02

– Acorde, meu jovem. Acorde – a voz que chamava era calma e suave.

– O que houve? – Midler se levantou com um salto, trazendo na mão uma espada, pronto para usá-la. Não devia faltar muito para o sol nascer e as nuvens que teimavam em cobrir as poucas estrelas dos estertores de uma noite sem lua tornavam tudo ainda mais escuro. Ele só conseguia divisar a silhueta de seu mentor, Laertes, sentado em uma pequena pedra. Ele se apoiava preguiçosamente na árvore sob a qual haviam acampado naquela alta colina e se protegido da chuva que caíra durante toda a noite. Desde o crepúsculo Midler tinha a certeza de que estavam sendo vigiados, seguidos por algo que se movia por dentro da espessa mata que margeava a estrada por onde viajavam, mas não conseguira divisar nenhuma pessoa ou criatura por entre aqueles largos troncos. Parara por diversas vezes para escutar, mas apenas os sons das árvores da floresta à volta deles chegaram aos seus ouvidos, e isso o intrigava. Quando finalmente pararam para descansar, indagou se Laertes pressentira algo, mas o velho mentor lhe assegurou com um sorriso que não havia nada ali que deveriam temer. Midler preparou então o pequeno acampamento para a noite e permaneceu desperto em vigília, enquanto o cansaço dos muitos dias de viagem lhe permitiu. Adormeceu sem perceber, apoiado em sua espada, até ser despertado pelo tranqüilo chamado. Culpava-se por ter sido desatento, por não ter escutado nada – Estamos em perigo?

– Se estivéssemos realmente em perigo, todo este seu barulho teria revelado nossa presença a quem quer que se aproximasse – a voz do mentor não se alterava, tentando acalmá-lo – Quero apenas que ajude um velho quase cego e me diga o que consegue ver perto daquela grande pedra, meu jovem – Laertes apontava com seu longo cajado paro o outro lado da estrada, onde um grupo de altas árvores com largas copas tornavam a pequena clareira da qual falava um pouco mais escura do que a própria noite ao seu redor.

Midler se sentia um completo idiota. Era a primeira vez que estava tão longe de casa e, apesar de se sentir pronto para ser avaliado, reagira como um menino assustado. Sua inexperiência não justificava sua reação. Não para ele. Com um suspiro contido, procurou firmar o olhar.

– Vejo algo como uma grande criatura de pé – sussurrava – Parece apoiada naquela pedra , mas não consigo saber seu propósito. Talvez esteja apenas se escondendo nas sombras ou mesmo caçando, pois não emite som algum, nem mesmo ouço sua respiração, como se procurasse emboscar sua presa. O que crê que devamos fazer, meu mentor?

– Só podemos baixar nossas armas e esperar, pois como posso tomar qualquer decisão, se suas afirmações estão repletas de dúvidas, iniciando-se por “parece” e “talvez”? Os olhos são uma grande ferramenta, mas facilmente iludidos, ainda mais quando somos cercados pela escuridão.

Midler se sentou devagar, desconsolado. Sentia como se não houvesse limite para sua estupidez. Estava nervoso, despreparado, agindo como um novato.

– Não exija tanto de si mesmo, meu impaciente jovem. Com o tempo, aprenderá a ver tudo a sua volta com outros olhos e nem a mais absoluta escuridão poderá mascarar qualquer perigo de você. Mas, por hora, o que seus outros sentidos lhe dizem? Seu gigante deixa muitas pistas no ar e elas me dizem o que ele realmente é. Não sente uma leve brisa a tocar seu rosto? E que informações esta suave mensageira lhe traz?

Midler respirou fundo e fechou os olhos, procurando se concentrar. Aos poucos, pareceu se esquecer de tudo ao seu redor, como se o mundo tivesse se reduzido àquela brisa. Ela trazia o som do leve estalar de madeira ao vento e de seu roçar contra a pedra. Sentia um ligeiro perfume adocicado, como o de frutas maduras. Podia perceber o delicado frescor do orvalho, trazendo aos seus lábios o sabor de folhas verdes.

– É apenas uma grande árvore que cresceu apoiada naquela pedra ou que tombou sobre ela com o tempo – disse constrangido, mesmo sem conseguir ainda enxergá-la na escuridão – Desculpe-me, meu mentor. Devia ter logo percebido.

– E por que deveria? Conheço poucos que conseguiriam saber o que descobriu em tão pouco tempo. Não se menospreze, meu jovem, pois desconhece suas próprias capacidades. É tão ávido em aprender quanto é duro consigo mesmo, o que é uma combinação rara e preciosa. Em muito me lembra seu pai.

– E como era ele como discípulo? – os olhos de Midler pareceram brilhar na escuridão.

Laertes sabia o quanto Midler admirava seu pai e almejava ser como ele. Télan Summerion era realmente um grande líder e um esplêndido guerreiro. Ele havia lutado ao lado dos homens destas terras com tanto vigor e abnegação que, apesar de ser um estrangeiro imposto a eles, conquistou sua admiração e seus feitos chegaram até mesmo ao conhecimento dos nobres em Caendlia. E como poderia ter sido diferente? Télan unira e comandara os camponeses que viviam muito a oeste do Lorun, nas fronteiras esquecidas pela lei e por seus governantes, transformando-os em uma milícia exemplar que sozinhos rechaçaram as hostes de criaturas selvagens que castigaram aqueles campos por tempo demais. Sua espada, Vorukan, se tornou muito mais que uma arma no campo de batalha, mas um símbolo que incentivava seus comandados e amedrontava seus inimigos. Por fim, foi declarado Senhor da Marca da Vitória, nome que deu àquelas terras, que se tornaram suas tanto por seu mérito quanto pelo desinteresse de alguns senhores pelo pouco que se conseguia tirar de seu solo duro e árido. Aquele fora um título pequeno e vazio, sem qualquer distinção ou honraria, concedido mais para mantê-lo longe da corte do que para brindá-lo por seus feitos, mas ele não se importara, pois não são estes os triunfos que um Paladino busca. Télan o aceitou apenas para que as terras e os homens que lutaram a seu lado não fossem novamente esquecidos.

Como governante, o Senhor da Marca da Vitória era adorado por aqueles que com ele viviam, sempre justo e solícito. Como guerreiro, sua habilidade era extraordinária. Como discípulo, jamais houvera nenhum que houvesse sido consagrado tão jovem em Sandren, a torre dos Paladinos de Baltur. Laertes o treinara desde cedo e sempre estivera ao seu lado. O experiente mentor havia ficado muito impressionado com a capacidade do jovem Télan, pois sua presença fora quase desnecessária em sua preparação para os votos. Apesar dos longos anos como mentor, nunca havia conhecido outro discípulo com tanto potencial quanto ele, até conhecer seu filho, Midler, ainda muito jovem na Marca da Vitória. Laertes sentiu naquela criança um potencial muito grande, talvez ainda maior do que o de seu pai, mas com uma cobrança excessiva sobre si mesmo. Sempre rígido e inflexível, como um arco retesado demais, que poderia se partir se fosse utilizado com desleixo. Laertes insistira com Lorde Mellanos para que o jovem fosse nomeado como seu discípulo, apesar dos inúmeros pedidos para que repousasse com todas as honras seu cajado, pela sua avançada idade. Ele se afeiçoara muito pelo rapaz, mas, às vezes, até mesmo Laertes sentia-se inseguro, quase com medo, como se não fosse ele o mais experiente entre todos os mentores da Torre de Marfim, mas desta vez havia algo diferente, algo dentro dele a lhe dizer que, se falhasse com este ávido e impaciente discípulo, a perda seria grande demais.

– Seu pai, – Laertes falava devagar, escolhendo cuidadosamente as palavras – enquanto foi meu discípulo, era muito parecido com você. Acreditava menos em si mesmo do que seu mentor nele. Não possuía todas as respostas que precisava dentro de si, mas não tinha receio de procurá-las. Com o tempo, seu pai aprendeu a lutar melhor com as palavras e com o coração do que com armas, se isso for possível, e sua confiança se tornou mais forte que sua armadura. Você tem mais dele do que ousa imaginar.

