Notas iniciais
Merlin e Gaius vão a uma festa no palácio real.
Betagem por maay monteiro

Merlin ainda tiritava de frio. A água na tina estava gelada. Suas orelhas estavam geladas. Seus lábios estavam tremendo. Esfregou com mais força o pescoço e os ombros. As ervas especiais que havia catado no mato, para adicionar à água do banho, não estavam adiantando de nada. Ainda sentia-se sujo e fedido.

- Merlin! Se demorar mais um pouco, eu me vou sem você. — Gaius gritou da saleta de sua casa.

- Espere mais um pouquinho Gaius, eu ainda não estou limpo.

- Já estava limpo antes mesmo de começar esse banho de tina. Vamos rapaz, não se pode deixar o rei esperando.

Merlin teve que capitular. Enxugou-se e vestiu a melhor roupa que tinha. O que equivale a dizer que vestiu sua outra roupa limpa. Ele não se considerava um pobretão, embora fosse. Ele apenas não dava tanta importância à aparência e ornamentos. Até aquele momento.

- Se ao menos eu soubesse um feitiço que me transformasse em rico e belo...

- Pare de lengalengas, Merlin. Nenhum feitiço faz cair ouro do céu, ou endireita essa sua orelha de abano. — Gaius gritou.

- Oh! Quer parar? Tinha que me lembrar das minhas orelhas? Acho que não vou pra essa festa, Gaius.

Gaius entrou no quartinho do rapazinho e saiu arrastando-o pelo cangote, sem nada falar.

- Ai! Tá bom, tá bom! Eu vou! Pode me soltar agora.

Ao chegarem ao palácio real, foram parados na entrada e anunciados, como se fossem convidados importantes. Gaius seguiu altaneiro, como o curandeiro real, em sua túnica dourada, com o cabelo penteado pela primeira vez do lado direito, e não do jeito usual. Merlin vinha logo atrás, ainda com os cabelos molhados e as orelhas insensíveis. Não sabia onde pôr as mãos, decidindo-se por segurar a bainha de sua túnica curta.

Foram conduzidos para o lado direito do trono real. Ficaram lá de pé, como se fossem estátuas vivas, enquanto o resto da corte se movimentava em perfeita engrenagem. O Príncipe Arthur e Lady Morgana estavam magníficos em trajes cerimoniais reluzentes. Os cavaleiros do rei, eterna comitiva de Arthur, também estavam bem vestidos e multicoloridos. O Rei Uther apresentou-se digno do título que ostentava. Soberbo e imponente, com suas vestes prateadas, um manto vermelho bordado com pedras preciosas, e detalhe em pele felpuda branca. A seguir a convidada especial, Lady Tarja Turunen, famosa pelo canto melódico contando histórias épicas, e expressões faciais e corporais muito vívidas e impressionantes.

Os serviçais transitavam timidamente, tentando não serem notados. Estavam bem vestidos, embora humildemente, sendo que Merlin teve vontade de trocar de roupas com um deles, por achar sua roupa muito velha e triste. Percebeu que uma criada estava sorrindo para ele. Ficou surpreso e sorriu de volta. Era uma criada negra que já havia visto no castelo em outras ocasiões, mas nunca tivera curiosidade em falar com ela. Talvez Gaius tivesse razão, quando o aconselhou a esquecer Morgana e arranjar uma namoradinha do seu próprio nível social. Alguém como Margô ou mesmo como aquela moça.

Após as apresentações e conversas paralelas, o rei convidou a todos para a ceia. Merlin duvidou que alguma mesa pudesse comportar todas aquelas pessoas, mas a mesa de jantar do rei de Camelot era redonda, com um grande ornamento no centro. Só os convidados importantes tinham assento marcado. Merlin e Gaius foram chamados por um dos serviçais, para comerem em uma sala contígua. Lá chegando notaram que não eram os únicos fora do salão principal.

Merlin e Gaius já estavam atacando uma coxa de galinha, quando um dos serviçais veio correndo buscá-los.

- O rei quer vocês na mesa principal. Venham!

