03

Desde muito jovem Midler era fascinado pela noite, pela serenidade e perseverança que conseguia encontrar sob seu manto. Ele nunca havia se afastado tanto de casa, mas o céu acima ainda lhe era familiar e o confortava como um amigo de infância, sempre imutável a girar por trás do Guardião de Baltur, que era como os Paladinos chamavam a estrela mais brilhante do céu, a única que jamais mudava sua posição sobre Graeldar e todas as outras terras conhecidas, desaparecendo apenas quando o sol já se fazia alto no céu. O discípulo sabia que o mundo que conhecia poderia mudar, como já o fizera por tantas vezes nos séculos incontáveis que se foram, mas aquela estrela sempre esteve e sempre estaria lá, como um eterno guia para todos os homens. Os Paladinos podiam encontrar seu caminho de volta a Sandren com a ajuda do Guardião, mesmo sob a pior das tempestades ou mesmo nas cavernas mais profundas, pois como tudo na doutrina de Baltur, não era a luz que os guiava, mas sua fé.

As nuvens dos últimos dias já haviam se dissipado totalmente, pontilhando o escuro véu da noite com a pálida luz de milhares de pequenas joias, não mais ofuscadas pelo brilho de uma lua agora tão negra quanto o manto que a envolvia. O céu claro lhe lembrava que não deviam faltar muitos dias para o final do outono, mas o gélido vento das montanhas não havia ainda descido o grande rio, pelo menos não até as extensas planícies a sua volta. Midler inspirou profundamente, sentindo o frescor da umidade carregada pelo ar noturno. O doce aroma da terra ainda molhada e o suave resvalar das águas do córrego contra as pedras que sustentavam a pequena ponte traziam paz a sua alma inquieta, assim como a todo o vilarejo, que adormecera com o cair daquela agradável noite. As vozes já haviam se silenciado e as únicas luzes que se moviam eram criadas pelos pequenos Rabos-de-Fogo a voarem em torno dos poucos lampiões em que as chamas ainda resistiam acesas. O discípulo acompanhou com o olhar algumas das últimas folhas de uma árvore próxima a dançarem em espirais, enquanto caíam lentamente até o chão, embaladas pela suave brisa que cortava a sonolenta vila.

– Lydis é realmente uma jovem adorável, não?

Midler virou-se rapidamente ao ouvir aquela conhecida voz, encontrando seu mentor sentado em uma reclinada cadeira que estava apoiada em uma das paredes da casa, a olhar fixamente para o distante horizonte ao norte, onde as Montanhas do Gigante dormiam para além do manto noturno. Em suas mãos estava a caneca com o chá que Lydis oferecera, ainda fumegante, apesar do frescor do clima noturno. Seu cajado repousava de pé ao seu lado, apoiado na mesma parede, com vários Rabos-de-Fogo a voarem ao redor de seu topo, iluminando o rosto do velho mentor como uma tímida lamparina.

Midler ficou observando Laertes por alguns instantes, sem encontrar as palavras que queria dizer. O velho mentor parecia estar em paz, a não ser pelo constante franzir de sua testa, que lhe mostrava que nem mesmo a casa, a comida ou a companhia de um velho amigo conseguiram deixar para trás as preocupações que o acompanharam na caminhada daquele dia.

– Não fique tão surpreso ou envergonhado, meu jovem. Posso ver em seu rosto que era ela que povoava seus pensamentos, não apenas por sua beleza, mas pelo que ela lhe disse, pois bem sei que apenas suas palavras poderiam lhe deixar tão alterado assim.

Teria Laertes ouvido aquelas palavras? Pela profundidade da voz de Lydis, poderia todo o reino ter ouvido também? Midler não sabia dizer se este pensamento o aliviava de colocar em palavras o que não compreendia ou se o envergonhava com dúvidas que julgava que não poderia mais demonstrar.

– O que ela falou ainda está vivo dentro de mim, meu mentor, mas não acredito ter compreendido o seu significado – sua voz era hesitante e as palavras incertas, mas, mesmo assim, prosseguiu – O senhor ouviu? Sabe o que ela quis dizer?

– Não, não ouvi. Parece-me que meus ouvidos estão ficando tão cansados quanto o resto do meu corpo, o que é de se esperar, pois estou envelhecendo a cada dia que passa – Laertes bebeu tranquilamente o resto de seu chá, deixando escapar um melancólico suspiro.

