O Caminho do Mago
13 Encontro na caverna encantada
Notas iniciais
As folhas das altas árvores da floresta haviam se tornadas marrons e amarelas. Elas eram varridas pelo vento, rodopiando em espirais e planando como borboletas, ao redor de sua cabeça e suas vestes, dando-lhe a impressão de que flutuava, ou mesmo voava.
Merlin deu uma rápida olhada ao redor, e ao não perceber viva alma, permitiu-se flutuar e bailar ao sabor dos ventos. Isso o levou através das copas das árvores, sobre a superfície do lago, até aportar na ilha mágica de Emrys. Ele não planejara isso, mas... Por que não? Aquela ilha era propícia para atividades mágicas. E era como se lhe pertencesse.
Merlin flutuou mais um pouco e visitou seu antigo abrigo: a caverna com a bacia encantada. Entretanto, dessa vez havia alguém lá. Uma garota muito magra e alta, vestindo uma túnica branca, que lhe deixava as esqueléticas pernas à mostra. Seus longos cabelos oleosos e carmim, emoldurando um pálido rosto de grandes e profundos olhos azuis, lhe davam uma aparência meio mortiça, meio sobrenatural.
O jovem mago aproximou-se lentamente, olhando fixamente para a jovem. Sabia quem ela era. Reconhecera-a pela sensação de perigo e ameaça que a circundava como se fosse uma aura. Resolveu evitar um confronto, por isso deu meia-volta e dirigiu-se à saída.
— Por que vai embora tão cedo, mago Merlin?
— Por que não quero lutar contra você, Nimueh.
— Que bom! Você me reconheceu. Não é mais o bobinho que conheci. Está crescendo e aprendendo.
— Eu vou embora.
— Espere! Tenho algo a lhe falar.
— Mais mentiras sobre mestre Gaius? Não estou interessado.
— Oh! Trocou confidências com Gaius e ele se defendeu. Isso era esperado, mas não é sobre Gaius que quero lhe falar.
— Eu não estou interessado em nada que tenha para me dizer. Você só trás discórdia.
— Oh! Entendo. Você me vê como todo o mal que existe no mundo. Todavia, não o vejo como inimigo mago Merlin. Na verdade pensei em vê-lo como aliado.
— Não... Não! Não quero nada com você. Eu não tenho os mesmos valores, nem a mesma ambição. Eu gosto das pessoas, gosto de vê-las bem. Você só busca a destruição.
— Não se trata disso. Pensa que eu me importo com os homens e suas guerras? Que eu perco meu tempo em planos e estratagemas para ter os tesouros da terra? Não se trata de ter ou vencer. Trata-se de aprender. Saber. Ser.
A adolescente Nimueh ergueu os dois braços acima da cabeça, enquanto elevava os olhos para o alto. Esfregou as mãos e as abaixou em seguida. A caverna transfigurou-se. Suas paredes transformaram-se em breu. Pontos luminosos surgiram aqui e acolá, aproximando-se lentamente de Merlin. Este percebeu que estava flutuando sobre o vazio. Nimueh estava uns 10 m distante dele, e ela também flutuava, sem se importar com a crescente luminosidade que se aproximava deles.
— Não tenha medo jovem mago. Isto é só uma ilusão. Não é real.
Merlin tentou controlar seus instintos que lhe diziam para fugir. “Se Nimueh não tem medo, eu também não terei”, pensava.
Os pontos luminosos ficaram tão próximos que Merlin pôde admirar lhes as formas. Eram redondos. Tinham um brilho que não lhes era próprio, mas reflexo de outro, maior e incandescente, como uma bola de fogo. As esferas refletoras tinham cores variadas, que iam do branco ao vermelho flamejante, passando por cinzento, amarelado e cor-de-água.
Uma delas era muito bonita, pois tinha uma aura azulada, embora sua cor fosse matizada de azul, branco e cinzento. Ao aproximar-se mais desse globo multicor, percebeu que havia muito verde, e que a parte azulada assemelhava-se à água. Merlin tentou tocá-la. Contudo, ao tentar encostar seu dedo naquela esfera, percebeu que estava distante. Esforçou-se para se aproximar mais e percebeu que ela aumentava perigosamente de tamanho. Merlin sentiu-se impotente diante do tamanho daquele globo, e tentou fugir correndo.
— Ahahahaha! Não seja idiota! Isso é só uma ilusão. Não precisa ter medo. — Nimueh riu-se dele.
Merlin parou de fugir e fechou os olhos, desejando que nada daquilo fosse real. Ao abri-los, percebeu que não estava mais no vazio negro e estrelado, mais em uma descida vertiginosa, através de lugar nenhum. Seus cabelos se arrepiavam como se estivesse caindo de um despenhadeiro ou em um poço. Teve medo mais uma vez.
— Não tenha medo. Você é poderoso. O ser mais poderoso da terra. Você pode parar isso se quiser. Se souber o que é. — Nimueh falou com um sorriso enigmático.
— O que está fazendo comigo, Nimueh? Está me testando novamente?
— Não! Já sei a extensão do seu poder. Estou apenas lhe mostrando o que você não sabe.
— O que era aquilo há pouco? E o que é isto agora?
Nimueh o olhou fixamente, como se pudesse tocá-lo com os olhos, e simplesmente exclamou: “Pare!”.
Merlin e Nimueh pararam de descer. A sua volta havia uma imensidão verde, quente e molhada. O ar era pesado e quase tangível, como se fosse água. Ao longe ouviram grunhidos e rosnar de animais, aproximarem-se deles. Merlin olhou assustado para Nimueh.
— Tire-nos daqui, rápido. Por favor!
Nimueh riu-se sarcasticamente. Rodopiou em torno do próprio eixo, com as mãos no alto da cabeça, mas olhando para baixo. No mesmo instante começaram a ascender.
