O Caminho do Mago
15 Herói (Parte final)
Notas iniciais
— Não permito. Nenhum cavaleiro de Camelot colocará a vida em risco, por causa da doença de um pajem. — O Rei Uther Pendragon bateu o punho no pedestal, próximo a seu trono.
— Ele é meu amigo. — O príncipe Arthur falou com a voz baixa, mas resoluta.
— Ahahaha! Essa pilhéria já foi longe demais.
— Ele é o protegido de Gaius, seu curandeiro real.
— Nem assim. Você é meu herdeiro, Arthur. Não permito que saia em uma busca infrutífera, para salvar a vida desse moleque.
— Eu já dei a minha palavra.
— Simples, irei até Gaius e mato seu pupilo. Ele já está condenado mesmo. E você não quebraria sua promessa.
— O senhor meu pai e meu rei não me dá opções.
— Dou sim, que seja sensato e esqueça essa história.
Arthur olhou seu pai uma última vez, então baixou os olhos e retirou-se da sala. Morgana, que estava presente, entretida em bordar um grande bastidor quadrado, em um dos cantos da enorme e luxuosa sala, deixou seus apetrechos e dirigiu-se ao rei.
— Majestade, gostaria de lhe falar.
— Sim, Lady Morgana. Se for para pedir pela vida do pajem, não perca seu tempo. Este assunto está encerrado. A vida do pajem não vale nada, comparada com a vida do meu filho, o príncipe herdeiro, e futuro rei de Camelot.
— Não, não é sobre o pajem, é sobre seu filho.
— Prossiga!
— Arthur é um bom rapaz. Honesto e gentil. Ele se esforça em ser um bom cavaleiro, um bom espadachim, e um bom arqueiro, além de ser versado em artes da corte e bons modos. Todavia, seu espírito ainda é jovem e inexperiente. Ele tenta ser digno do seu nome, por isso procura ser o melhor em tudo. Aprendeu a reconhecer seus erros e a concertá-los na medida do possível. Está tentando tomar decisões e cumprir com suas obrigações. Não é a vida do pajem que está em jogo aqui, nesse momento, mas a integridade e honra de seu filho.
— Meu filho não colocará a vida em risco por uma besteira.
— Acaso, não é a vida dele que é posta em risco, nos torneios de cavalaria?
— Mas os torneios de cavalaria são uma tradição. Faz parte de suas obrigações como nobre.
— Cria seu filho para cumprir obrigações tradicionais, colocando sua vida em risco em torneios perigosos, apenas por que todos fazem isso, embora, ele não deixe de ser seu filho, e não precisasse arriscar-se em torneios de habilidades.
— Ainda assim. Não permito que se aventure em uma busca fadada ao fracasso, por causa de um plebeu inútil.
— Seu filho está aprendendo a tomar decisões por si mesmo, e a buscar causas pelas quais lutar. Ele se interessou por esta missão, e resolveu se arriscar por algo que considerou importante. Ao lhe proibir os atos, e lhe tolher os passos, está apenas lhe quebrando a espinha e a fibra de líder. O senhor está sabotando o futuro rei de Camelot, o grande rei que um dia ele poderia ser.
O rei Uther Pendragon arregalou os frios olhos azuis-cinzentos para sua enteada, estupefato.
No dia seguinte, O príncipe e dois cavaleiros, Sir Percival e Sir Gawain, seguiram a cavalo para longe de Camelot, em busca da flor de Caith Sith. Cavalgaram sem parar, até próximo ao local almejado, um grande platô que acabava em precipício. Viram-se atacados por uma vara de javalis, tendo que desviar-se um pouco de seu caminho, para não colocar a vida dos cavalos em risco.
Sir Percival decidiu servir de isca, a fim de atrair a vara de animais selvagens para longe dos outros. Ele cavalgou de volta a Camelot, seguido pelas feras enraivecidas. Arthur e Gawain prosseguiram na jornada. Um pouco mais adiante, foram atacados por grandes cervos galhados. Arthur maravilhou-se com a quantidade de caça existente naquela região, e se não fosse pela vida de Merlin dependendo dele, bem que gostaria de acampar por ali e caçá-los.
Os cervos não se intimidavam com os dois cavaleiros, chegando mesmo a segui-los e circundá-los, para expulsá-los do seu território. Gawain resolveu construir armadilhas para emboscar o líder da manada, e assim dispersá-los. Enquanto isso, Arthur prosseguiu sozinho, até um despenhadeiro, onde deveria encontrar a flor preciosa.