Midler estranhou o tom de voz de Laertes, que lhe pareceu repentinamente muito fatigado. Não lembrava agora o animado e rigoroso mentor que o discípulo sempre admirou, mas apenas um homem idoso, cansado e abatido. Tentou dizer-lhe algo, mas não conseguiu encontrar as palavras que queria, apenas baixou os olhos para a terra sob seus pés. O que poderia ele dizer ao maior entre os mentores de Sandren?

Laertes percebeu a hesitação de seu discípulo e achou graça na súbita inversão de seus papéis, pois era o jovem que tentava confortá-lo. Agradeceu silenciosamente ao destino por Midler estar ali com ele naquele momento. Rapidamente, um sorriso se desenhou em seu rosto.

– Por falar nisto, meu jovem, poderia ser gentil com este pobre e rabugento ancião e lhe servir um pouco mais deste delicioso chá? Ele sempre traz vida nova para estes ossos exauridos e me ajuda a pensar mais claramente, além de animar meu espírito.

Midler pegou o pequeno garrafão no chão, onde Malent o deixara quando se recolheu. Estava recoberto por diversas tiras de um grosso couro, para tentar manter o líquido em seu interior aquecido, mas muito tempo já havia se passado desde que ele havia sido servido. A garrafa se encontrava já fria em suas mãos.

– Com sua licença, meu mentor, terei esta bebida aquecida em pouco tempo.

Laertes estendeu o braço, tocando levemente a caneca no garrafão que o discípulo segurava, enquanto tornava a virar seu olhar para o distante norte.

– Não há necessidade. A noite pode roubar-lhe rapidamente o calor, mas levaria muitos anos a mais para lhe tirar o sabor do que para as ervas da qual é feito voltarem a crescer. Além disso, calor é algo que podemos ter sem perdermos tempo em acender o fogo ou incomodar aqueles que estão repousando.

Midler abriu a garrafa e serviu seu mentor, sentindo o aroma adocicado da bebida preencher o ar. Laertes colocou a caneca sobre a palma da mão esquerda e ficou a olhar para ela por alguns instantes, sussurrando uma antiga canção em uma língua que Midler não conhecia. Em pouco tempo a caneca voltou a expelir vapor, como se o chá houvesse sido aquecido por uma chama invisível aos olhos. Os pequenos insetos que circundavam o cajado se aproximaram da mão do mentor e agora voavam em torno da fumegante caneca, iluminando-a. O velho mentor fechou os olhos e aspirou com prazer o vapor que ondulava em torno de seu rosto.

– O calor intensifica ainda mais o doce sabor desta bebida – sorveu devagar, saboreando o líquido a dançar em sua boca, antes de engoli-lo. Após um suspiro de satisfação, virou-se para Midler – Pegue outro copo e sente-se comigo.

Midler entrou na casa e retornou sem demora, sentando-se na cadeira onde Malent estivera, ao lado de seu mentor, e serviu-se também. Laertes tomou a caneca que seu discípulo havia trazido e aqueceu-a, como fizera com a sua, entoando uma alegre cantiga que, por sua insistência, Midler timidamente acompanhou, pois a conhecia dos seus tempos de criança. Seu mentor contara-lhe em confidência uma vez, quando era ainda muito jovem, que para revelar os pequenos segredos deste mundo, a letra e a melodia que eram escolhidas não tinham quase nenhuma influência em sua realização, mas sim a concentração de quem se utilizava deste poder e o quanto doava de si para que ele acontecesse. Ambos beberam em silêncio por algum tempo até que Laertes, que mantinha seus olhos fixos no horizonte, percebeu que seu discípulo estava inquieto, procurando dentro de si respostas para perguntas que não conseguia aquietar.

– Não se preocupe tanto com o que Lydis lhe disse, meu rapaz. Ela não é como eu ou você, nem como nenhuma pessoa que conheça, pois é capaz de ver e ouvir claramente o que não podemos e consegue falar diretamente à nossa alma, como nenhum pai ou ente querido conseguiria. Apesar de nem mesmo ela compreender totalmente as palavras que lhe saem dos lábios, elas têm o poder de mudar nossas vidas e a forma como vemos o mundo, como apenas algo divino poderia. É um dom raro e precioso, que deve ser usado com sabedoria por aquele que o possui e com cautela por aquele que faz uso dele.

Midler levantou a cabeça e olhou na mesma direção de seu mentor, permanecendo em silêncio por alguns momentos.

– Ela é uma dos Primogênitos de que me falou, meu mentor, não é?

