O Caminho de Sandren - Livro 1 (Caminhada)
4 Os Filhos da Tormenta
Notas iniciais
04
“Sal e fogo. São estas as heranças que queremos esquecer, que deixamos para trás, perdidas no tempo e na memória. Sal e...”.
As palavras continuavam sua dança fugidia, borradas em alguns momentos, apagas em tantos outros. Esfregou a mão nos olhos cansados, sentindo a aspereza na ponta dos dedos, preço pago pelo cuidadoso manuseio das antigas peles preservadas. Quanto tempo devia faltar para o amanhecer? Não muito, ele sabia. O aroma que vinha das cozinhas precedia a aurora, fazendo seu estômago reclamar uma vez mais. Em breve os sinos soariam para acordar aqueles que haviam dormido e a catedral se encheria do deslizar de passos apressados em suas tarefas, tilintar de finos metais e preces sussurradas.
A tímida chama do que restava da grossa vela ao seu lado bruxuleou mais uma vez, em seus estertores finais. Girou o corpo para a esquerda, sentindo um estalar de dor e alívio nas costas. As horas da breve madrugada passaram sem que percebesse, debruçado sobre pergaminhos, livros e tomos empoeirados. O cheiro de mofo e o fino pó que flutuava suavemente no ar presenteavam-lhe com lágrimas e uma tosse ocasional, acompanhada de um filete claro que escorria de suas narinas. Ao pensar sobre isto, um fatigado sorriso torceu os lábios secos. Havia sido uma noite maravilhosa para ele.
Fungando profundamente, encheu um pequeno caneco com água, cuidando para que nem mesmo uma única gota caísse nos objetos sobre a mesa. Enquanto bebia, olhou para a pequena estante na parede oposta do espaçoso cômodo, percebendo com frustração que não havia ali mais velas e também nenhum óleo na lamparina que repousava na cabeceira da cama. Colocou a mão gentilmente sobre a pequena chama que ainda tentava sem sucesso trazer alguma luz aquele aposento. O fogo pareceu dançar entre seus dedos, lutando para continuar a queimar, como um animal lutaria pela vida.
– Minha velha amiga, – as palavras sussurradas, embora estranhas, eram carinhosas – esta batalha é perdida e seu descanso é merecido, mas ainda não posso permitir que nenhum de nós durma, me desculpe.
Com um giro da mão, a chama pareceu saltar da vela e passou a pairar sobre sua palma, deixando apenas uma fina linha de fumaça a subir do pavio moribundo abaixo, parcialmente afogado em cera escurecida. Seu brilho aumentou, iluminando o quarto e a pele dourada no rosto do forasteiro que a segurava. Seus olhos cinzentos piscaram rapidamente, tentando acostumar-se com a luz, enquanto colocava a última pele ressecada na cadeira ao lado, com reverente cuidado. Seria de ovelha talvez? Ou de algo menor? Era difícil dizer, rachada e escurecida como estava, mas se encontrava bem conservada para uma tela com mais de três mil anos.
Sua perseverança havia rendido mais frutos do que esperava e as generosas ruínas de Marelvian revelaram para ele parte de seus segredos mais preciosos. O caminho que começara a traçar no escuro recinto subterrâneo da Casa dos Sábios de Caledhorn levou-o até a antiga capital, onde os guardas tentaram barrar seu avanço sobre o solo sagrado, mas a carta selada pelo patriarca de Urm lhe dava salvo conduto por toda Graeldar, sem qualquer pergunta ou contestação. Ao pé de uma colina coberta por pequenas flores amarelas, onde um dia erguera-se o muro externo da cidade, havia uma cripta esquecida. Mais uma vez agradeceu silenciosamente aos mestres que encontrou lá em eterna vigília sobre sua obra e que conseguiram preservar tão bem a memória de um povo quase esquecido por ele mesmo.