Ela estava na encosta de um despenhadeiro, próxima a um desfiladeiro que não tinha saída, sendo que o único meio de sair dali era escalando a encosta da montanha. A noite caiu e um céu nublado com uma lua nova, não tornou as coisas mais fáceis. Arthur teve que tatear a encosta no escuro. Ele conseguiu descer com dificuldade, fazendo os últimos dois metros em queda livre, que não chegou a feri-lo seriamente.
Ele apanhou a pequena flor esbranquiçada e guardou-a em seu peito. Preparou-se para subir, então algo chamou sua atenção: Merlin. O príncipe assustou-se achando que estava vendo um fantasma. A aparição era semelhante a Merlin, embora fosse esfumaçado, e tivesse um manto púrpuro com capuz e um cajado, como um mago.
A aparição permaneceu à distância e apontou para um local na encosta da montanha. Arthur intuiu que seria um caminho a seguir. Foi por ali e conseguiu ascender facilmente. Quando já estava no topo, olhou para baixo e viu a aparição novamente, até que ela desvaneceu em brumas. Arthur sentiu um calafrio e resolveu afastar-se rápido.
A volta para casa foi solitária, uma vez que Gawain ainda estava ocupado em aprisionar o líder dos cervos. Arthur demorou exatos seis dias em sua missão, chegando a encontrar Percival no caminho de volta. Ele entrou em Camelot como um herói, pois a história de sua busca se espalhou no boca a boca, como rastilho de pólvora. Entretanto o príncipe não parou para comemorar, correndo imediatamente para o estúdio de Gaius.
— Gaius, aqui está sua flor! — Arthur irrompeu esbaforido na sala de Gaius.
Este deu um salto de sua cadeira e pegou rapidamente a flor de Caith Sith, para fazer o antídoto. Morgana, que estava na cabeceira de Merlin com Gwen, atirou-se nos braços de Arthur emocionada, chegando mesmo a derramar lágrimas, mas tratou de se controlar, pois esse comportamento não ficava bem em uma dama.
— Tudo bem, lady Morgana, não fique assim, ele irá melhorar. Agora me deixe sentar um pouco. — Arthur reclamou.
— Desculpe-me, Príncipe Arthur, mas é que... Muito obrigada! — Morgana falou emocionada.
— Majestade, desculpe minha ousadia, mas gostaria de agradecer também. — Gwen manifestou-se.
— Oras... Fiz apenas minha obrigação, como futuro soberano desse reino. — Arthur tentou ser modesto.
Gaius aproximou-se de Merlin com uma bebida fumegante e esverdeada. Ajudou o rapazinho a sentar-se e empurrou o líquido em sua boca. Ele praticamente molhou-se todo, mas conseguiu engolir grande parte do antídoto. Então Gaius ajeitou-o na cama novamente, e deixou a vasilha sobre a mesa.
— Nada mais nos resta fazer, apenas esperar. — Gaius vaticinou.
Todos se retiraram logo depois, sendo que Gwen retornou para velar Merlin junto a Gaius. Merlin ainda estava inconsciente, sem dar sinais de melhora. Alguém bateu na porta. Ao abri-la, Gaius deparou-se com o príncipe Arthur.
— Como ele está? — O príncipe perguntou.
— Ainda na mesma. Temos que esperar. O remédio demora a fazer efeito.
— Quanto tempo mais?
— Não sei meus apontamentos não me deram essa informação. Mas se ele resistir ao dia de hoje, poderemos ter esperanças.
Arthur entrou na salinha e sentou-se em um dos bancos toscos. Sorriu para Gwen e assumiu uma postura séria. Dirigiu-se a Gaius, que estava de pé observando o rapaz.
— Eu o vi no desfiladeiro. — Arthur falou calmamente.
— Quem, majestade?
— Merlin. Ele estava vestido com uma capa avermelhada. Tinha um cajado. Estava bem vestido, não como um pajem, mas como... Um mago. Sim, eu já vi alguns magos na vida. Acho que pode ter sido uma assombração. O que acha Senhor Gaius?
— Sem dúvida uma assombração, majestade. — Gaius falou seriamente.
— Desculpe intrometer-me, majestade. O povo fala que alguns espíritos da floresta podem tomar a forma de pessoas conhecidas, para nos confundir e prejudicar. — Gwen deu sua opinião.