Laertes virou-se atônito para seu discípulo, pronto para censurá-lo, como se um segredo que não pudesse ser revelado houvesse sido descoberto, mas se conteve. Não era a primeira vez que um discípulo o surpreendia, descobrindo respostas para perguntas que não haviam sido ainda enunciadas. Esta parecia ser uma forte característica nos Summerion, como uma herança passada de pai para filho. Estava, em verdade, muito admirado com Midler naquele momento e sabia que não podia repreender sua intuição ou sua sinceridade. Laertes permaneceu calado por alguns instantes, pensando em como poderia contar-lhe aquela história, mas sabia que havia apenas uma maneira de narrá-la, sem enigmas ou evasivas. O velho mentor ajeitou-se em sua cadeira e, após um demorado gole, acompanhado de um longo suspiro, começou a falar.

– Há muitos anos, em uma de minhas viagens em regiões distantes daqui, muito além e para o oeste destas montanhas, fui desviado de meu caminho para averiguar os estranhos sons que chegaram aos meus ouvidos, saídos de uma estranha floresta que ficava próxima à trilha há muito abandonada que eu percorria. Assim que cruzei seus limites, o próprio sol pareceu se pôr, sua luz não conseguindo mais penetrar entre os grossos troncos acinzentados, enfileirados tão próximos uns dos outros como uma grande muralha de pedra. Todos os sons pareceram se calar subitamente, abafados por um ar ainda mais denso que a espessa copa escura que pairava muito acima de minha cabeça. Havia uma tensão quase palpável permeando aquela floresta, como se as próprias árvores estivessem com medo de estarem ali. Não pude deixar de notar que não havia nenhuma folha, fruto ou ramo pelo chão. Estes pareciam morrer e apodrecer ainda presos a galhos ressecados, retorcidos como membros em dor. Cada árvore parecia acometida de algum tipo de doença que não se permitia curar, consumindo todo o corpo até que ela simplesmente morria, sem deitar semente. Em alguns lugares eu podia ver, ainda de pé, antigas árvores há muito já perecidas, seus corpos a se desfazerem lentamente em uma poeira grossa e escura, que não iria jamais alimentar a terra abaixo delas, enquanto suas irmãs, quase tão apodrecidas quanto elas, agonizavam ao fim de uma longa e triste vida, além de qualquer esperança.

– Mas como estas árvores... – Midler não conseguiu terminar sua pergunta, pois a mão de Laertes foi ainda mais ávida que sua curiosidade, pedindo que aguardasse.

– Deixe-me terminar sem mais interrupções, ou o outono se findará e as primeiras neves do inverno nos encontrarão ainda nesta varanda. Onde eu estava? Ah, sim. Caminhei por alguns minutos dentro daquela floresta sombria, detendo-me seguidamente para olhar a minha volta, com uma respiração pesada pela poeira da madeira morta e pela dificuldade de avançar entre raízes que brotavam do solo, aparentando estar em fuga. Mantinha meus sentidos em alerta, aguardando um iminente ataque que não aconteceu. Podia sentir que era acompanhado por olhares ao mesmo tempo acusadores e suplicantes, cheios de raiva e de esperança pela minha presença. Não havia trilhas ou pegadas de animais em seu solo, apenas um caminho tortuoso e estreito, por onde os galhos que pendiam de muito acima pareciam evitar deter meus passos, guiando-me cada vez mais para dentro da floresta. Quando já havia decorrido mais de uma hora de um lento avanço, consegui ouvir a voz de uma das Grandes Árvores em um lugar como aquele, para meu espanto e horror, mas suas palavras não faziam sentido para mim – Laertes percebeu a sobrancelha de Midler a se elevar – Sim, meu jovem, era uma árvore como Nokk, que você conheceu esta manhã, mas muito mais alta, poderosa e antiga. Talvez por isso, mais impaciente e desconfiada de seres irrequietos e efêmeros como nós. Seu nome era Graakr e aquela floresta sinistra era sua morada. Mais do que isso, era como um espelho de sua alma atormentada. Ela tinha o corpo escuro como ébano e uma pele dura como a muralha de um castelo, recoberta por grossos e numerosos espinhos, com poucas folhas ainda a penderem de seus galhos ressecados. Quando a encontrei, em uma pequena clareira, ela segurava, em delicados ramos junto ao corpo, uma pequena menina que não devia ter visto ainda seu primeiro ano de vida.

Midler virou-se para Laertes, pronto para perguntar algo sobre aquela menina, mas um olhar do velho mentor o persuadiu a aguardar que ele terminasse a história.

