dela me irritava. Eu me lembrava de ter pensado: “A risada da Jessica é muito aguda, parece um ganso engasgado. Não é como a da Bella. A da Bella é contida, começa com um som gutural e termina com aqueles olhos castanhos se espremendo de um jeito fofo”. Na época, achei que era apenas uma observação de amigo.

Depois veio a Angela Weber. Angela era doce, calma, o tipo de moça que minha mãe adoraria ver no altar. Durou quatro meses. Terminei porque achei que ela era "passiva demais". Meu cérebro de dezoito anos registrou: “Falta fogo na Angela. Falta aquela teimosia irracional que a Bella tem quando decide que vai caminhar na lama de Forks usando sapatilhas de lona e acaba caindo de cara no chão, mas levanta xingando o mundo com as bochechas vermelhas”. Eu queria a teimosia. Queria a Bella.

Na faculdade de medicina em Seattle, teve a Lauren Mallory. Linda, loira, corpo de modelo. Durou dois meses até eu perceber que o perfume dela me dava dor de cabeça. O perfume dela era importado, caro, sofisticado. Mas não era o cheiro de morango do xampu de farmácia que a Bella usava. Eu passei duas semanas tentando convencer Lauren a mudar de xampu, e quando ela se recusou, achei que éramos "incompatíveis".

Durante a residência, veio a Heidi. Depois a Kate. Depois a Sasha. Uma atrás da outra, como cópias carbono defeituosas de um original que eu me recusava a admitir que possuía. Com a Heidi, o problema era que ela não entendia meu humor sarcástico, o humor que a Bella conseguia rebater com uma única palavra e um revirar de olhos. Com a Kate, terminei porque ela odiava chuva e Forks, e na minha cabeça, uma mulher que não sabia apreciar a névoa de Washington não servia para mim (leia-se: a Bella amava o clima daqui). Com a Sasha, o término aconteceu porque ela organizou meus livros de medicina por cor, e eu surtei dizendo que ela tinha invadido meu espaço, quando, na verdade, a Bella já tinha virado meu quarto do avesso dezenas de vezes para procurar um CD antigo e eu nunca tinha dado um pio.

A sétima foi a Irina , a oitava foi a Carmen, e a nona foi uma enfermeira do pronto-socorro chamada Chelsea. Todas descartadas. Todas arquivadas sob o diagnóstico genérico de "não era a mulher certa". Eu buscava os olhos castanhos em mulheres de olhos azuis. Buscava o andar desengonçado e propenso a acidentes em mulheres que andavam com a elegância de bailarinas. Eu estava tentando montar um quebra-cabeça da Bella usando peças de outras pessoas.

E então, meu pensamento estacionou na décima. A mais recente. A mais dolorosa de lembrar. Tanya Denali.

Tanya era perfeita. Médica obstetra, inteligente, deslumbrante, loira, com uma risada rica e uma ambição que espelhava a minha. Nós namoramos por quase um ano inteiro, há pouco mais de dezoito meses. Meus pais já falavam em noivado. A Alice já estava desenhando o maldito vestido na cabeça dela. Eu realmente achei que, com a Tanya, eu finalmente tinha entrado nos eixos. Ela tinha tudo o que um homem de sucesso queria.

Mas a Tanya tinha algo que as outras nove não tinham: um instinto de preservação agudíssimo e uma inteligência clínica para detectar mentiras.

Fechei os olhos e a cena do nosso término voltou com a clareza de um projetor de cinema em alta definição. Estávamos jantando no The Lodge, o restaurante mais caro de Port Angeles. O ambiente estava à meia-luz, o vinho de quatrocentos dólares brilhava nas taças de cristal, e a Tanya estava deslumbrante em um vestido verde-esmeralda.

Estávamos discutindo os planos para o feriado de Ação de Graças.

— Nós podíamos ir para Aspen, Edward — ela sugeriu, deslizando os dedos perfeitamente manicurados pela borda da taça. — Meu pai tem aquele chalé. Vai ser ótimo sairmos de Forks por alguns dias. Só nós dois.

