O Cajado Dos Magos
1 A Descoberta
Notas iniciais
Espero que gostem, postarei apenas três capítulo (ou um pouco mais), se eu não publicar em forma de livro, postarei o restante!
Boa Leitura!! :D
Capítulo 1
A Descoberta
Já era noite quando Ryan andava pelas ruas vazias de um pequeno vilarejo com aspecto medieval localizado na Suíça.
Doze anos se passaram desde a inauguração de Septus Montes, o único vilarejo em um raio de quilômetros, que ficava isolado por montanhas enormes ao redor, a razão de seu nome. Estava frio e a névoa era tão densa naquela época do ano que quase não se via nada em um raio de sete passos de distância. Porém a lua com sua luz perolada que se destacava sob esta vasta névoa, desafiando a visão daqueles que ousavam perambular á noite com um tempo assim.
Após um pequeno tempo que ficou andando, passando pelas casas e comércios, Ryan chegou á pequena e única praça que havia no vilarejo, com o chão cheio de paralelepípedos e uma pequena árvore ao lado de um chafariz grande e belo, cheio de anjos feitos de pedra polida e brilhante. Ao redor encontravam-se várias casas pequenas de madeira com tetos de palha ou telha, porém confortáveis aos seus donos, era um lugar onde famílias dormiam em paz.
Todas as casas estavam com as luzes apagadas. E Ryan ficou ali. Parado em frente ao chafariz, olhando-o com a cabeça cheia de dúvidas.
Estava ali porque, mais uma vez, seu padrasto havia brigado com ele e sua mãe. Sua avó Myrna era uma eximia contadora de história, mas seu padrasto não as tolerava. E sempre Ryan e sua mãe se interpunham á favor de sua avó, dizendo que as histórias eram reais e que deixasse de ignorá-las. Ryan, na maioria das vezes passava dos limites, mas estava certo, pensou, ele nem ao menos é meu pai.
E agora, sozinho na escuridão da noite que se tornava mais fria á cada minuto, Ryan perguntou-se se haveria algum dia onde não teria que sair de casa pelo simples fato de seus pais brigarem por conta de criaturas inventadas nas histórias de sua avó, que já era uma senhora de idade avançada, um pouco biruta, mas a quem amava muito.
Enquanto pensava, ouvia-se o leve gotejar da água caindo da boca de um dos anjos de pedra brilhante, quase se tornando gelo por conta da baixa temperatura.
Um uivo vindo de longe, avisando Ryan de que estava muito tarde pra ficar andando nas ruas sem a companhia de alguém. Mas ele não ligava, pensou, ninguém vai querer fazer algo de ruim com um garoto como ele. Sem nada de valor. E além do mais, tinha idade suficiente para se proteger.
Ainda admirando os seres angelicais, Ryan não percebeu, mas uma sombra se aproximava a passos curtos na outra extremidade do chafariz, passos tão leves que, se comparado ao vento, este não seria nada em matéria de silencio.
Ryan demorou pouco mais que dez segundos olhando, agora, para a brilhante lua, até que notou a presença de mais alguém ali e ao desviar os olhos na direção da sombra se assustou.
A semelhança com o espírito que levava as almas das pessoas, de acordo com as histórias ouvidas por todas as crianças do vilarejo, a Morte, era imensa. No mesmo instante seu coração bateu mais rapidamente.
Como alguém poderia aparecer de uma maneira rápida, silenciosa e assustadora sem ao menos emitir algum som? Será que era mesmo o tal espírito? Será que seria a tal da Morte? Mas ele não estava morto e nem moribundo á ponto de chegar à presença de um espírito como aquele. Sentiu um medo imenso crescendo dentro se si, porém não teve coragem alguma pra sair correndo e gritar pedindo por ajuda. Esse medo estava fazendo-o ficar paralisado.
A sombra encapuzada começou a caminhar levemente em sua direção dando a volta pelo chafariz até chegar á sua frente.
