O Caminho do Mago
3 O filho do rei
Notas iniciais
O jovem de cabelos negros cortados rentes à nuca, e curta franja na fronte andou a passos rápidos em direção à feira comunal do reino de Camelot. Ele passou lépido pelo verdureiro com vagens e nabos, deu um pequeno salto próximo ao fruteiro com pêras e grapefruits, e parou candidamente na frente do vendedor de condimentos. Ele avaliou o sortimento do comerciante e saiu recolhendo o que lhe interessava. O vendedor de condimentos franziu o sobrolho, e ficou inquirindo sem palavras ao jovem aprendiz. Merlin percebeu que estava sendo observado e deu um singelo sorriso, junto com uma explicação.
_ São para meu mestre Gaius. Ele me entregou dinheiro para paga-lo. Tome.
Então o jovem comprido e magrelo entregou ao velho homem um pequeno saquinho de tecido aveludado, cheio de moedas de metal valioso. O vendedor conferiu o conteúdo e por fim resolveu dar um sorriso contrariado ao rapazola.
_ Mestre Gaius deveria ser mais generoso, mas eu estou em débito para com ele, então deixemos assim.
Merlin continuou a recolher o que lhe interessava, muitas ervas, pós, cascas, sementes e flores secas. Deu um grande sorriso ao vendedor quando já tinha tudo de que precisava, então tão rápido como veio ele se foi, como se uma ventania o tivesse carregado para longe. Ele sentia a magia pulsar dentro de si. Rodopiava, saltava, corria tão levemente que quase não tocava o chão, acompanhando as correntes de vento naquele reino protegido por muralhas. Algumas pessoas que o percebiam ficavam maravilhadas, como se ele fosse um jovem silfo, mas nem todos o viam, dada a ligeireza de seus movimentos. E assim ele chegou a toca de Gaius.
Gaius ao observar seu jovem protegido ficou preocupado. Achou melhor corrigi-lo antes que o próprio rei Ulther Pendragon o descobrisse, pois no reino de Camelot a magia não era permitida, e a desobediência a essa lei era punida com a morte.
_ Merlin você é um imprudente desastrado.
_ Mestre Gaius? O que eu fiz de errado?
_ Você não pode andar desse jeito por aí. Qualquer um percebe que você está usando magia.
_ Mas eu não usei magia, eu juro.
_Conscientemente não, mas seus atos..., seus passos..., qualquer um percebe que você é um ser mágico, e você já sabe o que acontece com mágicos.
_ Tudo bem eu sou culpado, mas eu apenas estava feliz... eu sinto muito.
_ Toma, leva esse material para o depósito e guarde-o em seu respectivo lugar.
_ Sim mestre Gaius.
Gaius sabia que estava sendo duro, mas ele o fazia pelo bem do rapaz. Mais tarde jantaram pão e galinha ensopada. Gaius resolveu instruir seu jovem aprendiz.
_ Sabe Merlin, nem sempre Albyon foi assim.
_ Nossa amada terra Albyon já foi de outra maneira?
_ Sim, era selvagem, indomada, cheia de mistérios. Um dia havia neve, no outro havia chuva, e no terceiro dia havia fogo caindo do céu. As pessoas que aqui viviam não sabiam como lidar com uma terra tão instável. Eles plantavam e reuniam animais para domestica-los, então a neve ou o fogo do céu os matavam. Todos eram muito pobres, e nem todos sabiam como construir casas, de modo que muitos viviam em árvores, em cavernas, em montanhas e debaixo da terra, em buracos.
_ Nossa! Eu nunca imaginei isso.
_ Imagine quantos morreram quando chovia tanto que alagava a terra.
_ E como eles conseguiram dominar a terra e controlar o clima? Graças à magia?
_ Não, graças ao dragão.
_ Dragão?
_ Sim, naqueles tempos haviam muitos dragões, de todos os tipos. Dragões aquáticos, dragões alados, dragões subterrâneos, dragões que cuspiam fogo, dragões que cuspiam gelo, até dragões que cuspiam sangue.
_ Oh, puxa vida!