– Como eu dizia, Graakr parecia conversar consigo mesma, referindo-se à criança como "minha pequena semente". Aparentava ter se afeiçoado muito por ela, acariciando-lhe delicadamente a cabeça dourada com seus galhos mais finos, com uma leveza que não se podia esperar de um ser tão grande e poderoso. A menina permanecia quieta, observando com atentos olhos azuis a grande árvore que a embalava, sem proferir qualquer som. Pouco abaixo dos galhos que a seguravam, havia profundas marcas que uma lâmina deixara na pele escura de Graakr e pedaços de tecido com sangue já seco em seus espinhos, que se eriçaram quando me viu, em um claro sinal de que eu não era bem-vindo ali. "Ela é minha, ladrão de sementes, minha!", me dizia em uma voz carregada de um ódio que eu nunca havia visto, com um estrondo aterrorizante de lenha a se partir. Quando lhe perguntei onde havia encontrado a criança, ela insistiu que a havia germinado dentro de si, que ela era a sua semente, sempre mantendo seus espinhos ameaçadoramente voltados em minha direção. Seus galhos se distendiam com estalos secos, aumentando-lhe em muito o tamanho já descomunal, procurando me intimidar. Muito depois, eu vim a encontrar, não muito distante daquele lugar, os corpos de um casal de Primogênitos, que deveriam ter sido mortos no dia anterior e, junto a eles, uma espada entalhada com sua bela escrita jazia quebrada. Mas, naquele momento, eu já havia compreendido o que acontecera e o simples pensamento de que um ser como aquele poderia cometer um ato tão hediondo me deixava horrorizado além das minhas forças. Fiquei paralisado, sem saber o que fazer. Você não faz ideia de como eles são poderosos quando estão enfurecidos e a mente de Graakr estava muito além de qualquer razão.

Laertes fez uma pequena pausa para beber um pouco mais de chá, sentindo sua garganta ressecar com o ar da noite. Tinha certeza que seu discípulo iria aproveitar para lhe perguntar algo, mas, para sua surpresa, Midler se manteve em silêncio, aguardando pacientemente que seu mentor continuasse a história, o que fez após respirar profundamente.

– Graakr pareceu ler em meus olhos que eu havia descoberto seu crime e se desesperou. Avançou em minha direção com uma velocidade incrível, gritando que eu não iria levar sua pequena semente. Tive apenas tempo de tentar me defender com meu cajado, mas fui arremessado pela força de seu golpe contra uma pequena árvore, que se partiu em minhas costas. Não estivesse seu corpo apodrecido pela loucura de Graakr, eu teria morrido naquele momento. Até hoje não sei onde encontrei forças para enfrentar um ser tão poderoso e enlouquecido, mas algum poder ainda maior estava comigo naquele dia. Não podia atacá-la diretamente, pois ela carregava junto de si a criança que eu tentava salvar. Lutamos por mais tempo de que ouso lembrar e minhas forças há muito já haviam se esvaído quando, com um golpe desferido mais por sorte e por uma benção do que por habilidade, consegui partir seu corpo com meu cajado e ela caiu, quebrada em muitas partes, com um grito que jamais esquecerei, pois povoou por muitos anos quase todos meus momentos adormecidos e muitos dos despertos. Meu corpo também estava quebrado e não fosse pelas artes de cura que aprendi e por algumas ervas que carregava comigo, teria perecido naquele mesmo dia, logo após sua queda. Mesmo assim, a dor e o cansaço acabaram por me vencer e perdi os sentidos.

– Mas por que um ser como este faria algo assim? – Midler não conseguia mais conter sua curiosidade e buscava uma maneira de tentar confortar seu mentor. Ele podia imaginar o quando devia haver custado a Laertes ter destruído um ser como Graakr, mesmo para defender a sua própria vida e a de uma indefesa criança. Midler sabia como ele era apaixonado por todas as criaturas da floresta e percebia a admiração que sentia por estas em particular.

