O Caminho do Mago
10 A caçada
Notas iniciais
- Merlin... Você tem idéia do que acaba de me contar?
- Não... Quero dizer sim. Espero não ter infringido nenhuma regra ou ter feito besteira...
- O dragão Raswair é a fonte de toda a magia de Albyon. E também de todas as complicações associadas a isso.
Merlin abriu a boca para falar alguma coisa, mas som algum conseguiu proferir.
- Garoto, o dragão está associado a forças estranhas e poderosas, além de nossa compreensão. Foi muito útil no passado, sim, admito, mas agora, ele só pode trazer desgraça e caos.
- Eu não entendo...
- Ele é muito poderoso, mais do que todos os homens da terra, mais do que Uther Pendragon, mais do que eu e você.
- Mais do que Nimueh?
- Talvez, mas eles estão do mesmo lado. Pessoas como Nimueh adoram o poder que têm nas mãos, e fazem uso dele irresponsavelmente, colocando a vida dos outros em risco.
Merlin ficou calado e baixou a cabeça. Parecia ter algo preso no peito, e não queria repartir sua agonia com Gaius.
- O que está pensando garoto?
- Eu sou um mago. Nasci assim. Raswair me disse que me deu minha magia. Acaso sou alguém a quem deva temer Gaius? — Merlin falou com o rosto triste e a boca trêmula, como de alguém que vai chorar.
- Oh, garoto! Você é como um filho para mim. Eu jamais poderia vê-lo como um inimigo. Venha cá!
Merlin aproximou-se de Gaius, e este lhe deu um grande abraço, como um pai o faria.
Naquela noite não falaram mais no assunto. Merlin e Gaius jantaram em silêncio e tentaram conversar sobre amenidades, mas a tensão existia, como uma grande nuvem negra sobre seu lar. A simples hipótese de que Merlin poderia ser um agente do caos e desgraça, turvava os pensamentos do rapazinho, como se ele de repente descobrisse que era feio e sujo. Antes tinha orgulho de quem e do que era, mas agora a magia se lhe apresentava como um fardo.
Pela manhã, Merlin preparou a primeira refeição e a ofereceu a Gaius. Limpou o estúdio e recebeu a primeira remessa de entregas para os moradores do reino. Eram muitos frascos de elixires e de saquinhos com pós, que Merlin deveria entregar a cada cliente de Gaius. Merlin esforçou-se para ser o mesmo de sempre, e parecer alegre, mas seu coração estava apertado e doía de mágoa. Gaius percebeu seu estado de ânimo, e ele mesmo ficou triste e amargurado. “Eu e minha boca grande. Deveria ter percebido que ele iria reagir assim.” Gaius pensou.
Em seu caminho pelas vielas de Camelot, Merlin foi surpreendido pela presença de muitos cavaleiros que saíam para além dos limites do reino. Um dos cavalos estacou e o cavaleiro teve ajuda para descer. Merlin assustou-se ao perceber que era Lady Morgana.
- Oh, bom dia Merlin! Vim pedir sua ajuda.
- B-bom d-dia Milady! O que posso fazer pela senhora?
- Quero que me acompanhe em uma caçada.
- Pois não Mi... Caçada? Eu não sei o que poderia... Perdão Milady, acho que não seria muito útil em uma caçada.
- Bobo, eu só quero sua companhia, para conversarmos.
- Como... Um pajem? — Merlin teve vontade de dizer “namorado“, mas mordeu a língua antes disso.
- Ahahahahaha! Não! Eu já tenho amas e damas de companhia. O termo certo é amigo. Quero que me acompanhe como meu amigo.
Merlin sentiu-se corar como se brasas estivessem lhe queimando os pés.
- Será uma honra, Milady. — Novamente fez uma deferência exagerada.
Merlin lembrou-se de Gaius, do dragão, dos elixires, das pessoas esperando os remédios... Tudo isso perdia a importância e a razão de ser, quando comparados com Lady Morgana. Um desejo de Morgana era um mandamento sagrado, punido com a morte, caso não fosse acatado prontamente. O mundo deveria perdoá-lo, pois ele estava aprisionado em enlevo por aquela gentil princesa. Isso era irresistível.
A caçada iniciou-se em um campo ermo, cheio de troncos velhos, retorcidos, onde se escondiam animais silvestres. Um deles, uma raposa, deu um salto e se pôs em fuga, mais veloz do que os olhos poderiam seguir. Alguns cães farejadores desabalaram atrás. Os cavaleiros logo mais. Morgana não se intimidou e também estava cavalgando como uma legítima amazona. Merlin segurava-se no cavalo, e tentava não olhar muito para frente, pois temia assustar-se e cair. Não que pudesse realmente ter sua vida em risco, pois sua magia o salvaria na hora precisa, mas ele não gostaria de fazer magia na frente daqueles nobres.
O príncipe Arthur estava na caçada, como também Sir Gawain, e Sir Percival. Os outros eram conhecidos, mas Merlin não sabia seus nomes, pois eles não se misturavam com a gente comum de Camelot. Quando todos pararam para admirar os cães sabujos encurralarem a raposa, Merlin agradeceu aos céus, pois todo o seu corpo estava sacudido e ele não conseguia pensar em mais nada, a não ser em se segurar no cavalo. Merlin procurou ver a raposa que seria morta pelos nobres, e pensou que também ele poderia estar nessa situação, fugindo dos soldados do rei, prontos para tirarem sua vida, por que era mago. Tal qual o que vira acontecer no dia em que chegara a Camelot.