– Mas nunca soube de meu pai agindo como um aprendiz inepto – a voz de Midler era baixa, quase como se não quisesse ser ouvido – Nunca soube de um Paladino ou de um discípulo que cometesse tantos erros.

– E sabe por acaso dos meus? Ou mesmo dos de lorde Portivell? Seu pai não errou tanto pelo simples fato de não ter sido tão afoito quanto você – sua voz estava mais alta, demonstrando uma ponta de impaciência que fez Midler levantar os olhos, surpreso – Você não é seu pai e nunca o será! – Laertes fez uma pausa, com um longo suspiro, repreendendo-se silenciosamente. Sua voz voltou ao tom calmo de sempre, mas agora, estava tão carinhosa como a de um pai a ensinar seu filho – Midler, o mundo em torno de nós não é dividido apenas em luzes ou trevas, como o dia e a noite. Olhe a sua volta – o sol começava a nascer, tingindo a copa das árvores de um sonolento dourado – Vê como as sombras lentamente cedem lugar à luz? Quanto mais forte for a luz, menores elas serão, mas nunca deixarão de existir, mesmo sob o sol de um claro dia de verão, pois elas também fazem parte deste mundo. Vê como o que julgava ser escuro e sombrio é, em verdade, cheio de cor e vida na presença da luz? Não existem verdades nem maldades absolutas, meu jovem. Pare de pensar em certo e errado, em bem e mal, como coisas inconciliáveis, separadas uma da outra, como os lados de uma moeda, que não podem ser vistos ao mesmo tempo. Eles existem dentro de cada um de nós e dentro de todas as coisas. Pense neles como se fizessem parte de uma esfera, sem lados ou divisões e que, mesmo sob milhares de tochas, sempre terá uma pequena parte escura sob ela, onde a luz não alcança, não importando para onde a girar. Quanto mais tochas você acender, com suas ações e escolhas, menor e mais tímida esta sombra será, mas nunca irá desaparecer. Mas, por vezes, fazemos escolhas erradas que podem apagar algumas destas luzes, mas raramente a todas. E existem aqueles cuja luz brilha tão profunda e timidamente que só pode ser vista quando estão cercados pela mais absoluta escuridão.

– Mas os Paladinos...

– São homens como você, treinados por homens como eu, e homens continuarão a ser, até o dia em que morrerem. Acredita que são as bênçãos dos clérigos de Sandren ou o poder de Baltur que os tornam puros e corretos? São as escolhas que fazem, a cada dia, sempre ponderadas com experiência e sabedoria, meu afoito discípulo, procurando pelas respostas antes de agir. Assim fazem seu pai e todos os outros, enquanto aprendizes ou mentores, acólitos ou clérigos, discípulos ou Paladinos. Acredite no que lhe digo, pois treinei mais discípulos do que tem dedos nas mãos para contar. Não quero que se preocupe tanto com seus erros, pois este é o momento certo de cometê-los. E não erra tanto quanto imagina. Apenas é impaciente com o que seus sentidos lhe dizem.

Midler sentiu uma de suas sobrancelhas erguer-se quase involuntariamente em sua fronte, que era como reagia quando não compreendia as palavras de seu mentor. Laertes se levantou devagar, apoiando-se em seu cajado e virando em direção à árvore do outro lado da estrada. Com as primeiras luzes da manhã, grandes folhas verde-escuras eram visíveis em sua larga copa, mesmo sob a sombra de suas irmãs mais altas. Líquens de muitas cores lhe cobriam todo o tronco, entre cogumelos dourados que o enfeitavam como pequenas jóias. Seus grandes galhos, retorcidos pelo passar de muitos anos, pendiam pesadamente pelos lados, com algumas frutas estranhas, de um tom marrom-avermelhado, a dependurarem-se dos galhos mais altos. Era uma árvore muito diferente das que estavam a sua volta, aparentando ser muito mais velha e imponente. Apesar de haver crescido entre os pomares e o pequeno bosque das terras de seu pai, Midler nunca havia visto uma árvore como esta, tão majestosa e exótica em sua beleza. Apesar de sua frágil aparência, ele podia sentir que havia uma grande força ali, algum tipo de poder que exalava dela como um intenso perfume. Em cima de seus galhos e em torno de suas raízes expostas, muitos pássaros e outros animais da floresta estavam reunidos, mas permaneciam quietos, quase em reverência. Havia uma estranha paz ali, no vermelho de uma raposa do campo ao lado de coelhos castanhos e em um majestoso falcão entre os pequenos pássaros do bosque. Laertes levantou a mão direita a acenar sutilmente e pareceu sussurrar alegremente algo que lhe lembrava um leve farfalhar de folhas ao vento.

Então, a árvore deu um grande estalo e estremeceu. As folhas caíram ao seu redor como uma suave chuva quando ela se endireitou, erguendo os galhos e se afastando da pedra, como se estivera apoiada nela por todo este tempo. Midler não conseguiu divisar nada que se assemelhasse a olhos, a uma boca ou quaisquer feições, mas teve certeza de ouvi-la responder na mesma estranha língua. As raízes se aprofundaram no solo macio da floresta, enquanto os galhos pareceram afinar e se contorcer, engolindo suas frutas, que rapidamente desapareceram. A casca se tornou lisa e mais clara, sem mais exibir suas marcas e adornos. Em pouco tempo, não havia mais nada que a diferenciasse de suas irmãs, tornando-se apenas mais uma árvore daquela floresta, tão comum como as milhares que ele vira nos dias de viagem. Todos os animais partiram em silencioso respeito, sem retomar seus papéis de presas e caçadores. Laertes continuou a olhar para aquela árvore, agora tão comum, enquanto falava para seu atônito discípulo.

– Estes magníficos seres não costumam se aproximar dos homens ou de suas trilhas, não por se intimidarem com nosso fogo e machados, mas para nossa segurança, tal é seu poder. São tão velhos quanto o tempo e carregam parte da essência deste mundo com eles. A floresta não é apenas seu lar, mas uma parte de seu corpo, cada árvore, folha e semente. São tão poucos nos dias de hoje que é improvável que verá outro nesta vida. Eu lhe disse que ninguém viria por esta estrada até o amanhecer e passamos a noite a conversar – Laertes parecia falar sozinho, perdido em lembranças de outra época. Seu sorriso desaparecera por um segundo, como uma nuvem que momentaneamente cobre o sol, mas que rapidamente se desvanece – Ele ficou muito impressionado com você, meu jovem. Esteve nos acompanhando por boa parte do dia e não são facilmente percebidos em seu ambiente, a não ser que assim o queiram. Pelo menos, não por nossos toscos sentidos. Como lhe disse, você não estava errado, apenas impaciente.

Midler olhava surpreso e admirado para seu mentor de pé sob as primeiras luzes do raiar do dia. Poucas pessoas chegavam à sua idade e nenhuma com o vigor que demonstrava. Laertes não tardaria a completar oitenta anos e seu rosto carregava as marcas do passar do tempo e de suas longas viagens, com uma curta barba branca, muito bem cuidada, a contorná-lo, mas havia uma juventude inquestionável em seu olhar. Usava confortáveis vestes claras, amarradas à cintura por uma corda de fios prateados, com uma longa e fina capa de uma cor indefinida, entre o marrom, o vermelho e o dourado das folhas de outono, a lhe cair sobre os ombros. Sua aparência frágil, sempre apoiado em um belo cajado de madeira clara, coberto de entalhes na forma de raízes entrelaçadas, escondia um homem forte e determinado, que Midler conhecia desde menino. Seu sorriso era como um amanhecer de primavera, cheio de vida e esperança, trazendo alegria onde quer que fosse. Não utilizava qualquer arma ou armadura, pois não era um guerreiro, mas era muito respeitado por todos os Paladinos e alguns dos maiores entre os consagrados foram seus discípulos. Todos concordavam que não havia melhor mentor e nenhum outro conhecia mais profundamente as leis de Sandren ou as doutrinas de Baltur, suas palavras e seus atos. Ele escolhia livremente quem iria tomar por discípulo e nenhum dos seus jamais falhara nos testes da Torre de Marfim. Laertes dormia pouco e comia menos ainda, sempre atento a tudo a sua volta. Midler nunca o vira tão apressado a ponto de não parar para ouvir o canto dos pássaros ou para responder às perguntas de uma curiosa e irrequieta criança. Sua paciência parecia não ter limites, assim como sua sabedoria.