– Alguns anos depois, – Laertes prosseguiu, após uma longa pausa onde buscou fôlego e forças para continuar – relatei esta mesma estória para Nokk, exatamente como lhe contei. Dentre todas suas irmãs, ela é quem tem o maior interesse em nós e é a única que vive perto de nossas moradas, a nos observar. Em verdade, o que fiz foi uma confissão, para tentar expiar a culpa que sentia, e me sujeitei à justiça de seu povo. O que lhe disse deixou-a muito triste, mas não a surpreendeu. Nokk insistiu que a culpa não havia sido minha, pois este fim já havia sido determinado há muito tempo. Foi então que aprendi a história e o nome de Graakr, que era falado com respeito e temor até por suas irmãs. Era uma das Grandes Árvores mais antigas, mas cujas poucas sementes que teve nunca germinaram. Com o passar dos incontáveis séculos, ela se tornou cada vez mais amargurada e desesperançada, com grossos espinhos brotando em sua pele. Ela passou a ser evitada até pelos animais de sua floresta e sua seiva tornou-se azeda. Suas folhas caíram, os frutos murcharam e os galhos secaram. Caminhava solitária pela floresta, espezinhando brotos e botões por onde passava, sem mais dividir sua essência com as outras árvores, como você viu Nokk fazer. Acabou por se tornar uma criatura sem alma, sem apego a nada nesta vida. Sua morada passou, com o tempo, a refletir a alma amargurada e corrompida que trazia dentro de si.

Laertes reaqueceu seu chá, desta vez sem cantoria ou qualquer alegria, e se acomodou o mais confortavelmente que pôde em sua cadeira sem muito sucesso, sentindo os velhos ossos reclamarem a cada movimento.

– Não sei por quanto tempo fiquei desacordado, mas pelo menos um dia inteiro havia se passado. Quando despertei, um novo sol pairava sobre a copa das árvores, seus raios iluminando timidamente a clareira onde estava, mas, mesmo assim, já havia muito mais luz no coração da floresta do que antes. A minha volta, velhas árvores tombavam aliviadas, livres de um fardo que não podiam mais suportar. Depois de tantos séculos, um triste vento voltou a soprar, levando para longe a poeira escura que arrancava dos galhos e troncos apodrecidos. Em poucos dias, nada mais iria indicar que ali um dia existira uma floresta. Apenas um extenso deserto negro marcaria para sempre aquele lugar. Mas, naquele momento, apenas uma coisa vinha a minha mente. Tentei me erguer o mais rápido que podia para procurar pela pequena menina, o que demorou demais pelo debilitado que eu estava, mas era também grato pela dor que sentia, pois esta me recordava de que ainda estava vivo. Apoiei-me em meu cajado para caminhar, apenas para descobrir, dolorosamente voltando ao chão, que ele havia se partido ao meio. Tentei erguer-me novamente, mas minhas pernas não me respondiam mais. Arrastei-me então como pude até onde o corpo de Graakr estava, orando pela piedade de todos os deuses, pois não conseguia ouvir o choro da criança e temia pelo pior. Quando a vi, quase não pude acreditar em meus olhos. Ela estava sentada, ilesa, ao lado da grande árvore caída, olhando silenciosamente em minha direção. Quando me viu, com o mesmo olhar que o deixou desconfortável quando chegamos a esta casa, meu jovem discípulo, seu rosto se iluminou com o sorriso mais esplêndido que já vi em toda minha vida, como se, de alguma forma, ela soubesse que eu não iria lhe fazer mal algum, que estava ali para ajudá-la. Revigorado por aquele sorriso, levantei-a em meus braços, onde preguiçosamente se aninhou e adormeceu, tão serena como se estivesse em sua própria cama. Havia um suave desenho em suas costas, como uma marca de nascença, que confirmou as suspeitas que eu tinha. Aquela criança era realmente muito especial, mesmo entre os Primogênitos, pois havia nascido para se tornar uma Ghin’Ellyn, ou os “olhos do amanhã”, em sua língua. Alguém que pode ver e ouvir o que até eles não conseguem.

– E por que a trouxe então para esta casa, meu mentor? Não questiono sua decisão, mas não teria sido melhor levá-la para junto dos seus?

