O Caminho do Mago

2 Merlin em Camelot


Notas iniciais
O jovem mago Merlin chega ao reino de Camelot. Ele ainda está aprendendo a viver com a magia, mas uma triste realidade o espera.


\"Sempre que você fecha os olhos/ Sempre que para e escuta/ Sempre que se sente vivo/ E sente que não perdeu nada/ Você não precisa de motivo/ Deixe o dia fluir.\"¹



Merlin havia saído da casa de sua mãe há muito tempo. Caminhara por dias e noites, tendo por companhia somente a natureza. Trazia consigo a carta de sua mãe para o Senhor Gaius. Ele morava num reino próspero chamado Camelot. Todos já haviam ouvido falar naquele reino. Sobre como o rei local era muito rígido, e em como os deuses o haviam favorecido com sucesso e riqueza. Todos comentavam que morar numa terra como Camelot deveria ser reconfortante e tranquilo.


Bem longe, ele viu as muralhas de Camelot. Eram altas, construídas com grossas pedras. O céu estava azulzinho. As nuvens brincavam no céu ao sabor dos ventos. A brisa fresca espalhava sua franja, e fazia revoada de flores atingi-lo na face, como se flores tivessem asas como borboletas, ou rouxinóis. Os passarinhos cantavam e o sol banhava tudo com seu manto dourado. A magia daquela manhã o inebriava profundamente. Merlin fechou os olhos e iniciou a bailar, como as sílfides e os silfos faziam. Na verdade, quase podia sentí-los ao seu redor.


Ao abrir os olhos, viu-se diante dos portões de Camelot. Haviam guardas de prontidão, aldeões e mercadores. Velhas matronas, crianças, e animais domésticos passeavam por ali. Alguns brincando, outros gritando, muita conversa e cantos. Merlin sentiu vontade de cantar também. Primeiro começou assoviando, para depois imitar o canto dos pássaros. A música inexistente, inventou na hora, apenas seguia sua inspiração. Não sabia o que o esperava em Camelot, mas sua chegada até ali fora magnífica. Até o dia de sua morte, sempre se lembraria da emoção de sua entrada no reino encantado.

\"Deixe a chuva cair/ Em todo o lugar ao seu redor/ Renda-se agora/ Deixe o dia envolvê-lo/ Você não precisa de motivo/ Deixe a chuva fluir.\"

Merlin andava totalmente abobalhado com a grandiosidade de Camelot, quando alguém o chamou.


_ Ei, você aí. É você mesmo. Pegue aquele prato ali.


Merlin primeiro parou de andar. Ficou olhando para seu interlocutor, e apontou o dedo para si mesmo, numa pergunta muda: \"sou eu mesmo, que você está chamando?\". Com a confirmação, passou a procurar o prato a que o outro se referia. Viu um pequeno prato de metal fino, largado no chão ao lado de caixas toscas de madeira. Pegou o prato e mostrou-o ao outro rapaz, como se perguntasse: \"é esse aqui?\". Subitamente, o outro rapaz, sem qualquer aviso, mirou um arco e flecha em Merlin, e disparou. O jovem mago ficou surpreso, mas reagiu por instinto. Suas íris tornaram-se amarelas e a flecha que vinha velozmente em sua direção, desviou-se e atingiu o chão, a poucos centímetros dele.


_ Maldição! _ O arqueiro praguejou. Então já mirava novamente em Merlin.


Alguém aproximou-se do mago e tomou o prato de sua mão. Então arremessou o prato para o céu. A flecha do arqueiro atravessou o prato no meio. Merlin ficara tão surpreso, que não falara nada. Olhou para seu salvador, e viu um jovem com cabelos lisos na altura do pescoço, e uma grande franja.


_ Esse é o meu serviço. Atirar pratos para ele acertar. Desculpe por deixá-lo na mira dele. _ O seu jovem salvador lhe falou.


_ Oi! Meu nome é Merlin. Muito obrigado por me ajudar. Como é o seu nome?


_ Eu não sou ninguém e você também não é ninguém. Apenas fique fora do caminho dele e você viverá mais. Meu nome é Pat.


_ Vamos criado, temos que ir para o treino de esgrima. _ O arqueiro chamou Pat.


_ Já estou indo Senhor. _ Pat apressou-se a dizer, e saiu correndo em direção ao arqueiro.


Muitos outros homens armados de arco e flecha e espadas, também acompanharam o arqueiro. Somente nesse momento Merlin compreendeu que eram sua comitiva. O arqueiro deveria ser um cara muito rico.

