O Caminho de Volta Para Você
7 O Tiro
A quinta-feira começou como qualquer outra.
E talvez fosse isso que a tornasse tão perigosa.
Gabriela acordou atrasada.
Perdeu o horário do café.
Esqueceu documentos importantes em casa.
Precisou voltar para buscá-los.
E passou a manhã inteira reclamando.
— Você está de mau humor.
Miguel abriu a porta do carro.
— Estou sendo sincera.
— Está sendo dramática.
— Isso também.
Miguel riu.
— Pelo menos você admite.
— Sou uma mulher de princípios.
— E atrasos.
— Principalmente atrasos.
O restante do dia transcorreu normalmente.
Reuniões.
Universidade.
Ligações.
Planilhas.
Nada fora do comum.
Nenhum sinal de perigo.
Nenhuma ameaça.
Nenhuma mensagem.
Era quase como se as últimas semanas tivessem sido apenas paranoia.
Já passava das seis da tarde quando Gabriela deixou a empresa.
O estacionamento estava relativamente vazio.
A maioria dos funcionários já havia ido embora.
Miguel caminhava alguns passos atrás.
Atento como sempre.
Mas relaxado.
Porque aquele era um dos lugares mais seguros da cidade.
— Ethan vai me matar.
Miguel arqueou uma sobrancelha.
— Por quê?
— Prometi ajudar em um trabalho.
— Qual?
— Vulcões.
— Parece perigoso.
— Concordo.
— Espero que ninguém se machuque.
— Com Ethan envolvido? Impossível garantir.
Os dois riram.
Foi então que aconteceu.
Tão rápido que Gabriela demoraria meses para conseguir lembrar dos detalhes.
Um homem surgiu entre dois carros.
Boné.
Capuz.
Arma.
— Gabriela!
O grito de Miguel ecoou pelo estacionamento.
Ela virou a cabeça.
Confusa.
Sem entender.
Então ouviu o primeiro disparo.
O som foi ensurdecedor.
Violento.
Próximo.
Miguel correu.
Não para longe.
Na direção dela.
Ele a empurrou.
Com força.
Gabriela caiu no chão.
O impacto roubou seu ar.
Outro disparo.
Gritos.
Pessoas correndo.
Confusão.
Então silêncio.
Um silêncio horrível.
Pesado.
Errado.
Gabriela ergueu a cabeça.
Ainda atordoada.
E viu.
Miguel estava no chão.
O sangue espalhava-se rapidamente pela camisa.
— Não...
A palavra saiu como um sussurro.
— Miguel...
Ele não respondeu.
— Miguel!
Ela correu até ele.
Os joelhos batendo no concreto.
As mãos tremendo.
— Não.
Não.
Não.
Não.
Sangue.
Havia sangue demais.
— Olha para mim.
Por favor.
Olha para mim.
Miguel abriu os olhos com dificuldade.
Respirando com esforço.
— Você está bem?
Gabriela começou a chorar.
— Eu estou bem?
Você levou um tiro!
— Ótimo.
Então funcionou.
— Não fala.
Não fala.
Por favor.
Miguel tentou sorrir.
Mesmo sentindo dor.
— Minha esposa vai me matar.
Gabriela soltou uma risada entre lágrimas.
— Você não pode morrer.
— Não pretendo.
Mas então seus olhos se fecharam novamente.
— Miguel?
Pânico.
Puro pânico.
— MIGUEL!
As sirenes começaram a se aproximar.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, Gabriela sentiu medo de verdade.
Não por si mesma.
Mas pela pessoa que havia se colocado entre ela e uma bala.
Minutos depois, um carro preto freou bruscamente no estacionamento.
Logan saiu antes mesmo do veículo parar completamente.
Ele correu.
Ignorando tudo ao redor.
Seu olhar encontrou Gabriela ajoelhada.
Coberta pelo sangue de Miguel.
Chorando.
Tremendo.
Em choque.
E naquele instante algo mudou.
Porque até então aquilo era um trabalho.
Uma responsabilidade.
Uma missão.
Mas vê-la daquele jeito...
Quebrou alguma coisa dentro dele.
Logan se ajoelhou na frente dela.
— Gabriela.
Ela não respondeu.
— Gabriela.
Olhe para mim.
Os olhos dela finalmente encontraram os dele.
Cheios de lágrimas.
Cheios de medo.
— Ele levou um tiro por minha causa.
Logan segurou seu rosto.
Com firmeza.
Com cuidado.
— Escute.
Miguel está vivo.
— Eu...
— Ele está vivo.
Está ouvindo?
Gabriela assentiu.
Mas continuou chorando.
Pela primeira vez desde que a conheceu...
Logan não viu a herdeira.
Não viu a mulher forte.
Não viu a futura CEO.
Viu apenas uma jovem aterrorizada.
E percebeu que queria protegê-la muito mais do que deveria.
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