– Uma justa pergunta. Não foi uma decisão fácil, Midler, ainda mais depois que descobri quão especial aquela menina era. Os Primogênitos acreditam, mais do que qualquer outro povo deste mundo, que estão presos a um destino imutável que eles desconhecem. O longo caminho que irão percorrer já está traçado à frente deles, mas eles não conseguem vê-lo e, assim, não podem se preparar para o que virá. Os Ghin’Ellyn possuem um dom único, raro e precioso. Eles não conseguem ver o futuro propriamente dito, mas sim aquilo que os olhos não podem alcançar, nossa própria alma, despida dos disfarces, medos e vaidades com que sempre procuramos nos esconder, muitas vezes de nós mesmos. Entre os Primogênitos, quando os Ghin’Ellyn estão em harmonia com o mundo que os cerca, eles podem vislumbrar onde as escolhas de seu povo poderão levá-los e ouvir sons e palavras que ainda não foram ditas, mas o que veem e ouvem nem sempre tem um significado claro ou único, até mesmo para eles. Por isso, os Ghin’Ellyn são preciosos para os Primogênitos, mantidos eternamente isolados do mundo fora dos limites de suas florestas, pois acreditam que assim não serão corrompidos, permanecendo sempre puros. Eles não podem ser criados ou treinados, como nossos clérigos e guerreiros, pois este é um dom que nasce com eles, tornando-os ainda mais raros. Depois de muito ponderar, com a criança a dormir tranquilamente em meus braços, pude deduzir o que havia acontecido. Ela havia nascido abençoada como uma Ghin’Ellyn, em uma família que vivia longe da floresta dos Primogênitos, por motivos que até hoje desconheço. Seus pais iniciaram então a longa jornada até a grande casa de seu povo nestas terras, Aryaelinäe, para que ela crescesse junto aos seus, como acreditavam ser seu destino, mas acabaram por encontrar Graakr e sua loucura, quando cruzaram sua floresta. Eu sabia que aquela criança não seria capaz de sobreviver sem um protetor e que não poderia levá-la até a morada dos seus, pois ela havia sido tocada por um humano e não seria mais considerada por eles como a criança especial que era.

Midler arregalou seus olhos, surpreso. Em seguida, seu rosto se cerrou, em um claro sinal de desagravo pelo que ouvira, mas Laertes prontamente tratou de tranquilizá-lo.

– Não seja tão rápido em julgar e condenar aqueles que não compreende, Midler. Conheço algumas culturas entre os homens onde as crianças são mantidas longe das fogueiras para que apenas as mais fortes sobrevivam ao longo inverno, pois a comida é escassa e as dificuldades inúmeras. Por mais terrível que esta decisão possa lhe parecer, não é a crueldade que move estes homens, apenas a preocupação com a sobrevivência de todos em detrimento de apenas uns poucos. Quanto aos Primogênitos, nunca lhe disse que ela seria morta ou abandonada a sua própria fortuna, de modo algum, apenas que seria tratada de forma diferente dos outros Ghin’Ellyn. Acredito que se as suas palavras fossem sequer ouvidas, jamais seriam consideradas por eles, o que lhe causaria um imenso desgosto. Pode imaginar como seria a vida desta menina, sem qualquer propósito ou reconhecimento? Mesmo entre os seus, estaria sempre só e excluída. Então, atravessei neve e campos, florestas e montanha com ela em meus braços, mantendo-a aquecida e alimentando-a com o que conseguia encontrar, até chegar a humilde morada de Malent, onde sabia que ela encontraria um lar, um protetor e um pai que a amaria como se ela fosse de sua própria semente.

– Lydis sabe de sua origem, meu mentor?

– Mas é claro que sabe! Acha que eu esconderia algo assim de minha protegida? E mesmo que acreditasse que seria o melhor a fazer, não conseguiria manter nada em segredo dela, que pode descobrir dentro de cada um de nós o que nem nós mesmos sabemos. Sim, ela sabe, e considera esta a sua família e a sua casa, estando em paz consigo mesma e com seu dom.

Ambos ficaram em silêncio durante algum tempo. Midler segurava a caneca ainda cheia em suas mãos, já há muito resfriada. Não havia bebido nada desde que Laertes começara a falar, totalmente absorto por sua história.

– Quem são os Primogênitos, meu mentor? Lydis não é muito diferente de outras jovens que conheci, apesar de muito mais bela, mas sua beleza quase não me parece natural, como se ela lançasse um feitiço sem palavras sobre todos que a veem.

– Permita-me responder a esta pergunta, meu senhor Laertes, pois é sobre minha filha que o jovem pergunta – a voz suave de Malent vinha de trás do discípulo, surpreendendo-o.

Midler levantou-se rapidamente, virando-se em sua direção e colocando o joelho direito no chão, com os braços abertos e a cabeça baixa, em sinal de subordinação ao senhor daquela casa. Estava claramente muito constrangido.

– Meu bom senhor Duharee! Por Baltur, não tome minhas palavras como ofensivas ou levianas, pois nunca foi esta a minha intenção! Perdoe a indiscrição deste impetuoso tolo.

– Não há o que perdoar ou alguém a ser perdoado, jovem senhor Summerion. Não houve ofensa em suas palavras, apenas a verdade – Midler ergueu os olhos e encontrou um sorriso no rosto de Malent – Minha filha não o enfeitiçou, meu senhor, ao menos não como acredita. Sua beleza é também herança do sangue que corre em suas veias e não está apenas em seu rosto ou no que se pode ver, mas em sua alma. Sua suspeita é justa e terei prazer em esclarecê-la, se nosso bom Mestre Laertes me permitir.

