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O som do rio Lorun ecoava alto entre as rochas nuas que o margeavam, enquanto iniciava sua longa jornada até o grande porto de Marahin, nas distantes planícies ao sul. Em sua foz, ele se tornaria um rio de águas calmas, largo e profundo, onde grandes navios singravam serenamente entre seus portos, mas, entre as montanhas onde nascia, era um rio traiçoeiro, de quedas abruptas e corredeiras velozes. Em um elevado vale, suas gélidas águas se detinham junto a uma longa fileira de pedras, terra e arbustos, uma represa natural que conseguia domá-lo apenas o suficiente para que se formasse um extenso e tranquilo lago, chamado pelos homens que o conheciam de Gwallir, de onde a vida entre aquelas inóspitas elevações parecia brotar, na forma de numerosos peixes de pele alva e sem escamas, que serviam de alimento para os grandes ursos e pequenos roedores que ocasionalmente podiam ser vistos a rondar suas margens, assim como para aves de garras afiadas que mergulhavam sem aviso em suas águas escuras, como velozes flechas certeiras. Um precário caminho de pedras, construído há muito tempo, mas que agora era pouco mais do que uma estreita e sinuosa trilha, quase esquecida sob a relva que tentava reclamá-la, contornava sua margem oriental, antes de desaparecer na íngreme encosta ao sul, indo juntar-se displicentemente a estradas muito mais largas e importantes. Ao pé destas montanhas, muito abaixo do vale, havia apenas uma pequena placa desgastada junto ao início daquela trilha, onde se podia ler com dificuldade uma única palavra, Nilvorn.

A vila de Nilvorn nascera neste vale, próxima a um denso bosque de grandes Mows, árvores de uma madeira escura que queimava lentamente em fogueiras que pouco faziam para trazer vida e calor as suas casas. Ela surgiu pelas mãos dos primeiros trabalhadores que foram enviados para explorar estas montanhas e encontraram uma razoável soma de carvão e alguns metais, como o cobre e o ferro, escondidos logo abaixo das primeiras rochas, mas em quantidades ainda menores que o pouco interesse que despertaram. O acampamento inicial cresceu lentamente e acabou por se tornar uma pequena vila, mas realmente nunca prosperou para além de umas poucas dezenas de casas escuras. Durante todo o ano, os dias eram frios e sempre muito curtos, mesmo no auge do verão, pois as sombras dos picos próximos só não encobriam totalmente o sol quando este passava alto pelo meio de um céu raramente límpido.

O inverno sempre chegava cedo e durava muitos meses, trazendo consigo uma triste melodia que ecoava pelas nuas paredes rochosas, com o gélido vento a cantar entre as árvores do bosque, enquanto pintava o céu de cinza e o chão de branco. Durante este período, os homens de Nilvorn passavam cada vez mais tempo reunidos na única taverna da vila, que não era nada além de um extenso galpão sem janelas, com mesas e cadeiras rudimentares e uma cozinha sem divisórias, cujo fogo aquecia sem distinção a comida, a alma e o ambiente, queimando a madeira das Mows colhida durante o curto outono, junto com o carvão que não se fazia bom para vender. Eram homens fortes, de pele clara e traços rudes, acostumados com a vida dura das minas. Usavam roupas feitas de grossas peles e luvas de couro cru, desgastadas e remendadas, assim como seus largos cinturões para carregar as pesadas ferramentas. Quase todos ostentavam uma barba cerrada e escura, que contrastava com seus rostos. As poucas mulheres da vila eram responsáveis por preparar toda a comida, com os suprimentos comprados algumas semanas antes das primeiras neves caírem.

Nilvorn recebia raros visitantes e estes eram sempre comerciantes que vinham trocar peles, suprimentos e vestimentas pelas resistentes ferramentas e outros equipamentos que nasciam da única forja da vila, arte que os ferreiros locais dominavam há anos com orgulho, mas mesmo os mais gananciosos não se arriscariam a fazer esta viagem nesta época do ano. Com o manto do inverno sempre precoce já a cobrir o vale, a estreita trilha escondia-se até dos olhos mais experientes em diversos pontos e estava agora quase tão difícil de seguir como se alguém tentasse transpor a própria montanha.

A vila já havia se preparado para suportar os longos meses que se seguiriam, com boas reservas de madeira, carvão e bebida, sem se preocupar com o que se passava para além de seu vale, se alguma vez o fizera. Quando o próprio rei morrera e seu único filho se sentou no trono, as novas da sucessão só atravessaram o vale oito meses depois, pelas palavras de um comerciante de especiarias que parecia gostar demasiado do som da própria voz, mas não havia na vila quem soubesse dizer o nome do herdeiro coroado. Os homens de Nilvorn aprenderam cedo a ter pelo resto do reino o mesmo interesse que este tinha com eles, reunindo-se em seu largo galpão para contar as mesmas histórias de anos atrás, procurando se aquecer e esquecer a neve que caía incessante lá fora. As picaretas, pás e marretas eram alegremente substituídas por talheres e canecas de madeira e metal, cheias de um saboroso e robusto vinho que haviam conseguido com o último visitante. Comiam alegremente pães com pedaços de queijo e carne cozida, assim como alguns legumes e frutas secas, enquanto algo que lembrava vagamente uma ruidosa canção tentava se fazer notar entre o tilintar das canecas e a ruidosa desordem que reinava no galpão.

