O CONTRATO DA VIDA: Legados de Ferro e Vidro Lâfre
7 CAPÍTULO 7: O Brinde do Destino
A Fundação Lâfrer não celebrava apenas vitórias; celebrava a sobrevivência com uma ostentação que Hadjha sempre considerou excessiva. O Salão de Cristal estava inundado por luzes douradas e âmbar. O resgate tinha sido um sucesso, e a notícia de que Mellysa Valentine havia salvado a vida de Elowen Styles se espalhou pelos corredores como fogo em pólvora.
Mellysa era agora o centro das atenções. Vestida com simplicidade, mas com uma elegância natural, ela circulava entre generais e conselheiros. A avó Hadassa não a largava, apresentando-a a todos como "o anjo de mãos de ferro" da família.
Hadjha observava tudo de longe, encostada em uma coluna de mármore, com uma taça de vinho na mão que ela mal tocava. Seus olhos não conseguiam evitar seguir Mellysa. Cada vez que a médica ria de algo que Thomas dizia, Hadjha sentia uma pontada no peito que sua lógica não conseguia classificar.
— Ela se encaixa bem, não acha? — A voz de Dhorwack surgiu ao seu lado. O irmão estava impecável, embora houvesse uma sombra de preocupação no olhar enquanto observava Elowen, que estava sentada em uma poltrona de honra, com a perna enfaixada, mas mantendo sua pose de comando.
— Ela é médica, Dhorwack. É paga para se dar bem com as pessoas — Hadjha respondeu, com a voz carregada de uma indiferença forçada.
Dhorwack deu um gole na bebida e olhou para a irmã de soslaio.
— A Elowen me contou o que aconteceu no acampamento. Disse que você foi incansável na vigília. E disse mais algumas coisas... sobre a sua "mudança de sistema".
Hadjha sentiu um calafrio. Elowen não tinha guardado segredo.
— A Elowen estava sob efeito de analgésicos fortes. Não acredite em tudo o que ela diz.
Nesse momento, Richard Lâfrer bateu com uma colher de prata na taça, pedindo silêncio.
— Um brinde! — a voz do patriarca ecoou. — À coragem da nossa Tenente Styles e, acima de tudo, à Dra. Mellysa Valentine. Ela não apenas protegeu o nosso legado, como provou que o espírito dos Lâfrer atrai aqueles que têm a mesma fibra. Mellysa, a partir de hoje, você tem um lugar cativo nesta mesa.
Os aplausos preencheram o salão. Mellysa sorriu, visivelmente emocionada, e o seu olhar, por breves segundos, cruzou com o de Hadjha no fundo da sala. Não havia fúria naquele olhar agora, apenas uma interrogação silenciosa.
Hadjha não aguentou. A pressão de ver a família acolhendo Mellysa, as palavras de Elowen ecoando em sua mente e a imagem da médica trocando de roupa na luz daquela célula térmica... tudo colidiu.
Ela virou as costas e saiu para os jardins da fundação. Mas, desta vez, não ficou sozinha por muito tempo.
— Você vai passar o resto da vida fugindo de jantares ou vai finalmente admitir que o seu "firewall" caiu?
Hadjha parou. Mellysa a tinha seguido. A médica estava a poucos passos, o vento da noite agitando seu cabelo loiro. As barreiras da Mellysa ainda estavam de pé, mas havia uma fenda nelas.
— Eu não estou fugindo — Hadjha disse, virando-se, o rosto iluminado pela lua. — Só estou cansada de barulho.
— O barulho está dentro da sua cabeça, Hadjha — Mellysa se aproximou, parando a uma distância que fazia o coração da ruiva disparar. — A sua família me adora porque salvei a Elowen. Mas você... você olha para mim como se eu fosse um erro que você não consegue apagar. Por quê?
Hadjha deu um passo à frente, sua altura e sua presença tática tentando intimidar, mas Mellysa não recuou um milímetro.
— Porque você é um erro, Valentine. Você desconectou tudo o que eu levei anos para construir. E agora eu não sei como voltar para o modo de segurança.
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