Por um instante, Merlin desejou continuar na salinha dos excluídos, onde poderia ficar à vontade e não sentir vergonha de si mesmo, mas a visão dos nobres, de lady Morgana e do próprio rei, era uma situação estupefaciente. Sentia-se no paraíso.

- Merlin, por favor, levante o queixo. Não faça papel de tolo na frente do rei. — Gaius o aconselhou.

- Sim, Gaius. Desculpe-me!

Após o lauto jantar, a convidada menestrel preparou-se para oferecer um espetáculo. Um serviçal veio chamá-los para outro recinto. Lá chegando encontraram apenas o Príncipe Arthur.

- Espero que não tenham se ofendido com a confusão dos lugares à mesa. Papai considerou que um amigo meu tinha o mesmo privilégio de sentar-se, junto aos cavaleiros do reino. — Falou candidamente.

- Ah... Obrigado... Por me considerar... Seu amigo. — Merlin agradeceu encabulado.

- Sua Alteza, se me dá licença, vou assistir ao canto de Lady Turunen. — Gaius falou e se afastou.

- Então, gostou do jantar? — Arthur perguntou num misto de curiosidade e pilhéria.

- Sim!

- Espero que não tenha se acanhado com toda essa pompa e ostentação. Temos que fazer esses banquetes regularmente, para agradar à corte do reino.

- Não entendi. Vocês são os donos de tudo isso, não precisam agradar a ninguém.

- Oh, sim! E então o povo nos abandonaria e iria procurar favores em outro reino. Acho que não queremos isso.

- Desculpe-me! Eu não deveria ter falado assim.

- Tudo bem! Eu já sei que você fala tudo o que lhe vem na mente. — Arthur brincou.

- É! Desculpe-me por isso também. — Merlin falou com um sorriso.

- Sabe, se eu não fosse filho do rei... Poderia ser assim como você. Livre, trabalhando honestamente, sem me preocupar com intrigas palacianas, responsabilidades, etc. Talvez eu até fosse feliz.

- Engraçado, é que eu sempre imaginei que os nobres viviam num paraíso, e eu é quem vivia no inferno.

- É o que todos pensam.

- Outro dia, contaram-me a história de Albyon, de como tudo era inóspito e perigoso, e de como o dragão Raswair concertou tudo e ajudou a todos. Sempre me intrigou o fato de seu nome de família ser Pendragon. Acaso vocês são ligados ao dragão lendário?

- Que pergunta!

- Desculpe-me!

- Estas lendas foram criadas para fazer crianças dormirem. Pendragon é só um apelido usado por meus antepassados, que acabou por dar origem ao nome de nossa família.

- Ah, sim.

- As pessoas inventam muitas histórias fantasiosas para lhes alegrar o dia. Por isso inventam que meu pai é o Chefe Dragão, e que eu retirei uma espada de uma pedra.

- O que?

- Nunca ouviu esta história? — Arthur perguntou pilheriando.

- Não!

- Pois é! Um belo dia fui levado até uma espada mágica fincada em uma grande pedra. Muitos nobres valorosos tentaram retirá-la, sem sucesso. Somente o legítimo pacificador de Albyon, aquele destinado a governar todo este reino, poderia retirar tal espada encantada. Então eu segurei a espada com toda a minha força e valentia... E a retirei da pedra. — Arthur terminou o relato empunhando uma espada imaginária no alto da cabeça.

- Isso é verdade? Realmente aconteceu? — Merlin perguntou espantado.

- Não! Mas é uma boa história, não acha? — Arthur gracejou.

- Ah, eu... Ouvi... Que há uma espada no lago, aqui próximo... A espada do herói...

- Sim... Excalibour. Outra história fantasiosa.

- E se não for fantasia? E se ela de fato existir? Você iria procurá-la?

Arthur olhou Merlin curioso, com um brilho no olhar, mas então começou a rir.

- Você quase me enganou! Essa é uma boa pegadinha! — Arthur falou rindo, enquanto dava um tapinha no ombro de Merlin.