Com tristeza percebeu que não havia mais o que ler nos antigos escritos. Não possuía ainda todas as respostas que buscava, mas chegara a hora de novamente perpetuar aquelas histórias, de finalmente uni-las em uma única narrativa. Com um longo suspiro, pegou a pena que repousava sobre a cama, molhou-a na escura tinta de um pote e abriu um grande tomo imaculado que ocupou quase toda a mesa. Seus gestos eram lentos e cuidadosos, desenhando as palavras com esmero e contando sobre um tempo antes de Graeldar e de seu povo, os graeldaras, quando eles ainda não respondiam por este nome.
– A história nunca morre, apenas renasce e se torna imortal – sussurrou com prazer. Para ele as palavras escritas possuíam uma força e uma beleza que não se poderia encontrar em nenhum outro lugar. Acreditava que a verdade não estava sempre nas histórias que ouvia, pois estas podiam mudar de acordo com a vontade de quem as contava e a memória dos homens as tornava confusas e imprecisas com o passar do tempo, mas quando eram gravadas, em pedra, pele ou papel, se tornavam eternas e imutáveis.
Sua bela escrita passou então a descrever uma terra ampla e esplêndida, tendo ao norte uma extensa cadeia de majestosos picos, chamadas de Montanhas do Gigante e ao sul as águas mornas do Oceano Esmeralda. Entre eles estavam as vastas planícies verdejantes que se estendiam desde os Pântanos Vermelhos até as areias escaldantes do Deserto Sem Fim. Ao longo dos muitos séculos neste solo abençoado, os que aqui viviam sempre procuraram respeitá-lo e estar em harmonia com as dádivas que lhes foram generosamente concedidas. Era um povo humilde, formado por devotos, camponeses e pescadores, que tirava seu sustento tanto da terra quanto do mar, em alimento e mercadorias, voltados para uma vida simples e prazerosa, para seus campos e lavouras. Contavam com orgulho a história destas terras até onde a memória podia alcançar, pois foram os primeiros homens a caminhar sobre elas, segundo suas lendas. Seus clérigos viam a chegada das estações como sinais de mudança, de plantio e de colheita, renovando seus votos de dedicação para com a boa morada que os abrigava e alimentava.
Estes homens e mulheres um dia viriam a ser conhecidos como graeldaras, mas antes da própria Graeldar existir, eles chamaram a si mesmos de Filhos da Tormenta, pelas raízes de seus antepassados, que remetiam ao distante Mar Raivoso, às ilhas vulcânicas e às eternas tempestades que as assolavam, antes de chegarem a esta terra que batizaram de Novo Refúgio, uma benção comparada às afiadas rochas onde viveram em meio ao sal e ao fogo. Ao longo de centenas de anos, a nova terra fora povoada largamente, na forma de muitas vilas, aldeias e fazendas que surgiram e cresceram em profusão, com imensos campos cultivados em terra sempre fértil, agrupadas em feudos e governados por um regente da maior família de cada região. Acostumados à dura vida nas ilhas, eles sabiam aproveitar com maestria cada punhado de terra cultivável, o que o Novo Refúgio lhes dava sem qualquer comedimento. Assim surgiram as Grandes Casas, com suas famílias e sobrenomes, formadas pelos filhos dos Primeiros Filhos, quase tão numerosos quantos os grãos que plantavam. Os feudos prosperaram rapidamente, com suas lavouras dando-lhes quase sem esforço o que as pedras de seus pais nunca puderam.
Apesar do tempo e das distâncias crescentes separarem as Casas, todas elas mantinham as tradições de seus antepassados e celebravam as antigas raízes em comum, oferecendo de bom grado animais, trabalhadores, mercadorias, clérigos, filhas e filhos. Apesar de nenhum dos feudos jamais haver abdicado de sua autonomia ou soberania, muitos foram os regentes que tentaram ao longo dos séculos uni-los sob uma única família, com ofertas, casamentos, acordos ou ameaças veladas, mas o único que os velhos pergaminhos registravam fora Hilnos Durande.