Em uma mesa maior, um homem que já havia vivido mais de trinta invernos no vale segurava uma caneca ornada com delicados trabalhos em madeira, enquanto conversava com um pequeno grupo a sua volta. Suas roupas eram bem cuidadas, assim como sua barba, o que o fazia destoar dos demais. Este era Argen, o administrador da vila. Apesar de ainda ser forte e saudável, não trabalhava mais nas minas com seus companheiros, pois havia perdido o braço direito, pouco acima do cotovelo, em um desmoronamento anos atrás. Era um dos poucos que conseguiam ler e escrever, se não o único, mesmo que com certa dificuldade, e era o responsável por tratar com os comerciantes e por estocar os suprimentos, coordenar e distribuir as tarefas e cuidar dos trabalhos da forja. Todos o respeitavam, não apenas por sua posição, mas também por seu conhecimento daquelas montanhas, mas os quatro que o ouviam não conseguiam acreditar no que dizia.

– Estou lhes dizendo, pelo braço que ainda tenho! Já faz quase uma hora que eu estava ali fora, perto do depósito, dando as últimas instruções ao jovem Ber para separar as peças menores para os ferreiros trabalharem, quando pensei ter visto algo ou alguém descendo a face do norte, vindo para a vila. Mostrei ao rapaz, mas o pobre diabo, além de gago, não consegue ver mais que um metro à frente do nariz!

O jovem ao seu lado baixou os envergonhados olhos míopes. Não era ainda um homem crescido e isso muito o desconcertava quando estava entre eles. Não podia nem mesmo caçar ou trabalhar nas minas como os outros, sendo sempre tratado como uma criança pelo administrador.

– Como o pobre Ber conseguiria ver coisas que existem somente nesta sua cabeça, Argen? – perguntou Hamin, um dos ferreiros da vila, que sempre andava junto de seu pesado martelo, como se este fosse um amuleto. Colocou alegremente a mão sobre o ombro do rapaz, tentando animá-lo – Sabe muito bem que não é possível ninguém caminhar por aquelas encostas com neve até a cintura, e mais ainda a lhe cair na cabeça a cada minuto. Nem mesmo no verão isso se daria. O que você deve ter visto... ­­­­

– Eu sei o que vi, Hamin! – interrompeu Argen com um forte soco na mesa, fazendo o ferreiro segurar firmemente sua caneca para que ela não caísse – E não era apenas um, mas dois que desciam a encosta, vindo de lá – levantou-se repentinamente, apontando com um dedo da única mão para o norte e firmando o olhar, como se tentasse ver através das paredes do galpão.

Freben, um mineiro muito experiente, ouvia a conversa sentado à frente de Argen, abrindo um largo sorriso. Imaginava se o administrador já não havia começado a beber daquele excelente vinho antes deles chegarem, para estar tão alterado. Para compensar sua suposta perda, serviu-se de um pouco mais, enquanto todos olhavam para o administrador de pé.

Sentado ao lado de Argen estava um homem tão grande quanto um urso, que ouvia aquela estória com interesse. Diferente dos outros, não havia nenhuma barba a cobrir seu queixo e, em sua cabeça, igualmente nua, alguns finos traços de uma tinta escura formavam um intrincado desenho que não lhes era familiar. Seu nome era Serdras e ele era o maior e mais forte homem em Nilvorn, assim como um amigo de longa data do administrador. Seus olhos claros e a pele levemente dourada indicavam que ele não era nativo daquelas terras, mas há muito já havia conquistado o respeito e a admiração de seus atuais companheiros. Em sua juventude, Serdras fora um excelente soldado de aluguel em guerras que aconteceram muito para o oeste, mas as moedas se tornaram escassas quando aqueles que o pagavam finalmente venceram. Sem uso para sua espada, ele atravessou as longas planícies de Behali e as Montanhas do Gigante à procura de trabalho, encontrando nas duras minas de Nilvorn uma boa utilidade para sua grande força e resistência. Aprendeu rapidamente a gostar do novo ofício e da nova vida, generosa em amigos, respeito e boa bebida, fazendo com que os anos passassem velozmente, até que, sem perceber, ele havia criado raízes profundas na própria rocha dura de onde tirava agora seu sustento. Este era seu décimo segundo inverno no grande vale e ele já havia quase se esquecido de como era o mundo para além daquelas grandes paredes de pedra.

Esticando o braço, Serdras segurou calmamente a mão estendida de Argen, fazendo-o se sentar. Conhecia-o muito bem para saber que o administrador não estava mentindo ou bêbado, mas assustado. Serdras havia caçado ao seu lado durante muito tempo nas florestas que cercavam a vila e se lembrava do grande arqueiro que fora, antes de perder o braço, com uma pontaria impecável e uma excelente visão. Já o vira derrubar um grande urso com apenas uma flecha, feito que nunca foi igualado e do qual o administrador se orgulhava e não se cansava de contar. Ambos conheciam como poucos os animais daquela região e Serdras tinha certeza que seu amigo não se confundiria facilmente. Mas ele também sabia que era impossível para qualquer homem descer a encosta do norte naquelas condições. Não havia caminho ou trilha para aqueles lados e os buracos e fendas, escondidos sob a neve, transformavam-na em uma armadilha mortal.

– Você deve ter visto dois pequenos alces indo para as Mows, meu amigo – disse devagar, tentando acalmá-lo – Acabei de guardar as ferramentas no depósito e não vi nenhum estranho em nossa vila. Se estivessem lá fora, teriam vindo para cá com certeza, onde é mais quente e confortável – ou morreriam tentando, pensou.

Argen olhou atentamente para seu amigo, procurando nele a lucidez que lhe faltava naquele momento. Serdras ainda tinha sua capa molhada pela neve que começara a cair no vale. Seu olhar era calmo e seu sorriso sincero. Argen começou a ponderar as palavras que ouvira e procurava acreditar nelas. Apesar de ter certeza do que vira, sabia que isto não era possível. Nenhum homem poderia caminhar por aquela encosta, ainda mais com a facilidade com que ele havia visto. E era isso o que mais o assustava.