— Todavia, essa assombração me ajudou. Ele me mostrou o caminho a seguir no escuro. Foi assim que eu pude sair do desfiladeiro. — Arthur explicou.
— Então agradeça aos deuses, príncipe. Toda a ajuda que pudermos ter será bem vinda. — Gaius falou com a voz arrastada. Ele estava muito cansado.
Arthur despediu-se logo depois. Gwen permaneceu e adormeceu. Gaius desmaiou de cansaço. Pela manhã, Gwen abriu os olhos e procurou ver se Merlin estava bem, mas não o encontrou no leito.
— Mestre Gaius, Merlin sumiu! — Gwen deu o alarma. Ao levantar-se para procurar por Merlin, encontrou Gaius caído no chão da cozinha. — Mestre Gaius! Alguém ajude!
— O que houve com meu mestre Gaius? — Merlin precipitou-se para o local onde Gaius estava caído. — Gaius, por favor, acorde!
— Hã? O que? O que houve? — Gaius acordou esfregando os olhos.
Gwen chorou de alívio abraçada a Merlin, enquanto Gaius ficava de pé com dificuldade.
— Tudo bem, Gwen. Gaius está bem, não precisa chorar. — Merlin tentava acalmá-la.
Demorou algum tempo até que tudo fosse esclarecido. Gaius ficou de cama por dois dias, até que ficasse plenamente restabelecido da estafa daquela semana. Merlin e Gwen cuidaram dele. O povo de Camelot resolveu fazer uma festa comunitária, para celebrar a missão heroica do príncipe Arthur, e Morgana insistiu que Merlin participasse, junto ao príncipe e ao rei. Sir Gawain apareceu alguns dias depois, com várias cabeças galhadas de cervos, e isso foi motivo de júbilo entre os seus. Sir Percival organizou uma caçada com amigos para pegarem javalis, e o príncipe Arthur nunca mais tocou no assunto da assombração do desfiladeiro.
Um dia, algumas semanas depois daquela aventura, Merlin conversou com seu amo, o príncipe Arthur.
— Príncipe, eu ainda não lhe agradeci por ter salvado minha vida. Muito obrigado. Não esquecerei, e ficarei em débito para sempre. — Merlin falou emocionado, com as últimas palavras falhando.
— Não precisa mencionar isso. Afinal que homem eu seria se não lutasse pela vida dos amigos? — Arthur tentou ser modesto.
— Alteza, lembra-se da espada do herói?
— Sim. É difícil esquecer Excalibour, e tudo o que ela representa.
— O que acharia, se eu lhe dissesse que sei onde ela está?
— Você já falou isso na festa do palácio.
— Sim, mas eu não sabia como consegui-la. Depois da festa eu fiquei sabendo.
— E então? Onde está a espada?
— No fundo do lago, a leste de Camelot.
— Ahahaha! E como devo apanhá-la? Tomando banho?
— Não é tão simples. Sua majestade deveria merecer a espada, através de um ato de heroísmo. Agora pode pegá-la, ela é sua por direito.
Arthur olhou Merlin intrigado, achando que era uma brincadeira, mas decidiu ir até o lago, conferir até onde ia aquela história. Os dois foram a cavalo até lá. Apearam e seguiram até à margem. Próximo ao local onde estavam surgiu um brilho. Arthur olhou para Merlin, em uma pergunta muda.
— Eu não posso pegá-la. É sua. Eu já tentei e não consegui. — Merlin explicou.
Arthur desfez-se de sua armadura e armas, então mergulhou no lago. Menos de um minuto depois, um braço ergueu-se das águas, empunhando uma espada imponente. Arthur nadou até à margem com Excalibour.
— Ela é... Excalibour. É ela mesma! — O príncipe Arthur parecia uma criança manuseando a espada, e admirando seu corte. Ele era um sorriso só, de orelha a orelha.
Merlin o observava sorridente. Refletiu sobre sua vida e sua situação. Deveria ser o pajem daquele homem até o fim da vida, escondendo de todos que era um ser sobrenatural, um mago, descendente de seres poderosos e perigosos. No momento, a honra e a glória, bem como o poder de vida e morte, pertenciam aos Pendragon, e assim deveria ser, conquanto o futuro rei fosse um homem justo, bom e magnânimo.
Fim
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