Hilnos fora o sábio senhor das maiores extensões de terra às margens do generoso Lorun, ricas em campos, grãos e moedas, e sua família vivera por séculos em Lyanmer, a ancestral morada dos Durande. Apesar da prosperidade que o grande rio lhe trouxera, em férteis lavouras e proveitoso comércio, sua própria semente nunca germinara. Sua amada esposa, Marel, falecera enquanto carregava seu único herdeiro ainda no ventre e, em sua dor, Hilnos nunca tomara outra em seu lugar, apesar das muitas filhas que lhe foram oferecidas e passaram a morar em sua casa, pois seria considerado um grande insulto recusá-las, por mais pesaroso ou cordial que o abastado viúvo se apresentasse.
Após anos de luto e uma solidão sem descendentes, Hilnos passara a enxergar as filhas e netas dos outros regentes e todas as terras de seu povo como uma única família, como a família que lhe fora negada. Dedicara então todo o amor que tivera por Marel e o que guardara para seu filho a esta visão. Os anos que se seguiram testemunharam a riqueza dos Durande esvair-se em diplomacia, favores e promessas, tentando aproximar assim as Grandes Casas a sua visão. Hilnos também adotou a religião de Marel, a mais disseminada pelos feudos, tomando Urm, O senhor da Natureza, como seu deus e seus clérigos sob sua proteção, erguendo templos e dando-lhes prestigio em sua casa, ganhando assim o apoio e a benção dos “senhores sem terra”, como os outros regentes os chamaram, pelo poder que passaram a ostentar. Nenhum outro estivera mais próximo de unir as Casas dos Filhos quanto Hilnos e ao seu lado em Lyanmer se sentaram os senhores dos Valahir, das planícies alagadas, e dos Cardenthal, dos vales sob as sombras das montanhas, mas, mesmo assim, ele também falhara em unir a todos.
Para Hilnos os anos passaram rapidamente em tristes invernos, com uma grossa poeira a se acumular silenciosamente nos aposentos trancados de Marel e em seus sonhos. As fartas colheitas se sucederam, alimentando estranhos irmãos fechados em seus feudos e a vida prosseguiu em sua rica monotonia solitária.
Até que os Novos Homens vieram do leste, em hostes infinitas, com sua fome e suas armas.
E com eles o Invasor, arauto de algum deus desconhecido.
Neste momento a pena voltou a descansar sobre a mesa, enquanto uma dolorida mão era flexionada. Um brilho diferente se acendeu naqueles olhos cinzentos. De todas as runas, escritos, cantos e poemas sobre a criação de Graeldar que conseguiu encontrar, havia somente dois que mencionavam este que os Filhos nomearam Invasor, mas apenas as peles de Marelvian foram escritas por seus descendentes. Apesar de sua existência ter sido essencial para a formação da nação dos graeldaras, seu nome jamais fora mencionado por eles, sua presença era efêmera na história e ausente na memória. Mas, teria sido apenas o passar dos séculos que o desvanecera assim? Os Mestres graeldaras acreditavam, ou diziam acreditar, que apenas os esforços e a devoção de Hilnos unira todas as Casas e esta era a verdade aceita e propagada em todas as conferências de eruditos e nas lições dos acólitos e aprendizes. Assim estava gravado em todos seus livros e nos sagrados volumes da História dos Campos Sempre Verdes, escrita pelo exaltado Grande Mestre Vílenim, mas havia outros livros.
A Casa dos Sábios guardava pequenos tesouros escritos pelos Novos Homens, alguns ainda mais antigos que as peles de Marelvian, em esquecidos baús cuja madeira se desfazia em uma fina nuvem ao menor toque. Manuseá-los exigiu tempo e perícia, mas ele possuía ambos. Nestes pergaminhos havia referências a este antigo líder que os conduzira através do Deserto Sem Fim. Os lecionados o chamaram de Nobre Senhor, os guerreiros de Comandante, os oprimidos de Libertador, mas havia alguns textos em que ele encontrara um nome, esquecido e desbotado quase além da percepção, Kaalutor, mas, se este título alguma vez significara algo para os Filhos, jamais fora mencionado.
O torturante cheiro de pão recém-saído dos fornos fez seu estômago querer acordar toda catedral com sua revolta, mas ele não conseguia parar, não podia parar, não ainda. O escuro do céu perdia sua força quando a ressecada pena foi mergulhada novamente e a tinta que escorria por sua ponta tomava os contornos de palavras, enquanto a história nunca contada era retomada.