O velho mentor concordou com um leve aceno de cabeça, ao que Malent fez um sinal para Midler sentar-se em sua cadeira e ajoelhou-se em frente a eles, com os pés esticados para trás, as mãos sobre os joelhos e as costas retesadas, como era a posição que os acólitos de Sandren tomavam perante seus superiores.

– Os Primogênitos, meu jovem senhor, – Malent falava devagar, apreciando o que narrava – aos olhos dos homens, poderiam ser descritos como seres muito parecidos com os mais altivos de nós, mas de traços mais finos, feições muito mais belas e graça infinita, mas seria como descrever Sandren como se fosse apenas uma bela torre. Há algo em sua beleza que não pode ser definido, algo intangível, como uma aura que nos toca a todos com dedos invisíveis. São seres divinos, herdeiros dos próprios deuses que criaram este mundo e eternamente agraciados por suas bênçãos. Já caminharam entre nós, ensinando-nos e nos honrando com sua presença, mas isto foi a mais tempo do que as histórias dos homens podem contar. Suas vozes são as mais puras que pode ouvir, mesmo quando falam nossos idiomas, que parecem toscos e rudes quando comparados com sua bela língua. Vivem em total harmonia com o mundo que os cerca, principalmente em suas florestas, que são muito mais do que um simples lar para eles. Muitas das belezas que já vi nesta vida foram fruto de suas hábeis mãos. Tudo que criam ganha vida própria, tamanha sua perfeição e beleza – o semblante de Malent tornou-se então sombrio por um momento – Temo pelo dia em que não estarão mais entre nós, pois se tornam cada vez mais raros com o passar do tempo, por desconfiança ou por temor.

Midler se manteve em silêncio, refletindo sobre o que acabara de ouvir. Tinha dúvidas se seus pensamentos estavam conduzindo-o na direção correta.

– Você já ouviu vários contos sobre eles, tenho certeza, mas não os conhece por este nome – Laertes percebia pelas sobrancelhas cerradas de Midler que ele já havia chegado a uma conclusão, só não conseguia acreditar nela – Em sua própria língua são os Qüerdin, “os primeiros”. Por nós são chamados de "o povo da floresta" ou “os filhos dos deuses”. Já foram conhecidos em outras épocas e em lugares esquecidos pelos homens como “os herdeiros do passado”, “os andarilhos do tempo” e “as crianças da aurora”, ou simplesmente de elfos, se preferir.

– Elfos? Mas elfos são criaturas de lendas, meu mentor! Povoam apenas os contos de velhas senhoras e a imaginação de pequenas crianças.

– Sim, realmente o fazem, mas unicamente por sua vontade. Eles se mantêm a parte de nosso mundo, nos permitindo vê-los somente quando é de seu desejo.

– Mas já ouvi estórias de que eles não podem ser tocados pelo tempo ou pela morte, vivendo para sempre. Contam que eles existem desde antes dos dragões e dos mais antigos deuses dos homens! Talvez desde o começo do mundo! Não podem existir seres assim!

Laertes sorriu levemente, com um curioso olhar voltado para Malent, carregado de uma alegre cumplicidade como só poderia existir entre dois velhos amigos.

– Você nunca viu um dragão, apenas ouviu lendas de velhas senhoras e sonhou com grandes monstros de fogo quando era uma pequena criança, mas mesmo assim acredita que eles existem. As próprias árvores vivem por muitas de nossas gerações, mas nunca o vi duvidar delas por isso. Se os Primogênitos viverem por cem ou mil anos, ou mesmo eternamente, que diferença fará? Nenhum de nós estará aqui para atestar sua longevidade, nem mesmo você, meu jovem, então, não se preocupe tanto com isso. O sangue imortal dos Primogênitos ainda pulsa em lugares muito distantes e próximos daqui, e mesmo em Sandren poderá encontrá-lo. Meu amigo Malent vem de uma linhagem antiga, que se iniciou nos tempos esquecidos em que eles caminharam em meio aos homens. As graças deles ainda correm diluídas em suas veias, herança de algum distante antepassado que viveu naqueles tempos, o que lhe dá uma injusta vantagem quando compara suas rugas com as deste velho peregrino.