Neste momento uma lufada de ar frio entrou com força pelo galpão, apagando parte das velas e tochas que iluminavam o ambiente, chamando a atenção de todos. A entrada da taverna havia sido construída para que se pudesse entrar ou sair sem que o frio vento do vale incomodasse os que estavam aquecidos lá dentro. Havia uma grossa porta principal que dava para fora e uma comprida antessala fechada depois dela, com uma segunda porta voltada para a parte interna do galpão, de modo que as duas portas não ficassem abertas ao mesmo tempo.

As vozes dos homens no galpão se elevaram em reclamações, mas rapidamente se calaram quando, ao se virarem para a porta aberta, viram uma estranha figura ao lado dela, do mesmo tamanho de um pequeno jovem, mas tão largo quanto um adulto. Seu rosto quase não se fazia visível sob uma espessa barba negra, toda desgrenhada, que se estendia até quase encobrir um gasto cinturão de metal, de onde pequenos sacos pendiam. Apenas a ponta de um largo nariz se pronunciava, queimada pelo frio. Suas botas e luvas eram de um grosso couro, muito bem trabalhadas, com fivelas de um metal prateado. Por baixo de uma grossa capa de pele, tomada pela neve, podia-se ver uma armadura de couro escuro que lhe cobria até os ombros, reforçada com longas tiras trançadas. Seus braços eram tão largos quanto garrafões de vinho e cobertos por grossos pelos negros. Pelos lados de seu capuz, um longo cabelo, igual à barba, se misturava desordenadamente com esta. Preso às costas, trazia uma grande mochila que aparentava estar muito pesada, mesmo para um homem crescido, mas ele parecia carregá-la sem qualquer esforço. Junto a esta, uma espessa manta de couro embrulhava algo quase tão largo quanto ele, preso por uma grossa corrente atravessada no ombro direito. Por baixo das vastas sobrancelhas, ele corria seus olhos pelo galpão em silêncio, como se procurasse avidamente por algo.

Seu nome era Bharin Bolfix, um anão, um dos filhos da montanha, como se chamavam em sua estranha língua. Viviam em uma distante região, muito ao norte daquelas terras, entre pedras nuas e grandes elevações majestosas, que faziam as montanhas em torno de Nilvorn parecerem pequenas colinas. Eles a chamavam de Khedzaer e eram raramente vistos fora de suas moradas e nunca tão longe delas. Os anões eram menores do que os homens, não chegando a atingir a altura de um jovem adulto, mas eram fortes como as rochas que formavam suas casas e cavernas. Viviam pelo tempo de várias gerações humanas e sua verdadeira paixão estava na boa bebida e naquilo que tiravam de baixo da terra, como joias e metais, e nas belas coisas que criavam com elas, pois eram artífices incomparáveis. Suas criações não eram feitas para serem vendidas por nenhum valor, mas para serem guardadas e admiradas por eles, pois os anões não almejam acumular simples riquezas, mas belas obras de ouro e de prata. Havia poucos homens que se igualassem a eles no campo de batalha, dada sua grande habilidade com quase todas as armas, com força e resistência desproporcionais ao seu tamanho. Falavam pouco e desconfiavam de tudo que lhes era estranho, evitando, sempre que podiam, o contato com outros povos.

– O que quer aqui, forasteiro? – Serdras tentava analisar o anão, enquanto se levantava. Ouvira algumas estórias sobre este povo em sua longa viagem, mas nunca havia visto um deles antes – Feche a porta antes que congelemos todos!

Bharin olhou para ele e um sutil sorriso se formou no canto de seu lábio, percebendo que havia encontrado o que buscava. Não conhecia bem a língua dos homens e não compreendeu totalmente as palavras do gigante, mas seu significado era claro para ele. Com um movimento do braço, soltou a grossa corrente presa ao ombro e deixou o grande embrulho escorregar, fazendo um claro barulho de metal quando se chocou contra a dobradiça da porta, quebrando-a, e caiu pesadamente no chão, junto com a mochila. Com um movimento da perna, empurrou-a contra a porta, para mantê-la aberta, e caminhou em direção a Serdras, que agora de pé, parecia ainda maior, tentando intimidar o anão. Hamin empurrou o jovem Ber para trás, lendo nos olhos semicerrados do estranho que algo de ruim estava para acontecer.

Bharin parou a um passo de Serdras e esperou, sem nada dizer. Alguns homens começaram a rir, pois o anão pouco passava da cintura do gigante. Estava visivelmente desarmado e havia escolhido o mais forte entre eles para desafiar. Serdras olhou em volta e sorriu, sem saber ao certo o que fazer. Não acreditava que aquele anão pudesse querer começar uma luta ali, sozinho e desarmado, contra dezenas de homens. Após um momento, ele se virou para a cozinha para pedir que lhe trouxessem uma caneca de vinho para oferecer ao estranho, acreditando que este gesto ele compreenderia, mas não conseguiu.

Quando os risos cessaram e Serdras ia começar a falar, Bharin desferiu um violento soco entre as pernas do guerreiro, fazendo-o se dobrar como uma grande Mow que se quebra sob o peso de uma avalanche. Antes que qualquer um conseguisse reagir, o anão girou o corpo e abraçou o pescoço de Serdras, que estava agora na altura de seu ombro, e arremessou com facilidade o gigante de mais de dois metros pelo saguão e através da grossa parede ao lado da porta, que se partiu com um estrondo.

