O Caminho de Volta Para Você
8 A Longa Noite
O cheiro de hospital nunca foi tão sufocante.
Gabriela estava sentada na mesma cadeira havia quase três horas.
Sem se mover.
Sem comer.
Sem falar.
As mãos ainda tremiam.
Mesmo depois de lavadas.
Ela ainda conseguia sentir o sangue de Miguel.
A cirurgia havia começado há pouco mais de duas horas.
E ninguém sabia como terminaria.
William chegou primeiro.
Depois Eleanor.
Pouco tempo depois, Beatriz e Ethan.
Quando Ethan viu a irmã, correu imediatamente para abraçá-la.
— Gabi...
Ela o abraçou de volta.
Com força.
Mais força do que pretendia.
— Você está machucada?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
Mas a verdade era que ela não estava bem.
Nem um pouco.
Ethan levantou os olhos.
— O Miguel vai ficar bem?
A pergunta atingiu Gabriela como uma facada.
Porque ela não sabia responder.
— Eu espero que sim.
Ethan assentiu.
Mas seus olhos ficaram cheios de lágrimas.
Pela primeira vez, Gabriela percebeu algo.
Ethan também gostava do Miguel.
Muito.
Na outra ponta do corredor, Logan conversava com dois policiais.
— As câmeras pegaram alguma coisa?
— Pouco.
— Quanto é pouco?
O policial suspirou.
— O atirador estava preparado.
Usava boné.
Máscara.
Roupas escuras.
Logan passou a mão no rosto.
— Veículo?
— Motocicleta.
Tinha alguém esperando.
— Placa?
— Não identificada.
Silêncio.
— Então vocês não têm nada.
O policial não respondeu.
Porque era exatamente isso.
Nada.
Mais tarde, os investigadores chegaram a uma conclusão preliminar.
O disparo não parecia um assalto.
Não houve tentativa de roubo.
Não levaram nada.
Não fizeram exigências.
O alvo era Gabriela.
E isso aterrorizou William.
Quando ouviu aquela conclusão, ele sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
Porque significava que a ameaça era real.
Desde o início.
E que havia subestimado o perigo.
Muito.
Enquanto isso, Gabriela continuava sentada.
Observando a porta do centro cirúrgico.
Esperando.
Foi Logan quem se aproximou.
— Você precisa descansar.
— Não.
— Gabriela.
— Não.
A resposta saiu firme.
Quase desesperada.
— Eu não vou embora.
Logan permaneceu em silêncio.
— Ele levou um tiro porque estava comigo.
A voz dela falhou.
— Se eu não tivesse saído naquele horário...
— Pare.
Ela levantou os olhos.
— Não foi sua culpa.
— Foi por minha causa.
— Não é a mesma coisa.
As lágrimas voltaram.
— Eu devia ter prestado mais atenção.
— Gabriela.
— Eu devia...
— Gabriela.
Dessa vez ela parou.
— Escute com atenção.
Ela o encarou.
— Miguel fez exatamente o que foi treinado para fazer.
— Mas...
— E faria novamente.
O silêncio tomou conta do corredor.
Porque os dois sabiam que aquilo era verdade.
Miguel não havia hesitado.
Nem por um segundo.
Ele escolheu protegê-la.
E escolheria de novo.
Pouco depois da meia-noite, a porta do centro cirúrgico finalmente se abriu.
Todos se levantaram ao mesmo tempo.
O médico retirou a máscara.
— A cirurgia foi um sucesso.
O alívio foi imediato.
Ethan começou a chorar.
Eleanor levou a mão ao peito.
William fechou os olhos.
E Gabriela sentiu as pernas enfraquecerem.
Miguel estava vivo.
Vivo.
Pela primeira vez naquela noite, ela respirou de verdade.
Mais tarde, quando todos começaram a ir para casa, Gabriela permaneceu.
Sozinha.
Observando o corredor vazio.
— Você ainda está aqui.
Ela ergueu os olhos.
Logan.
Claro.
— E você também.
— Faz parte do trabalho.
Ela sorriu pela primeira vez desde o atentado.
— Você usa essa desculpa para tudo?
— Quase tudo.
Pela primeira vez naquela noite...
Os dois conseguiram rir.
Mesmo que apenas por alguns segundos.
E foi naquele instante que Gabriela percebeu algo.
Desde que tudo aconteceu...
Logan nunca havia saído de perto.
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