Para os Filhos da Tormenta a língua dos Novos Homens não fora fácil de compreender, soando antiga e estranhamente familiar aos ouvidos daqueles enviados para recebê-los, mas seus números e fundamentos de ferro afiado e gananciosa miséria se apresentaram como sinais ainda mais claros de seu intento. O Invasor era um estrangeiro mesmo entre eles, muito mais alto e imponente, mas os liderara até ali e reivindicara parte das terras férteis que encontrara para o sustento dos seus, como se este fora seu direito divino, oferecendo em troca uma paz que não lhe pertencia ou acompanhara suas promessas. Havia desespero e fome nos olhos dos que o seguiam e, apesar do frágil controle que exercia sobre eles, relatos tornaram-se cada vez mais comuns de pilhagens e mortes, de ataques e crimes contra as terras e o povo dos regentes do leste.
As estranhas palavras continuaram a ser traduzidas em paz e cooperação, mas uma guerra silenciosa se alastrara rapidamente pelos feudos orientais, com hordas sem fim dirigindo-se em velozes passos famintos para o Lorun, destruindo tudo em seu caminho, como monstruosos gafanhotos, e o medo marchava muito adiante deles. Eles eram mais numerosos e habilidosos na arte do combate, dominando bestas de guerra e carregando armas e armaduras desconhecidas para os homens do campo. Não havia como deter seu avanço.
Cercado por fugitivos e regentes sem terra, Hilnos apelara uma vez mais a seus irmãos, antes que tudo que restasse das orgulhosas Casas fossem cinzas e escombros e, para os poucos que tivessem sorte, uma vida como órfãos escravizados e herdeiros de terras devastadas. Então, mais de duas décadas após a morte de Marel, por necessidade, desespero e temor, Hilnos viu seu sonho se concretizar em uma única nação sob uma única Casa. Ela foi batizada com o nome que as lendas atribuíam ao bravo líder que conduzira seus antepassados desde as áridas terras onde nasceram, fugindo do sal e do fogo através do grande Mar Raivoso e do Oceano Esmeralda, considerado por eles o pai de todos os que agora viviam em seu solo abençoado, Graeldar, o Destemido, e eles agora lutariam e morreriam como graeldaras.
Quando as Casas unidas se ergueram contra o inimigo e suas hostes, mesmo sabendo que não poderiam vencê-los, e o sangue foi derramado abertamente pela primeira vez, tingindo o dourado do trigo de um vermelho vivo, o Invasor parecera surpreso e hesitante, como se despertado de um longo torpor. Ao ver o massacre dos graeldaras, voltou-se contra os próprios homens, mas estes não lhe escutavam, parecendo não mais reconhecê-lo e tomando-o por apenas mais um inimigo. Sua espada saboreou ainda incerta o sangue do primeiro guerreiro que o atacou, enquanto gritava comandos que caíam em ouvidos surdos de fome e sede de sangue. Com um grito de guerra que ecoou pelos campos, o Invasor enfrentou os exércitos dos Novos Homens, acompanhado apenas de um pequeno grupo de seus seguidores mais próximos, enquanto os graeldaras assistiam em silenciosa incredulidade. O único relato da Batalha dos Campos Vermelhos a descreve como uma insanidade de dez contra dez mil, mas suas palavras pareceram jamais duvidar do resultado. Os homens do leste foram derrotados em pouco tempo e baixaram as armas, em rendição ao seu antigo líder. Com uma ordem sua, os avanços sobre o Lorun terminaram, as tropas recuaram e todos os graeldaras aprisionados foram libertados. E assim, a efêmera guerra de um único dia terminara, mas, mesmo renegada ou esquecida, esta vitória se mostrou vazia para os filhos de Graeldar.