— Aspen parece ótimo, Tanya — eu disse, mas meus olhos se desviaram para o celular na mesa. Bella tinha me mandado uma mensagem vinte minutos antes dizendo que tinha queimado o purê de batatas do Charlie e que eles estavam jantando lasanha congelada. Eu estava segurando o riso.

Tanya percebeu. Ela sempre percebia. O cenho dela se franziu, as linhas finas ao redor dos seus olhos perfeitos se contraindo.

— É ela de novo, não é? — a voz da Tanya mudou de tom, perdendo o calor aveludado e assumindo a frieza de um bisturi cirúrgico.

— Ela quem? — me fiz de sonso, guardando o aparelho no bolso do paletó.

— Não brinque comigo, Edward. A Isabella. É claro que é ela. Vocês se falam trinta vezes por dia. No sábado passado, nós estávamos no meio do nosso filme e você saiu correndo porque o pneu do carro dela tinha furado na estrada de La Push. O Emmett estava na cidade! O Jacob estava na cidade! Mas ela ligou para você e você largou a sua namorada no sofá para ir trocar um pneu na chuva!

— Tanya, por favor — eu suspirei, adotando aquela voz paciente que usava com mães de primeira viagem histéricas. — A Bella é minha melhor amiga desde que temos cinco anos de idade. As nossas casas eram coladas. Nós tomávamos banho juntos,dormiamos juntos, eu limpei o joelho dela quando ela caiu da bicicleta. É uma relação fraternal. Ela é como uma irmã para mim.

Tanya soltou uma risada seca, amarga, que ecoou pelo restaurante sofisticado. Ela se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa, os olhos fixos nos meus com uma certeza que me incomodou profundamente.

— Irmã? Edward, você não olha para a Alice do jeito que olha para a Isabella. Você não cancela jantares comigo porque a Alice quer comer hambúrguer no Carver's Cafe. Eu não sou idiota. Eu sou uma mulher adulta, sou médica, eu sei ler os sinais anatômicos de um homem. Você não quer uma namorada. Você quer uma fachada.

— Uma fachada? — perguntei, sentindo meu tom de voz subir um oitavo. — Isso é ridículo. Eu estou com você. Eu amo estar com você.

— Você gosta do que eu represento, Cullen — ela disse, com uma calma que me assustou. — Mas você é patologicamente, desesperadamente e cega mente apaixonado pela sua melhor amiga. Você nunca deu certo com nenhuma mulher antes de mim, e não vai dar certo comigo, porque a vaga já está preenchida no seu coração desde o jardim de infância. Você busca a Bella em todas nós. E o pior de tudo é que você é tão covarde que prefere passar a vida pulando de cama em cama a admitir que está morrendo de medo de levar um fora da garota esquisita da casa ao lado.

Eu me lembrava perfeitamente da minha reação naquela noite. Eu tinha olhado para a Tanya como se ela tivesse perdido o juízo terapêutico. Eu achei aquela acusação tão absurdamente infundada, tão digna de um roteiro de novela barata, que eu comecei a rir. Eu ri tanto, com tanto escárnio e descrença, que cheguei a levar a mão ao abdômen. “Uma dor de estômago de tanto rir”, pensei na época. Que piada boa. Que paranoia da Tanya. Terminamos ali mesmo, por causa do "ciúme doentio" dela.

Agora, dezoito meses depois, sentado na minha cadeira de médico, olhando para o convite de casamento dourado, a verdade me atropelou como um caminhão de carga na rodovia interestadual.

Tanya Denali não estava paranoica. Ela merecia um prêmio Nobel de psicologia médica. Ela estava absolutamente, cirurgicamente certa.