\"Apenas tire o tempo/ da balbúrdia/ Cada dia que você acha/ que tudo está perfeito/ Você não precisa de motivo/ Deixe o dia fluir.\"

Merlin continuou andando e quase foi atropelado por um grupo de homens armados. Eles corriam em direção a um homem simples que estava tentando escalar os muros de Camelot. Atingiram-no com flechas e lanças. O jovem mago ficou perplexo. Se ao menos soubesse o que iria acontecer, poderia ter ajudado aquele desgraçado. Como as pessoas se achavam no direito de matar pobres homens que tentam salvar as próprias vidas? Sentiu vontade de chorar. Tinha medo de se emocionar, pois assim ele fazia mágica acontecer descontroladamente. Colocou a mão na boca e fechou os olhos. Tentou se lembrar de coisas boas: \"Silfos e sílfides brincando comigo, me fazendo mergulhar no lago, apenas para descobrir que estava em minha caminha\". Esse pensamento o acalmou.


O jovem mago continuou sua caminhada. Resolveu perguntar por Gaius. Informaram-lhe que o velho homem morava ali perto. Merlin chegou no local referenciado e bateu na pesada porta de madeira. Ninguém o atendeu. Ele percebeu que a porta estava apenas encostada. Entrou e olhou em volta. Era uma grande confusão de pergaminhos, vidros de diversas formas e cores, mesas bagunçadas, roupas amontoadas, panelas e pratos empilhados. Alguns baús, alguns objetos esquisitos, e uma grande escada tosca que chegava ao teto. No topo da escada, um homem velho e gordo, que perdeu o equilíbrio e despencou lá de cima.


Merlin nem piscou. Suas íris amareladas fizeram o tempo parar. O velho ficou parado em pleno ar, com os cabelos canosos arrepiados devido à queda, e sua grande túnica alargada devido à corrente de ar. Merlin olhou em volta procurando alguma coisa. Viu uma cama de madeira com colchão de palha, em um canto. Seu olhar dourado fêz a cama correr até o local onde o velho iria cair. Merlin piscou. O velho caiu na cama quebrando-a, mas se tivesse caído ao chão, com certeza teria quebrado as costelas. Ele levantou-se e compôs as roupas. Olhou para Merlin franzindo o cenho.


_ Quem é você? Ou melhor dizendo, o que diabos é você?


_ Eu me chamo Merlin, e trouxe uma carta de minha mãe Hunit para o Senhor Gaius. Aqui está.


_ Merlin filho de Hunit? Você só deveria chegar na quarta feira.


_ Hoje é quarta feira senhor.


_ Oh! _ O velho homem pegou o papel que Merlin lhe entregara. Leu silenciosamente a carta de sua grande amiga. Depois olhou para Merlin.


_ Bem vindo a Camelot, meu jovem.

\"Cada sol de verão/ Cada entardecer de inverno/ Cada primavera por vir/ Cada despedida de outono/ Você não precisa de motivo/ Deixe tudo fluir.\"

Nos dias que se seguiram, Merlin foi acomodado na casa de Gaius. O velho homem era o curandeiro do rei. Ele era o responsável pelo bem estar real, bem como tratava de curar todas as mazelas que atingiam aquela gente. Ele tornou Merlin seu aprendiz, e o mandava fazer pequenos serviços, tais quais entregar remédios e beberagens para diversas pessoas no reino. Merlin descobriu que Gaius era muito respeitado e todos o tinham em alta consideração e gratidão. Entretanto algo incomodava o velho mestre.


_ Merlin, aquilo que você fêz no dia em que chegou, como faz aquilo?


_ Eu não fiz nada, não sei do que está falando. _ Merlin tinha medo de se expor.


Não era bom ser diferente. No fundo temia que o velho homem o expulsasse de sua casa.


_ Estou falando disto. _ Gaius arremessou um jarro de água através da sala.


Merlin agiu por instinto. Seu olhar dourado parou o jarro de água no espaço vazio. Fazendo com que a água maleável ficasse parada em pleno ar, como se alguma coisa a segurasse. Merlin olhou para Gaius que o observava, então piscou, o que fêz o jarro de água espatifar-se no chão. Mas não tinha mais jeito, ele havia se exposto. Levantou-se e pegou um pano velho e um balde, e passou a enxugar a meladeira. Gaius aproximou-se dele e levantou-o do chão. Inquiriu-o com o sobrolho arqueado.


_ Você é um mago?


_ Sou.


_ Quem o ensinou?


_ Ninguém. Eu nasci assim.


_ Isso é impossível.


_ É a verdade. E isso é uma maldição.


_ Talvez seja o destino. _ Gaius ficou sério por um momento. Deu meia-volta, então voltou-se para Merlin. _ Meu jovem, o rei de Camelot, Uther Pendragon, baniu a magia dessas bandas. Nenhuma mágica é permitida. Se alguém for acusado de fazer magia, será preso e sumariamente executado. Você nunca deve dizer a ninguém que é um mago.


Merlin o ouvia com um nó na garganta. Como ele poderia negar o que ele era? Como se inibe o que você tem dentro de si?

\"Que dia/ Que dia pra se apreciar/ Que caminho/ Que caminho/ Para se percorrer/ Que dia/ Que dia pra se apreciar/ sendo uma criança selvagem.\"


Fim do Capítulo

Notas finais
¹"Wild Child" canção de Enya.