O Invasor dispersou os Novos Homens, diminuindo assim seu número, sua fome e a ameaça que pairava sobre a nação recém-criada. Os mais sábios, os mestres e os artífices foram enviados para o norte e para além das Montanhas do Gigante, os comerciantes e os homens do mar para o sul e para o Oceano Esmeralda e os guerreiros ele manteve nas terras para além da Floresta de Loneing, a nova fronteira de Graeldar, para guardar a todos de uma ameaça oculta da qual jamais falara, mas que os fizera fugir até ali, através das terras devastadas do distante horizonte. Tomou quase a metade de Graeldar e todas as terras que se estendiam até o nascente para seus soldados, criando um enorme domínio a que chamou de Édhulor, o Escudo Guardião, em uma língua ainda mais antiga que a falada por seus homens.
A história dos novos reinos se tornou então incerta e obscura, pelo tempo e por suas interpretações, tão diversas quanto os interesses de seus personagens. Os bardos a chamaram de Era do Reencontro e os sonhadores de Era da Reconciliação, mas o único texto graeldara a registrara como a Era da Tirania dos Justos, mas mesmo ferida e mutilada, Graeldar sobrevivera e se erguia como uma única terra para um povo unido.
A primeira e maior cidade da nova nação crescera em torno de Lyanmer, com espaçosas áreas para acomodar os representantes de todos os feudos, com suas famílias e comitivas, tornando-se assim sua capital e rebatizada por seu senhor de Marelvian, “a Casa de Marel”, em cuja cripta, sob a maior das igrejas erguidas para Urm, o túmulo de sua esposa passou a repousar.
Hilnos governara durante quase quarenta anos, não como um rei, mas como um condutor de seu povo, em suas próprias palavras, trazendo justiça e prosperidade aos seus. As promessas de paz de Édhulor foram mantidas, assim como das outras nações que surgiram, por ordem direta do Invasor. O exército de Graeldar foi novamente formado, não mais por camponeses, mas por mercadores e diplomatas, pois estas eram agora a verdadeira arte sem rival dos graeldaras, por temor e necessidade. A breve guerra lhes ensinara que sua força nunca estaria nas pequenas tropas que mantinham, mas no proveitoso comércio honesto que estenderam a todas as terras conhecidas e nas alianças forjadas com palavras e favores. Orgulhosos de sua herança como grandes navegadores, seus navios se tornaram uma visão comum nos mais distantes portos. Com o tempo, a lealdade dos graeldaras passou a ser fruto não apenas de uma memória ferida, mas também da admiração que descobriram por seu governante e pelas fervorosas palavras de apoio dos clérigos a ele. Em seus últimos anos, Hilnos passou a ser acompanhado quase exclusivamente pelos mais elevados entre os sacerdotes de Urm, a tornarem-se ainda mais poderosos e influentes em Graeldar, com a contínua ausência de seu soberano em assuntos de estado por sua avançada idade. Em seu leito de morte, quando mesmo os clérigos já não podiam mais prolongar a vida de seu longevo senhor, Hilnos decidiu que Graeldar seria sua herança e que os filhos de seu coração seriam os verdadeiros herdeiros. Todo o poder deveria passar aos graeldaras e estes seriam governados por seus representantes em um grande conselho de irmãos, sob as bênçãos de Urm, o sábio.
E assim foi feito. Hilnos, o Grande Condutor, foi enterrado ao lado de Marel, para permanecer eternamente nas fundações da capital e da nação por ele construída, como um símbolo a todos os graeldaras. Se as palavras borradas carregavam alguma verdade, até mesmo o Invasor esteve presente em seu funeral, sem que nem mesmo um ano houvesse marcado a passagem em seu rosto, e prestara-lhe uma homenagem de rei, ignorada pelos graeldaras. Em verdade, este era o último registro sobre ele em todos os textos que encontrara, mesmo entre os poucos livros do passado de Édhulor. O Nobre Senhor, o Comandante, o Libertador e o Invasor desapareceram da história e da memória dos homens, para jamais retornar.
Marelvian crescera como nunca antes e passara a abrigar uma grande congregação de nobres e sábios, estudiosos e mestres, assim como os mais elevados e ilustres filhos de cada família de Graeldar, que, segundo a vontade de seu primeiro governante, se tornaram os primeiros membros do novo poder, a Ordem de Hilnos, a qual todos os regentes se subordinaram. Os sacerdotes de Urm serviram como perenes conselheiros em todas as decisões da Ordem e aperfeiçoaram ainda mais a arte da diplomacia graeldara, dentro e fora das paredes e vitrais de seus templos.
