O CONTRATO DA VIDA: Legados de Ferro e Vidro Lâfre
15 Continuação do capítulo anterior
O Setor 8 era um complexo abandonado de armazéns subterrâneos, cercado por neblina e poeira industrial. No fundo de um bunker escondido, o único som era o bipe rítmico de um monitor de sinais vitais portátil. Hadjha estava sentada em uma cadeira de metal, observando o peito de Mellysa começar a subir e descer com mais força.
A droga indutora estava perdendo o efeito.
Mellysa despertou com um sobressalto, os pulmões implorando por ar. Ela tentou se sentar, mas a tontura a jogou de volta contra a maca. Seus olhos azuis focaram na penumbra até encontrarem a silhueta de Hadjha, que limpava calmamente o canhão de pulso com a mão esquerda, já que a direita ainda estava imobilizada.
— Onde... — a voz de Mellysa saiu como um sussurro seco. — Eu morri?
— Tecnicamente, por doze minutos — Hadjha respondeu, sem desviar o olhar da arma. — Oficialmente, a Dra. Valentine foi incinerada pela Fundação Lâfrer há quatro horas.
Mellysa sentou-se devagar, segurando a cabeça. As memórias do interrogatório e da traição voltaram como uma enxurrada. Ela olhou para Hadjha, e o medo em seu rosto foi substituído por uma confusão profunda.
— Por que você me tirou de lá? Eu disse aquelas coisas na cela... eu disse que nada foi real...
— Você mentiu mal, Valentine — Hadjha se levantou e caminhou até a maca. Ela jogou o tablet com os arquivos ocultos sobre o colo de Mellysa. — Eu encontrei o arquivo. O tratamento da minha avó. O rastro da sua irmã. No momento em que você tentou me proteger me fazendo te odiar, você deixou um rastro de código que só eu conseguiria ler.
Mellysa olhou para o tablet, as mãos tremendo. O "vidro" finalmente se estilhaçou, mas não em lâminas, e sim em lágrimas de puro alívio e culpa.
— Elas vão matá-la, Hadjha... Se Vance descobrir que eu não estou morta, ele vai matar a minha irmã.
— Ele não vai descobrir — Hadjha segurou o queixo de Mellysa, forçando-a a olhar em seus olhos. — Porque para o mundo, você não existe mais. E agora, nós vamos fazer exatamente o que você disse: o novo mundo vai nascer das cinzas. Mas não das nossas. Das cinzas do complexo de Vance.
Mellysa sentiu o calor da mão de Hadjha, o mesmo calor do jardim, mas agora temperado por uma aliança de sangue e segredos. A tensão entre o alívio de estarem juntas e a dor da traição passada ainda vibrava no ar.
— Por que está fazendo isso? — Mellysa sussurrou. — Depois de tudo, eu ainda sou uma criminosa para a sua família.
Hadjha deu um meio sorriso, um tanto amargo, um tanto feroz.
— Porque eu percebi que o meu "modo de segurança" era uma prisão. E se eu tiver que ser uma rebelde para salvar a mulher que tentou me salvar de mim mesma... que assim seja.
Hadjha estendeu a mão esquerda.
— Levante-se, Doutora. Temos um complexo para invadir, uma criança para resgatar e um passado para enterrar de vez.
Mellysa segurou a mão de Hadjha, firmando os pés no chão gelado do bunker. A parceria que começou com hostilidade e passou pela traição agora se tornava a arma mais perigosa contra Vance.
Fale com o autor