Freben levou um segundo para entender o que havia acontecido, observando o grande buraco por onde seu companheiro desaparecera sob a neve que caía lá fora, mas foi um segundo longo demais. Sem hesitar, Bharin rapidamente guardou algo em um dos bolsos de seu cinturão e subiu na mesa que estava a sua frente, carregando consigo a cadeira em que Serdras estivera sentado e a quebrou com força na cabeça do mineiro. Hamin sentiu um gosto de couro e sangue a preencher sua boca, quando o anão enterrou o punho entre seus dentes com um soco que o jogou para trás. E o inferno explodiu dentro do galpão.

Todos pularam para cima de Bharin, tentando segurá-lo, mas teria sido mais fácil tentar domar um touro selvagem. O anão desferia socos e cotoveladas com grande força e precisão e, muito raramente, precisava acertar a mesma pessoa mais de uma vez para derrubá-la. Ele não procurava se defender, sendo atingido diversas vezes, mas os golpes teriam mais efeito contra uma rocha, pois o anão parecia nem mesmo os sentir. Ninguém conseguia ficar impunemente ao alcance de seus punhos por muito tempo. Sangue e vinho se confundiam por cima das mesas, enquanto as mulheres corriam aos gritos para fora do galpão. Apesar de muitos ainda estarem de pé, o desfecho da luta já parecia estar decidido, quando a mesa em que Bharin estava não resistiu ao peso do anão e dos que tentavam contê-lo e se partiu, fazendo o anão perder o equilíbrio. Neste momento, um quase refeito Hamin acertou violentamente sua cabeça com o martelo, fazendo-o cair de joelhos no chão. Um forte chute atingiu seu peito, jogando-o pesadamente contra a porta da entrada, que se quebrou com o impacto, e o corpo do anão caiu inerte no chão, entre as coisas que deixara ali. Houve um momento de silêncio, enquanto os homens, incrédulos, olhavam para o anão caído. Haviam, finalmente, vencido.

Os poucos que ainda estavam de pé começaram a olhar atônitos em volta para o galpão semidestruído e só podiam ouvir respirações ofegantes e gemidos de dor, quando o jovem Ber gritou assustado em uma fina voz:

– O... O... Olhem!

Todos se viraram para a porta com a respiração suspensa. Ninguém poderia estar vivo depois do que aconteceu, mas ali, de pé, Bharin sorria, com o ombro esquerdo molhado pelo sangue que escorria do ferimento em sua cabeça. Segurava, com as luvas pintadas de um abundante vermelho vivo, um grande machado-de-guerra, feito de algum metal escuro que os ferreiros de Nilvorn nunca haviam visto, com a manta de couro que o embrulhara até então caída no chão. Suas lâminas eram moldadas como as grandes asas abertas de um dragão e estavam marcadas por antigas batalhas, com arranhões e riscos que se confundiam com as muitas runas de prata que as enfeitavam em toda sua extensão. Uma cabeça de dragão entre as grandes chapas adornava o topo do grosso cabo, com um contrapeso em forma de uma cauda enrolada na outra extremidade. Um grosso cabo de madeira, reforçado por largos anéis de metal, sustentava o machado, com uma pesada corrente que se prendia em protuberâncias em forma de garras em suas extremidades para transportá-lo.

Bharin tinha um largo sorriso no rosto e seus olhos, arregalados e vermelhos, não pareciam focar em nada a sua frente. Sua respiração era forte e ofegante, chiando pesadamente entre os dentes trincados com força. Estava além da dor e da consciência, como um animal enlouquecido pela raiva. Um cheiro forte de medo percorreu o galpão, pois todos souberam naquele momento que iriam morrer, que estavam diante de algum tipo de demônio que não podia ser detido.

Bharin quase não percebeu quando uma pesada mão apertou com força seu ombro, vinda de trás, enquanto uma voz que lhe era muito familiar falou calmamente em sua própria língua.

– Não precisa disso, meu amigo. Nunca precisou.

O anão se virou rapidamente, girando o machado com fúria incontida contra aquela voz. Um urro bestial saltou de sua garganta, como o grito de guerra de um animal selvagem preenchendo o ar. Um estrondo de metal contra metal, acompanhado de uma explosão de faíscas, deteve o ataque de Bharin, quando seu machado se chocou contra outro. A sua frente estava outro anão, Zartan Balorin, seu amigo de muitos anos e batalhas.

Mesmo aos olhos desabituados dos homens, não poderia haver dois anões mais diferentes, e não apenas no que se podia ver. Eles tinham a mesma altura, mas a barba de Zartan era de um ruivo vivo, muito bem cuidada e trançada com esmero. Vestia uma pesada camisa de elos de metal que lhe cobria até os joelhos, com um largo cinturão dourado, onde uma bainha ornada com jóias se prendia. Trazia um belo elmo de prata com linhas douradas debaixo do braço, com uma grande pedra vermelha em sua fronte. Usava luvas e botas de um fino acabamento, cobertas em toda extensão com pequenas placas de um metal brilhante, onde diversas inscrições de seu povo estavam gravadas. Carregava um grande escudo de bordas retas nas costas, por cima de uma grossa capa de pele. Seu machado, usado na mão esquerda, era bem menor que o de Bharin, com uma única lâmina reta e de ângulos agudos, todo em prata, ricamente trabalhado e cuidadosamente polido, refletindo fortemente a pouca luz do galpão. Mas, acima de tudo, o que o diferenciava de Bharin era sua postura. Era fácil perceber que Zartan fora muito bem instruído e havia nascido para liderar. Apesar de seu olhar severo para seu companheiro, ele emanava um grande carisma e seus gestos eram calmos e ponderados, mas sempre firmes. Seu olhar era franco e direto e sua voz, forte e confiante. As tradições de seu povo, seu orgulho e sua honra eram suas maiores riquezas.