Conseguia ver a cor vermelha dos seus olhos. Não um vermelho normal, mas um vermelho vivo e maligno que só monstros de histórias de terror podiam ter, e com a forte luz do lampião no alto do poste, conseguiu ver melhor sua aparência. Um velho de mais ou menos 50 anos de idade, cabelos pretos e dentes quase tão brancos quanto sua pele, coberta por uma longa capa de um negro intenso. Quando chegou á menos de um passo de distância, falou com uma voz áspera:
– Por que está com medo? Não vou machucá-lo.
– Quem é você? – conseguiu falar. Estava tremendo, tanto que achou que falar fosse um milagre na atual situação. Mas o vento que começava a ficar cada vez mais forte, junto com a neve, com certeza não era a razão de sua tremedeira.
– Não devia estar fora de casa á esta hora sabia? – Disse o velho com um tom cômico na voz.
Ryan conhecia todos os moradores do vilarejo, não eram muitos ao total, mas com toda a certeza do mundo aquele velho não morava ali, pois não conseguia reconhecê-lo de lugar algum. Era um desconhecido, vindo de algum lugar de longe e Ryan pôde perceber que queria alguma coisa com ele, mas não estava nem um pouco a fim de descobrir o que era.
– Quem é você? – repetiu com um pouco mais de firmeza na voz. Deu três passos para trás e tropeçou em uma pedra, que fez com que caísse no chão. Mas o velho deu mais um passo á frente.
– Sabe que existem muito perigos quando o Sol se põe. Lobo, duendes, e muitas outras criaturas horrendas!
Ryan sabia disso. Sabia, pois sua avó sempre contava as histórias de pessoas que saiam sozinhas na escuridão da noite e não voltavam para suas famílias. Atacadas por criaturas inimagináveis e que o torturavam em horríveis pesadelos. Recentemente ele ouvira dos seus amigos coisas que poderiam até afirmar o que foi contado por sua avó.
Sua avó, Myrna, dizia que eram tempos sombrios, onde nenhum lugar era seguro. Mas não era algo em que acreditava. Nunca acreditou nos contos de sua avó, apesar de serem muito interessantes. Por essa razão que sempre andava sozinho á noite, sem nenhuma preocupação. Nada aconteceu antes, porque haveria de acontecer agora? Era o que ele respondia. Mas agora aconteceu e se arrependeu muito de não ter ficado em casa discutindo com seu padrasto.
Caído no chão frio e úmido, na presença de um estranho, fez com que acreditasse repentinamente nas longas histórias ouvidas por anos.
– O que quer de mim? – perguntou. Uma sensação estranha percorreu por seu estômago.
– Vim para buscar meu jovem mestre que esperávamos a uma década. A salvação do grande mago das trevas que á dez anos atrás foi derrotado. O único que pode trazê-lo de volta é você. Sangue do seu Sangue. – o velho respondeu com os olhos vidrados nos seus.
– O que quer dizer com isso? Deixe-me em paz! – Estava nervoso. Não queria mais ouvir mais nenhuma palavra do que ele estava dizendo, e nem ficar no chão como uma garota fraca e inútil, sem maneira alguma de se proteger. Levantou-se com a pouca força que tinha e pegou a maior pedra que estava ao seu alcance. O velho hesitou por um breve momento, olhando para a pedra nas mãos de Ryan.
– Vá embora! Agora! – ameaçou. Mas a ameaça não surtiu efeito algum, pois deu um sorriso assustador.
– Há, há, há! E que você vai fazer? Tacar uma pedra em mim? – caçoou o velho. A gargalhada foi tão forte que teve que levar as mãos á barriga, por causa da dor.
– Fique longe do meu afilhado!
O velho virou-se na direção da voz desconhecida e dez homens saíram de um beco escuro, todos com rifles na mão apontados para um único alvo.