Midler olhava admirado para Malent. Então este era o segredo por trás de sua aparência tão jovem. Apesar de não ser diferente de muitos homens que já vira, a herança dos Primogênitos estava estampada em seu rosto, cuja passagem dos anos não admitia que este fosse marcado por seus sinais. Agora ele compreendia as palavras de Laertes quando Malent lhe fora apresentado. O antigo acólito servira seu pai quando este era ainda mais jovem do que Midler e estivera em Sandrem junto do velho mentor ainda antes. Ele deveria ter mais de setenta anos, mas seu rosto não aparentava ter visto mais de trinta se passarem.

– Sim, Alenthor também o tem, pois esta herança, mesmo diminuída a cada geração, se mantém, o que o faz parecer mais novo do que você, apesar de ter quase o dobro de sua idade – Laertes adivinhara o pensamento de seu discípulo – Ambos irão viver muitos mais anos além de nós, mas nunca saberão exatamente quando sua hora irá chegar, o que os torna neste sentido iguais a nós, pobres mortais.

Laertes piscou para Midler, contagiando-o com seu sorriso. Por um momento, os três homens se entreolharam e se sentiram à vontade, esquecendo-se de toda e qualquer diferença ou formalidade que poderia ainda existir, aproveitando apenas a companhia uns dos outros naquela agradável noite. Midler pensava em Lydis, lembrando-se de todos os contos que já ouvira sobre a beleza dos elfos, e tinha agora certeza de que nenhum poderia lhe fazer jus. Mas aquele alegre momento rapidamente se desfez e o sorriso desapareceu do rosto de Laertes, quando seus olhos se voltaram novamente para o distante norte. Havia algo naquele horizonte que lhe roubava facilmente a tranqüilidade. Sua voz se tornou mais grave.

– Mas, infelizmente, as estórias que ouviu não são inteiramente verdadeiras, Midler. Acredite no que lhe digo, meu jovem, eles podem morrer, pela força e pela espada, tão facilmente quanto eu ou você, pois seus ferimentos sangram e doem tanto quanto os nossos. Mesmo que eles não possam ser tocados pela passagem do tempo ou por nenhuma doença ou veneno, não significa que não possam ser mortos por nosso ódio, inveja e cobiça – Laertes agora estava com o olhar perdido e sua voz estava mais baixa, como se falasse consigo mesmo – E isso já aconteceu por mais vezes do que este velho é capaz de suportar.

– O que quer dizer, meu mentor? – Midler podia sentir a imensa melancolia que se abateu sobre Laertes, quase como algo palpável. Nunca o vira assim. Ele permanecia em silêncio, com o olhar fixo, não esboçando qualquer reação, como se não houvesse escutado ou não quisesse responder àquela pergunta. Midler podia ver seus estreitos olhos castanhos se umedecerem – Meu mentor? O que tem, meu senhor?

Malent se levantou e segurou o braço de Midler antes que ele pudesse tocar em Laertes, chamando a atenção do jovem discípulo para si.

– É melhor que deixemos mestre Laertes a sós com seus pensamentos por agora, meu senhor. Há histórias cuja hora para serem contadas ainda não se apresentou, mas não deve se preocupar com isso. Venha, não falta muito para a noite se fazer manhã e terá um longo dia a frente. Deve procurar descansar o quanto puder.

Midler ficou quieto por alguns instantes, procurando dentro de si as palavras que poderiam confortar seu mentor, mas percebeu que não as encontraria. Não conhecia a história de Laertes, suas vitórias e derrotas, seus erros e acertos. Não conseguia imaginar o que seria capaz de quebrantar assim seu espírito e nada podia fazer. Levantou-se e tocou levemente o ombro de seu mentor, sussurrando as bênçãos de Sandren para um tranqüilo adormecer, sem obter qualquer resposta. Então, acompanhou Malent para dentro da casa, onde se despediu formalmente do senhor daquela casa e seguiu para seus aposentos. Deitou-se na confortável cama, mas não encontrou facilmente o sono que buscava. As imagens de seus pais, de Laertes e de Lydis se sucediam em sua mente, sem ordem ou controle. Quando estava quase sendo vencido pelo cansaço da viagem, pareceu ouvir uma triste canção, sendo entoada suavemente em uma língua desconhecida para ele, mas incrivelmente bela, como nenhuma outra que ele já ouvira. A voz a cantar parecia a de Laertes, mas estava acompanhada por uma linda voz de mulher. Midler não conseguia compreender o que cantavam, mas a música lhe trazia uma tristeza que conhecia bem, um sentimento de vazio e de perda. E assim, sentindo as lágrimas a preencherem seus olhos, adormeceu em um sono sem sonhos, ansiando por um breve amanhecer.