O olhar enfurecido de Bharin não assustava seu amigo, apenas lhe causava uma profunda tristeza. Já o havia visto assim por diversas vezes, quando toda razão estava perdida e alguma coisa sinistra, quase maligna, se libertava dentro do anão, transformando-o em uma fera assassina e incontrolável, que quase não distinguia amigo de inimigo. Por muitas vezes, a vida de ambos foi salva por esta fúria, quando Bharin se tornava um guerreiro imbatível e parecia estar além da dor, cansaço ou medo. Não havia inimigo ou criatura que o pudesse derrotar ou dominar quando estava assim. Bharin já fora ferido além de qualquer conta em inúmeras batalhas, mas nunca caíra. Sua força estava nesta fúria, nesta loucura. Mas não era esta insana sede de sangue que se apossava de seu amigo que incomodava Zartan, pois este furor de batalha não é incomum entre seu povo, mas ele sabia que Bharin sentia um enorme prazer quando estava assim. Ele gostava de perder o controle e se entregar a este demônio que vivia dentro dele, sempre a sussurrar, seduzindo-o com seu chamado. Zartan sabia que chegaria o dia em que ele não conseguiria mais controlá-lo e temia o que seria obrigado a fazer para deter seu amigo. O que mais o entristecia era sentir, dentro de si, que este dia não tardaria a chegar.

Rapidamente, ele procurou afastar estes pensamentos de sua mente, concentrando-se no presente. Respirando fundo, falou com a convicção de um comandante:

– Um Portador do Machado de Mananam não deveria precisar de armas contra oponentes tão fracos, meu amigo.

Bharin explodiu em uma gargalhada que surpreendeu e assustou os homens de Nilvorn, que não entenderam o que o outro anão falara, mas nunca poderiam esperar esta reação. Sentiam uma estranha mistura de medo e alívio com a chegada de Zartan, que claramente tentava dissuadir seu companheiro, mas sentiam que esta trégua era tão frágil quanto uma tocha no gélido vento do vale.

Mas a risada de Bharin feria seu amigo mais do que muitos inimigos foram capazes. Zartan sabia que seria assim que ele reagiria, com escárnio e desdém às suas palavras, mas isso não abrandava sua dor. O nobre anão havia arriscado algo mais precioso para ele do que a própria vida naquela jornada, para provar aos seus que Bharin era um guerreiro digno, que todos os outros estavam errados. Os dois foram companheiros em todas as batalhas de que participaram e colocaram suas vidas nas mãos do outro por mais vezes do que podiam contar. Bharin sempre abdicara de todas as condecorações a que teve direito, alegando que as cicatrizes que carregava, muito mais numerosas, eram o que lhe interessavam e tinham muito mais valor para ele do que qualquer honraria, mas jamais se recusara a lutar e a arriscar a própria vida, nunca pelos outros ou por uma causa, mas pelo simples prazer do combate, que era quando estava em seu elemento, quando se sentia completo. Sempre estivera muito à frente das primeiras fileiras dos anões, mas sem nunca se sujeitar ou mesmo se importar com nenhum comandante ou general, norma ou conduta. Sua fama rapidamente se espalhou para além das muralhas de Khedzaer e seu nome era conhecido e respeitado até entre os inimigos de seu povo. Não havia entre os Filhos da Montanha quem não o conhecesse, mas apenas Zartan lutava ao seu lado e o admirava pelo guerreiro que era. Todos diziam que Bharin lutava de forma tosca, rude e egoísta, sem nenhuma técnica, treino ou cuidado, que era apenas um selvagem com um machado e jamais se tornaria um guerreiro de verdade.

Quando Zartan fora convocado pelo Conselho de Guerra dos Anões, formado pelos maiores comandantes de Khedzaer, para ser nomeado Portador do Machado de Mananam, honraria máxima a que um anão combatente poderia almejar, ele levou Bharin consigo e solicitou que os membros do Conselho também o avaliassem, à luz de tudo que este já fizera por seu povo. Sentados em um alto semicírculo de pedra, os conselheiros discutiram seu pedido, mas nem mesmo o Senhor-da-Guerra dos anões, posto mais alto do Conselho, Zartarian Balorin, pai de Zartan, conseguira ver através do exterior rude e dos modos grosseiros de seu companheiro e determinou que ele nunca poderia ser nomeado Portador do Machado, pois, apesar dos seus feitos em combate serem inegáveis, não havia nobreza para ser encontrada naquele guerreiro. Mas Bharin parecera não se importar e desdenhou do título, virando as costas a todos e saindo de maneira desrespeitosa do Salão dos Antigos, para a ira dos membros do Conselho, que confirmaram então a decisão de seu comandante. Mas Zartan não iria jamais concordar com aquilo. Sabia que, por mérito, o título já pertencia a Bharin há muito tempo. Ninguém entre eles derrotara mais inimigos ou estivera por mais vezes a serviço de seu povo. Tentou intervir em nome de seu amigo, mas seu pai lhe disse que a única coisa que Bharin realmente almejava para si era a morte gloriosa em batalha e essa honra ele iria encontrar por si só. Esta era a decisão final do Conselho, mas Zartan não podia e não iria acatá-la.

“- Por Mananam, o Primeiro, provarei o quanto estão errados, meus comandantes. Minha crença em Bharin Bolfix é grande como a montanha sobre vossas cabeças e minha convicção firme como a rocha sob vossos pés. Estive ao seu lado por mais invernos que posso lembrar e ele nunca me faltou, como nunca deixou de atender ao vosso chamado. Sempre foi o primeiro a entrar no campo de batalha e o último a sair. Por seu machado passaram nossos maiores inimigos e nossas maiores vitórias. Não podeis estar cegos para isto! Vosso julgamento é injusto e equivocado e a este salão não regressarei, até que consiga descerrar vossos olhos para a verdade que não atentais. Por Mananam, o senhor da montanha, provarei o valor de Bharin longe destas terras, onde não o julguem apenas pelo que olhos míopes alcançam!”