Eu ri da verdade porque a verdade era assustadora demais para o meu ego de médico bem-sucedido. Eu era apaixonado pela Bella. Desde sempre. Desde as tardes em que subíamos na casa da árvore, desde o primeiro baile do colégio onde quase quebrei a cara do Tyler Crowley por tentar dançar com ela, até o dia em que o Jacob Black entrou na vida dela e eu mudei de calçada para não ver os dois de mãos dadas, fingindo que estava "muito ocupado com o hospital".

— Eu sou um jumento — declarei para o consultório vazio, a minha voz ecoando entre as paredes brancas. — Um completo e absoluto jumento de jaleco.

A dor no meu peito não era apendicite. Era o meu coração, atrofiado por anos de negação, tentando bater à força. Duas semanas. Ela ia casar em duas semanas. O Jacob ia colocar uma aliança no dedo dela. O Jacob ia levá-la para a cama todas as noites. O Jacob ia ter os filhos de olhos castanhos que eu, inconscientemente, vinha desenhando na minha mente desde que aprendi o que era genética na faculdade.

Uma fúria cega, misturada com um pânico primitivo, tomou conta do meu sistema nervoso central. O córtex pré-frontal, responsável pelas decisões racionais, simplesmente desligou. Eu não podia ficar ali assistindo o meu apocalipse pessoal ser entregue com cheiro de lavanda.

Levantei-me da cadeira tão rápido que ela rolou para trás e bateu contra o arquivo de metal. Arranquei o estetoscópio do pescoço, joguei-o em cima da mesa, peguei as chaves do Volvo e o casaco de couro.

— Dr. Cullen? — a Sra. Cope chamou, assustada, quando passei pela recepção feito um furacão. — O senhor tem um paciente de quatro anos para um check-up de asma em dez minutos!

— Cancele! Remarque! Diga que o médico teve uma emergência de vida ou morte! — gritei, sem olhar para trás, empurrando as portas de vidro do hospital e saindo direto para a chuva implacável de Forks.

Eu ia até a casa dos Swan. Agora.

O trajeto do hospital até a antiga rua onde crescemos foi um borrão de luzes de freio vermelhas e limpadores de parabrisa funcionando na velocidade máxima. Eu guiei o Volvo como se estivesse transportando um órgão para transplante urgente, e não o meu próprio ego estraçalhado. Meus dedos apertavam o volante de couro com tanta força que as articulações estavam brancas.

Eu estava em pleno surto psicótico. Não havia outra explicação médica. Minha frequência cardíaca devia estar batendo na casa dos cento e quarenta batimentos por minuto, e se alguma enfermeira medisse minha pressão arterial naquele momento, me daria uma dose cavalar de anti-hipertensivo na veia.

Estacionei o carro de qualquer jeito, metade na calçada, metade na grama encharcada bem na frente da casa do chefe Swan. Olhei para o lado. A casa dos meus pais continuava lá, pintada do mesmo tom de cinza claro, mas a casa da Bella... a casa da Bella parecia o epicentro de um desastre natural iminente. Havia caixas de papelão empilhadas na varanda e um maldito ornamento de flores de plástico pendurado na porta.

Saí do carro sem me importar com a chuva que instantaneamente encharcou meu cabelo e meu casaco. Atravessei o gramado pisando nas poças d'água e esmurrei a porta de madeira com o punho. Não dei as três batidas corteses de um médico bem-educado. Bati como se o FBI estivesse fazendo uma batida policial.

— Já vai, pelo amor de Deus! Não quebrem a porta! — a voz dela ecoou lá de dentro.

Aquela voz. A voz que eu ouvia quando tinha febre aos oito anos, a voz que me pedia cola nas provas de biologia, a voz que agora estava prestes a dizer "Sim, eu aceito" para outro homem.

A porta se abriu com um solavanco. Bella estava ali. Ela usava uma calça de moletom cinza três vezes maior que o corpo dela (provavelmente roubada do armário do Emmett), meias grossas com estampa de rosquinhas e o cabelo castanho estava preso em um coque perfeitamente desordenado, com algumas mechas caindo pelo rosto. Ela tinha uma caneta esferográfica enfiada atrás da orelha e segurava uma prancheta cheia de listas de tarefas.

