O Cair do Véu
1 "Os Nascimentos" | Ato 1
A noite que antecedeu ao nascimento de Afrodite fora agitada e longa. Tudo iniciou quando o deus primordial Urano, por ódio, começou a prender todos os seus filhos no interior da Terra. Gaia, sua criadora e esposa, sentia-se incomodada por ter que aguentar toda a prole em seu corpo, até que chegou o momento em que não mais tolerou. De seu peito tirou uma foice, e com ela instigou seus filhos a pegá-la e usá-la numa revolta contra Urano. Aquele que tomou a frente foi Cronos, que o cortou em vários pedaços e, principalmente, o castrou. As genitálias do deus caíram no mar, e o impacto causou uma grande tempestade. A ventania fora intensa no litoral da ilha de Chipre, as nuvens carregadas faziam chover mais do que aparentava ser possível. O mar agitado prometia querer emergir uma terrível criatura, e todo o cenário retratava a ousadia de Cronos em virar-se contra o pai para assumir seu trono. Em Chipre, as ninfas expectavam sobre que tipo de monstro iriam ver nascer naquela noite, em meio a toda aquela espuma. As horas se passavam e cada uma que imaginasse uma figura mais horrenda que a outra. O receio tomava conta de todos, a madrugada estendeu-se pelo que parecia ser uma eternidade.
Mas então o primeiro raio de Hélio clareou o céu. Já não havia mais nenhuma camada de nuvem cobrindo o que aparentava ser um maravilhoso dia. As águas do mar estavam tão calmas que, se não tivessem visto com os próprios olhos, as ninfas não poderiam dizer que na noite anterior houvera uma tempestade ali. As únicas ondulações naquele manto azul vieram a partir de um ponto, não muito distante. Toda a fauna da ilha encolheu-se em seus cantos para ver o que iriam enfrentar. Uma das ninfas, a mais faladeira, apontou para o mar e gritou para as outras.
— Está vindo, está vindo! — Falava com a respiração agitada. Todas as outras pararam o que estavam fazendo para olhar o horizonte. Não conseguiam dizer nada enquanto esperavam pela criatura.
E então o mais incrível dos momentos foi presenciado. O mais falado dos nascimentos iniciava para nunca mais ser esquecido. Uma cabeça surgiu, flutuando para o mundo com tamanha leveza e naturalidade. Um coro fez “oh” ao avistarem o rosto da...
— É uma mulher. — A mesma ninfa, que outrora estivera alvoroçada pelo que esperava vir, havia relaxado o coração e assistia àquilo maravilhada.
Madeixas loiras, que brilhavam em tons alaranjados à luz do sol, caíam numa cascata sobre o corpo que emergia da mulher. O rosto que viam era angelical, tão branco e limpo. Em perfeita simetria, os olhos arregalados conheciam o mundo com seu brilho e encanto. Os lábios finos e bem desenhados estavam entreabertos, demostrando sua inocência. Quando seu tronco já estava todo para fora, os longos fios de cabelo lhe cobriam os bicos rosados dos seios. Eram completamente idênticos, nenhum artista seria capaz de retratá-los como realmente eram. Nem o melhor deles conseguiria retratar a beleza que era vista nascer ali.
— Ela é uma joia rara... — Outra ninfa sussurrou, quase suspirando.
Preso em seu umbigo havia uma pérola branca, que combinava com o véu triangular que lhe envolvia a cintura, cobrindo o íntimo. A curiosidade era atiçada nos homens e nas mulheres. Todos queriam ver a beleza que se escondia por trás daquele véu feito a fios de puro ouro.
— A mais bela que o mundo já viu.
Aves marinhas batiam suas asas e levavam até o litoral da ilha uma concha do tamanho de um trono. Seu interior era acolchoado e limpo, apenas esperando para ser usado. Golfinhos alegres emergiram puxando uma carruagem aquática, e logo a mulher acomodou-se para ser levada até seu novo lar. Durante todo aquele espetáculo, ninguém ousou desviar sua atenção daquela beldade que vinha do mar.