Todos os membros do Conselho se levantaram em protesto, pois sua decisão havia sido desafiada pela primeira vez em muitos séculos. A voz que mais se fazia ouvir era a do General Kothar Nol, um dos mais respeitados heróis entre os anões. Ele havia comandado muitas tropas durante a Grande Marcha, quando as fronteiras mais distantes da terra em que agora viviam foram conquistadas e defendidas. Se os anos de combate ressurgissem, havia um consenso velado no Conselho que seria ele o Senhor-da-Guerra, pois não havia melhor comandante e estrategista entre os anões. Quase trezentos anos depois, seu coração ainda pulsava na cadência daqueles passos e das cornetas de guerra, que fizeram o próprio chão do Vale de Lhair tremer.

“- Não ouses elevar tua voz neste conselho, filho de Zartarian! Teu atrevimento não encontra eco nestes salões! Nem mesmo ostentas ainda um nome que seja teu para apresentar diante de teus superiores! – virou-se então para o Senhor-da-Guerra, que estava a seu lado – Tens de repreender teu subordinado por tamanha indisciplina, Balorin!”

Todos se calaram quando Zartarian se levantou, virando-se para Kothar:

“- Devo lembrar-lhe, General, que meu filho não usa o nome que lhe pertence por direito, perante este conselho, por sua própria vontade, movido por uma humildade que acredito ser descabida para um combatente com o seu valor, mas a respeito. Sua maioridade já foi por ele próprio conquistada há muitos anos e é inquestionável para todos aqui. Considero esta uma atitude a ser admirada e não punida.”

Enquanto Kothar se sentava, visivelmente contrariado, Zartan não pôde evitar um sorriso de se formar em seus lábios, orgulhoso pelas palavras de seu pai, mas este logo se desfez sob o olhar severo do Senhor-da-Guerra. Zartarian permaneceu em silêncio por algum tempo, com seus olhos a fitar seu filho logo abaixo, sob grossas sobrancelhas brancas.

“- Tua decisão está tomada, meu filho, e não tentarei persuadi-lo como teu comandante, mas, como teu pai, advirto-o: talvez sejam teus olhos que estejam míopes, cerrados para a verdade ante ti, por respeito e amor a um companheiro de armas a quem muito admiras. Mesmo as montanhas podem ruir e a rocha se partir, se forem desgastadas ou corrompidas. Vá! Buscai o que procuras, mas acautele-te. Tens um destino grandioso a tua frente e só tuas próprias escolhas podem te afastar dele.”

Após as palavras de seu pai, Zartan se retesou e cruzou o braço direito à frente do corpo, com o punho cerrado a se chocar fortemente contra sua armadura, na altura do peito, fazendo o impacto ressoar alto entre as paredes de pedra. Este era a saudação formal entre os guerreiros de seu povo e enquanto ele permaneceu impávido nesta posição, o silêncio imperou naqueles salões. Então, os membros do Conselho voltaram a protestar, quando ele se virou e partiu, sem nada mais dizer. Ainda hoje Zartan podia ouvir as vozes deles, enquanto caminhava para longe da assembléia que o convocara para nomeá-lo Portador do Machado. Sabia que naquele momento, seus passos decididos lhe afastaram de muito mais do que do título que almejara por toda a sua vida. Algo dentro de seu pai morrera naquele dia.

A voz rouca de Bharin o trouxe de volta a Nilvorn.

– Tem razão, tem razão. Se um Portador do Machado não precisa de armas, eu não preciso nem usar os dois braços – e jogou seu machado para o lado, que caiu com um grande estrondo.

O jovem Ber havia se escondido embaixo de uma mesa desde que Bharin se erguera e estava muito assustado, com a certeza de que não iria sobreviver àquela noite. A ideia de morrer, ainda mais como um covarde, lhe aterrorizava. Precisava provar, para ele e para os outros, que já era um homem, que não era mais uma criança. Tentando conter as insistentes lágrimas, agarrou a única arma que conseguir achar no chão próximo, um grande garrafão de vinho, e se levantou. Seus olhos úmidos embaçavam ainda mais a sua curta visão e ele não conseguia ver claramente o anão. O pesado silêncio que pairava no ar o angustiava, pois não conseguia saber o que acontecia. Pela primeira vez, não havia ninguém para lhe dizer o que fazer. Estava perdido e assustado. Quando o machado de Bharin caiu no chão, Ber, movido pelo desespero, virou-se na direção do som e arremessou com força o garrafão, que explodiu contra o rosto de Zartan, momentaneamente atordoando o guerreiro.

– Não temos medo de você, monstro! Largue sua arma e nos enfrente, criatura covarde! – Ber falava com uma voz que não era sua, forte e decidida, como acreditava que a voz de um homem deveria ser.

Zartan largou seu machado e seu elmo, levando a mão ao rosto. O vinho escorria pela barba, misturando-se com filetes de sangue que saíam de sua boca. Ele havia compreendido bem o que jovem dissera, pois havia sido instruído na língua comum dos homens. As palavras de Ber haviam lhe ferido mais que o vidro que cortara seu rosto. Em um outro momento, poderia até compreender a atitude do jovem, mas, apesar de não ser como Bharin, Zartan também era um anão e seu sangue de guerreiro já pulsava veloz por suas veias, retumbando em seus ouvidos. Enquanto olhava para a luva manchada pelo viscoso líquido, falou para eles:

– Posso muito bem entender e desculpar a sua estupidez, mas a vil mentira, a covardia e o desperdício de um bom vinho são atitudes que não posso tolerar – soltando seu cinturão, que caiu pesadamente ao chão, virou-se para Bharin – A morte não é recompensa para covardes, meu amigo, apenas a dor. Não mate ninguém.

