O Caminho do Mago
14 Envenenado
Notas iniciais
Quando Merlin caiu ao chão, as pessoas a sua volta não entenderam o que estava acontecendo. Acharam que ele havia tropeçado e caído, e que logo se levantaria. Ou entenderam errado, e julgaram que ele estava muito bêbado e que por isso desmaiara, em torpor alcoólico.
Gwen percebeu que algo estava errado, pois o rapazinho não se levantou do chão passado alguns minutos. Ela correu esbaforida e ajoelhou-se ao seu lado, sacudindo-o e chamando seu nome. Ao verificar que ele estava mal, pediu que alguém chamasse seu tutor, o curandeiro real, Gaius.
— O que houve?
— Eu não sei, estávamos conversando, ele estava bem, me afastei um pouco e de repente, ele estava caído no chão assim.
— Merlin! Merlin! — Gaius chamou freneticamente, sem sucesso.
— Não adianta Gaius, ele parece quase... Morto. — Gwen falou num fio de voz.
— Não diga isso! Alguém, por favor, me ajude a levá-lo para casa.
Gaius levou Merlin ao seu estúdio. Depositou-o em sua caminha, no meio da sala. Começou a preparar beberagens para o que ele achou que fosse a causa de seu desfalecimento. Gwen ficou em sua cabeceira, ajeitando mantas, retirando roupas apertadas, sapatos e cintos. Fizeram de tudo para ajudar Merlin em seu estado. Nada adiantou.
No dia seguinte, Merlin apresentou febre alta, com delírios. Ele chamava pela mãe e por Gaius. Chamou algumas vezes por Arthur e Morgana, e também Pat e Gwen. Mas foi quando ele começou a delirar sobre Nimueh, que Gaius prestou atenção.
-... Eu tenho nojo de você, Nimueh... Sua mágica enlouquecedora... Não quero nada de você, Nimueh... Eu repudio sua mágica... Eu não sou como você... Você é má, Nimueh...
— Gaius, o que é isso que ele está dizendo? Quem é essa Nimueh? — Gwen inquiriu o velho curandeiro.
— Apenas uma história infantil que contei a ele... Sobre uma bruxa má, sedutora de criancinhas. Acho que ele ficou impressionado.
— Ele é muito impressionável. Precisava ver a agitação dele, tentando contar ao Príncipe Arthur sobre a espada encantada de Excalibour. — Gwen terminou o relato sacudindo a cabeça negativamente, como se desaprovasse o comportamento de Merlin.
Gaius observou Gwen, ponderando se deveria contar a verdade a ela. Considerou que não. Era melhor manter segredo sobre a natureza de Merlin.
— Gwen, acho melhor voltar ao castelo. Devem estar sentindo sua falta por lá, também.
— Tudo bem, eu vou. Mas quando Lady Morgana souber o que aconteceu a Merlin, ela mesma me dará ordens para vir cuidar dele. Ela gosta muito do rapazinho, como se fossem amigos.
— Tudo bem, obrigado pela ajuda e preocupação. — Gaius despediu-se de Gwen.
Nem bem Gwen saiu de seu estúdio, Gaius foi para a cabeceira de Merlin, e falou baixo, para somente o rapaz escutá-lo.
— Merlin, conte-me sobre Nimueh. O que aconteceu?
O rapazinho em seu delírio pareceu escutar seu velho mestre.
-... A caverna encantada... Nimueh... Ela quer me dar algo... Quer que eu aprenda... Que eu saiba... Que eu seja... O ser mais poderoso do mundo...
-... E o que você fez Merlin?
-... Eu a repudio... Eu a rejeito... Eu não aceito...
— Você ofendeu Nimueh, Merlin. Isso foi mal. Ela vai querer vingança.
-... Nimueh... Na festa... Avisar Gaius...
— Ela fez isso a você, Merlin?
-... Ruiva... Garota ruiva...
Por achar que Merlin tinha embarcado em outro delírio, Gaius parou de interrogá-lo. Ele tinha certeza que Nimueh havia feito algo muito ruim a Merlin, talvez até mesmo uma maldição.