Suas íris tornaram-se amarelas, e a raposa conseguiu escapulir dos cães, mais uma vez, mas estes, misteriosamente não a seguiram. Ficaram estáticos, como se uma força poderosa os segurasse. Merlin desviou o olhar, e procurou aprumar-se no cavalo. Temia que a cavalgada recomeçasse. Com o canto do olho, percebeu Lady Morgana o observando. Ela lhe deu um meio-sorriso, como se soubesse o que ele tinha feito. Merlin sentiu um arrepio. “Isso não é possível!”
- Estes cães devem estar doentes. Perderam a raposa embaixo de seus focinhos. Temo que a caça à raposa tenha se estragado. — Reclamou o Príncipe Arthur.
- Podemos procurar outro animal, Sir. Aqui perto habitam alguns cervos e gamos. Podemos procurar algum para o senhor. — Falou um dos cavaleiros.
- Não se incomode. Eu mesmo posso procurar minha caça. — O príncipe Arthur seguiu trotando, margeando a floresta mais densa.
Os cavaleiros o seguiram. Nisso, um grande barulho, como um trovão, os envolveu. Todos sacaram suas espadas. Merlin acercou-se de Lady Morgana. Uma sombra elevou-se da densa floresta, alçando vôo na direção dos nobres cavaleiros.
- É um hipogrifo, Sir. É melhor proteger-se. Nós o derrotaremos.
- Não preciso que outros façam a minha obrigação. Eu mesmo derrotarei esse monstro. — Arthur seguiu adiante a cavalo, empunhando a espada ameaçadoramente, contra o monstro alado, que tinha corpo de cavalo, e asas e cabeça de águia.
Os outros cavaleiros o seguiram. Merlin ficou atônito. Não gostava de Arthur, mas não gostaria de vê-lo morrer nas garras de um monstro. Trocou um rápido olhar com Morgana e seguiu atrás da comitiva. Morgana e alguns pajens ficaram para trás.
O hipogrifo planou sobre os cavaleiros, quase tocando em suas cabeças. Alguns chegaram mesmo a jogar-se do cavalo. O monstro posou um pouco longe e empinou-se, grasnando como uma ave de rapina. Em seguida veio em disparada contra o tropel de cavaleiros. O esperado era que se assustassem e debandassem, para não sofrerem o choque contra o hipogrifo. E assim aconteceu.
A não ser por Arthur. E Merlin. O príncipe aguardou o choque contra o monstro, com a espada na mão, enquanto tentava controlar o cavalo amedrontado. Merlin estava um pouco mais atrás. Quando o monstro ia atingir o cavalo, Merlin tisnou suas íris de amarelo. O cavalo de Arthur empinou e saltou sobre a criatura, como se ela fosse um obstáculo, atingindo o chão no outro lado, com Arthur incólume e estupefato.
O monstro avançou contra Merlin, que pego de surpresa, agiu por instinto. À frente do monstro abriu-se uma cratera que o tragou, por pouco tempo. Logo mais a criatura voou velozmente para longe. Os outros cavaleiros se aproximaram para admirarem a cratera no chão da floresta. Inclusive o príncipe Arthur. Merlin teve vontade de fugir, pois se sentia exposto. Olhou para trás e viu que Morgana já se aproximava. “É agora que eu vou me danar.” pensou Merlin.
- É muita sorte existir essa armadilha aqui. Foi você quem a construiu, Sir Gawain? — Morgana inquiriu alegremente.
- Não, não fui eu. E eu nem vi essa armadilha quando passamos por aqui. — O cavaleiro respondeu, aproximando-se a cavalo.
- Por que era uma armadilha. Estava camuflada. — Morgana respondeu jovial.
- Realmente foi muita sorte. É uma boa armadilha. Esqueceram-se apenas que o hipogrifo pode voar. — Arthur observou.
- O que pretende fazer, Príncipe Arthur? — Um dos cavaleiros inquiriu.
- Podemos aperfeiçoar essa armadilha. Colocaremos estacas no fundo, e um alçapão ficará suspenso, para selar a passagem por cima.
- Bem pensado. Posso me incumbir disso, se me permitir, Majestade. — Sir Percival se adiantou aos demais.
- Obrigado, caro Percival. — Arthur olhou para Merlin com o semblante sério, como se só agora percebesse sua presença. — Você me trouxe sorte hoje, rapazinho.
Merlin sentiu-se corar. Baixou os olhos e agarrou-se com força ao cavalo, com medo de flutuar.
Todos voltaram a Camelot. Morgana foi cercada por suas amas e damas. Ela logo entrou no castelo, acenando para Merlin toda contente. Este se virou para tomar o rumo de casa, mas alguém o chamou. Ao virar-se, deparou com o Príncipe Arthur.
- Merlin de Gaius, quero dizer-lhe algumas coisas.
- Pois não, Senhor.
- Eu lamento pela forma como o tratei, nas vezes em que nos encontramos. Acho que entende, que na minha posição não posso ser condescendente com todo mundo.
- Sim Senhor.
- Lady Morgana o acha digno da amizade dela. Acho que... Posso dizer o mesmo. Gostaria que fosse meu amigo.
O Príncipe Arthur estendeu a mão enluvada para Merlin, que a apertou relutantemente. Seu estômago pesava como um saco de pedras e sua cabeça dava voltas. Temia liberar magia inconscientemente. Mas aquela era uma situação fantástica, que nunca poderia ocorrer na vida de um sujeito comum como ele. É claro, não exatamente como ele.
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