Os homens de Nilvorn jamais tiveram qualquer chance contra os anões. Apesar de seus estilos serem tão diferentes, os dois se completavam no combate, como o escudo e o machado. Bharin era força bruta, quase sem controle, como uma avalanche, enquanto Zartan era técnica e disciplina, como a ferramenta de um hábil artesão. Eram como a rocha e a pedra, como a muralha e o castelo. Onde um conseguia uma abertura, o outro rapidamente a aproveitava. Em pouco tempo, tudo terminou e não havia mais ninguém que estivesse acima da estatura dos anões, empilhados em cima de mesas quebradas ou uns dos outros.

Zartan olhou em volta e não podia deixar de sentir pena por todos os que via. A vida nas minas endurecera estes homens e os tornara fortes, mas eles não eram guerreiros. Esta vitória não era motivo de orgulho para ele. Olhou então para Bharin, que parecia muito decepcionado.

– Por Mananam, Turbilhão, o que se sucedeu aqui? – era assim que Zartan apelidara seu amigo, pelo modo como ele girava seu machado sobre a cabeça em combate – Estes homens investiram contra ti sem pretexto? Ou foste tu o causador desta balbúrdia?

Bharin caminhou em silêncio em direção a seu amigo, enquanto procurava por algo em seu cinturão. Ao abrir a mão, Zartan pôde ver um pequeno brinco, ainda sujo pelo sangue da orelha de Serdras, que Bharin arrancara com os dentes quando o arremessara. O nobre anão o pegou e começou a examiná-lo com curiosidade, sob uma das poucas tochas ainda acesas. Os anões podiam ver melhor que qualquer homem quando estavam sob pouca luz, acostumados com a escuridão de suas casas sob as montanhas. Ele conseguia ler sem dificuldade as finas inscrições ao redor das três pequenas pedras que ornavam o brinco.

– Isto saiu de nossas forjas, mas há muito tempo – Zartan parecia falar sozinho, perdido em pensamentos – Os artífices da família Thrord não mais confeccionam joias como esta há algumas gerações. Eles costumavam viver bem ao sul de nossas terras, em colinas e vales não muito distantes daqui, mas não consigo compreender...

– Está bem, está bem! Então é nosso, não é? – Bharin sempre ficava desconfortável com o conhecimento e a eloquência de Zartan, como um devedor diante de sua dívida – Vi isto com um deles quando chegamos nesta vila e o segui até aqui.

– Fez muito bem em reavê-la, meu amigo. Esta é uma joia feita para uma das filhas dos Thrord, por ocasião de sua maioridade. Só pode ter sido roubada de seu sepulcro. Não consigo conceber a ideia de que alguém pudesse ter tamanho desrespeito a ponto de conspurcar um local de repouso. Estes não eram homens dignos, mas sim ladrões! – virando-se para Bharin, estendeu-lhe a joia – Guarde-a consigo, Turbilhão, pois pertence ao nosso povo.

Bharin colocou-a de volta em seu bolso com um sorriso. Talvez esta luta não tivesse sido tão decepcionante afinal.

– E onde diabos esteve, Zartan? Achei que viria comigo.

– Fui procurar provisões para comprar, visto que tua fome sem fim exauriu nossas reservas. Não foi este o motivo de estarmos aqui? Este foi o único povoado que conseguimos divisar das montanhas. Pensei que estivesse delirando, pois não acreditava que homens conseguissem viver nestas condições por vontade própria. Não iremos muito mais longe sem repor nossos suprimentos, mas parece que tu os encontraste antes de mim. Este arremedo de taverna é onde os parecem guardar. Procuremo-los.

– Procure você, já que foi sua a ideia de virmos para cá. Não conseguimos encontrar nenhuma das trilhas de que falou nestas montanhas e cruzá-las diretamente nunca foi minha vontade. Sua escolha de caminhos foi que reduziu nossa comida desta maneira.

Zartan suspirou pacientemente. Já havia perdido a conta de quantas vezes teve de explicar sua decisão a Bharin, cuja disposição para reclamações parecia infinita.

– Como já te disse antes, meu amigo, estes picos foram explorados por nosso povo em gerações agora olvidadas. As estradas dos homens dão muitas voltas desnecessárias e levaríamos semanas para as transpor, além de acreditar que não seríamos bem-vindos em seus portões. Imaginei que poderíamos descobrir as marcas que nossos antepassados deixaram nestas rochas, mas, para minha infelicidade, estas parecem terem sido feitas para não as acharmos. Mas, pela joia que encontraste, parece-me que eu não estava tão equivocado assim – Zartan sorria satisfeito.

Com um grunhido de desagrado, Bharin quebrou o gargalo de uma garrafa de vinho e começou a beber, enquanto Zartan se dirigia parra o fundo do galpão, onde estavam armazenados diversas caixas e barris. Caminhava com cuidado, pois jamais pisaria em um inimigo caído, não importando o quão abominável considerasse seu crime. Colocou a mão em um saco que trazia consigo e puxou um punhado de moedas de dentro.

– Não está pensando em pagá-los por nada, está? – irritou-se Bharin.

– Não pagarei pelo estrago feito, pois estes fizeram jus a ele, mas somos guerreiros, não ladrões, Turbilhão. Deixarei aqui o suficiente apenas para pagar por aquilo que levarmos conosco, como o vinho que bebes.

