O CONTRATO DA VIDA: Legados de Ferro e Vidro Lâfre
6 CAPÍTULO 6: Fogo e Confissões
O vento uivava do lado de fora dos destroços do Valkyrie. No rádio, a voz de Dhorwack soava entrecortada pela estática da tempestade eletromagnética: “...mantenham-se... posição... resgate em... seis horas... aguentem...”
— Seis horas — murmurou Hadjha, desligando o rádio para poupar bateria. — Pelo menos eles sabem que estamos vivas.
Elowen estava acomodada em uma maca improvisada, pálida mas estável graças à perícia de Mellysa. O ambiente estava aquecido por uma pequena célula térmica.
— Eu preciso me limpar — disse Mellysa, a voz exausta. Seus scrubs navy estavam encharcados de sangue e fuligem. — Hadjha, pegue aquela manta para cobrir a entrada.
Hadjha obedeceu prontamente, mantendo-se de costas. No entanto, o espaço era pequeno. O som do tecido sendo removido, o clique dos botões e a respiração pesada de Mellysa pareciam amplificados pelo silêncio. Por um breve segundo, ao ajustar a manta, o reflexo metálico de um painel funcionou como um espelho. Hadjha viu o perfil de Mellysa trocando de roupa — a pele clara contrastando com a luz laranja da célula térmica.
Hadjha desviou o olhar instantaneamente, sentindo o rosto queimar. Seus dedos, que costumavam ser tão firmes no teclado, tremeram. Ela se sentou no canto oposto, focando obsessivamente em limpar o visor de seu rifle, tentando ignorar o nó que se formava em sua garganta.
Algum tempo depois, Mellysa, agora vestindo uma jaqueta tática de reserva que ficava grande demais nela, adormeceu profundamente, vencida pelo cansaço.
O silêncio voltou a reinar, até que um riso baixo e fraco veio da maca.
Hadjha olhou para Elowen. A noiva de seu irmão a observava com olhos astutos, apesar da dor.
— Do que você está rindo? — Hadjha sussurrou, defensiva.
— De você, Hadjha — Elowen sorriu, um sorriso que carregava a sabedoria de quem já sobreviveu a muitas guerras. — Eu vi como você olhou para ela. Ou melhor, como você tentou não olhar.
— Eu não sei do que você está falando. Eu estava apenas garantindo a segurança do perímetro interno.
— Poupe-me dos seus termos técnicos — Elowen tossiu levemente, mantendo o olhar fixo na cunhada. — Você pode enganar o Dhorwack, ou o seu pai, com essa armadura de gelo. Mas eu sou uma Styles. Eu vejo quando alguém encontra o motivo pelo qual vale a pena lutar. Você sente algo por ela, Hadjha. E não é apenas gratidão médica.
Hadjha sentiu o sangue ferver. A invasão de sua privacidade emocional era pior do que o ataque dos drones.
— Você está delirando pela perda de sangue, Elowen. Foque em ficar viva e pare de inventar histórias.
— O aço se dobra, Hadjha. E o seu acabou de encontrar o calor — Elowen fechou os olhos, ainda sorrindo. — Admita para si mesma antes que seja tarde.
Hadjha levantou-se bruscamente, a respiração errática. Ela não conseguia ficar naquele espaço fechado com a Mellysa dormindo e os olhos julgadores de Elowen. Pegou seu rifle e saiu para o frio cortante da noite.
Ela andou. Contornou os destroços uma, duas, cem vezes. Seus pés pisavam na neve com fúria. Cada palavra de Elowen ecoava como um erro de sistema em sua mente. Sentimentos? Por uma médica que a chamou de covarde? Inaceitável.
Hadjha passou a noite inteira em claro, vigiando o horizonte congelado, o coração batendo em um ritmo que nenhum código poderia explicar. Quando as luzes dos transportes de resgate de Dhorwack finalmente surgiram no céu ao amanhecer, ela estava exausta, mas com uma certeza assustadora: a guerra dentro dela estava apenas começando.
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