Merlin estava flutuando, como se estivesse dentro d’água, mas ele não via bolhas de ar, ou peixes, algas, etc. nada ali indicava que estivesse em ambiente aquático. Existia apenas paz e tranquilidade. Tudo era azul esverdeado, sua cor favorita. Talvez por que fosse a cor das águas do lago, ou por que era a cor do céu. Então o azul-verde tornou-se azul celeste, e daí azul cobalto, e azul anil, até ficar totalmente negro. Todavia ele não se assustou. Estava calmo. Viu o ambiente estrelado novamente. Percebeu que o local onde estava foi se afastando vertiginosamente dele, até transformar-se aos seus olhos em um globo azul. Ele morava em um globo azul, e via seu mundo de muito longe, no céu, próximo às estrelas.
Ao longe viu outros globos de cores variadas, e alguns eram feitos de fogo, chegando a iluminar uma grande quantidade de globos próximos a eles. Percebeu que eram outros mundos, como aquele mundo onde vivia.
— Era isso que você estava me mostrando Nimueh, mas você não me disse nada, para me deixar confuso, ou despertar minha curiosidade.
Merlin resolveu voltar para seu mundo. Passou a descer velozmente para o globo azul, até que ele ficasse maior do que ele, e pudesse enxergar os oceanos, os continentes, sua amada Albyon, tão pequena e tão importante na sua vida. Aproximou-se do estúdio de Gaius, e observou-o cuidando de si. Percebeu que seu corpo estava doente, e que era sua mente quem estava se aventurando no espaço. Resolveu procurar as pessoas que eram importantes para si. Foi até o castelo real.
Voou até onde estava o príncipe Arthur, em um treino de espadas com Sir Gawain. O Príncipe estava feliz e cansado pelo esforço. Merlin ficou feliz por ele, como se aquela felicidade fosse contagiosa. Alguém entrou correndo na ala de treinos. Era Lady Morgana. Ela estava em lágrimas. Merlin começou a chorar também, no mesmo instante, sem nem saber por que.
— Arthur, Merlin está muito mal. Ele está morrendo! — Morgana falou chorosa.
— O que? Que história é essa?
— Ele ficou doente ontem no Samhaim. Gwen minha pajem me contou. Você precisa fazer alguma coisa, Arthur.
— Se eu fosse um curandeiro eu o faria no mesmo minuto, mas eu não conheço a arte da cura. Acho que Gaius é mais útil do que nós. Mas vamos até lá.
Merlin tentou acompanhá-los, mas Morgana não parava de chorar, fazendo com que o rapazinho chorasse copiosamente também. Por isso afastou-se. Lembrou-se de Pat e desejou ir até onde ele estava. Viu-se voando velozmente para o sudeste, atravessando oceanos e continentes. Até chegar a um local subterrâneo, sob uma cidade esquisita. Havia um brilho estranho, amarelo-dourado, que emanava do lugar onde estava Pat. Tentou ir até lá, mas o brilho não o deixava continuar. Percebeu que ele, Merlin, também brilhava, mas seu brilho era azul-esverdeado, e que isso não combinava com o brilho do local de Pat. Achou que fosse um tipo de magia desconhecida, e que era melhor manter-se afastado por enquanto. Por isso foi embora.
Retornou para Albyon. Agora que estava em forma de pensamento, e não em forma de corpo de carne e osso, poderia ir para onde quisesse. Pensando assim, resolveu procurar por Nimueh, pois achava que em sua atual forma, ela não pudesse atingi-lo. Voou até a caverna encantada. Percebeu com desgosto, que tanto a ilha, e principalmente a caverna, tinham um brilho esverdeado, e que esse brilho combinava com o seu, aumentando ainda mais o tom colorido de sua aura.
Merlin adentrou a caverna e observou Nimueh adolescente contemplando o conteúdo da bacia. Para seu espanto, Nimueh... Parecia ser três pessoas em uma. A velha com verrugas cabeludas, a matrona obesa, e a adolescente macérrima. Ela tinha uma aura de tom esverdeado escuro. Merlin gostaria de confrontá-la, mas não sabia se poderia produzir magia naquele estado alterado em que se encontrava.
