O silêncio na ala de isolamento nível 4 era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico do gotejamento de uma tubulação próxima. Hadjha estava parada diante da porta reforçada. Sua mão direita estava envolta em uma tipóia, os dedos imobilizados por pinos metálicos e uma camada espessa de gaze manchada por um leve tom de rosa.

​Ela não usava mais o vestido de gala. Estava com sua farda preta de combate, o rosto pálido e os olhos cinzas, que antes brilhavam com uma faísca de vida, agora pareciam duas pedras sem alma.

​— Cinco minutos, Hadjha. É o que o papai permitiu — Dhorwack disse, encostado na parede oposta, a mão no coldre. — Eu estarei logo aqui. Se ela tentar qualquer coisa...

​— Ela já fez o pior, Dhorwack — Hadjha cortou, a voz oca. — Abra a porta.

​A porta deslizou com um chiado hidráulico. Mellysa estava sentada em um banco de metal fixado ao chão. Ela ainda usava o vestido azul de seda, agora amarrotado e sujo, mas não usava algemas; a cela era de contenção máxima, o campo de força na porta era o suficiente.

​Hadjha entrou. A porta se fechou atrás dela.

​Mellysa não levantou a cabeça. O cabelo loiro caía sobre o rosto, escondendo sua expressão.

​— Olhe para mim — Hadjha ordenou.

​Mellysa obedeceu lentamente. Não havia arrependimento. Havia uma calma perturbadora em seu olhar azul.

​— Veio terminar o serviço, Hadjha? — Mellysa perguntou, sua voz mantendo aquela frieza profissional que Hadjha agora percebia ser sua verdadeira máscara. — Sinto muito pela sua mão. O mármore da Fundação é quase tão duro quanto o coração dos Lâfrer.

​— Cale a boca — Hadjha deu um passo à frente, ignorando a dor pulsante em seus dedos quebrados. — Eu não vim aqui para ouvir sua propaganda de Vance. Eu vim aqui para uma única resposta. E se você mentir, eu juro que encontro um jeito de desligar o oxigênio desta cela antes do meu tempo acabar.

​Hadjha se inclinou, apoiando a mão sã na mesa de metal, ficando cara a cara com a traidora.

​— O acampamento. O beijo no jardim. O desespero quando o sistema da Elowen travou... — A voz de Hadjha fraquejou por um microssegundo antes de endurecer novamente. — Algum segundo daquilo foi real? Alguma parte da mulher que eu vi... existia? Ou você é apenas um algoritmo de Vance programado para me destruir de dentro para fora?

​Mellysa sustentou o olhar. Por um instante, o silêncio se prolongou tanto que Hadjha pôde ouvir seu próprio coração batendo. Então, Mellysa deu um sorriso triste e gélido.

​— Hadjha... você é uma especialista em sistemas. Você deveria saber que, para um vírus ser eficiente, ele precisa acreditar que é parte do sistema. — Mellysa inclinou o rosto para frente. — Eu fui treinada para sentir o que fosse necessário. Para amar o que fosse necessário. Se você sentiu algo real, foi porque eu fui uma excelente atriz. A mulher que você acha que conheceu... ela nunca existiu. Ela foi apenas o "cavalo de Troia" para derrubar a Filha do Aço.

​Hadjha recuou como se tivesse levado um tiro. O impacto daquelas palavras foi pior do que o soco na parede. A confirmação de que sua vulnerabilidade foi usada como uma ferramenta de espionagem era a humilhação final.

​— Ótimo — Hadjha disse, sua voz agora tão fria quanto o zero absoluto. Ela se endireitou, a expressão se tornando uma máscara de aço impenetrável. — Porque a Hadjha que sentiu algo por você também acabou de morrer.

​Hadjha se virou para a porta.

​— Aproveite suas últimas horas, Mellysa. Porque quando eu sair por aquela porta, vou deletar cada linha de código que você deixou na minha mente. E o que sobrar de você... a Fundação vai incinerar.

​Hadjha bateu na porta para sair. Quando o campo de força se abriu, ela passou por Dhorwack sem olhar para trás.

​— E então? — Dhorwack perguntou, seguindo-a.

​— Ela não é mais nada, Dhorwack — Hadjha respondeu, caminhando com passos firmes. — Procedam com o interrogatório de nível 5. Eu vou para o laboratório. Temos um legado para limpar.

​Mas, dentro da cela, no escuro, Mellysa Valentine finalmente abaixou a cabeça, e uma única gota de lágrima caiu sobre o vestido azul. Uma falha no sistema que ela jamais admitiria.