Ela olhou para mim, piscou os olhos castanhos algumas vezes, assimilando o meu estado de rato de esgoto molhado.

— Edward? — ela franziu o cenho, dando um passo para trás. — O que aconteceu? Você sofreu um acidente de carro? Por que você está molhado desse jeito?

Eu entrei na casa sem pedir licença, deixando um rastro de lama e água no tapete de boas-vindas que a dona Renée tinha comprado no século passado. Eu estava arfando. Dei meia volta na sala de estar pequena, olhando para as caixas de buffet e os arranjos de mesa espalhados pelo chão como se fossem ogivas nucleares.

— Edward! — Bella fechou a porta, batendo o pé, visivelmente irritada com a minha invasão lamacenta. — Você enlouqueceu? O que está acontecendo?

— Você não pode casar — soltei de uma vez, virando-me para ela, apontando o dedo indicador de forma acusatória.

Bella estacou no lugar. A prancheta caiu alguns centímetros, mas ela a segurou contra o peito. A expressão dela mudou de preocupação para uma confusão absoluta e genuína.

— O quê?

— Você me ouviu, Isabella! Você não pode casar com ele! É um erro! Uma catástrofe médica e social! — eu andava de um lado para o outro, gesticulando como um cientista louco. — Esse casamento não faz o menor sentido! O Jacob? Sério? O cara passa o dia inteiro embaixo de capôs de carros cheirando a graxa e óleo de motor! Ele usa aquelas bermudas cargo medonhas, Bella! Bermudas cargo! Nenhum homem que se preze e que pretenda ser pai de família pode usar bermudas cargo no ano de 2026! É esteticamente criminoso!

Bella me encarou por longos, agonizing segundos. Ela parecia estar tentando processar se eu tinha batido a cabeça no painel do Volvo ou se tinha ingerido algum psicotrópico do estoque do hospital por engano.

— Edward... você veio até aqui, no meio do seu turno, me deixar ensopada e criticar as roupas do Jake? — a voz dela subiu de tom, a incredulidade transbordando. — Do que você está falando?!

— Estou falando de sanidade! — gritei, passando as mãos pelo meu cabelo molhado, jogando água para todos os lados. — Esse casamento é uma burrada! Uma burrada colossal! Você não vê? Você está prestes a assinar um contrato vitalício com o cara errado!

Bella soltou um suspiro pesado, colocou a prancheta em cima da mesa de centro e cruzou os braços, encarando-me com aquela paciência irritante que ela costumava usar quando eu tentava explicar física quântica para ela na adolescência.

— Edward, respira. Olha para mim — ela deu um passo na minha direção. — Você está surtando. Por que você está surtando desse jeito se nem o meu pai e nem o Emmett fizeram isso? Meu pai chorou de emoção quando o Jacob pediu a minha mão! O Emmett passou três dias planejando uma despedida de solteiro que provavelmente vai envolver strippers e costelas de porco! Ninguém está tendo um colapso nervoso além de você!

— Porque eles estão cegos! — contornei um sofá antigo, aproximando-me dela. — Eles não têm a minha capacidade de diagnóstico!

— Capacidade de diagnóstico para o meu casamento?! — Bella explodiu, as bochechas dela assumindo aquele tom de vermelho vivo que eu, secretamente, vinha tentando replicar nas minhas dez ex-namoradas. — Edward, eu e o Jacob namoramos há seis anos! Seis! Você adora ele! Você passa os domingos assistindo futebol americano com ele e tomando cerveja barata na garagem! Você sabe desse noivado há dois anos! A Alice está organizando essa droga desde que o anel entrou no meu dedo!

— Dois anos atrás eu estava em negação terapêutica! — justifiquei, a lógica interna do meu cérebro funcionando a todo vapor, mesmo que externamente parecesse o discurso de um lunático.