Laertes olhava atentamente para o céu, como se lesse algo nas distantes nuvens do leste.

– Devemos continuar nossa viagem, meu jovem discípulo. Os ventos mudaram e creio que teremos um belo dia a nossa frente – endireitando-se, respirou longa e profundamente, como que revigorado pelos raios do sol.

– Não quer comer antes de partirmos? Posso preparar algo sem demora – Midler estranhou a súbita pressa de seu mentor.

– Comeremos estes frutos que meu bom amigo nos deixou enquanto você descansava – estendeu algumas frutas parecidas com pequenos pêssegos, mas de uma cor cintilante, como se ainda estivessem cobertas de orvalho. Midler pegou uma e a mordiscou, sentindo um gosto forte e doce como néctar, quase inebriante, que preencheu sua boca até quase não conseguir engolir – Espere pelo anoitecer antes de comer outra, senão se sentirá tonto como se tivesse bebido algo forte demais. Não creio que precisará comer ou beber mais nada até lá.

– E o que ele lhe disse, que pareceu inquietá-lo tanto?

Laertes olhava pensativo para a grande floresta, mas seus olhos pareciam procurar por algo muito além daquelas matas. Apoiou-se em seu cajado, como se subitamente sentisse o peso dos anos. Havia um tom de tristeza em suas palavras, enquanto falava sem entusiasmo, como se apenas pensasse em voz alta.

– Seu nome é Nokk e ele fala em uma língua que já era antiga quando as montanhas do norte se ergueram. Não foi o que disse que me trouxe preocupação, mas o que não conseguiu explicar, pois mesmo ele não compreende. Eu já havia percebido que a floresta tem estado quieta há algum tempo, mas agora, é como se tivesse se calado totalmente. O vento tem me contado cada vez menos e, não por raras vezes, silêncio é tudo o que traz, o que é muito estranho. Mesmo os animais têm estado calados, como se sentissem a presença de um predador próximo, pronto a atacar. Até mesmo da floresta dos primogênitos vêm poucas canções, o que não é um bom presságio. Parece-me que eles anteveem que algo está por acontecer.

– Primogênitos? Quem são estes, meu mentor?

– Um dia você irá encontrá-los, meu jovem, tenho certeza. Até lá, devemos nos preocupar apenas com os problemas que temos a mão, como um certo discípulo preguiçoso, que é a única coisa que nos impede de prosseguirmos em nossa jornada – Laertes voltou a sorrir e procurou expurgar da mente o receio que sentira.

Midler rapidamente desfez o pequeno acampamento e se colocou de pé, sentindo-se pronto para continuar. Ajeitou a pesada mochila nas costas e levantou os olhos para admirar o céu. As nuvens começavam a se abrir com a promessa de um esplêndido dia, com a luz do sol a refletir nas muitas poças ao longo do caminho. Observou a larga Estrada do Poente a serpentear e descer suavemente em direção ao leste, sumindo entre as muitas árvores da floresta. Bem mais adiante, podia divisá-la em uma longa linha reta a riscar a distante planície mais abaixo. Conseguia ver, próximo ao horizonte, os primeiros reflexos de um grande curso de água, o Lorun, com certeza, pensou, a um dia de viagem, talvez um pouco menos. Aquela distância lhe pareceu enorme, ainda mais a pé.

– Meu mentor, por que não aceitamos os cavalos que meu pai nos ofereceu? Poderíamos viajar mais rapidamente e confortáveis, além de carregar mais mantimentos e água, mas o senhor assim não o quis – Midler não estava certo de quanto tempo levariam para chegar até Sandren ou por que caminhos Laertes iria conduzir a parte final de seu treinamento, mas sabia que não tinham provisões suficientes para uma jornada muito longa.

– A caminhada fará bem a estes velhos e cansados ossos, e água e comida são abundantes nestas paragens. Além disso, as montarias poderiam nos levar rápido demais a lugares que ainda não estamos prontos para ir.

– Então estamos próximos a Sandren? – Midler não conseguia disfarçar seu entusiasmo – Quando chegaremos, meu mentor?

– Chegaremos quando o mentor achar que o discípulo está pronto e nunca antes! – a voz de Laertes soou quase ríspida, mas logo voltou ao tom calmo de sempre – Não seja ainda mais impaciente do que já é, meu jovem. A Torre de Marfim não está tão longe quanto imagina, mas também não tão perto quanto gostaria. Ela está de pé há mais de dois mil e quinhentos anos e tenho certeza que ainda estará quando chegarmos – sorriu alegremente, procurando encorajá-lo – Mas acalme seu espírito. Os portões dourados não irão demorar a se abrir para nós.

Midler sonhava com Sandren desde criança. Nunca se cansou de ouvir as histórias de seu pai e sempre havia algo novo para aprender, como se uma vida apenas não fosse o bastante para descrevê-la. Quando fechava os olhos, quase podia ver a grande torre principal, alva como marfim, pontilhada de janelas e sacadas, a rivalizar-se em imponência com os distantes picos cobertos de neve. Podia imaginar suas grandes muralhas, onde estátuas de todos os antigos Paladinos estavam esculpidas, lado a lado, eternamente vigilantes. Seus portões, tão largos como uma casa, eram do mesmo dourado do nascer do sol e se abriam apenas para receber os puros de coração. E que visão maravilhosa deveria ser o Círculo de Baltur, a reunião dos maiores Paladinos de Sandren que, como sábios generais, decidiam como agir para manter ou reconquistar a paz em todas as regiões conhecidas. Não havia distinção ou posições determinadas entre as cadeiras desta grande sala e as divisas e condecorações eram deixadas do lado de fora, pois todos eram considerados iguais nos Salões das Virtudes. Midler conhecia muito bem o nome e as histórias dos atuais membros do Círculo: Portivell, Mellanos, Pharandi e todos os outros. Não conseguia imaginar honra maior do que ser consagrado entre tantos que admirava, entre os escolhidos para se tronar mais um dos Paladinos de Baltur.

Os Paladinos eram respeitados em todos os reinos, como embaixadores de grande valor e sabedoria, além de invencíveis guerreiros, quando se fazia necessário. A injustiça e a tirania contra qualquer povo eram sempre tratadas com a severidade merecida por eles. Um Paladino jamais daria o primeiro golpe, mas o último seria sempre seu. Eram herdeiros da Dádiva e do Dever, abençoados pelo poder e pela luz do próprio Baltur, o primeiro Paladino, podendo, através dele, realizar o que era impossível para os homens comuns. Podiam distinguir facilmente o bem do mal, como se distingue a luz da sombra, e curar grande sorte de ferimentos e doenças. Traziam luz onde reinava a escuridão e serenidade onde existia a angústia. Midler acreditava que não havia responsabilidade maior do que ter sido escolhido como discípulo por Laertes e se sentia ao mesmo tempo orgulhoso e amedrontado, pois sabia que seria muito mais exigido do que qualquer outro.