— Anadiômene. — Foi como primeiro lhe chamaram.
— A Deusa que se levanta do Oceano.
Anadiômene pisou na areia de Chipre, e naquele momento a ilha tomou vida. O mais agradável dos aromas encheu o ar, e todos os pássaros começaram a entoar cânticos alegres. As flores desabrocharam e a grama tornou-se mais verde. Um verdejante cobriu a areia da praia, e a vida das criaturas daquele lugar, e em breve do mundo, pareceu ganhar um sentido. Aquela deusa trazia, com seu nascimento, o verdadeiro sentimento de amor.
As ninfas já haviam corrido por toda parte, adentrando a ilha e espalhando a notícia do nascimento. Não era preciso, porém, anunciar que a Deusa havia nascido: Todos sentiam a mudança chegar. Todos sabiam que logo estariam na presença de uma nova rainha para Chipre. Moças de aparência jovem e rosto rechonchudo surgiram por entre as árvores, correndo na direção da nova Deusa com peças de vestuário sobre os braços. Elas eram em três, cada qual com uma cor diferente de cabelo. A primeira, com a tonalidade de morango em suas madeixas, ergueu para Anadiômene uma coroa de flores. Era simples, com pétalas azuladas formando a grinalda. “Para que atraia os mais belos e saudáveis pássaros!”, ela disse, colocando a coroa sobre a cabeça da Deusa. Talo estremeceu, contendo uma risadinha que lhe fugira aos lábios. A segunda tinha os olhos castanhos tal como o cabelo, era mais séria, mas o ar ao seu redor parecia estar sempre agitado. “Para que sua beleza seja sempre o tesouro que apenas por muito merecimento será explorado”, e com os dizeres, Carpo jogou o manto floral sobre Ela, que magicamente enrolou-se em seu corpo voluptuoso e cobriu-lhe com elegância, combinando com o véu que já lhe caía abaixo da cintura. A Deusa abriu um sorriso cativante, e todas ficaram encantadas com a doçura de Anadiômene. A terceira moça apressou-se e calçou-a com uma sandália com fibras douradas que cruzavam-se ao redor da canela até a altura do joelho. “Para que atraia as maiores riquezas, e que brilhe até mesmo nas mais sombria das noites”, Auxo completou com sua voz tão intensa quanto o loiro amarelado de seu cabelo. As três Horas se afastaram, ansiosas pela reação da mais bela deidade. Anadiômene passou as mãos pelos cabelos e os fios ondulados caíram sobre suas costas. Sua barriga estava à mostra, apesar de sua nova vestimenta. Ela levou a mão ao umbigo e fechou-a ao redor da pérola, que não tardou em transformar-se em um anel.
— Conta-nos, Anadiômene, como te chamas? — As três perguntaram, em coro.
— Eu sou Afrodite Urânia, deusa do amor e mãe da natureza.
Seu hálito era extasiante, e sua voz, cristalina. Sua carruagem já havia voltado para o mar, de onde viera, assim como os empolgados golfinhos que a acompanhara. Com passos leves Ela dirigiu-se ao seu trono, que era levitado pelas trabalhadoras aves brancas, que a essa altura já atraíam outras ajudantes da ilha para o serviço. Afrodite deslizou para seu assento mas seu peso não parecia um incômodo. Pelo contrário, sua presença era uma dádiva.
— Serei rainha aqui, onde estarei rodeada por Tálassa, minha mãe. — Ela voltou-se para o mar, e os olhos, que deveriam refleti-lo, permaneceu na mesma cor que as limpas águas do litoral. — Todas as criaturas viverão em plenitude e segurança, mas para isso, subordinar-se-ão a mim. Acolhê-los-ei com o maior dos prazeres, mas aos que voltarem-se contra mim: Desejarão ter jamais nascido.
Ninguém ali se importara com as últimas palavras. Quem, e por qual motivo, teria a coragem de ir contra a personificação da beleza? Era utópico que acontecesse.
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