Os seguidores desta filosofia nunca acreditaram no uso da força para atingir seus objetivos, pois estas conquistas eram sempre frágeis e temporárias, preferindo agir de forma mais sutil, porém contínua e definitiva, como o riacho que lentamente escava e molda a rocha à sua vontade. Os sacerdotes repetidamente aconselharam à Ordem de que Graeldar não deveria ter um grande exército pronto e treinado, para nunca levantar suspeitas sobre suas intenções e criar motivos para seus vizinhos aumentarem ainda mais suas tropas ou mesmo as usarem contra eles, principalmente quando a diplomacia e os tratados de comércio pareceram não serem suficientes e as pressões para além de suas fronteiras por terras férteis e alimento abundante cresceram perigosamente, sobretudo quando rigorosos invernos se sucediam em demasia. Graeldar nunca participara de outra guerra, mas defendera seus interesses em todas elas, negociando e suprindo secretamente os dois lados, apoiando suas causas e cuidando dos feridos, tornando-se aliada e considerada tanto pelo vencedor quanto pelo derrotado. Sempre apoiara a todos, mas nunca se comprometera com ninguém. Possuía apenas uma pequena guarda em sua capital e algumas milícias nos feudos para manter a ordem e assim o tempo pareceu se congelar para eles, ao longo de pacíficas e proveitosas gerações, o que muito lhes agradara. Seu povo esquecido de sua origem e os Mestres a lembrar seus regentes apenas daquilo que lhes era conveniente. Observaram o mundo a sua volta crescer e alterar-se, novos mercados serem descobertos, destruídos ou anexados, impérios serem forjados com ferro, fogo e sangue e grandes reis e generais virarem estátuas cada vez maiores, enquanto seus ossos viravam pó, em túmulos escuros e úmidos dos quais ninguém se recordava. E em todo este tempo os graeldaras se moldaram às mudanças, respondendo súplicas com alimento e ameaças com cortesias e palavras sábias e bem escolhidas. As espadas nunca estiveram muito distantes de suas fronteiras, mas eles sabiam como evita-las ou como encontrar outro alvo para saciar sua sede de sangue e ouro. Em verdade, nunca houvera muito ouro nos cofres de Marelvian, pois não era esta a moeda apreciada por seus regentes, mas sim tratados assinados e favores devidos. Não eram guerreiros de armas de metal e madeira, mas souberam manejar as de que dispunham, sábios conhecedores dos desejos, aspirações e necessidades de outros homens.
Mas mesmo Graeldar encontraria sua ruína, quase três mil anos após Hilnos e o Invasor, não pela espada ou pela guerra, mas pelo medo e pelo fogo. A fé e a fartura não puderam salvá-la, os diplomatas foram tão impotentes quanto os clérigos e suas preces. Os aliados se mostraram surdos, o protetor um inimigo velado, o juramento solene uma promessa vazia e a salvação sua perdição. A morte e o temor não vieram das terras para além de suas fronteiras, mas das sombras e das lendas...
Um leve bater na porta o fez erguer os olhos e a pena, ambos exauridos pelo esforço. A suave voz de um pajem se fez ouvir, ecoando levemente no corredor de pedra.
– Meu senhor, o Patriarca lhe chama.
– Irei imediatamente – gostaria de se sentir surpreso pela convocação e pelas primeiras luzes que já escondiam as estrelas, mas estava bem ciente de que ambas viriam neste momento. Já havia muito que não experimentava a surpresa, que não se permitia estar despreparado. Acreditava que o último de uma linhagem não tinha este direito se queria deixar de sê-lo.
Com um terno sorriso, fechou as mãos em volta da chama, como se a abraçasse gentilmente. O fogo se apagou lentamente, sua luz cedendo lugar às primeiras luzes douradas de uma preguiçosa aurora que invadia sem cerimônia o quarto.
– Bom descanso, minha amiga. Um de nós já pode dormir.
Fale com o autor