Laertes observava Midler atentamente enquanto caminhavam. O forte jovem que via não era mais o pequeno e curioso garoto de cabelos encaracolados que conhecera. Ele tinha quase dezoito anos, já um homem feito, mas o ar de austeridade que carregava parecia lhe conferir muitos mais. Estava sempre absorto em pensamentos, repassando inúmeras vezes tudo que aprendera, tentando se certificar de que assimilara todas as lições ensinadas desde criança, mas, pelo franzir de sua testa, nunca estava satisfeito. Seus olhos castanhos pareciam sempre tentar ver o futuro, mas sua mente estava eternamente presa ao passado, a lembrar-lhe constantemente de seus erros. Ele era seu maior crítico, desde criança, cobrando-se a cada passo dado. Esta rigidez não era incomum entre os discípulos de Sandren, ainda mais entre os filhos de Paladinos, mas Laertes não conseguia deixar de sentir pena deste rapaz, pois ele crescera em um mundo à parte na Marca da Vitória, onde o medo e a injustiça nunca existiram e não conhecia as nuances do bem e do mal. Midler abdicara de sua infância e juventude para perseguir, com raro afinco, um sonho, uma tradição, quase uma herança. Seu pai jamais ostentara ou exigira qualquer cerimônia ou fidalguia de qualquer nobre ou camponês, dentro ou fora de suas terras, mas, apesar de Midler ser seu segundo filho, também era herdeiro de seu título e, na sua idade, jovens nobres já estavam casados e eram senhores de suas terras ou tinham seus laços e títulos avidamente cortejados em intermináveis banquetes, mas Midler preocupara-se apenas em se preparar como poucos para ser consagrado, como o mais humilde dos aprendizes, e nunca se permitira simplesmente viver os prazeres da juventude ou mesmo amar. O discípulo estava pronto para Sandren, mas o homem não, ainda não. Laertes olhou para a estrada em frente, enquanto suas preocupações continuavam a rondar sua mente, e a caminhada se tornou silenciosa.

O sol continuou seu lento percurso e a manhã foi ficando para trás, assim como boa parte da tarde, junto com muitos quilômetros da estrada, quando finalmente chegaram até a margem da floresta, onde uma extensa planície se abria à frente deles, com uma leve e contínua descida até os campos cultivados de algumas fazendas que margeavam um pequeno córrego. Midler havia percebido que Laertes ficara pensativo durante toda a caminhada, como se estivesse preocupado com algo, mas não quis perturbá-lo. Olhava surpreso para as pequenas frutas que tirou de sua sacola. Não havia comido mais nada durante todo o dia e não sentia fome, sede ou cansaço. Ao olhar para longe, em direção ao Lorun, podia divisar as edificações de uma grande cidade, que se apresentavam sob o sol da tarde.

– Aquela é Caendlia, a grande cidade e capital destas terras, como bem deve saber – Laertes falava pausadamente enquanto caminhavam, apontando com seu cajado – É um grande centro de estudos de todas as artes, famosa por suas escolas e livros, que dizem ser tão numerosos que uma única vida não seria suficiente para sua leitura – o velho mentor sorria de forma irônica, como se não acreditasse nisto – Nesta cidade chegam e partem estradas em todas as direções, o que a transformou no lar adotivo de muitos povos, culturas e idiomas, onde a discrição se tornou a língua oficial. Emissários de várias nações vivem aqui, sempre discutindo leis, tributos e comércio entre si, em uma grande assembleia no centro da cidade, procurando arrancar de forma civilizada o máximo de seus vizinhos, em uma eterna contenda injusta de palavras enganosas chamada diplomacia – virou-se para Midler, com um olhar que deixava clara sua desaprovação por esta arte – Também terá de aprender a lutar neste traiçoeiro campo, meu jovem, mas esta é uma arena perigosa, onde a vitória nunca é clara ou definitiva. Aqui, intenções tendem a esconder-se muito bem atrás de belas palavras que raramente se traduzem no que deveriam ser.

– Já ouvi muito sobre a Grande Assembleia, meu mentor, e da preocupante movimentação que ela causa com a vinda de tantas comitivas e interesses de outros povos à Caendlia, mas não consigo compreender como ela pode ser tão importante. Afinal, Graeldar é um reino independente, com soberania sobre todas suas decisões, não?

– Como lhe disse, meu jovem, muitas coisas não são tão incontestáveis ou transparentes quanto parecem ou deveriam ser – Laertes carregava um incomum tom irônico em sua voz e em seu olhar – Todas estas terras que nos cercam, até muito além de onde a pouca visão dos homens pode alcançar, são abençoadas como nenhuma outra que conheci. Seu solo é fértil além de qualquer medida e seus grãos crescem rapidamente, sendo melhores e mais numerosos do que os de todos os seus vizinhos. Mas quase todos os que aram e cultivam esta terra não são seus donos, assim como não é deles o domínio soberano desta região, que nada mais é para aqueles que a comandam do que um imenso celeiro, repleto das riquezas que nascem do bom solo cultivado e das quais podem usufruir sem moderação, responsabilidade ou remorso – voltou a olhar para frente e, após uma pausa marcada por um longo suspiro, prosseguiu com uma voz mais grave – Muitos povos aqui vêm, é verdade, para negociar e comprar estes preciosos grãos e é para isso que existe a Grande Assembleia, reunida durante todas as colheitas, mas há mais do que ouro e moedas sendo oferecidos como pagamento aqui. Poderá encontrar interesses de todo mérito entre estes comerciantes sem escrúpulos, encobertos pelo suave véu da diplomacia. Há alimentos, riquezas, liberdades e vidas sendo negociadas livremente no grande salão do palácio.

Midler parou de caminhar, olhando inquisitorialmente para Laertes. Não podia acreditar que seu mentor pudesse falar tão naturalmente sobre algo tão temerário.

– Tenha paciência, meu jovem discípulo. Este não é o momento para se preocupar com estas coisas. Felizmente, há mais a ser encontrado nesta cidade do que o egoísmo dos diplomatas – Laertes o cutucou levemente com o cajado, para que retomasse a caminhada, sorrindo levemente – Caendlia também é um dos melhores mercados que podemos encontrar, pois está na rota das caravanas que vêm do sul, em volumosos barcos que sobem o Lorun e que deixam aqui toda sua carga. A partir desta cidade, indo para o norte, o grande rio se torna mais raso e veloz, dificultando a navegação destes grandes navios. Nem se remexer um grande formigueiro verá tanta agitação como no porto desta cidade, onde mercadorias de todos os tipos estão sempre a subir e descer de porões escuros, sujos e abarrotados, sendo negociadas, compradas e vendidas antes mesmo de serem descarregadas. Pode-se conseguir quase tudo que imaginar aqui, se estiver disposto a pagar o preço e souber bem onde procurar. Aqui conseguiremos uma boa armadura para você.

– Mas não temos dinheiro para isto, meu mentor.

– Nem sempre o preço de algo é medido apenas em moedas ou joias. Tenho nesta cidade um grande amigo de longa data, chamado Tallamir, que nos convém ser um excelente ferreiro, o melhor que existe nestas terras, se as conheço bem – e Laertes as conhecia como poucos – Para nossa sorte, a amizade ainda é a moeda mais valiosa para homens como ele. Sua armadura já foi pedida por mim há várias semanas, quando aqui passei a caminho das terras de seu pai. Só tem agora de experimentá-la para que se façam os ajustes necessários.

– Mas achei que só em Sandren iria receber minha armadura.

– Não estamos adiantando nada, meu afoito discípulo, e sua estrada não encurtou – Laertes percebera o sorriso que começava a se formar no rosto de Midler – A armadura que o aguarda não é a mesma que um dia usará, quando for consagrado. Esta, que nasceu das forjas do mestre ferreiro, é mais simples e bem mais leve, sem um pesado elmo ou botas de metal para lhe atrapalhar, pois o caminho a nossa frente ainda é longo e árduo. Apenas quero que vá se acostumando com este peso sobre os ombros o quanto antes. Conseguir se mover com desenvoltura dentro de uma pesada armadura durante um combate requer mais do que apenas força. Requer atributos como hábito, treinamento e paciência, e pelo menos os dois primeiros poderá aprender rapidamente. E é melhor que seu corpo logo se sinta à vontade com ela, pois quero que a use quase tanto quanto suas roupas.

