O CONTRATO DA VIDA: Legados de Ferro e Vidro Lâfre
5 CAPÍTULO 5: Onde o Aço se Dobra
O impacto foi brutal. O Valkyrie rasgou a copa das árvores congeladas antes de colidir contra o solo rochoso da Zona Neutra. O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo chiado do metal resfriando e pelo alarme intermitente de vazamento de combustível.
Hadjha foi a primeira a recobrar os sentidos. Ela tossiu, afastando a fumaça, e viu Mellysa presa pelo cinto de segurança, pálida mas consciente.
— Mellysa! Você está inteira? — Hadjha desatou o próprio cinto e caiu sobre os joelhos, indo até a médica.
— Estou... eu acho que sim — Mellysa respondeu, a voz trêmula. — Mas a Elowen... Hadjha, olhe a cabine!
O painel frontal do transporte havia colapsado. Elowen Styles estava caída sobre os controles. Um estilhaço de metal da fuselagem havia atravessado sua perna e parte do abdômen lateral. O sangue vermelho vivo contrastava com o uniforme camuflado.
Mellysa saltou do assento, o instinto médico assumindo o controle total. Ela ignorou a própria dor e correu para a cabine.
— Ela está entrando em choque hipovolêmico! Hadjha, eu preciso que você estabilize a estrutura da cabine, se esse painel ceder mais um centímetro, ela morre!
Hadjha olhou para a noiva de seu irmão. Elowen, a mulher que sempre pareceu invencível, agora parecia frágil.
— Eu vou segurar o painel com o macaco hidráulico manual — Hadjha disse, sua voz recuperando a autoridade técnica. — Mas Mellysa... os drones que nos derrubaram... eles estão vindo. Eu vi os sinais no radar antes de cairmos.
Mellysa não olhou para trás enquanto abria seu kit de cirurgia.
— Então faça o seu trabalho, Lâfrer. Proteja o perímetro. Eu não vou sair daqui até que o sangramento dela pare.
Hadjha sentiu um arrepio. A determinação na voz de Mellysa era algo que ela nunca tinha visto. O "vidro" da médica não tinha apenas bordas afiadas; ele tinha a força de um diamante.
Hadjha saiu pelos destroços da rampa. O frio da Zona Neutra cortava como navalha. Ela pegou o rifle de pulso de Elowen e ativou seu visor tático. No horizonte, três pontos vermelhos brilhavam: drones de reconhecimento inimigos.
— Você tem dez minutos, Valentine! — Hadjha gritou para dentro do transporte, posicionando-se atrás de uma rocha. — Depois disso, teremos companhia pesada.
Lá dentro, Mellysa trabalhava freneticamente. O sangue de Elowen manchava suas mãos.
— Resista, Elowen. Se você morrer, o Dhorwack me mata, e a Hadjha nunca vai admitir que sentiu sua falta — Mellysa sussurrava, tentando manter a concentração enquanto o som de tiros de pulso começava a ecoar do lado de fora.
Hadjha disparava com precisão cirúrgica. Cada drone que ela abatia era um segundo a mais de vida para a médica e para a cunhada. Mas o braço de Hadjha, ferido anteriormente, latejava. A dor era cegante.
— Hadjha! — Mellysa gritou de dentro. — Eu preciso de ajuda para estancar! Segure esta artéria agora!
Hadjha entrou correndo, o rifle ainda quente pendurado nas costas. Ela viu a cena: Mellysa mergulhada em sangue, os olhos fixos na ferida. Hadjha colocou as mãos onde Mellysa indicou. O calor do sangue humano era algo que os códigos de computador nunca a prepararam para sentir.
Nesse momento, os olhares das duas se cruzaram sobre o corpo ferido de Elowen. Não havia mais espaço para sarcasmo, nem para barreiras. Havia apenas a necessidade bruta de sobreviverem juntas.
— Nós vamos conseguir — Hadjha disse, e pela primeira vez, não soou como uma análise de probabilidade, mas como uma promessa.
Mellysa assentiu, uma única lágrima de tensão escorrendo pelo rosto sujo de fuligem.
— É melhor conseguirmos. Ainda tenho muitas verdades para gritar na sua cara, Lâfrer.
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