_ Sim. Tudo isso existia no naquele tempo. Mas como eu estava lhe contando, um dia um dragão diferente e muito poderoso apareceu por essas bandas. Seu nome era Raswair. Ele era um dragão tão especial que podia falar a língua dos homens. Ele ensinou aos homens como fazerem rituais e oferendas para os deuses da imensidão que nos cerca. Assim, para que não neve na plantação fazemos uma festa da primavera; para que não caia fogo do céu nos animais domésticos, fazemos a imolação do mais gordo e bonito animal; para que não chova demais e nos afoguemos na enxurrada, fazemos a cerimônia dos entes sagrados. Foi dessa forma que Alcyon foi apaziguada e os homens puderam prosperar e expandir.
_ E esse poderoso dragão já morreu?
_ Não, ele simplesmente voou para bem longe. Com certeza foi procurar outra terra selvagem para domesticar e apaziguar. É claro, todos esses eventos são muito antigos, e me foram contados por meu avô na minha infância.
_ Mestre Gaius, o rei Ulther Pendragon... ele tem esse nome em honra ao dragão?
_ A família dele tinha esse nome em honra ao dragão.
_ Então se o nome dele provém de um ser mágico... como ele pode ser contra a magia?
_ Essa é uma longa história que eu vou contar um outro dia. Por agora, é melhor lavar a louça do jantar Merlin.
Naquela noite Merlin teve um sono inquieto. Sonhou com Camelot em chamas, alagada por águas transbordantes de rios, e a neve castigando e matando seus habitantes. Merlin viu-se impotente para reverter todo aquele cataclisma. Ele tinha os meios, mas os desastres eram de tão grande monta que ele não conseguia impedi-los. Ficou desesperado chorando sozinho, parado em meio aquelas atribulações. Então surgindo do seio da terra veio um enorme e monstruoso ser alado que soltava fogo pela boca e gelo pelo nariz. Ele sobrevoou as terras devastadas e com seu vôo em velocidade assombrosa, ele criou um enorme tornado que sugou toda a neve e água da terra, e com seu movimento ininterrupto apagou a grande fogueira em que se transformara Camelot.
Quando tudo havia acabado o dragão planou soberano no átrio do castelo e posou na terra, bem em frente a Merlin, que o olhava assombrado e aterrorizado. Nunca havia visto um ser tão poderoso e tão terrível. O dragão imponente tinha olhos amarelos com íris verdes. Ele olhou para Merlin de uma forma inteligente e disse seu nome: \"Merlin\".
O jovem aprendiz acordou assustado e todo suado. Suas mãos estavam geladas e seus pés estavam molhados. A voz poderosa do dragão ressoava em seu cérebro, chamando-o. O rapaz ponderou se seria sábio contar o sonho a Mestre Gaius, mas considerou apenas que ficara muito impressionado com as histórias do velho homem, e por isso tivera um sonho tão vívido, proporcionado por seu pendor mágico.
Nos dias que se seguiram, Merlin continuou escutando o chamado do dragão em sua cabeça, e por vezes deixava de responder quando o chamavam, pois considerava tudo fruto de sua imaginação. Gaius percebeu sua inquietação e estado alterado, mas em vez de lhe perguntar resolveu lhe preparar uma beberagem, pois achava que eram mudanças da idade em corpo de menino que se torna rapaz.
Em um desses dias em que estava ensimesmado, Merlin cruzou o caminho de Pat novamente. O rapaz corria de um lado para outro na via pública, com uma espécie de enfeite na cabeça. Merlin percebeu que era uma maçã, quando uma flecha a acertou partindo-a ao meio. Pat estava lívido, como se a flecha tivesse perfurado sua fronte. Ele com as mãos trêmulas prendeu outra fruta na cabeça e principiou a correr. O arqueiro importante mirou em Pat de qualquer forma e disparou a primeira seta, enquanto já puxava a segunda para disparar contra o pajem.
Merlin nem pensou muito, suas iris ficaram douradas e tudo aconteceu. A primeira seta errou o alvo e atingiu um barriu de banha que começou a vazar. A segunda seta foi desviada por uma corrente de vento que a levou a fazer uma curva. Voltando para aquele que a disparou. O arqueiro ficou estupefato, tendo que baixar a cabeça na última hora para não ser atingido pela flecha, que se prendeu em uma estaca as suas costas.
_ Chega de colocar a vida dos outros em perigo. _ Merlin gritou para o arqueiro.