O sol havia começado a se pôr sobre as distantes montanhas do oeste, próximas às terras dos Summerion, fazendo suas sombras se alongarem até quase tocar o horizonte à frente deles, quando a larga ponte de pedra e madeira sobre um pequeno córrego rangeu sob seus pés. Algumas velas e pequenas lanternas de óleo começavam a queimar dentro das casas a volta e o distante som de uma música se misturou com o suave cheiro da comida sendo preparada para a refeição da noite. As vozes carinhosas de mães a chamar por seus filhos e as risadas de crianças preencheram o ar. Pequenos insetos que começavam a dançar em torno das luzes da vila, como diminutos pontos de luz, pareciam anteceder as próprias estrelas no céu. Laertes e Midler continuaram a caminhar por mais alguns minutos sob a minguante luz do crepúsculo, até que o mentor se deteve no início de um estreito caminho de terra, à direita da estrada, que cruzava um pequeno portão de madeira e prosseguia ladeado por um jardim muito bem cuidado até a porta de uma modesta casa, muito bela em sua simplicidade. Um baixo muro de pedras sobrepostas, cobertas por trepadeiras e flores, circundava toda aquela área. Vindo de dentro da casa, Midler podia ouvir uma doce voz de mulher a cantar uma velha música que ele conhecia bem, pois era a mesma que tantas vezes ouvira ao anoitecer quando era uma pequena criança, na voz das mulheres da Marca da Vitória.

Uma linda jovem, ainda mais nova do que ele, estava sentada ao lado da porta entreaberta, cantarolando alegremente aquela mesma canção enquanto parecia desenhar no chão com um longo graveto. Sua voz era a mais bela e suave que Midler já ouvira, enquanto pequenos pontos luminosos voavam em volta dela, como se atraídos por uma luz que ele não conseguia ver. Quando os avistou, parados ao lado do portão, parou de cantar e se levantou, observando-os por algum tempo. Midler sentiu-se desconfortável sob aquele olhar, pois a jovem parecia poder ver através dele, como se enxergasse mais do que os olhos eram capazes de alcançar, mas Laertes permaneceu sereno ao seu lado. Após o que pareceu uma eternidade para o discípulo, ela entrou na casa, a chamar pelo pai em sua bela voz.

– Se continuarmos a caminhar, meu mentor, poderemos chegar a Caendlia em poucas horas – Midler sussurrava – Não há necessidade de incomodarmos esta boa gente.

– Homens carregando armas a entrar em uma cidade como aquela durante a noite, meu jovem, são soldados, mensageiros ou alguém procurando problemas. Encontraríamos apenas portas fechadas e rostos pouco amistosos. Além disso, a senhora desta casa cozinha como poucos e sinto o aroma de algo realmente delicioso ao fogo.

Um homem logo apareceu na porta, não aparentando ter a idade para ser quem a jovem chamara. Era alto e forte, com cabelos e olhos castanhos a se destacarem em sua pele clara. Suas vestes eram simples, de um tom marrom-claro com alguns detalhes em verde, mas eram feitas com esmero e muito bem cuidadas. Seus olhos pareceram brilhar quando encontraram os visitantes e um sorriso se desenhou amplo em seu rosto, enquanto descia rapidamente até onde estavam e abria o pequeno portão.

– Mestre Laertes, que felicidade me traz com sua visita! Entrem, entrem. Muitos anos se passaram desde sua última visita.

– Malent, meu velho e querido amigo – Laertes o abraçou longamente com entusiasmo. Afastando-se, olhou atentamente para seu rosto, com a alegria a brilhar em seus olhos – Como sempre, os anos foram muito mais generosos com você do que com este velho peregrino. Aposto minha barba que a deliciosa comida de sua doce Allyna tem muito a ver com isso – após um longo momento com as mãos no ombro de Malent e um largo sorriso nos lábios, Laertes colocou-se de lado para apresentá-lo – Este é Malent Duharee, meu bom e fiel amigo de uma vida inteira. E este comigo é meu discípulo, Midler Summerion.

– Summerion? Este é o filho do senhor Télan? – Malent pareceu muito surpreso.

– O mais novo dos dois, meu amigo. Horanis, seu irmão, é um homem bom e sensato, é verdade, mas seu caminho não o leva a Sandren. Livros e diplomacia são onde o coração do rapaz está, infelizmente.

Quase que imediatamente, o semblante de Malent se tornou solene. Abaixando-se em reverência na frente de Midler, colocou um joelho no chão, com a cabeça baixa e os braços abertos. Sua voz estava grave e formal quando lhe falou.

– Muito honra a mim e a minha casa a presença do filho de Télan entre nós – recitou então uma antiga saudação da Torre de Marfim, em uma língua antiga, usada apenas nas cerimônias de Sandren, que Midler aprendera há muito com seu pai – Que as bênçãos de Baltur estejam sempre convosco e com vossa família, em vossa partida e em vossa chegada.

– Com todos nós, pois a luz de Baltur nos ilumina a todos igualmente – respondeu um constrangido Midler, como mandava o protocolo – Não há necessidade disto, meu bom senhor Duharee. Agradeço seus votos, mas, por favor, levante-se.

Midler olhava para seu mentor, confuso, enquanto Malent se erguia. Os olhos de Laertes pareciam alegremente perdidos, a lembrar-se de outros tempos, enquanto falava.

– Malent foi acólito em Sandren durante a maior parte de sua vida, assim como um leal amigo e um bom homem. Em verdade, um dos melhores que já conheci, com toda a certeza. Foi lá que conheceu e serviu seu pai, durante sua consagração – virou-se então para um confuso Midler, sorrindo – Não permita que o jovem rosto de Malent lhe engane, pois sua história de serviços a Baltur é ainda mais longa do que a minha – colocou a mão carinhosamente sobre o ombro de seu amigo – Apenas uma humildade excessiva o impediu de se tornar um discípulo como você, Midler.

– Meu senhor Laertes é muito mais generoso com suas palavras do que mereço – Malent estava visivelmente desconcertado pelas palavras do mentor e olhava admirado para Midler – Entremos, por favor, pois a noite está a cair e as estrelas não são um manto apropriado para se comer, conversar e dormir, não quando temos fogo e leitos confortáveis, oferecidos de bom grado e não aceitando recusa.

Os dois seguiram Malent para dentro da casa, onde a jovem que viram os observava ao lado da porta. Ela agora tinha um lindo sorriso nos lábios, o que dissipou por completo o desconforto que Midler sentira. Laertes parou ao seu lado e sorriu. Colocando a mão no queixo da jovem, levantou-o carinhosamente para admirá-la.

– Meus velhos olhos estão a enganar-me! Esta não pode ser a nossa pequena Lydis, pois ela era apenas uma contemplativa e curiosa jovem quando aqui estive e agora vejo em seu lugar uma moça tão linda quanto o sol, com um sorriso capaz de causar inveja às próprias flores.

A jovem riu encabulada e seu vasto sorriso se tornou realmente esplêndido, quase como se tivesse luz própria. Era verdadeiramente muito bela, quase como uma visão, com seus longos cabelos loiros a dançarem em curtas tranças sobre os ombros, ao menor movimento de seu corpo. Um delicado arco, entrelaçado com seu belo cabelo, enfeitava os lados de sua cabeça. Seus olhos tinham um formato amendoado e eram de um azul tão vivo quanto o do mar sob o sol do verão, com um brilho que parecia rivalizar-se com o das estrelas. Sua pele era alva como a primeira neve do inverno e seus movimentos pareciam fluir, embalados por uma silenciosa melodia que apenas ela podia ouvir, em uma eterna dança. Midler sentiu-se como se estivesse hipnotizado, não conseguindo ouvir as palavras de Malent.

– Sim, meu amigo, esta é a nossa pequena flor. Mais de dez anos se passaram entre suas visitas, o que muito nos entristeceu – voltando-se para a jovem, falou-lhe carinhosamente – Minha querida, avise que mestre Laertes está aqui – ela se movia com graça e leveza únicas, seduzindo inocentemente os sentidos de Midler.

– Mais de dez anos, meu bom amigo! Com o passar do tempo, os anos têm ficado mais curtos do que eu gostaria. O que me faz lembrar. Onde está seu filho? Com certeza já deve ser um homem por agora.

– Ele deve chegar em breve. Fica grande parte do dia em Caendlia, onde trabalha nas forjas de mestre Tallamir. Alenthor se tornou um bom homem, forte e verdadeiro, como deveria ser, além de um ótimo ferreiro.

– Meu bom senhor Laertes! Que felicidade em revê-lo! – uma senhora em torno dos cinquenta anos veio da cozinha, secando as enrugadas mãos em uma toalha presa à cintura e se abaixou, beijando respeitosamente a mão do velho mentor – Espero que nos honre e fique conosco pelo menos por esta noite. E quem é este belo rapaz que o acompanha?