Escondido no fundo do galpão, espremido entre os barris de mantimentos e uma grande caixa de pedra cheia de brasas incandescentes, onde as mulheres esquentavam a comida, Argen nada podia fazer a não ser observar Zartan se aproximar cada vez mais, enquanto Bharin abria desdenhosamente a segunda garrafa. O administrador correra para lá quando o combate se iniciou e segurava firmemente sua besta de caça contra o peito. Amaldiçoou silenciosamente pela milésima vez o acidente que lhe custara o braço, sabendo que não teria a chance de efetuar um segundo disparo se o descobrissem. Suava de calor e de medo, sentindo suas costas arderem contra a pedra aquecida. Tomando posição, apoiou-se em um pequeno barril ao seu lado, com Zartan em sua mira. Até aquele momento, nunca havia rezado para nenhum deus, mas sussurrava seguidamente uma oração para que o anão se afastasse. De repente, percebeu que Bharin o havia avistado e gritava para seu companheiro, com o vinho a lhe sair pela boca junto com as palavras. Seu medo se transformou em desespero e ele começou a gritar, enquanto disparava:

– Morra, demônio! Morra!

A seta saltou veloz e voou certeira, enterrando-se profundamente no tronco de Zartan, entre os elos de sua armadura, antes mesmo que as palavras de Argen lhe chegassem aos ouvidos. O anão permaneceu estático, como que se paralisado, com os braços entreabertos, olhando fixamente para o ferimento em seu peito, sem conseguir desviar o olhar. O sangue começou a sair devagar, como uma pequena mancha crescente em sua camisa, mas ele não sentia nenhuma dor, apenas um frio muito intenso que parecia se espalhar por dentro dele. Seu instinto lhe dizia continuamente para remover aquela seta, mas ele não conseguia mover os braços que pareciam pesar mais que a própria montanha onde nascera.

Bharin correu na direção de Argen, enquanto o administrador tentava, desesperadamente, colocar outra seta em sua besta, mas nem mesmo com os dois braços ele conseguiria fazê-lo antes do anão estar sobre ele, pois este se movia com uma velocidade incrível, tomado por uma fúria selvagem. Com um violento empurrão, Bharin espremeu o barril que protegia Argen contra a parede, explodindo-o em milhares de pequenos pedaços e cravando várias farpas em seu braço, que ele pareceu não notar. Com a outra mão, agarrou firmemente a besta, que se quebrou com um estalo seco, junto com a mão que ainda a segurava. Bharin gritava palavras incompreensíveis até mesmo para um anão, mas Argen não conseguia ouvir nada, tamanha era sua dor, e berrava por clemência, sem conseguir se desvencilhar do aperto do anão. Bharin levantou o punho cerrado, pronto para matar sem dificuldade o administrador, mas se deteve. Olhando para o homem, que gritava e chorava como uma criança, se debatendo com o que lhe restara do outro braço, ele sentiu alguma coisa que não soube explicar. De repente, era como se sua raiva houvesse desaparecido, substituída por algo que ele não compreendia. Seu ímpeto o havia abandonado. Sem saber ao certo o que fazer, apertou com mais força a mão de Argen, fazendo-o gritar ainda mais alto até, finalmente, desmaiar de dor.

– Não bato em aleijados – sua voz estava baixa, quase como um sussurro. Parecia falar consigo mesmo, como se procurasse uma justificativa, quase uma desculpa para não matar aquele homem, enquanto abria sua mão e Argen escorregava, caindo inerte no chão.

O som de moedas batendo no chão fez o anão se virar rapidamente, como se despertado subitamente de um torpor, a tempo de ver Zartan cair de joelhos, olhando para ele.

– Turbilhão... veneno... – as palavras saíam com dificuldade dos lábios pálidos do anão.

Bharin correu até ele e o amparou para que não caísse. Zartan não conseguia mais falar, apenas olhava fixamente para a seta enterrada em seu peito e para Bharin, tentando dizer-lhe algo.

– Não sei o que fazer, demônios! Não sou como você! – Bharin gritava, quase descontrolado – Não sei nada sobre venenos, ervas ou curas! Só vou saber vingar a sua morte. Vou trazer dor e tormento para todos nesta vila antes de matá-los! E vou matá-los a todos! Todos, ouviu? Homens, mulheres e crianças! Cada um deles! É isso o que quer? Quer que eles sofram? Então me diga o que fazer, desgraçado! Me diga!

Com muito esforço, Zartan levou a mão trêmula de seu amigo até a seta, olhando fixamente em seus olhos. Então o anão compreendeu o que deveria fazer. Apertando firmemente a seta em suas mãos, quase a ponto de quebrá-la como um fino graveto sob uma tormenta, Bharin fechou os olhos e sussurrou entre dentes cerrados, tão baixo que nem mesmo ele podia ouvir:

– Mananam, seu imbecil! Nunca lhe pedi nada antes, mas não ouse levar este aqui. Não este idiota que acredita e confia em você.

Bharin puxou a seta com toda a sua força, que saiu de uma só vez, arqueando o corpo de Zartan. Ele tirou então a armadura do amigo e estancou o sangramento com pedaços das roupas de um dos homens caídos pelo galpão. Já havia se acostumado há muito tempo com ferimentos de combate e sabia bem como lidar com eles, mas não com um veneno capaz de derrubar tão rapidamente um anão como Zartan. Amaldiçoava sua ignorância e tinha vergonha dela, mas não podia fazer nada agora. Tinha de procurar ajuda, mas onde? Estava perdido em dúvidas, sentado ao lado de seu companheiro, quando a mão de Zartan apertou levemente a sua e ele ouviu, em uma voz calma que parecia vir de muito longe:

– Obrigado Turbilhão, meu velho amigo. Obrigado por tudo...

E, para o anão chamado Zartan Balorin, o mundo se tornou escuro e silencioso.