“Agora ele irá embora.”- pensou Ryan. “Agora estou á salvo!” Mas para sua surpresa o velho retirou o capuz. Tinha cabelos pouco grisalhos, o que o deixava com aspecto mais jovial, com a pele tão branca que era possível ver pequenos traços de suas veias no rosto, e os olhos eram tão vermelhos que Ryan poderia dizer que sangue fora derramado neles. Levantou o braço direito, e com a mão na direção dos homens gritou:
– Ventilabis Fortis!
Um jato de luz vermelha iluminou o lugar, saindo de sua mão e atingindo todos os dez homens, fazendo um barulho imenso ao caírem. Vários barris que se encontravam ali caíram atrás deles.
Ryan não conseguiu acreditar no que acabara de ver. A pedra em sua mão caiu com tamanho choque. Imagens subitamente brotaram em sua mente, de velhos com varinhas ou cajados, capas longas e um chapéu cônico. Bom, não que o velho tinha essa aparência, mas sabia o que ele era. Ele era um mago. Era um Mago das Trevas á julgar pela vestimenta, a cor viva dos olhos e o rosto com expressão diabólica.
O velho virou-se para seu pai, que havia caído na direção contrária dos outros homens, e quando abriu a boca novamente, prestes a lançar seu segundo ataque, Ryan levantou o braço em direção ao velho com a intenção de impedi-lo e gritou:
– NÃO!
Com uma força invisível, o velho foi atirado para trás, fazendo com que caísse na neve. Mas pareceu que não foi forte o bastante, porque o velho levantou e retornou em sua direção com uma fúria imensa. Ele iria mata-lo. Disso Ryan estava certo.
Uma flecha brotou de seu peito e em seguida surgiu da onde estavam os dez homens, agora desmaiados, outro com um grande arco em mãos. Ele arfava e seu hálito saía de sua boca como uma Maria-fumaça.
O velho engasgou-se com seu sangue e caiu aos pés de Ryan, com o olhar fixo nele. Ryan encarou-o de cima e viu que seus olhos já não eram mais vermelhos e sim azuis. Como se sua maldade e raiva tivessem desaparecido.
– Per... Per... Doe... Me. Eu não... Queria...
Com suas ultimas palavras o homem morreu. O brilho de vida em seus olhos se esvaiu. Ryan continuou olhando-o. Não entendia porque seus olhos mudaram de cor, e nem porque o velho se desculpara depois do que fez. E qual era o motivo de ele ter ido busca-lo. Enquanto encarava o cadáver do velho, sentiu que estava sendo observado pelas costas. Virou-se e viu que o arqueiro ainda estava ali.
– Acho melhor voltar pra sua casa, de onde você não deveria ter saído. – disse arfando.
– E... E quanto ao meu padrasto e aos outros?
– Fique calmo. Cuidarei deles, afinal somos amigos. – e piscou.
Claro que era, pensou. John Shooter era, de longe, o melhor arqueiro em um raio de milhares de quilômetros. Crescera com os pais donos de uma pequena padaria que ficava do lado oeste do vilarejo. O tio, que morava junto com eles, ensinou tudo o que sabia para John, para que ele pudesse caçar animais entre as grandes e sombrias montanhas.
Ryan correu em disparada pra sua casa, prometendo a si mesmo que nunca mais iria desobedecer a sua mãe. Ao chegar ao portão, abriu-o sem se importar de fechá-lo. Bateu na porta e quem abriu foi sua avó.
– Meu querido! – disse assustada- Estava começando a achar que estava em perigo! O que houve? Onde estava? Porque saiu mesmo sabendo do que há lá fora?
– Calma vovó! Uma pergunta de cada vez!
– Então conte logo! Pedi para Hank, á muito custo, para que fosse atrás de você! – disse sua mãe vinda do outro cômodo.
Ryan lhes contou tudo o que havia acontecido até chegar de volta em casa. E quando terminou sua mãe e sua avó não tiveram outra expressão senão a de mistério.