– Esta, meu distraído jovem – Laertes cutucou levemente seu discípulo com o bastão, despertando-o de seu transe – é Allyna, esposa dedicada e mãe carinhosa, além de uma excelente cozinheira – Midler curvou-se em uma formal saudação – E este, minha querida amiga, é meu discípulo, Midler Summerion.

– Me traz grande felicidade conhecê-la, minha senhora – Midler observou atentamente a alegre senhora a cumprimentá-lo da mesma forma que fizera com seu mentor. Ela ainda exibia parte de uma grande beleza de outrora, apesar do tempo haver lhe cobrado gentilmente sua passagem, mas em nada lembrava Lydis. O pouco cabelo que ainda não havia sido tocado pelas neves dos anos era escuro como a noite que encobria o vilarejo, preso em uma longa e bem cuidada trança que descia por suas costas. Seus olhos cansados ainda guardavam um pouco do brilho de sua juventude e eram de um verde como o de um bosque na primavera, possuindo uma imensa ternura, mas não eram profundos e vivos como os da jovem. Afora a alegria que compartilhavam naquele momento, Midler não conseguia perceber qualquer semelhança entre as duas mulheres.

Malent convidou-os a se sentarem para jantar, ao que Laertes prontamente atendeu. Midler deixou sua espada e seu escudo ao lado da porta, junto ao cajado de seu mentor, assim como sua pesada mochila, que foi colocada no chão, coberta por sua capa. As mulheres começaram a preparar a mesa, trazendo pratos, talheres e canecas, cantarolando alegremente, enquanto Laertes e Malent conversavam despreocupadamente sobre os muitos momentos que dividiram no passado. Midler normalmente se sentiria entusiasmado com as estórias de Sandren, ouvindo-as sem se cansar até muito depois do amanhecer, mas não desta vez. Sentia-se pouco a vontade naquele ambiente tão íntimo e afetuoso. Apesar de nunca haver conhecido sua mãe, Laurees, que perecera quando ele nasceu, com uma bênção em nome do filho recém-nascido nos lábios, sua ausência havia deixado um vazio na casa e no coração de seu pai que jamais fora preenchido. Mesmo em sua dor, Télan sempre fora o mais presente que pôde e quando Sandren ou o próprio rei o chamavam, todos na Marca da Vitória se uniam para cuidar zelosamente dele e de seu irmão. Midler então passou a ocupar suas longas horas solitárias entre os livros de seu pai e um árduo treinamento com armas, que, por sua insistência, Oderen, o comandante da guarda da Marca da Vitória e velho amigo de Télan, lhe ensinara. Desde muito cedo, Midler decidira que queria seguir os passos de seu pai e ir para Sandren, para ser também consagrado como um Paladino. Ele não viu os anos de sua infância passarem velozmente, mergulhado em sua obstinação. Conhecia a doutrina de Baltur, as leis da Torre de Marfim e a vida dos Paladinos como poucos discípulos antes dele, mas sentia por vezes, um vazio tão grande quanto o de seu pai, algo que não sabia explicar, mas que seu sonho não conseguia preencher, como agora.

Midler suspirou profundamente e passou a observar a casa a sua volta, procurando se distrair. A sala não era muito espaçosa, mas as grandes janelas voltadas para os jardins à frente tornavam-na bem mais ampla. As paredes de pedra e argamassa, cobertas por finas grades de madeira, eram grossas e bem altas e possuíam diversos grampos de metal em toda sua extensão, de onde pequenos vasos pendiam com plantas e flores de muitos tipos a germinar. Quatro grossas velas, acesas em finos e altos pedestais, pouco acima de sua cabeça, ajudavam uma larga lareira incandescente do outro lado da sala a iluminar o ambiente. Acima desta lareira, Midler divisou um grande brasão de armas entalhado em madeira, com detalhes de ouro e prata, que ele conhecia bem. Aquele era o emblema de Sandren, um grande escudo com um grosso tomo aberto a sua frente e uma espada de pé, entre suas folhas. Por trás do livro, o pináculo e a larga base da Torre de Marfim eram visíveis. Sobreposto ao cabo da espada estava o símbolo de Baltur, em metal dourado, a refletir a luz trêmula das chamas. Era uma mão direita aberta, com a palma voltada para cima, como se estivesse sempre estendida em auxílio para quem a visse, mas também pronta a empunhar a espada, quando se fizesse necessário. As qualidades mais valiosas para os Paladinos estavam representadas neste símbolo: ensinar, ajudar, proteger e comandar.

Midler então olhou para a mesa a sua frente, já preparada para o jantar, arrumada com esmero e alegria. Sobre a madeira clara, os pratos de metal estavam cuidadosamente polidos e as canecas eram ricamente entalhadas, com finos desenhos de florestas, rios e colinas que Midler nunca vira. Em uma bandeja, havia pão, queijo, mel, maçãs e cenouras, com duas jarras de água e vinho ao seu lado. Allyna trouxe então uma larga travessa escurecida pelo tempo e pelo fogo, com um grande frango com diversos temperos e molhos, que fez Laertes parar de falar para aspirar profundamente o delicioso aroma que ela trazia à mesa. Havia uma atmosfera de pura alegria no ar, pelo reencontro de amigos muito queridos, mas Midler não conseguia deixar de se sentir alheio a esta comemoração. Havia estado calado até então, quando o barulho da porta a se abrir lhe chamou a atenção.

– Alenthor, meu filho querido! – Allyna foi receber o jovem que entrava – Veja quem veio honrar nossa casa esta noite. Mestre Laertes!

Midler observou o rapaz que se aproximou em silêncio e se curvou em frente a seu mentor, saudando-o como ditava o protocolo de Sandren, para em seguida abraçá-lo sem qualquer cerimônia, surpreendendo o discípulo. Apesar disto, ele não tinha dúvidas de que Alenthor fora preparado para também se tornar um discípulo, assim como ele. O rapaz aparentava ter a mesma idade de Midler, mas era mais forte e mais alto, com um longo cabelo castanho a lhe cair pelas costas. Seus olhos eram verdes como os da mãe e também herdara a beleza desta. Tinha a pele levemente morena, abrasada pelo sol e pelo calor das forjas em que trabalhava.

– Este é Alenthor, um jovem de muito talento e um bom coração, por quem eu tenho um imenso carinho – Laertes havia se virado para Midler, falando-lhe em eu tom quase solene – Será o último discípulo que este velho mentor terá, após a sua consagração em Sandren.

– Mas, meu mentor, nós não podemos prescindir de... – Midler começou a falar, mas foi silenciado por um movimento da mão de Laertes.

– Não cabe a você, Midler, ou mesmo a Portivell, em toda sua autoridade, questionar minha decisão. Posso não aparentar, mas estou ficando velho, mais velho do que este frágil corpo me permite suportar – ainda sentado, olhou então para Malent, com um sorriso – Mas não tão velho que não possa cumprir com minhas promessas para com um grande amigo. Alenthor será um Paladino de Sandren, por minha palavra!

Nenhuma notícia parecia ser capaz de trazer alegria maior para aquela família. Malent e Allyna abraçavam com orgulho seu filho e olhavam agradecidos para Laertes, enquanto Lydis beijava delicadamente a fronte do velho mentor, em sinal de gratidão.

As horas se passaram rapidamente, entre alegres conversas e a deliciosa comida que Allyna sempre preparava tão bem, mas que nesta noite parecia especialmente inspirada. Midler não se recordava de ter saboreado algo tão delicioso antes e comeu em silêncio até se fartar, o que demorou bem mais que o habitual. Não conseguia acreditar que este era um encontro casual, que Laertes não fora ansiosamente esperado por Allyna nesta noite. Apenas se detinha para observar com cada vez mais admiração a linda filha dos Duharee, sentindo-se cada vez mais indefeso e cativo de sua beleza.

