​Dhorwack estava revisando os protocolos de interrogatório no escritório tático quando a porta se abriu. Hadjha entrou, a expressão tão rígida que ele imediatamente soube que algo havia mudado. Sem dizer uma palavra, ela jogou o tablet sobre a mesa dele.

​O silêncio na sala só era quebrado pelo som dos bipes do processador enquanto Dhorwack ouvia o áudio de Mellysa e via os dados da avó Hadassa. Quando terminou, ele encostou as costas na cadeira, fechando os olhos por um longo momento.

​— Ela nos traiu, Hadjha. Independentemente do motivo, as coordenadas que ela deu quase mataram a Elowen — Dhorwack disse, a voz baixa e carregada de conflito.

​— Ela salvou a Elowen no acampamento quando poderia ter deixado ela morrer e fugido! — Hadjha bateu a mão sã na mesa. — Ela estava sendo usada, Dhorwack. Se Vance tem a irmã dela, eles têm a Mellysa. E se usarmos o interrogatório neural, vamos destruir a única fonte de informação que temos sobre onde os rebeldes se escondem.

​Dhorwack olhou para a irmã. Ele viu o desespero mascarado de fúria nos olhos dela.

— O que você está sugerindo é traição contra o nosso pai. Contra a Fundação.

​— Estou sugerindo que a gente jogue o jogo deles. Vamos forjar a execução. Se Mellysa Valentine "morrer" oficialmente hoje, Vance perde o controle sobre ela. E nós ganhamos uma espiã que conhece o sistema deles por dentro.

​Dhorwack hesitou, mas então olhou para a foto de Elowen em sua mesa.

— Como faremos?

​— O interrogatório de nível 5 usa uma sobrecarga sináptica. Eu posso reprogramar a máquina para induzir um estado de morte aparente por 12 horas. Para os médicos e para o papai, o coração dela vai parar. Depois, eu a retiro pelos dutos de descarte orgânico e a levo para o Setor 8.

​DUAS HORAS DEPOIS... NA SALA DE INTERROGATÓRIO

​Richard Lâfrer observava através do vidro blindado. Mellysa estava presa à cadeira neural, eletrodos conectados às suas têmporas. Hadjha estava no console, os dedos feridos operando os comandos com uma precisão gélida.

​— Inicie o procedimento, Hadjha — ordenou Richard. — Não pare até termos a localização de Vance.

​Hadjha olhou para Mellysa. A médica estava pálida, os olhos fixos nos dela. Havia um entendimento silencioso entre as duas. Hadjha acionou a alavanca.

​— Sobrecarga em 3... 2... 1...

​Mellysa arqueou o corpo, um grito silencioso morrendo em sua garganta enquanto as luzes da sala oscilavam. Os monitores cardíacos começaram a apitar loucamente até que, subitamente, emitiram um som contínuo.

​LINHA RETA.

​— Houve uma falha sistêmica! — Hadjha gritou, fingindo pânico enquanto batia nos comandos. — O cérebro dela não aguentou a pressão! Parada cardiorrespiratória!

​Richard Lâfrer socou o vidro.

— Inútil! Perdemos a fonte!

​Dhorwack entrou na sala, verificando o pulso de Mellysa e balançando a cabeça negativamente para o pai.

— Ela se foi, senhor. O corpo deve ser incinerado imediatamente para evitar que qualquer nanotecnologia de Vance seja recuperada.

​Richard saiu da sala furioso, deixando os filhos sozinhos com o "cadáver".

​Assim que a porta se fechou, Hadjha desconectou os eletrodos. Ela pegou o corpo inerte de Mellysa nos braços, sentindo o frio da pele dela pela droga indutora.

​— Aguenta firme, Mellysa — Hadjha sussurrou no ouvido dela. — A gente vai buscar a sua irmã. E depois, eu e você vamos ter uma conversa muito séria sobre tudo o que você me disse naquela cela.

​Dhorwack abriu o painel de descarte.

— Vocês têm 12 horas antes que ela acorde. O transporte está esperando no túnel de serviço. Vão. Eu cuido do papai.

​Hadjha assentiu, mergulhando na escuridão dos túneis com Mellysa nos braços. O "Aço" e o "Vidro" estavam fora do sistema agora. E a verdadeira guerra estava apenas começando.