— Estou cansado de suas brincadeiras Nimueh. Não quero mais ver nada, nem saber nada. Você quer apenas me enlouquecer. — Merlin reclamou exasperado, enquanto seu corpo parecia cair para cima, fazendo com que seus cabelos, e mesmo suas orelhas, fossem rebaixadas pelo vento.
— Pare! — Nimueh exclamou.
No mesmo instante, pararam de ascender. Estavam de volta ao vazio negro estrelado.
— Eu quero sair daqui, Nimueh. Eu não quero nada que você tenha a me oferecer.
Nimueh riu-se. Merlin suspeitou que alguma coisa ruim fosse lhe acontecer, então se virou para trás, e viu um estranho cavaleiro aproximando-se dele. Sua armadura parecia pergaminho e seu elmo tinha um grande visor de vidro. Ele não tinha armas, apenas uma corda amarrada em sua cintura, fazendo-o parecer um falcão preso em correia prateada, flutuando no vazio. O cavaleiro de pergaminho falou indistintamente: “Houston, we got a problem.”, ou o que quer que seja. Merlin fechou os olhos desejando que tudo aquilo sumisse, pois lhe parecia uma grande loucura, engendrada por Nimueh, para atormentá-lo.
Ao abrir os olhos, percebeu que estava de volta na caverna, procurou a saída, sem se incomodar com a adolescente que ficou para trás, chamando seu nome.
— Mago Merlin, volte! Isso é só o começo. Há tanto para lhe mostrar. Você não pode fugir do que é. Você é um ser mágico. Não é como eles. Volte!
Merlin ainda olhou para trás de relance. Quando estava a uma distância segura, resolveu responder a Nimueh.
— Eu não sou como você. Eu repudio o que você é. Eu repudio o que você quer que eu seja. Eu sou um homem. Meus amigos são pessoas comuns, que choram, amam, sofrem e morrem. Mas eles vivem dignamente e tentam sobreviver bravamente. Não se julgam deuses acima do bem e do mal. Eu tenho nojo de você, Nimueh e de toda a sua magia.
Merlin virou-se e flutuou para fora da ilha mágica, seguindo uma ventania que surgiu magicamente.
— Você não passa de um tolo, seu idiota. Se realmente repudiasse minha magia, não faria uso dela para sair da ilha, seu hipócrita. Você me pagará por isso, mago Merlin. — Nimueh falou entre dentes.
Uma semana se passou. Merlin guardou segredo do que lhe ocorrera na caverna, pois temia que Gaius o visse como uma ameaça, ou que achasse que ele estava do lado de Nimueh. Isso coincidiu com uma celebração popular entre os habitantes de Camelot, o Samhaim.
Fizeram muitas comidas e ofereceram muita bebida entre os vizinhos, ao ar livre. Diversos deuses e entidades místicas de sua devoção foram representados em figuras e esculturas, sempre próximos ao fogo, e perto de casa. Todos estavam animados com os festejos, e as crianças davam asas à imaginação, escutando histórias fantásticas dos mais velhos, sobre elfos, duendes, dragões, deuses e semideuses, enquanto comiam grande quantidade de doces, feitos especialmente para elas. Os mortos eram lembrados e reverenciados, como se também estivessem presente àquela celebração.
Merlin estava animado. Esquecera-se de Nimueh e sua magia estranha e enlouquecedora. Bebeu e comeu como uma criança. Gaius estava entretido em conversas com os mais velhos. O príncipe Arthur o liberara para aquela festa, com a recomendação de que não aparecesse para trabalhar muito tarde no dia seguinte. E até Gwen estava se divertindo com sua família, indo conversar com ele.
— Oi Merlin! Você está bem?
— Sim, muito bem!
— Que bom que tirou a história da espada da sua mente.
— Excalibour!
— É!
— Não a tirei da mente, apenas fiquei sem ideias. Não faça essa cara Gwen, não farei mais confusão por causa disso.
— Eu me preocupo com você.
— Eu sei Mestre Gaius me contou.
— Não está magoado por isso, está?
— Não, imagina!
Após Gwen se afastar, Merlin foi tomado de enjoos e tontura. Afastou-se da festa e procurou um local deserto para vomitar. Resolveu ir para casa mais cedo. Provavelmente a comilança tinha lhe feito mal. Para chegar a casa, tinha que passar pelo local do festejo novamente. Tentou fazer isso o mais rápido possível, pois o cheiro das comidas lhe dava náuseas. Então ele a viu.
Uma adolescente macérrima e alta, com longos cabelos ruivos. Ela estava a uns 10m dele, mas o olhava como se só houvesse os dois na festa. Merlin virou-se para Gaius para avisá-lo, mais passou a ver tudo dobrado e brilhante. Não sentiu mais os pés, e o chão foi se aproximando perigosamente de sua face, até que se chocou contra ele. Isso foi bom, pois estava com muito sono, e dormiu na mesma hora.
Notas finais
Este capítulo deveria ser ‘Herói’ 2ª parte, mas esta introdução foi necessária, para desencadear o desfecho da aventura de Excalibour.
“Houston, we got a problem.” foi o que o astronauta Jim Lovell disse à base terrestre, quando seu foguete espacial, Apolo 13, deu pane. É uma frase antológica, significando “temos problemas”.
A aventura na caverna encantada é uma viagem no tempo. Nimueh, aqui em sua 3ª representação, leva Merlin ao início dos tempos, à idade da pedra, e ao futuro, com o astronauta no espaço.
Segundo a Wikipédia, Samhaim ainda é cultuado na Europa, e seria a origem do halloween.
Merlin foi envenenado e desmaiou no último parágrafo. Não preciso dizer por quem.
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