Após o jantar, Lydis lhes trouxe um chá adocicado, servido em grandes canecas fumegantes, que Laertes e Malent foram beber na varanda à frente da casa, onde continuaram a conversar sob as estrelas da noite que a tudo encobria. Midler surpreendeu-se com o sabor daquela bebida, algo que conseguia ser tão completo e suave ao mesmo tempo e que pudesse combinar tão bem com uma refeição. Havia algo entre o vinho e o mel naquele líquido, que a tornava deliciosa ao paladar.

As mulheres se retiraram para terminar seus afazeres, deixando os dois jovens sozinhos na sala, em um incômodo silêncio. Midler havia percebido que Alenthor estivera calado a maior parte do tempo, olhando para as coisas que o discípulo deixara à porta quando entrara.

– Há algo de seu interesse no que trouxe comigo, jovem Duharee?

– Alenthor, por favor – um sincero sorriso se abriu em seu rosto, enquanto se virava para Midler – Não sou jovem como pareço e não conseguiria lhe chamar de "jovem Summerion" ou de senhor, Midler. Não estamos acostumados com formalidades nesta casa, principalmente entre amigos, novos ou velhos – seu rosto se tornou, momentaneamente, mais solene – mas, como já é um discípulo e eu não, o protocolo de Sandren assim o exige, se for de sua vontade, meu senhor Summerion.

Midler sorriu desconcertado. Podia facilmente perceber que não havia ironia alguma na voz de Alenthor, apenas a simplicidade que não encontrava em si mesmo. A vida do discípulo fora até então um estudo permanente de protocolos, formalidades e etiquetas. Estava agindo como se estivesse sendo avaliado pelo próprio Lorde Mellanos e não sendo recebido como um visitante muito querido na casa dos Duharee.

– Você está certo, Alenthor. Sou eu quem não está acostumado a agir com naturalidade – respirando fundo, procurou relaxar, sem muito sucesso – Pelo que vejo, Mestre Laertes terá muito pouco a lhe ensinar quando retornar de Sandren e você deverá ser consagrado em breve.

– Se for da vontade do Círculo, ficarei muito feliz. Confesso que tenho tentado aguardar pacientemente o chamado de Mestre Laertes, mas nem sempre consigo – o sorriso franco de Alenthor, sem receios ou restrições, fazia Midler se sentir quase à vontade. Ele apontou então para os objetos que o discípulo deixara à porta – Se importa se eu examinar sua espada?

– Não, de forma alguma – Midler se levantou e a pegou ainda embainhada, entregando-a para Alenthor.

O jovem ferreiro segurou-a firmemente pelo início da bainha, aproximando-a do rosto. Observava com atenção o cabo da espada, mas sem encontrar quaisquer detalhes, gravações ou adornos. Sua mão direita envolveu o punho nu, pois, diferente do que se poderia esperar, este não estava recoberto pelas tiras de couro que protegiam a mão do guerreiro, para que o metal não a ferisse quando fosse usada. Alenthor agia devagar, buscando a empunhadura mais precisa possível. Após um momento, olhou para Midler, com um sorriso a se formar em seu rosto, falando com entusiasmo:

– Esta lâmina foi forjada em Sandren, tenho certeza!

– Como pode saber disto? – Midler estava realmente surpreso. A espada usada por um discípulo, durante seu treinamento, era sempre uma arma comum, sem emblemas ou insígnias, como esta. Apenas após sua consagração, a espada de um Paladino seria para ele forjada, com o brasão de sua família e da Torre de Marfim. Quando Laertes esteve na Marca da Vitória pela última vez antes de buscá-lo, há alguns anos, trouxera esta lâmina consigo, como um presente para o filho de um velho amigo. Midler conhecia o desenho de sua espada como as feições do próprio rosto, e não havia nada que pudesse sugerir onde fora feita.

– O metal não é frio, nem inerte ao toque – Alenthor parecia fascinado – É como se estivesse, de alguma forma, vivo, pulsando em minhas mãos. Meu pai me disse uma vez que as espadas de Sandren eram assim, pois foram abençoadas quando ainda estavam aquecidas pelas forjas de onde vieram, para que conservassem este calor como um reflexo da própria Chama Eterna do Salão das Luzes.

Midler olhava admirado para Alenthor, enquanto bebia devagar seu chá. Já havia ouvido a mesma estória dezenas de vezes, mas raramente com este entusiasmo. Ele soube, no momento em que a empunhara, que as bênçãos dos clérigos de Sandren acompanhavam sua espada. Nunca a sentira como um simples objeto de metal, como uma ferramenta rudimentar nas mãos de um guerreiro, mas como uma parte de seu corpo e de seu sonho. Seu pai lhe dissera naquele dia que a força da chama que ardia dentro da lâmina seria sempre igual ao vigor de quem a usava e à virtude de seu propósito. Télan afirmara então que já vira, em combate, Lorde Portivell empunhando sua espada coberta por grandes chamas brancas, como um sinal claro da vontade de Baltur e fonte de inspiração para todos que a testemunharam. Midler acreditava que apenas aqueles que estivessem predestinados a trilhar o caminho até Sandren podiam sentir esta chama. Sorriu então, sentindo-se feliz pelo filho dos Duharee.

– Como lhe disse antes, Alenthor, Mestre Laertes terá muito pouco a lhe ensinar.

Alenthor mantinha sua atenção voltada para a espada, quase não ouvindo as palavras de Midler. Com o polegar, soltou a trava que a prendia, desembainhando-a em um movimento lento e contínuo, apreciando o som do deslizar da lâmina pelo anel da bainha. Um leve som agudo, quase inaudível, como o de cristal ressoando, continuava a permear o ar, enquanto ele examinava a lâmina desembainhada com os olhos de um experiente ferreiro.

– É um belo trabalho, não há dúvida. Muito bem balanceada e forjada – Alenthor a girava no ar, com facilidade e destreza. Aprendera desde cedo a manusear armas como esta, por força do ofício e por puro prazer. Passou a admirar as lâminas de todos os tipos, mas as espadas sempre foram suas preferidas – Não vejo nenhuma marca ou emenda entre as folhas. Parece que foi recém tirada do malho e lustrada a exaustão. Nunca deve ter sido usada, já que não percebo nenhum risco ou marca em seu gume.

Midler não pôde evitar um sorriso constrangido. Colocando a caneca já a esfriar sobre a mesa, levantou-se, segurando uma das facas do jantar que ainda estavam ali. Estendeu a mão na direção de Alenthor, que lhe devolveu a espada.

– Esta espada está ao meu lado há algum tempo e já me utilizei bastante dela, só não o fiz ainda como ela merece. Nestes anos que passamos juntos, minha falta de paciência e habilidade lhe custaram muitas marcas e sinais, mas os ferreiros de Sandren são muito piedosos com os descuidados. Observe.

Midler riscou a lâmina da espada com a faca, marcando levemente sua superfície. Alenthor o observava confuso, não conseguindo compreender o porquê daquilo, mas se manteve calado. O discípulo então a segurou firmemente e aproximou o lado riscado de uma das grandes velas que iluminavam a sala, mas sem encostá-lo na chama. Para o espanto do ferreiro, a marca lentamente começou a suavizar, até finalmente desaparecer por completo, como se nunca houvesse existido.

– O calor de uma simples vela é capaz de reforjá-la? – Alenthor olhava incrédulo para a espada a sua frente, tocando a lâmina onde ela fora riscada – E ela nem mesmo está aquecida!

– Não foi o calor da chama que a reparou, mas seu brilho. Esta espada é uma ferramenta de Baltur, de sua vontade, para difundir sua benevolência e proteger àqueles que precisam de ajuda. Foi feita para se opor à escuridão, que nunca perdura na presença de sua luz. Meu pai me disse que, sob o sol, ela não pode ser marcada ou partida por força alguma – Midler colocou firmemente sua mão no ombro de Alenthor – Quando eu chegar a Sandren, Mestre Laertes virá por você e lhe pedirei que a traga consigo, para que ela acompanhe também seu último discípulo.

Os dois se entreolhavam, sorrindo. Não conseguiam disfarçar o orgulho que sentiam por terem sido escolhidos como discípulos de Laertes. Midler estava certo de que brevemente voltariam a se encontrar, durante a cerimônia de consagração de Alenthor em Sandren.