— Você vai ser o padrinho principal desse casamento, Edward! — ela continuou, dando um passo agressivo na minha direção, batendo o dedo no meu peito encharcado. — Você e a Alice vão assinar o livro de testemunhas! O seu terno já foi ajustado três vezes porque você cismou que os ombros estavam apertados! Por que você está fazendo esse teatro todo agora? Faltam duas semanas! Os convites foram entregues hoje !

— Exatamente! O convite chegou! — eu disse, a voz subitamente falhando, a vulnerabilidade tentando romper a armadura de arrogância. — Eu vi o seu nome impresso do lado do dele, Bella. Em letras cursivas douradas. Com cheiro de lavanda. E aquilo... aquilo quase me matou. Não desce, Bella. Não entra na minha cabeça.

Bella parou de gritar. Os olhos castanhos dela se estreitaram, me estudando com uma intensidade que me fez querer desviar o olhar. A respiração dela estava curta. A confusão na expressão dela deu lugar a uma tensão palpável, densa, que preencheu todo o espaço daquela sala antiga.

— Por que, Edward? — a voz dela caiu para um sussurro tenso. — Por que isso incomoda tanto você?

— Porque ele não é a pessoa certa para você — respondi, minha voz saindo mais grave, mais séria, perdendo toda a veia cômica do surto anterior. Dei mais um passo, ficando a poucos centímetros dela. Eu conseguia sentir o calor que emanava do corpo dela, o cheiro de morango do xampu se misturando com a lavanda do ambiente.

— Então quem é? — Bella perguntou, inclinando o rosto para cima, os olhos fixos nos meus, desafiando-me com uma urgência que me faltou o ar. — Se o Jacob, o cara que me apoia, que me ama há seis anos, que esteve aqui em todos os momentos, não é a pessoa certa... quem é a pessoa certa para mim, Edward? Me diz.

A pergunta flutuou entre nós como um bisturi suspenso no ar.

Era o momento. Era a cena do filme. O momento em que o protagonista segura a mocinha pelos ombros, a sacode e diz: "Eu! Sou eu, sua idiota! Eu sou o jumento que levou trinta e dois anos e dez namoradas para perceber que o meu mundo começa e termina no seu sorriso!". Minha boca se abriu. As palavras estavam ali, alinhadas na ponta da minha língua, prontas para serem disparadas. Eu te amo. Sempre foi você. Não casa com ele.

Mas então, o covarde diplomado que habitava em mim assumiu o controle do meu sistema vocal. O pânico de ouvir um "Edward, você enlouqueceu, eu amo o Jacob" me paralisou. Minhas cordas vocais simplesmente travaram. Eu perdi a coragem. Limpamente. Perdi a coragem como um estudante de medicina que desmaia no primeiro corte da anatomia.

Fiquei ali, abrindo e fechando a boca feito um peixe fora d'água, empalidecendo visivelmente.

Antes que a Bella pudesse insistir na pergunta e arrancar a verdade de mim usando tortura psicológica, a porta da frente foi escancarada com tanta força que a maçaneta bateu na parede, fazendo um estrondo.

— Alerta de emergência! Alerta de frango molhado na área! — a voz estrondosa de Emmett Swan ecoou pela sala, quebrando a tensão romântica com a sutileza de uma britadeira.

Emmett entrou segurando uma caixa de ferramentas em uma mão e um engradado de cerveja na outra. Ele estava com o boné virado para trás, uma jaqueta jeans enorme e aquele sorriso de quem achava a vida uma grande piada de tiozão. Logo atrás dele, pisando com o dobro de cuidado para não sujar o chão (mas falhando miseravelmente), vinha o Jasper. Jasper usava um sobretudo bege, uma expressão de profundo sofrimento existencial e olhava para o relógio de pulso como se estivesse contando os minutos para a sua execução.

— Emmett! Jasper! — Bella exclamou, desviando os olhos de mim, visivelmente grata (ou irritada) pela interrupção. — O que vocês estão fazendo aqui? E por que o Edward está tendo um colapso nervoso no meio da minha sala?