— Mago Merlin, eu sinto a sua presença nesta caverna, embora não possa vê-lo. — Nimueh falou de olhos fechados.
Merlin assombrou-se com aquilo, e achou que era melhor sair rapidamente dali, pois havia perdido a vantagem da surpresa.
— O que? Tem medo de mim, rapazinho? Acho que superestimei você. Pensei que tivesse valor e fibra, depois que vi o seu futuro. Mas vejo agora que todo o seu sucesso foi fruto do acaso, e que você não resistiria a um confronto com magia poderosa. Quem diria que uma simples plantinha pudesse te lançar a beira da morte? E sua vida depende de Gaius. O inútil aprendiz de feiticeiro que sabe apenas fazer beberagens. Ahahahahahahahahahaha! Morra em paz mago Merlin. Ahahahahahahah!
Gaius estava debruçado em livros velhos e carcomido. Pertenciam a seu antigo mestre, que os havia legado para ele. Estava diante de uma página dedicada a envenenamentos, com uma descrição de sinais físicos e sintomas de doenças. Ao virar a página, deparou-se com o desenho de uma folha de erva muito rara e perigosa, famosa por produzir morte por envenenamento, após um período de grande sofrimento e agonia.
— Eureca! — Gaius gritou empolgado.
No mesmo instante, Arthur e Morgana irromperam no recinto.
— Senhor Gaius, desculpe-me por entrar em seu local de trabalho desse jeito... — O Príncipe começou a falar, tentando ser polido e gentil, mas lady Morgana o interrompeu com um grito.
— Merlin! — Morgana precipitou-se sobre o corpo do rapazinho esquálido e ensopado em suores frios. Ela começou a chorar.
— Lady Morgana, por favor, controle-se! — O príncipe segurou-a pelo ombro, tentando retira-la daquela posição.
— Milady, por favor, acho que já sei o que aconteceu com ele. E creio que posso curá-lo também.
— Eu lhe disse Morgana. Gaius é a pessoa certa para cuidar de Merlin. — O príncipe falou genuinamente feliz.
— Sim! Acabo de descobrir que Merlin foi envenenado com a folha de Cailleach.
— O que? Mas... Isso é um veneno poderoso, assim ouvi dizer. Não há cura para isso. — Morgana interpelou.
— Sim, é sabido que não há cura. Entretanto existe uma chance de Merlin sobreviver. — Gaius falou esperançosamente.
— Faça o que for preciso, Gaius. Salve Merlin! — Arthur pronunciou-se.
— A cura, majestade, provém da flor de Caith Sith. É uma flor muito rara, uma vez encontrada nos limites de Albyon. Esta é a única chance de Merlin. Amanhã iniciarei minha peregrinação para achar esta flor.
— Espere! Quanto tempo Merlin aguentará até que encontre e traga esta flor? — Morgana inquiriu.
— Sete dias.
— Quanto tempo gastará nesta viagem de ida e volta? — Morgana perguntou já sabendo a resposta.
— Quinze dias, mas usarei um cavalo bem rápido, e não pararei para descansar. Com sorte eu faço a viagem em sete dias. — Gaius respondeu, omitindo que usaria de meios mágicos para realizar sua locomoção.
— Nada disso, Gaius, eu mesmo farei isso. Sou jovem e forte. O melhor cavaleiro do reino. Eu mesmo trarei a cura para Merlin. — O príncipe falou seriamente.
— Não é preciso que se arrisque majestade. Ele é apenas seu pajem. — Gaius tentou chamá-lo à razão.
— Não, ele é meu amigo. — Arthur encerrou a questão, resoluto.
Notas finais
A ideia de auras coloridas não é original, e até mesmo a ideia de auras com campos de força, já foi utilizada em outros relatos de outros autores.
Cailleach e Caith Sith são divindades da mitologia céltica.
Caith Sith é também o nome de um personagem do game Final Fantasy VII. lol.
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