- Perdão, Alteza. Vosso pai, o rei, o chama até o salão real. — Uma criada negra se manifestou.

- Oh, sim! Já iremos. Obrigado!

A jovem serviçal afastou-se. Merlin a acompanhou com o olhar até perdê-la de vista.

- É ela é bonita, mas está fora de seu alcance, meu caro. — Arthur pilheriou.

- O que?

- Esta é Gwen, pajem de Lady Morgana. Não é para você.

- Mas... — Merlin ficou vermelho como um tomate e desistiu de explicar alguma coisa. Preferiu ficar calado e acompanhou o príncipe até o salão real.

Após os acontecimentos dessa noite, Merlin ficou vivamente impressionado com o príncipe, chegando a imaginar por que o considerara um sujeito cruel e tirânico. Lembrou-se da lenda de Excalibour, e de como os elementais já haviam mencionado essa história antes. Teve uma idéia brilhante. Entregaria Excalibour a Arthur, e então ele veria que nem todas as fantasias e lendas eram pura balela, mas tão verdadeiras e poderosas quanto à magia que pulsava em seu ser.

Nos dias seguintes concentrou-se em seus afazeres para terminá-los rapidamente, e assim ir ter com os elementais. Entretanto, estes estavam arredios e não se manifestavam como antes.

Uma manhã, Merlin foi até ao lago, retirou suas roupas e mergulhou. Estava escuro e gelado. Tentou concentrar-se nos tempos em que ainda ouvia e via os elementais a seu lado, e eles brincavam consigo. As águas tornaram-se verde claro e translúcidas. Aqui e acolá um peixe multicolorido e luminoso passava por ele. Ondinas surgiram e passaram a bailar ao seu redor. Merlin surpreendeu-se ao perceber como eram bonitas e cheias de curvas. E elas estavam nuas. Merlin colocou as mãos nos olhos, perturbado.

- Talvez se fossem rapazes e não moças, eu não ficasse assim. — Merlin pensou em voz alta.

- Acha isso mesmo, Mago Merlin? — Um Elemental aquático de longos cabelos prateados, nu e escamoso, falou próximo a ele.

Merlin percebeu que tanto faz que gênero eles tinham, a perturbação e desconforto eram os mesmos. Por isso ele não via mais os elementais com freqüência. Estava crescendo e se modificando, tanto física quanto psiquicamente. Não podia mais ficar divertindo-se com seus amiguinhos da natureza, por que se tornara cônscio da nudez deles, e isso o transtornava.

- Vim aqui pela espada do herói, Excalibour.

- Leve como uma dança, implacável como o aço. Suave como a seda, poderosa como um raio. A espada do herói não é para você, filho da magia. Ela é para um homem comum, porém o melhor de sua estirpe, um verdadeiro herdeiro do dragão.

- Eu sei! Arthur Pendragon. Eu o conheço. Quero levar a espada para ele. — Merlin falou resoluto.

- Você não pode tocá-la nem com magia. O próprio herói tem que tocá-la, mas... Ele terá que merecê-la. Somente um ato de nobreza pode atrair a espada lendária. — O rapaz Elemental virou-se e nadou para longe.

Merlin ainda nadou mais um pouco. Tentou aprofundar-se e procurou algum brilho no leito do lago. Visualizou-a finalmente, Excalibour, em um leito de pedras, circundada por algas tremulantes. Nadou até lá e pensou em tocá-La. Contudo ela o repelia, como se houvesse uma redoma protegendo-a. Concentrou-se para fazê-la flutuar e arremessá-la para fora. Nada feito. Resolveu mudar de tática.

- Príncipe Arthur, acho que terá que agir com nobreza e heroísmo, para merecer esta espada, mas não se preocupe, eu vou ajudá-lo nisso.

Notas finais
O título deste capítulo deveria ser Excalibour, mas 2/3 dele foi gasto na descrição da festa. O Príncipe Arthur não é um sujeito mau, ele apenas foi acostumado a subjugar os outros. Estamos de acordo, maay monteiro?