​O silêncio do jardim foi subitamente interrompido pelo som da respiração pesada de ambas. Hadjha não pensou. Pela primeira vez na vida, não houve cálculo de trajetória ou análise de risco. Ela apenas reduziu a distância e selou o espaço entre elas.

​O beijo foi como uma colisão tática: intenso, desesperado e carregado de meses de hostilidade transformada em desejo. Por um segundo, as mãos de Mellysa se perderam no uniforme de Hadjha, respondendo ao toque com uma urgência que ela mesma não sabia que possuía.

​Mas o choque de realidade veio tão rápido quanto uma descarga elétrica.

​Mellysa se afastou bruscamente, empurrando os ombros de Hadjha. Seus olhos azuis, antes suaves, agora estavam arregalados, transbordando confusão e pavor. O peito dela subia e descia rapidamente.

​— Não... — Mellysa sussurrou, a voz falhando. — O que você... O que a gente fez?

​— Mellysa, eu... — Hadjha tentou dar um passo à frente, a mão estendida, mas Mellysa recuou como se tivesse sido queimada.

​— Não encosta em mim! — O grito de Mellysa foi baixo, mas cortante. Ela olhou para Hadjha como se estivesse vendo um erro sistêmico fatal. — Isso não deveria ter acontecido. Isso vai contra tudo o que eu... contra tudo o que eu acredito. Eu não sou assim, Hadjha. Eu não posso ser assim.

​Mellysa deu as costas e saiu correndo em direção à ala médica, deixando Hadjha estática sob a luz da lua, sentindo o gosto de Mellysa nos lábios e o peso de uma rejeição que doía mais do que qualquer ferimento de guerra.

​TRÊS DIAS DEPOIS...

​A atmosfera na Fundação mudou. Mellysa Valentine não era mais a médica calorosa que todos admiravam. Ela havia se tornado um bloco de gelo. Quando Hadjha entrou na enfermaria para sua revisão obrigatória, o ar parecia ter congelado.

​Mellysa estava de costas, organizando frascos com uma precisão robótica. Ela nem se virou quando Hadjha se sentou na maca.

​— Pressão arterial normal. Frequência cardíaca estável — Mellysa disse, lendo os dados no tablet sem olhar para a ruiva. Sua voz era tão impessoal quanto uma gravação de computador.

​— Mellysa, a gente precisa conversar sobre aquela noite no jardim — Hadjha tentou, com a voz baixa.

​Mellysa finalmente olhou para ela, mas seus olhos eram duas pedras de gelo. Não havia rastro da mulher que chorou no acampamento ou que gritou verdades no laboratório.

— Não houve "aquela noite", Dra. Lâfrer. Houve um erro de julgamento induzido pelo estresse pós-traumático. Já foi deletado dos meus registros. Agora, se não houver mais sintomas físicos, você está liberada. Tenho outros pacientes que realmente precisam de atenção.

​Hadjha sentiu o golpe. Mellysa estava usando as próprias armas de Hadjha contra ela: a frieza, a negação e a distância profissional. A médica não aceitava o que sentia; seus princípios e sua criação falavam mais alto, e ela preferia odiar a situação a aceitar que uma mulher — e logo uma Lâfrer — tinha despertado algo nela.

​Hadjha levantou-se, a mandíbula cerrada.

— Entendido, Dra. Valentine. Se é assim que você quer jogar, voltamos ao modo de segurança.

​Enquanto Hadjha saía, Elowen, que observava tudo da porta da fisioterapia com um olhar atento, suspirou. Ela sabia que a guerra fria entre as duas tinha acabado de entrar em sua fase mais perigosa.