De repente tudo ficou silencioso. Não se ouvia viva alma. Pat procurou voltar para perto do arqueiro, já com outra fruta presa à cabeça. Ele estava cabisbaixo e temeroso, tanto que tremia como vara verde. Os outros arqueiros fizeram uma roda em volta de Merlin e do arqueiro importante. As pessoas na rua correram esbaforidas e trancaram-se em suas casas. Poderia dizer que de cada janelinha de Camelot alguém espiava o acontecimento na rua.
_ E quem é você para me dirigir a palavra? _ Perguntou o arqueiro importante.
_ Eu não sou nada, nem ninguém, mas o que o senhor faz é errado. Poderia acabar matando seu pajem. _ Merlin respondeu altivo, então subitamente sentiu muitas lâminas na cintura, no peito e no pescoço. Eram a comitiva do arqueiro que agora cercavam Merlin com suas espadas desembainhadas.
_ Como ousa dirigir a palavra ao filho do rei? _ Perguntou um dos cavaleiros.
_ O que? O filho do rei? _ Merlin perguntou atordoado. Pronto estava frito. Se suspeitassem que usara magia para proteger Pat seria queimado em praça pública.
_ Deixem-no! Tenho uma idéia melhor para ele. _ Soou a voz imponente do filho do rei.
Os arqueiros da comitiva real libertaram Merlin, e um deles pegou uma fruta vermelha e esfregou-a no peito de Merlin, manchando sua túnica de vermelho.
_ Pronto Arthur, já tem seu alvo, pode mirar. Corra rapazinho se tem amor à vida. _ Falou-lhe um dos arqueiros.
Merlin viu o filho do rei posicionar o arco e flecha, então ele começou uma correria de tonto, fazendo zigue-zague pelas ruas, tal qual Pat fizera antes, mas dessa vez o alvo a ser acertado era seu peito. Por duas vezes a seta de Arthur quase o acerta, mas no último instante elas desviavam para a lateral. Merlin olhou uma viela conhecida que o levaria à toca de Gaius, desabalou para lá. Gaius estava no lado de fora, esperando por Merlin que já estava atrasado, quando o rapazinho surgiu na sua frente e pulou nos seus braços, no mesmo instante em que 3 setas disparadas contra ele iam encontrando o alvo. Gaius pronunciou três palavras bem baixinho, fazendo com que as setas desviassem para cima e perdessem o impulso, caindo um pouco longe, sem acertar nada.
Gaius então ficou de pé, com Merlin abraçado a ele, como um menininho assustado, olhando para trás no exato momento em que Arthur Pendragon e sua comitiva o alcançavam.
_ Você conhece esse fedelho insolente Mestre Gaius? _ Perguntou um arqueiro, Sir Percival.
_ Sim, é meu aprendiz e afilhado. Sua mãe o entregou aos meus cuidados. _ Respondeu Gaius em tom reverente.
_ Saiba que ele desacatou o príncipe. Merece ser punido. Entregue-o a nós. _ Ordenou Sir Percival.
Gaius olhou para o filho do rei e seus cavaleiros, e então para Merlin, que tremia como vara verde, abraçado a sua cintura.
_ Merlin, você é como um filho para mim, mas deve acompanhar os cavaleiros do rei. Para todo erro há uma punição. _ Gaius falou a Merlin.
O rapazinho o olhou confuso, então virou-se para os cavaleiros e o príncipe.
_ Meu erro foi dizer que matar é pecado, mesmo sendo a vida de um simples pajem. Se a punição para isso é a morte, então serei punido com o pecado do filho do rei. Se minha vida nada vale, que a honra do filho do rei não seja maculada com semelhante pecado. _ Merlin falou sabendo que não tiha mais nada a perder.
_ Cale-se insolente! _ Ordenou Sir Percival, dando um passo para atingir Merlin com uma bofetada, mas Gaius protegeu seu aprendiz com o próprio corpo.
_ Como ousa protegê-lo? _ Interpelou Sir Percival sacando da espada.
_ Já chega Percival. _ Falou Arthur. _ Vamos embora.
Arthur Pendragon deu um último olhar para Gaius e seu aprendiz e então afastou-se em direção ao castelo, seguido por seus cavaleiros.
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