Os dois se viraram quando a suave voz de Allyna lhes chamou a atenção. Ela havia entrado na sala e carregava algumas mudas de roupas claras, dobradas entre as mãos.

– É hora de deixarmos nossos visitantes descansarem, meu filho. A viagem deve ter sido muito longa e cansativa, mesmo para um discípulo tão vigoroso – sua voz era de um carinho sem fim, mesmo quando ela se virou para falar a Midler – Meu senhor, sua cama já foi preparada e se desejar se banhar antes de dormir, lhe trouxe algumas roupas limpas para que possa se trocar. Minha filha deixou água e pão em seu quarto, caso necessite durante a noite.

Midler se aproximou da envelhecida senhora, recebendo as vestes que ela trazia. Curvou-se então longamente, beijando carinhosamente as costas de suas mãos.

– Minha boa senhora, se meu caminho me levasse a qualquer outro lugar que não a própria torre dos Paladinos, eu consideraria ficar em sua casa por muitas noites mais. A generosidade de sua família só não é maior que a de seu bondoso coração. Não se preocupe com nada mais, por favor, pois mais do que o vazio em meu corpo, meu coração também foi preenchido por vocês nesta noite. Que a luz de Baltur ilumine sempre seus sonhos, doce senhora.

Alenthor abaixou a cabeça, sorrindo. A naturalidade de seu novo amigo, obtida tão arduamente, foi rapidamente substituída pelo formalismo do discípulo. Quando Midler se virou para ele e se despediu, Alenthor levantou o rosto, ainda sorrindo.

– Boa noite, meu senhor Summerion.

Mãe e filho se retiraram, deixando Midler a sós na sala. Ele os acompanhou com o olhar, enquanto colocava as roupas que recebera sobre uma cadeira. Alenthor se despediu de sua mãe, com um suave beijo em sua testa, e entrou em seu quarto, sob o olhar carinhoso de Allyna, que abençoou seu sono com uma prece. O discípulo deixou escapar um longo suspiro, enquanto embainhava sua espada e caminhou até a porta, onde a colocou novamente junto de suas coisas. Voltou a olhar atentamente para a casa a sua volta, mas agora ele a via como realmente era, como um lar, com o amor daquela família presente em cada objeto, em cada detalhe. Não conseguiu deixar de imaginar como teria sido sua infância, sua própria vida, se houvesse crescido em uma casa como esta, junto de sua mãe. Fechando os olhos, Midler podia vê-la sentada em uma larga cadeira no canto da sala, penteando calmamente seu longo cabelo, que caía por seu busto como um sinuoso rio de águas escuras, enquanto vigiava carinhosamente dois pequenos meninos que brincavam a seus pés. O menor deles, de cabelos enrolados, largava seus brinquedos a todo o momento, apenas para admirar a beleza da mãe, cujos olhos brilhavam com ternura ao se encontrarem com os do menino. Midler era capaz de imaginá-la facilmente, ali naquela casa, pois já o fizera antes, por incontáveis vezes em muitos outros lugares. Parecia conhecer sua mãe mais do que se tivesse vivido ao seu lado e não a perdido quando nascera. Sua presença sempre permeou com carinho a casa, a memória e o coração de seu pai, que ainda a amava como no dia em que se declararam pela primeira vez. Midler conheceu, através dos olhos e das palavras de Télan, a feliz vida que tiveram juntos, repleta de sonhos e realizações. “Até que meu nascimento os separou”, Midler repetia em silêncio. Ele não conseguia evitar um sentimento de vazio que se apossava dele, um misto de perda e culpa, que o acompanhava há muitos anos. Seu pai jamais o culpou pela morte de Laurees e sempre lhe disse o quão feliz e orgulhoso estava pelo filho ser quem era, assim como tinha certeza de que sua mãe também estaria. Ele acreditava nas palavras de Télan, mas, por vezes, seu remorso e sua dor o corroíam, sem que ele nada pudesse fazer, como agora. De repente, seus pensamentos foram interrompidos por uma suave voz ao seu lado.

– Meu senhor, por que chora? – Lydis segurava levemente a mão de Midler, ainda estendida inconscientemente na direção daquele canto, como se procurasse alcançar algo que não estava lá. Midler girou a cabeça em sua direção, enquanto a visão em sua mente era lentamente substituída pelo belo rosto da jovem. Os olhos de Lydis pareciam brilhar, refletindo o fogo que iluminava a sala, trazendo-o de volta de seu sonho.

Midler baixou os olhos, envergonhado. Enxugando as lágrimas nas costas da outra mão com um suspiro, retesou-se, procurando assumir novamente a postura que se esperaria de um discípulo.

– Pelo mais tolo dos sentimentos, jovem dama, por desejar aquilo que não posso ter e não conseguir me resignar com isso – a voz de Midler estava grave, marcada por uma impaciência incomum até mesmo para ele, olhando fixamente para o canto da sala.

Lydis colocou suavemente sua mão no rosto de Midler, trazendo os tristes olhos do discípulo para si, que se arregalaram surpresos ao se encontrarem com os dela. Seu olhar estava sereno como sempre, mas seu brilho estava diferente, não mais refletindo as chamas da sala, mas com uma luz intensa a queimar no fundo de duas estrelas gêmeas. Era o mesmo olhar que Midler vira ao chegar a casa dos Duharee, a atravessá-lo. Seu semblante estava também diferente, como se a jovem houvesse amadurecido subitamente para muito além do que seus anos permitiriam. Midler estava hipnotizado, não conseguindo desviar seus olhos dos da jovem, que era tudo que conseguia agora ver. A sala onde estavam parecia ter desaparecido naquele momento, assim como a casa e todo o mundo lá fora. A voz de Lydis era calma, mas firme e profunda, como se saísse dos lábios de outra pessoa e parecia ecoar dentro de seus ouvidos, onipresente. Ela falava em uma língua desconhecida para discípulo, mas que ele compreendia melhor que a sua própria.

– Aquilo que desejamos com mais ardor é o que nos faz avançar, sem temer os desafios que iremos enfrentar, como o sonho que você e meu irmão dividem, que espera apenas a chance de se realizar, pois sempre esteve ao seu alcance. Os outros sonhos, aqueles que julga que não pode atingir, que crê terem lhe sido tirados por sua própria culpa quando nasceu, lhe guiarão eternamente, como um farol que dissipa as névoas e o ajudará a fazer as escolhas certas no caminho que escolheu trilhar. Tem muita fé dentro de si, Midler Summerion, mas nunca em si mesmo. Se continuar a acreditar somente no que acha que pode realizar, apenas naquilo que está ao alcance de suas mãos, acreditará sempre em muito pouco ou em quase nada.

Midler estava atordoado. As palavras de Lydis calaram profundamente dentro dele, como Laertes ou seu pai poucas vezes o fizeram. Ele ainda podia ouví-las claramente, quando o belo sorriso da jovem voltou a iluminar seu rosto e afastou rapidamente as sombras em volta dele, mas não o desconforto que sentia, como se estivesse nu na frente dela, que voltou a se parecer com a adorável e linda jovem que ele conhecera naquela mesma noite. Ela beijou suavemente o rosto do atônito discípulo, que não esboçou qualquer reação, enquanto o suave aroma da primavera desabrochando o envolvia ternamente, apesar da proximidade do inverno lá fora.

– Durma bem, meu bom senhor. Que aquilo em que mais acredita ilumine seus sonhos esta noite, tornando-os reconfortantes até o amanhecer.

A jovem se dirigiu graciosamente para seus aposentos, deixando-o novamente a sós na sala. Midler levou as mãos à cabeça, tentando inutilmente controlar o turbilhão de pensamentos dentro de si. As palavras de Lydis acalentaram seu coração, mas o atormentavam ao mesmo tempo. Como ela podia saber tanto sobre ele? Sobre seus medos e frustrações? Sentia-se naquele momento tão transparente e frágil quanto as vidraças a sua volta, que o deixavam admirar a bela e convidativa noite do vilarejo. Resolveu então sair e caminhar pela varanda, para tentar relaxar sob a luz das estrelas, como sempre fazia quando se sentia perdido.