– Aconteceu o que temíamos Mary, minha filha. – disse em um tom preocupado.
– Pelos Deuses! E agora mamãe, o que faremos? Não podemos ficar sem fazer nada! É a vida do meu filho que corre perigo!
– Por quê? Ei! Eu ainda estou aqui, sabiam disso?
– Acalme-se filho. Tudo vai dar certo.
– Mas porque minha vida corre perigo? Eu tenho o direito de saber!
– Antes de sua mãe ficar grávida de você, — disse sua avó. – Ela conheceu um homem que...
– Não mamãe.
– Mas ele saberá mais cedo ou mais tarde Mary!
– Ele só tem 15 anos mamãe! É muito cedo para ele saber!
– Mas eu quero saber! – protestou Ryan. Não fazia a menor ideia do quê, mas queria saber.
– Vá para sua cama! – Mary virou-se para ele. Um tom de fúria na voz.
– Mas...
– Vá agora! – berrou.
Sua mãe estava nervosa, de um jeito que nunca vira antes. Então por fim, decidiu obedece-la e subiu as escadas em direção do seu quarto, onde se trancou. Mas não ia deixar de descobrir algo que poderia ser importante.
O assunto do qual que ele não sabia e que ninguém nunca quis dizer á ele.
Sobre o seu verdadeiro pai. Ele sabia que Hank era seu padrasto, gostava muito dele nos momentos em que não estava bravo, mas sempre quis saber sobre o seu pai biológico. E agora ele tem a chance de descobrir. Então decidiu sair pela janela onde dava para a horta. Escalou por cada pequeno buraco que havia na parede até chegar à terra firme.
O movimento nas ruas era grande, pois todos os moradores ouviram o barulho que foi feito pelo velho. Aproveitando-se disso, correu discretamente para a janela da sala, onde sua mãe e sua avó ainda conversavam. Manteve o máximo de silêncio possível para ouvir a conversa por cima das vozes das pessoas na rua.
–... Ele tem que saber sobre o pai dele. Está na hora querida. Você deve fazer isso para o bem de todos.
– Mas como direi isso? Vou chegar nele e dizer ”Ryan, seu pai é um mago das trevas perigoso e que quer te matar! Por isso não fique com medo está bem querido? A mamãe vai proteger você, porque eu sou uma maga também!”. Não dá, é impossível! Isso não é uma coisa que se diga pra uma criança!
– Você é quem sabe querida! Mas só te dou um aviso, não vai conseguir esconder isso por muito tempo.
Então era isso. Seu pai era um mago das trevas. Era isso que o velho queria com ele. Mas espera! O velho disse que o mago foi morto á muito tempo. Então porque o queria morto também?
– Estou exausta, vou pra cama. Quando o Hank voltar não diga nada á ele. Se ele descobrir sobre nós... Boa noite mamãe. – deu um profundo suspiro subiu as escadas deixando sua avó sozinha.
Subiu o mais depressa que pode para seu quarto antes que sua mãe certificasse-se de que estava dormindo.
Deitou-se na cama e se cobriu com o cobertor bem na hora em que a maçaneta girava. Mary abriu a porta e fitou-o com um olhar triste e melancólico. Foi até sua cama e deu-lhe um beijo no rosto.
Ryan teve vontade de abraça-la e de perguntar por que nunca tinha dito que era uma maga. Se soubesse, suas vidas teriam sido muito mais fáceis. Não passariam frio, fome, ou então não ficariam doentes. Afinal, um mago poderia fazer de tudo.
Diante de tantas soluções para seus problemas, qual era o motivo que de elas guardarem segredo? Ela se levantou e saiu trancando-o dentro do quarto.
Absorto em seus pensamentos de uma provável vida melhor, Ryan adormeceu.
Pelo vidro da janela era possível ver um vulto ao longe voando pelo céu, onde aos poucos a luz dourada do sol surgia no horizonte por de trás das montanhas. Mais um dia estava prestes á começar.
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