Emmett colocou o engradado de cerveja em cima de uma das caixas de decoração da Alice, o que provavelmente resultaria na morte dele se a minha irmã descobrisse, e olhou para mim. Ele avaliou meu cabelo grudado na testa, meu casaco de couro pingando e a minha cara de quem tinha acabado de ver um fantasma.

— Ah, sim. O diagnóstico clínico do Cullen — Emmett riu, dando um tapa tão forte nas minhas costas que quase me fez expelir um pulmão. — A Sra. Cope me ligou no meio do meu treino na oficina. Ela disse: "Emmett, o Dr. Cullen teve uma síncope mental por causa de um convite e saiu correndo como se o hospital estivesse pegando fogo". Eu sabia exatamente para onde ele vinha.

— Ele veio aqui dizer que o Jacob usa bermudas cargo e por isso eu não possocasarcom ele, Emmett! — Bella reclamou, jogando as mãos para o alto, exasperada. — O Edward perdeu o juízo!

Jasper deu um passo à frente, pigarreou elegantemente e ajustou o colarinho. Ele olhou para mim com aqueles olhos caídos de psicólogo cansado.

— Edward. Sua linguagem corporal exibe claros sinais de um ataque de pânico agudo misturado com uma crise existencial tardia de meia-idade. E, como seu cunhado, eu sou legalmente obrigado pela Alice a garantir que você não cometa um homicídio ou seja preso antes do casamento. Portanto, nós vamos sair daqui. Agora.

— Eu não vou a lugar nenhum! — tentei protestar, mas o Emmett já tinha passado o braço enorme dele pelo meu pescoço, aplicando uma gravata amigável, mas absolutamente inescapável, que me arrastou em direção à porta.

— Vai sim, doutor. Você está precisando de fluidoterapia de emergência — Emmett declarou, arrastando-me como se eu fosse um saco de batatas encharcado. — E por fluidoterapia, quero dizer seis canecos de chope escuro no Bar do Mike. Vamos, Jasper, pegue o braço esquerdo dele!

— Eu preferia estar no meu consultório tentando entender os surtos da Alice...— Jasper resmungou, mas agarrou meu casaco, ajudando Emmett a me empurrar para fora da casa.

— Edward! — Bella gritou da porta, enquanto éramos açoitados pela chuva de Forks a caminho da caminhonete do Emmett. — Você limpa a minha sala depois! E tome um antitérmico, você está delirando!

Emmett me jogou no banco do meio da caminhonete antiga dele. Jasper entrou pelo lado do carona, batendo a porta e soltando um longo suspiro de desespero. Emmett deu a volta, pulou no banco do motorista e ligou o motor, que roncou como um dinossauro com asma.

Eu apoiei a cabeça no painel áspero da caminhonete, sentindo o cheiro de pinho e graxa do Emmett, e fechei os olhos.

— Eu sou um homem morto — murmurei contra o plástico do painel. — Eu sou um homem morto com diploma de medicina.

— Você não está morto, Cullen — Emmett disse, engatando a marcha com uma violência desnecessária e arrancando com o carro. — Mas você acabou de entrar oficialmente na maior enrascada da sua vida. E adivinha só? Eu vou adorar assistir a isso de camarote. Jasper, abra uma cerveja para o doutor antes que ele tente pular da caminhonete em movimento!

E assim, ao som do motor velho e do silêncio fúnebre do Jasper, fomos em direção ao bar. O plano de sabotagem do casamento estava prestes a nascer, mesmo que eu ainda não soubesse disso.

Notas finais
💙 E assim começa a maior crise da vida do Dr. Edward Cullen. Foram necessários apenas um convite de casamento, uma tempestade, um surto emocional e uma invasão de domicílio para ele finalmente admitir o que todo mundo provavelmente já sabia. Mas calma... ele ainda não confessou nada para Bella, continua sendo o padrinho do casamento e agora está sendo arrastado para um bar por Emmett e Jasper. O que poderia dar errado? Nos vemos no próximo capítulo!